"Memorial de Maria Moura"

domingo, dezembro 27, 2009 · 0 comentários

breve resenha


Faz tempo aprendi que o amor entre pessoas não está garantido pelo grau de parentesco. Muitas vezes corre sangue seu na veia daqueles que são seus maiores inimigos. E exatamente dois primos foram as pessoas que mais desejaram a morte de Maria Moura, uma líder de um bando, que herdou terras de seu pai e teve que correr atrás para tomar posse delas.

Limoeiro era o nome do sítio de Moura, tão cobiçado pela dupla de primos, comandados pela esposa de um deles, aquele que era o mais sanguinário, mas que acabou morto pelo bando de Moura. De qualquer forma, não se pode dizer que estes eram os maiores inimigos desta mulhler qu se tornou destemida na história escrita por Raquel de Queiróz. Em verdade, aquele que lhe fez mais mal foi exatamente o homem que ela amou. A traição colocou em risco a vida de Moura e seu bando. Maria Moura declara a um primo adotado que tal homem é seu maior inimigo. E isto se dá exatamente por amá-lo.

Antes do dia em que seu homem pagasse com a vida pela traição, ele e ela tem uma última noite de amor. Para o espectador é revoltante ver que ela se entrega a ele depois do modo como ele a traiu. O momento exato de sua morte fica em suspense face à habilidade do diretor desta mini-série produzida pela Globo. O casal dorme após os desejos de seus corpos saceados. Pela manhã, ela o ordena que se levante e vista-se. Feito isto, diz a ele que está livre, pode ir. Ele se despede e fala em amor. Maria Moura, embora líder de um bando de malfeitores, é uma mulher com suas fragilidades. Sempre precisou de um homem para amar. E sofre com toda esta situação. Por ter confiado em Cirilo, vidas foram tiradas.

Cirilo se veste. Despede-se e caminha mancando rumo à saída. Um dos homens de Moura ajuda-o a montar a cavalo. E Sirilo parte com o mesmo sorriso cínico na face. Até que o primo adotado chama por Cirilo e lhe confere um golpe de faca no coração. Seu algoz é homem de circo, atirador de facas, e jamais havia matado alguém.

De dentro da casa, no quarto onde se amaram, chora Maria Moura. Sofre a morte do seu homem. Explicita sua fragilidade tantas vezes demonstrada em diversas passagens da história. O lenço branco com o sangue de Cirilo deixado à mão de Maria Moura é a satisfação dada por aquele que cumpriu tarefa inédita. É exatamente o sangue daquele que salvou a vida de Maria Moura por duas vezes.



Pequena viagem literária

terça-feira, dezembro 15, 2009 · 0 comentários

texto escrito em 25 de novembro deste ano

Abro cotidianamente a porta da sala e adentro à casa onde moro. Na cozinha há alguma luz que vem do quintal. John está sentado à porta que dá lá fora nos fundos. É costume seu ler ali sentado com a luz do jeito que lhe agrada. Não sei a idade de John, mas certamente já passou dos cinqüenta. Mas é tão jovial que de certo é rejuvenescido pela boa alma que tem. John é inglês e aluga um quarto em nossa casa. A negociação se deu entre ele e minha mãe, que já sonhou abrir uma pousada. John entende um pouco de português mais do que eu entendo seu inglês. Felizmente, a comunicação tem sido possível e até agradável.

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Por esses dias minha alma tem estado um tanto turva. Uma indisposição física me tem, o que me faz letárgico demais. Mas por hoje há uma trégua disso tudo e já me sinto melhor. Já há até alguma vibração em mim.

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De certo, alguma leitora amiga se perguntaria o que há comigo. Digamos que eu necessite dar essa resposta, mesmo que não haja a pergunta citada da amiga inventada. É como se os sentimentos meus dormissem sono silencioso. De maneira que um descaso generalizado tenha se instalado em mim com relação a tudo, inclusive escrever. Como se a porta necessária tivesse sido fechada. E por tantos dias eu me tornasse um silêncio chato. Vai ver que em meio a esse cinza de sentimentos e vontades, eu tivesse encontrado a chave de uma porta qualquer. E dela surgissem as palavras de agora.

