O gás lá em casa

sexta-feira, fevereiro 20, 2009 ·

o fato é o que menos importa

De repente, palavras ditas aos berros. Meus olhos buscam o fato. Não sou o único. Desavenças alheias chamam a nossa atenção. Dois homens de preto ouvem os insultos de um terceiro. São os vigilantes do Metrô. O rapaz que é conduzido para fora da estação demonstra grave indignação, e o faz de modo agressivo, que é fruto do seu inconformismo.
Num primeiro momento, fiz a leitura de que se tratasse de um lutador de jiu-jitsu, dado o porte do rapaz. A mente é que busca decifrar o que olhos veem, ouvidos ouvem. São as informações dadas pelos sentidos. As situações podem ser as mais variadas e os sentidos podem ser outros.
Falando em alto tom, informava ser casado. Culpava um dos agentes de segurança pelo gás de cozinha que não levaria para seu filho. Colava a cara à cara do funcionário do metrô, que se mostrava um pouco tenso. Cheguei a calcular que temia a irritação excessiva do rapaz. Seu companheiro ao lado estava atento, pronto para agir como fosse necessário. Desconfiei que haveria agressão física num dado momento, tamanho o modo ameaçador como esbravejava com o agente, aquele homem de toca, camiseta, bermuda, meia e tênis.
Fez a ameaça da perseguição. "Você não vai mais ter sossego em sua vida". Passou pela catraca e teve que tolerar sorriso cínico do seu algoz. Indignado, protestou aos berros. Lembrou mais uma vez o gás de cozinha, o filho, a casa. Num ato de extremo, jogou sua mochila ao chão e chorou enquanto reclamou. Fragilizara-se. Já não era mais aquele que forjava valentia. Buscou o público numa espécie de discurso. Queria algum tipo de apoio. Fazia política e se mostrava hábil.
Ali, permaneceu encostado ao parapeito. Funcionários do Metrô o observavam atentamente. Usuários faziam o mesmo, mas com curiosidade. Alguns até parados como que assistindo a um show.
A minha leitura, eu interrompera para o fato fazia alguns minutos. Meus olhos eram frios, não nego. Rapidamente, fiz simples reflexão, enquanto retornava à leitura e vez ou outra observava o rapaz parado, indignado, olhos mareados.
Quando vi que o agente de segurança estava ao telefone, pensei que estivesse acionando a polícia. Declinei da frieza e fiz torcida para que o jovem abandonasse a estação. Mas outra vez mais minha mente errou na interpretação daquilo que lhe era transmitido pelo sentido da visão.
Um homem que puxava uma das pernas, desceu escada rolante e falou ao longe com o rapaz, que ouvia atentamente. Lá da plataforma, fez discurso. Pediu para que não fizesse nenhuma besteira, que tomasse cuidado com a "cabeça". Até que se foi , não sei se no primeiro trem que passou. O jovem expulso, ouvia e concordava, meneando a cabeça. De qualquer forma, parecia querer se livrar daquele que parecia pregar.
A reflexão que fiz foi que o fato ocorrido era o menos importante. O agente de vigilância do metrô apenas cumpriu sua obrigação ao expulsar o rapaz do trem, que vendia produto qualquer num dos vagões, o que é terminantemente proibido pelo Metrô. Neste sentido, não cabe indignação contra aquele que desempenhou seu papel, ditado pelas normas da empresa para o qual ele trabalha. O problema ali era a situação de desemprego daquele que buscava sobrevivência, cuja condição era agravada pela má ou nenhuma preparação profissional , fruto de um sistema de ensino que está entre os piores do mundo, consequência de uma sociedade tão desigual.
Prender-se ao fato, como fariam os jornais, é limitação proibida aqui. Abro espaço para fazer a crítica aos periódicos, que se limitam, muitas vezes, apenas aos fatos, sem aprofundamento reflexivo. Podem defender que isto é característica das revistas, que os jornais funcionam de modo diferente. Se assim for, o leitor terá a velocidade da internet como melhor opção. No dia seguinte, a leitura da notícia no jornal deixará de ser feita, algo que, por exemplo, já fiz diversas vezes, posto que já sabia do ocorrido, uma vez que já fora noticiado por site qualquer de notícias.
Passaram-se alguns minutos e aquele que fora reprimido pelas forças do metrô insistia ao parapeito. Decidira que retornaria ao trem para prosseguir com seu comércio. Mas o agente de plataforma estava de olho nele. Este, bem que tentou o retorno, quando burlaria outra regra que é o pagamento pelo acesso à plataforma de embarque. Mas foi impedido. Após a segunda tentativa, renunciou ao objetivo seu. Deu as costas ao funcionário vigilante e não se voltou mais, caminhando para uma das saídas daquela estação do Metrô paulistano.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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