Crônica desnecessária

sexta-feira, fevereiro 27, 2009 ·

Na hora programada soa o alarme do celular. A escuridão de ainda traz dúvida quanto ao horário. A incerteza aumenta ao ver no despertador uma hora a menos que no pequeno aparelho usado para tirar do sono aquele que dormia. Dirige-se à sala e busca o relógio de pulso, quando confirma que está na hora de levantar. No trio de aparelhos, a confiança plena se deu pelo fator idade. O mais novo ganhou crédito.


A primeira atividade do dia não carece esclarecer, posto que não fará diferença nenhuma na crônica, ao contrário do que fez no humor no decorrer do dia. Já está rumo ao segundo compromisso. Faz tempo não utiliza o metrô pela manhã, quando a lotação e pressa são ingredientes desagradáveis sempre presentes.


Quando se entra no vagão, a orientação é não ficar na região das portas. Assim o faz ao mudar de trem para alcançar seu destino. Logo se apóia ao balaustre, segurando-o com uma das mãos. Ao lado seu uma senhora que ao ter um dos braços tocado pelo dele expressa grave descontentamento. Irrita-se com ela e um sincero desejo de repreendê-la subitamente o domina, mas que é abandonado imediatamente. Não demora quase nada, a mesma senhora desvia-se do corpo de outra pessoa, agora uma mulher. E o faz com a mesma indignação de quando teve braço tocado. Depreende, então, o rapaz, que a mulher possui alguma patologia, o que o faz mais compreensivo.


Na lanchonete, a busca por um isotônico. Nem bem adentra ao ambiente, atendente simpática pergunta-lhe o que deseja. Ela não se encontra do lado de lá do balcão, senão no espaço onde ficam os clientes. É o sistema de atendimento daquele local, que se mostra muito eficiente. Enquanto a moça busca o isotônico, um homem de braço enfaixado, trajes comuns, pergunta ao rapaz se já fez seu pedido. Desconfiado, o jovem responde laconicamente de forma afirmativa. No centro de São Paulo as desconfianças se tornam mais aguçadas. Só depois observa que aquele senhor gerencia tudo que se passa por ali.


No caixa, alguma beleza na funcionária lhe desperta atenção. Mas parece que o homem de braço engessado se incomoda com o interesse dele. Calcula, então, que a moça possa ser, quem sabe, namorada do senhor gerente.


Segue apressado para o endereço de destino. Na Rua Barão de Itapetininga são muitas as pessoas em volta de inúmeros anúncios de vagas de trabalho. Num passado remoto, estava na mesma condição daqueles que buscam o fim de uma condição de desemprego. É a vida roda-gigante.


O humor não está dos melhores. O cansaço da primeira atividade do dia ainda não lhe traz o bem estar de depois. Calcula que exercícios na primeira hora do dia não lhe são adequados. A certeza de então cairia por terra mais tarde, ainda pela manhã.


A sala de aula encontra-se trancada. Não se equivoca, sabe disto, é ali mesmo. De qualquer forma, opta por voltar um andar e fazer nova verificação. Observa que houve um erro, não é hoje o início das aulas. Na administração, comunica o erro e é feita a correção. Agora sim é matriculado em turma, cujo horário é o que pretendia. Vai embora e volta à lanchonete de atendimento imediato. Agora é café e pão de queijo. Pressa não há. No caixa, prefere não admirar a moça, pois o de braço imobilizado está ao lado dela. Dali, não sabe ao certo para aonde vai. Sobra-lhe tempo. O humor já melhora. O resto do dia foi de tamanha tranqüilidade, que não cabe aqui nada para explicar. No mais, fica esta desnecessidade literária que é esta crônica.



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'Desnecessidade literária'? Está de brincadeira, né? Está cada vez melhor! Quando eu crescer, quero ser igual a você
Meu blog saiu da manutenção. Aquela amiga customizou o template pra mim. Dá uma olhada e me diz o que acha.

Carol Oliveira, SP, http://carolinabeu.blogspot.com/


"O texto é bom, mas não é uma crônica. Este site é mais literário do que crônico. Mas, isso não o desmerece, pois é muito bom". Abraço do nordeste.

R: Caro leitor, por favor, peço por gentileza que se identifique para que o comentário possa sempre ser publicado. Fico no aguardo para manter este democrático comentário. Abraço!
Adelcir Oliveira - Del




2 comentários:

Anônimo disse...
março 03, 2009  

O texto é bom, mas não é uma crônica. Este site é mais literário do que crônico. Mas, isso não o desmerece, pois é muito bom. Abraço do nordeste.

Carolina Beu disse...
março 03, 2009  

'Desnecessidade literária'? Está de brincadeira, né? Está cada vez melhor! Quando eu crescer, quero ser igual a você =).
Meu blog saiu da manutenção. Aquela amiga customizou o template pra mim. Dá uma olhada e me diz o que acha. Beijão.

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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