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Ontem fomos avisados que em cinco dias a água seria cortada. A conta de agosto não fora paga. Algum problema ocorrera com o débito automático, talvez faltasse dinheiro na conta, o que já deixou de ser novidade. Deste problema, minha mãe fez sua tempestade, enquanto eu apenas colocava a conta em dia.

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Hoje não fui ao compromisso marcado. Não bastasse acordar atrasado, gastei tempo que não tinha ao telefone, a fim de saber o motivo da torneira seca. Nesses encontros que a vida produz entre coincidências indesejadas, esqueci o registro que abastece a caixa d’agua indevidamente fechado. A preocupação maior era com o nosso hóspede, o bom John. Depois sobraria tempo para pensar em nós. Mas foi a minha mãe que trouxe a boa notícia de que no piso térreo da casa havia água, assim o banheiro dos fundos, dito de empregada, poderia ser usado para o banho necessário.

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Já que não fui ao compromisso, dormir um pouco era possível e melhor solução para essa letargia toda. Alguém pode afirmar que isso é decorrente do calor intenso, algo que já pensei. Mas este desânimo generalizado se dá desde o final do inverno. Momento em que a boa amiga culpou a fria estação pelas quedas das vontades e mim. Respondi-lhe no mesmo tom poético com que fez sua afirmação, que não deveríamos culpar o inverno.

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Sei que naquela estação intensamente fria tive bons encontros com algumas poucas mulheres. Dentre as quais nenhuma ficou, senão na memória. No coração, segue o mesmo vazio. Eu ia dizer que é um vazio chato, mas já me pergunto ele não é necessário. No mais, é a vida correndo como quer. Enquanto eu vou sob o comando dos fatos, na independência que vejo neles, com a beleza que me agrada este modo de ver as coisas.

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Tantas vezes escrevi na Estação Vila Mariana por onde passa o trem agora. Mas eu desço na seguinte, o que me obriga a anunciar o fim dessa pequena viagem literária...



Pequeno fruto das emoções

segunda-feira, dezembro 07, 2009 · 1 comentários

Texto escrito em 23 de Novembro deste ano


O ônibus segue estacionado. O motor ligado indica que logo sairemos. E antes do término deste primeiro parágrafo o coletivo já dá início à sua viagem, que pelo horário deve ser a última do dia. Já que tantas emoções me invadem e traz incômodo, de certo é terápico dissolvê-las neste papel velho e branco.
Um suspiro de angústia e o receio de escrever sobre a mulher que me olha trouxeram-me a dúvida sobre o que se passou no ínterim do olhar, se é que se passou algo. Em verdade, não escrevo, pois nada há para escrever sobre tal mulher. Acho que é um pico de carência. Vai ver que é isso. Mas é bem provável que carência de fato é esta de escrever. De modo a deitar, agrupar palavras de jeito belo palavras que pedem passagem. O que se tem de fato é essa insatisfação literária. Que ilustra a vida. Por isso, essa emoção que dá nó no peito. Aperta. Incomoda. Fica... Mas é a vida. As circunstâncias. O momento. Talvez seja bom se adaptar. Daí, esperar. Fazer jogo com a serenidade. Melhor assim. Do contrário é faca na pedra.



Sociedade dos discursos

domingo, novembro 29, 2009 · 0 comentários

O que de fato há nas palavras ditas por você, por mim? Nem sempre é a afirmativa que fazemos. Aliás, seria melhor se usássemos mais indagações e menos afirmações. Talvez fôssemos mais transparentes deste modo. E quem sabe deixaríamos de lado tantos discursos com viés de marketing, absolutamente enganosos. Mas no topo do engano reside o dono do discurso. Espécie de vítima de si, quando inventa e nem sabe que o faz. Mas não deixemos de lado os que praticam o estelionato consciente.

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Sim, não apenas as palavras falam de nós. Nossos trejeitos e comportamentos também o fazem. E aí é que devemos ficar atentos. Mas não é o caso da paranóia da desconfiança. O fato é que o comportamento de cada um é seu próprio delator, o que é bastante positivo. O sujeito escolhe palavras para convencer. Em muitos casos obtém sucesso na empreitada. Mas decorre o tempo e aí tudo pode mudar de figura. É quando o senhor dos discursos é pego por seus atos que falam de fato quem é ele. E isto pode acontecer não apenas com os ditos vilões, mas com qualquer um, lembrando que podemos ser vilões, tudo depende da circunstância.

