Lá em Codó

sexta-feira, fevereiro 13, 2009 ·

Foi numa leitura que me deparei com obra de humanos notáveis. Elas se dão, dentre várias partes do mundo, lá no Maranhão e Pernambuco. E aí você fica sabendo que a mulher que deixou cidade pequena por uma que fosse grande, em busca de dias melhores, conseguiu no máximo trabalhar como doméstica. Noticiada sobre as obras de uma ONG em sua cidade natal, voltou e se voluntariou. Hoje é uma das líderes de trabalhos em prol da população local. Daí você calcula o que ocorreu na autoestima dessa mulher. Fato este que considero extraordinário, digno de arrancar uma lágrima dos olhos, como quase o fez comigo.

Em toda a minha existência, até aqui, voluntarismo que fiz foi apenas pegar papel em via pública e dar o lixo como destino, mas que teria sido mais nobre levá-lo para reciclagem. Agora, algum comprometimento com trabalho voluntário de ajuda ao próximo, não fiz. Embora ainda pense em fazer, sigo limitado às pequenas doações, muitas vezes feitas mais por culpa do que boa vontade.
Mas lá no Nordeste, nos dois estados já mencionados, a própria população, orientada pela ONG Plan, trabalha para mudar sua realidade bastante distinta das pessoas de classe média aqui do Sudeste.

O fato é que dá vontade de ir lá para ver as obras de perto. Talvez haja um hotel ou pousada em Codó, no Maranhão, que abrigue forasteiro de São Paulo, um pouco cansado de outros seres humanos preocupados apenas com seus castelos. Recordo-me até de um conhecido que despejou em mim conquistas materiais, entre as quais seu salário, e até valorando sua namorada como "filé". Não se tratava apenas de comportamento competitivo, mas algo também exibicionista. Claro que me aborreci com o rapaz, mas hoje o vejo como um produto dessa sociedade individualista e consumista. Alguém que se vitima sem saber. Que talvez caminhe para o abraço com a infelicidade.

Voltemos para o Nordeste. A gente sabe que muitos se retiram de lá das pequeninas e subdesenvolvidas cidades em direção às capitais variadas para serem massacrados por moradores como nós, que vivem em melhores condições de vida. Hoje, no centro velho de São Paulo, vi um jovem rapaz que trabalhava com cartaz no corpo, anunciando vagas de emprego. Calculei que ele pudesse ser um migrante de alguma região pobre. Pensei comigo sobre o desprezo da cidade para com ele. Sua possível realidade que o fere dia a dia. Mas é claro, não poderia saber ao certo. A pele é dele, não é minha. Escrever é bem mais fácil.
Talvez eu faça alarde e essas simples pessoas sejam mais felizes que inúmeras outras engravatas, cheias de pressa e compromissos. Mergulhadas em grande estresse, muitas sucumbem aos problemas emocionais.

Possivelmente lá em Codó haja gente mais feliz, que constrói futuros, orgulhosas das transformações de realidades suas e dos outros. Gente que, segundo a edição 1 de julho de 2008 da revista Plan, cria raízes nos lugares onde nasceram, sendo que algumas delas retornam por saber que agora não é mais como dantes. Se ainda há dificuldades e problemas a resolver, elas têm o que é imprescindível para o ser humano almejar felicidade: perspectivas.
Vale relatar que as conquistas destas populações se dão pela organização de pessoas, orientadas pela Plan, que juntas pressionam prefeituras para esta ou aquela melhoria. Além disso, poder público e terceiro setor trabalham em parceria com resultados positivos para os moradores. Trabalhos que se dão nos campos da saúde, educação, esporte, formas de geração de renda, entre outros. Parceria perfeita que fiquei sabendo a partir de uma leitura feita às 2h da manhã. E para que pudesse fazê-la bastou simples clique no anúncio da ONG, quando simplesmente era feita uma visita a um blog por indicação de um amigo. Um inesperado que me trouxe belas informações. Neste mundo há trabalhos inteligentes e sustentáveis, que respeitam a dignidade do ser humano. A frase feita que cabe aqui é "nem tudo está perdido".


opiniões opiniones opinition

Muito bom o texto. Além de discutir, de maneira inteligente, um tema importante, - o de importar-se com outros, sair do egoísmo e da mediocridade cotidiana, olhar ao redor e perceber que podemos fazer algo pelo próximo, que vai além de meras doações em dinheiro, as quais servem mais para aplacar nossa consciência e nos manter escondidos em nossa covardia - você, do ponto de vista literário, foge do velho e batido tema da falta de inspiração, do seu problema existencial, da busca por uma "cara-metade".

Adalton César, SP



Codó é, segundo a tradição, a capital do Candomblé, religião afro brasileira. As más línguas a chamam de capital da 'coisa feita' por concentrar ali vários profissionais que se dedicam a prestar serviços de cura, amarramentos amorosos e desfacção de feitiços... MAs que bom que alem disso Codó também tem em seus habitantes pessoas como essa mulher citada por você. Pessoas assim fazem a diferença, curam FAZENDO.
Não entendam esse comentário como preconceituoso ou que discrimina religião A ou B. Mas com certeza há em Codó um ou vários hotéis, Del, nos quais vc poderá se hospedar e ver também por si mesmo se essa outra fama da cidade é verídica...rs
Bjo

Zenna Santos, GO


Seu texto é uma realidade, e sei também que nem tudo está perdido, mas o que me impressiona em você é a lucidez e sensibilidade com que escreve.


Regina Hassum, SP



1 comentários:

Anônimo disse...
fevereiro 22, 2009  

Codó é, segundo a tradição, a capital do Candomblé, religião afro brasileira. As más línguas a chamam de capital da 'coisa feita' por concentrar ali vários profissionais que se dedicam a prestar serviços de cura, amarramentos amorosos e desfacção de feitiços... MAs que bom que alem disso Codó também tem em seus habitantes pessoas como essa mulher citada por você. Pessoas assim fazem a diferença, curam FAZENDO.
Não entendam esse comentário como preconceituoso ou que discrimina religião A ou B. Mas com certeza há em Codó um ou vários hotéis, Del, nos quais vc poderá se hospedar e ver também por si mesmo se essa outra fama da cidade é verídica...rs
Bjo
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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