O castelo do deputado e a violência que tomou conta do país

segunda-feira, fevereiro 09, 2009 ·

blog convidados Adalton Oliveira

Sintomático o castelo que o deputado federal Edmar Moreira (DEM – MG) possui no interior de Minas Gerais. Sinal claro de como a maioria dos políticos nacionais pensa o Brasil: um feudo divido entre poderosos senhores que conduzem este país do jeito que querem.
O senhor Edmar, ex-capitão da PM mineira, tendo sido expulso dela por ser “violento demais”, enriqueceu na área de segurança, ofertando aos que podem pagar aquilo que deveria ser um direito de todos, mas que, graças a pessoas como ele, Edmar, tornou-se artigo de luxo. Haja vista o comportamento dos políticos quando o assunto segurança é discutido nos plenários. O que se percebe é uma sucessão de leis a favorecer o criminoso, talvez num ato de autoproteção. Exemplo claro disto é a atual medida que coibi a prisão de quem ainda não foi julgado. Isto quer dizer que um sujeito como aquele que matou um jovem e que violentou e deixou paraplégica uma jovem no interior do Paraná, não poderá ser preso enquanto não for a julgamento. Poderá, assim, gozar da liberdade que o Estado lhe confere para continuar matando e violentando.
Há tempos o país está mergulhado em profunda violência Não há dia em que não se leia nos jornais ou não se assista nos telejornais a atos violentos. Bandidos amparados num código penal ultrapassado matam por nada, pois sabem que se acaso forem presos – o que tem baixa possibilidade de ocorrer – logo estarão de volta às ruas, pois jamais cumprirão a pena total a que foram condenados, se forem condenados. A impunidade é, pois, regra que corre solta em nosso país. As estatísticas estão aí a impedir que mascaremos a realidade: os crimes por latrocínio crescem constantemente, o tráfico de drogas continua sua expansão e balas perdidas fazem mais e mais vítimas país afora.
Discussões sérias sobre a questão da liberação ou não das drogas não acontecem; não se vê passeatas pedindo mudanças no atual código penal, o que há, toda vez que um crime escandaliza o país, são passeatas de pessoas vestidas de branco pedindo paz. Melhor seria se pedissem justiça. E quando o desarmamento foi proposto, a população assustada preferiu manter instalado o bang-bang diário, na ilusão de que armada pudesse mais bem se defender.
Por sua vez, a elite econômica e política vive encastelada, como este tal deputado, pagando por segurança privada. A “choldra”, que nunca reclama, permanece amedrontada, pedindo a Deus que desvie as balas perdidas e não ponha um bandido em seu caminho.
O problema da violência em nosso país há tempos deixou de ser apenas caso de polícia ou uma questão ligada ao desnível social. Trata-se hoje de um problema político, onde a solução passa por modificações no código de leis ultrapassado, na superação do paternalismo arraigado e de se superar o viés financista mais preocupado em economizar o dinheiro do Estado do que investir em presídios. Aliás, o sistema penitenciário está falido, pois se encontra “governado” por presos que, de dentro das cadeias, planejam crimes, comandam facções, etc. Há presos que há muito cumpriram suas penas e há aqui fora outros tantos que melhor seriam se estivessem confinados. Tal sistema mostra-se incapaz de recuperar o preso e, principalmente, de puni-lo adequadamente privando-o de liberdade.
Enquanto pessoas como o deputado Edmar Moreira continuarem habitando o cenário político e o povo abestalhado continuar ocupado com o Big Brother e os preparativos para o carnaval, nada de bom será feito.


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1 comentários:

Anônimo disse...
fevereiro 10, 2009  
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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