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Não, não estamos na república dos oradores. As retóricas são pobres e absolutamente falíveis. O problema é essa falta de conteúdo em que o sujeito deve lançar mão da invenção de um ser, do artificialismo de sentimentos, ou o que valha para disfarçar suas misérias, quais sejam.
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A internet abriu enorme porta para senhores e senhoras dos discursos. “Sou culta e inteligente”. “Sou sincero”. “Não tenho inimigos”. A pessoa é um amontoado de boas qualidades. Aquele que quiser acreditar, faça como queira, “pois não”.

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Falo por mim. Não faço discursos a meu respeito, e não compro discursos alheios. Em sites de relacionamentos nos colocamos ali como produtos, cuja vitrine é a telinha do monitor, e o conteúdo é dado por nossas palavras, nosso discurso, caso haja algum. Ali, provavelmente, o sujeito se lança atrás de suas idealizações. Ao final de cada viagem, a frustração como troco. E talvez no chamado mundo real não seja lá tão diferente. Não procuremos culpados. As explicações devem ser muitas. Uma delas são as propagandas de inúmeros produtos. Afinal de contas, somos bombardeados pelos discursos enganosos das marcas. Peguemos as embalagens delas. Um biscoito, por exemplo. No desenho, algo fantástico e atraente. Dentro, a frustração que você engole e nem percebe. E vai ver que nem reclama que é para se defender, já que você se faz de produto de modo igual.



Como for

quarta-feira, novembro 11, 2009 · 0 comentários

Melhor assim. Baixar as armas. Essa crítica constante ao outro, a tudo, ao que seja, ela não passa de desabafo de crítica escondida contra si. Não somos tão perfeitos assim. E o outro não é lá tão imperfeito. No fim, não somos melhores do que todos e o contrário também vale. É dizer que somos iguais, somos o outro. E esse medo que você tem não é do outro é de si. Vai ver que em paz consigo você olhe para o que hoje considera oponente de modo tranquilo, desprendido, apaziguado. Não, não tenha isto como um lição, alguma certeza feito tantas religiões. Não encare isto como devaneio, por favor. Veja de outro modo. Mas claro, caso queira ver como for, que o veja. E não faça nada do que se diz aqui se for de sua escolha. "Seja como for, mas seja".



Papel em branco

terça-feira, novembro 10, 2009 · 0 comentários

Da palavra procurada, a ideia não sabida. Apenas dizer o que seja feito caminhar sem ter aonde ir. Caminhar por caminhar. Na vida à toa que se leva. Do nada que se encontra, muito embora a procura constante. Mas tudo em vão. Tudo silêncio. E sempre a esperança. Talvez ela morra. E quando assim for será morte em vida. Uma celebração de um silêncio de entusiasmo. O fim antecipado. A vida sem sentido. Passos a esmo. Um vazio. Um silêncio único. Quando qualquer caminho a seguir não se pode seguir. Inviabilidade de passos. Não prosseguir. Sequer tentar. Um não viver. Sem o quê indagar. O pôrque de não vida. Esse silêncio. Vazio. Morte em vida.



Concorda mas não assina

terça-feira, novembro 03, 2009 · 0 comentários

Quando abracei a intenção literária de agora, parece que minha mente virou um liquidificador de ideias. Sim, eu já havia feito escolha do modo como iniciar. Mas a mudança se deu repentinamente, no primeiro dígito de letra necessária para formar a primeira palavra deste texto, uma conjunção de tempo. Vale dizer que a idéia central também foi abandonada. Optei por falar de dias transcorridos nesse tempo que não para, como disse Cazuza.

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Era tarde de domingo. Para amenizar aquela melancolia dirigiu-se ao shopping mais perto. Planejara comprar uma camisa ou calça, ou ambos. (falta precisão na informação dada pela lembrança). Sabe-se que experimentou diversas calças e algumas camisas, ou apenas um dos conjuntos das peças mencionadas, sendo que nada lhe agradou. De certo, frente ao espelho, a mudança necessária não era o que vestia a embalagem que é o corpo, senão a alma que pesadamente carregava.

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Deixou a loja de mãos vazias. Mas na saída do shopping deparou-se com forte chuva, não obstante a tempestade em si. Recuou e voltou àquela grande loja. Fazia tempo tencionava comprar um perfume importado. E ali onde estava era boa opção, posto que poderia parcelar em várias vezes, como de fato o fez. Foi embora satisfeito pela compra. E bastante surpreso com sua comunicação com vendedora e o caixa daquela grande rede de lojas


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Os dias se passaram. Voltou e comprou um jeans que fosse. Não adquiriu nada além da calça depois disto. Até que em agosto deste ano deparou-se com a edição do mesmo mês da Revista Idec, publicada pelo Instituto de Defesa do Consumidor. Tratava-se de uma matéria-denúncia contra a loja em que sempre comprou, o mesmo local do jeans e do perfume, além de tantas outras compras. Ocorre que a Revista Idec denunciava as Lojas Renner por ela não ter assinado um protocolo de não exploração de mão de obra estrangeira. Tal protocolo visava, sobretudo, proteger os bolivianos contra exploração análoga à escravidão por parte de grandes tecelagens no Brasil. A revista informava também que a C&A e a Riachuello também se negaram a assinar o protocolo.

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O seu cartão das Lojas Renner estava alavancado, o que significa dizer em linguagem popular que estava “estourado”. Por conta disto já não o utilizava mais. Diante de tal informação dada pela Revista Idec, sentiu-se no dever de confirmar o lamentável. O departamento jurídico da Renner tangenciou como é de costume, para depois confirmar que não assinou o protocolo, uma vez que "já o pratica". Diante da contradição da Renner, resolveu que faria o mesmo. Não compraria mais nesta rede de lojas, embora gostasse dela. Ou seja, a Renner concorda mas não assina. E o cliente gosta da loja, mas nela não compra.


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Recorda de sua infância. As brincadeiras com sua irmã mais nova, que mesmo cheia de certeza negava a aposta. Parece o mesmo caso aqui. E é possível que qualquer indivíduo mais desconfiado se indague porque as Lojas Renner, C&A e Riachuello se negaram a assinar o protocolo. No caso da Renner, com a afirmação de que já cumpri o que diz o protocolo, não assina embora concorde. Não é preciso dizer mais nada. O título deste texto o finaliza com ironia necessária.


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ps: falar de dias diferentes ficou de lado.



Lance de palavras

quinta-feira, outubro 22, 2009 · 0 comentários

Olha ao redor e a soma que faz dos conteúdos do que estão ali dá resultado bem baixo. Desgosta. Chateia-se. Faz tempo sua metralhadora está mirada. Reclama. Não olha. Melhor assim. Ausenta-se ali e fecha-se em sua ilha ali. E aí, pede pausa. Silencia idéias. E vê que esse vazio todo que reclama nos outros está em si. E agora?

Recorda-se que chateou-se ao ver o que vem por aí em termos de tecnologia. De certo, não demora muito. A tecnologia é muita rápida. É como se não existíssemos para ela. Não sabe ao certo. Apenas diz. Mas se faz muito disso por aí. Diz qualquer coisa que até parece bonito, mas sem de fato saber o que de significado tem nas palavras. Mas isso não importa tanto, fique-se com os discursos.

A tecnologia. De repente, o indivíduo liga seu computador e tem com seu amigo virtual. Estranho isso. Pareceu-lhe a máxima do individualismo. É como acreditar que não precisa de mais ninguém. Como vão fazer com a afetividade não sabe. Mas já leu artigo que diz que a ciência, mais rápido do que se imagina, criará condições para que o homem seja eterno. E aí, pensam alguns cientistas, este homem poderá ser assexuado, estéreo. Então, para que afetividade? Será um indivíduo que consome, que amigo que tem é virtual mais ninguém.

Mas naqueles dias ele não estava lá tão bem. Não queria estar ali, mas isso era fuga de si. E tanta tecnologia, o poder daquela empresa, era-lhe aborrecedor. Mas não, não colocou culpa no que lhe era alheio. Deixo pra si todas as causas. Quando tudo incomoda tanto, o motivo é ele, já sabe. Por favor, pede que não se considere você tão diferente.

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Viu o garoto se dirigir para a lata de lixo. Era ali na plataforma da Estação Tucuruvi. Metrô de São Paulo. Tudo tão limpo e organizado. Um jovenzinho fazia tal ato. E disse pra si que tal respeito era fruto do exemplo. Se tudo ali estava como já dito, cometer deslizes de educação e comportamento não convém. Talvez uma escola pública nos mesmos moldes seria mais respeitada. E quem sabe as pessoas advindas delas se respeitariam mais. Vai ver que parte do processo de construção da auto-estima passa pelo período em que dia a dia se enfrenta lousa, professor e colegas. Por ora, isto não parece atividade prazerosa. Tem mais cara de luta mesmo, guerra.
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Adentrou àquele Café juntamente com bom amigo. Pessoa bem resolvida, feliz, bastante religiosa. Um lugar muito agradável na bela avenida Paulista. Pediu uma xícara apenas. O amigo não quis, “muito obrigado, só te acompanho”. A menina ao caixa atendia ao telefone. E ele foi tão simpático que ela, atrapalhada com o telefonema, disse que não precisava pagar. Não se recorda o que a jovem conversava com outrem do outro lado da linha. Mas depreendeu que fosse um paquera.

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Quase trocou um olhar com morena sentada à mesa com amiga sua. Percebeu apenas olhar dela de modo interessado. Daí em diante, não houve mais nada. E ficou por isso mesmo. Não ligou, embora talvez a carência lhe pedisse flertes e algo mais. Despediu-se das atendentes todas simpáticas e se foi com seu amigo pela Paulista sobre calçadas bem conservadas.

E hoje, findo silêncio literário, a que chamaram de licença e reclusão, o que lhe pareceu título bem melhor, está aqui o texto. Talvez apenas um grito de palavras em meio à ausência do desejo de escrever. Ou então um lance neste tabuleiro literário que é a vida, que gosta de imitar o xadrez, a arte. Por isso, por ora, é isso. Mas isto é apenas um grito em meio a esse silêncio que a amiga diz ser poético...



Pausa literária

segunda-feira, outubro 19, 2009 · 2 comentários

Sei que fiz um parágrafo inacabado de um texto qualquer. Era de fato uma tentativa, talvez um teste. Sim, era possível escrever algo, dizer estilo poético, quem sabe tocar alma esta. Mas declinei da tentativa literária. O que me restou foi isto, esta recordação, dizer algo sobre o que não foi escrito. E se o faço é para agradar a mim, quem sabe a você. Mas isto é detalhe desimportante, nem todos têm relevância. É apenas para dizer que o blog, por motivos quais sejam, faz uma pequena parada, cujo nome dá o título aqui. Às vezes, feito Xadrez, é preciso parar, esperar, observar. Deixar o adversário jogar à espera de erro seu. Quem sabe, neste hiato de textos, de uma pausa que não se sabe quanto dura, a falta de inspiração, adversária minha no tabuleiro literário de agora, comete erro qualquer, e assim dá me condições de mover uma peça em busca de algo a dizer. Por ora, apenas a observo jogar. E ela o faz em meio ao silêncio que se segue. Pausa literária. É o que se tem. Por ora.



Controle remoto

segunda-feira, outubro 05, 2009 · 2 comentários

Recordo-me que desci aquela rampa e fui em direção ao carro estacionado em frente ao local. Eu tomara meu café, que foi modo escolhido de ganhar tempo, posto que estava adiantado para o encontro daquela noite. Diversas vezes passou pela minha cabeça a idéia de que ela desistiria. Acho que era desejo meu em fazê-lo. E depois descobri que ela pensara o mesmo, acreditando que por algum motivo eu declinaria. Creio que a desistência de uma das partes teria sido melhor, não fosse a lição aprendida por mim em noite tão chata. Espero que ela também tenha aprendido algo, mas que não seja a reafirmação de certas opiniões femininas sobre os homens.

Não cabe aqui deitar críticas a ela. As razões de seu silêncio e ausência guardava comigo alguma desconfiança. Tampouco irei discorrer a respeito delas aqui. O mais importante não são os motivos que a levaram a comportar-se de modo estranho. E talvez aquele jeito distante fosse e que se poderia chamar de normal da parte dela, trivial.

Sejamos honesto, eu também não estava lá tão bem. Sim, era suspeito para fazer avaliações. O meu aborrecimento, o motivo dele, era algo em mim. Um desagrado qualquer. Uma pitada de desamor. Alguma tristeza momentânea. Essas chateações que temos e não as admitimos tanto. Era de fato uma noite de encontro entre dois corpos, mas desencontros entre duas almas.

Desejei que desistisse do motel. Sim, eu apenas queria ir embora, ficar só, acabar com tudo aquilo. Se não o fiz, não faço idéia do motivo. Acho que dei mais voz à fantasia. E do fato consumado, subtraí não só a frustração garantida pela coisa idealizada, senão boa e verdadeira lição. Pode ser que você realize desejos, “sonhos”. Muito provavelmente se sentirá insatisfeito. Não verá significado algum. E estranhará que sua alma não vibre. Sobre este pensamento, carrego explicação nenhuma. Mas acho que já está explicado.


Às vezes a mulher coloca contas à mesa. E reclama da ausência do abraço, de um carinho que seja. É que se esquece das suas próprias contas. Não olha pra si, não se percebe e deixa de ver que contribuiu deveras para o jeito distante dele. Não, já deixara de haver clima. E o casal de adultos cerrou os olhos para a realidade. Ele sentiu-se culpado pelo “bom dia” que não deu. Por vestir-se rapidamente e apressa-la. Pelo silêncio de palavra qualquer que desse sentimento e beleza por aquela noite. E ela fez as cobranças, não eram as primeiras. Mas depois, a culpa que sentia passou, pois depreendeu que ambos construíram tudo aquilo.

Partiram e ainda a caminho era cobrado por um reencontro. Ela queria marcar algo antes que ele a deixasse em sua casa. Ele achava isto muito estranho, dada a chatice da noite anterior. Calculara que ela não desejava sair com ele de fato, mas que apenas não admitia ser “descartada” após uma noite de sexo, ainda que sem a intensidade necessária para que os corpos desejem novo reencontro. Mas ele já calculara que jamais voltaria a vê-la, o que já seria desrespeito demais por si.

Não olhou no espelho e se perguntou por quê. Em verdade, pouco pensou no assunto. Para ele estava bem resolvido. Naquele capítulo da cartilha da vida, a lição maior. Todo aquele desencontro de almas serviu-lhe para ilustrar o vazio de realizar certos desejos. Que a vida imprevisível é muito melhor. E deixar de lado certas buscas é jeito melhor de saborear acontecimentos. Idealizar, buscar, desejar, optar pela realização de fantasias é jeito certo de garantir frustração. No mais, no fim da lição, aprender é o modo belo de tornar tudo positivo. A vida realmente é caixa de surpresa, melhor não querer programá-la. Não há controle remoto



Café volúvel

quinta-feira, setembro 24, 2009 · 2 comentários

Creio que você já tenha vivenciado o exemplo de pessoa que deitou críticas contra aquele com quem formara um par, para depois ser noticiado de que ela está novamente com o alvo de tantas reclamações. Daí, a gente se surpreende e cai em certa perplexidade. Os motivos da contradição podem ser tantos, não é o caso de refletir a respeito, fiquemos com o macro que é a contradição.


Certa vez, uma mulher me perguntou se eu era volúvel no amor. Busquei portas para a resposta e escolhi a que me abriu. O fato é que, assim como você, humano que sou, as circunstâncias ditam minhas atitudes. De maneira que, a velocidade dos fatos me fizera noticiar mudanças amorosas que deixaram algumas conhecidas um tanto atônitas.


Em se tratando de amor, faz parte da nossa caminhada passar por períodos errantes. E assim eu segui caminhando até que deixei de apostar em cada relacionamento. Não que optei, senão aprendi. Pois vi nos fatos sua independência, de modo que deixei de esperar o que fosse. Apenas passei a viver o momento, caminhando com seu desdobrar, sem nada esperar. Foi-se o tempo em que tudo era para sempre. Deixei o jogo, não aposto mais. A vida segue como ela quer. E eu não sou nada mais que simples personagem dela. De maneira que, meu olhar para a minha história se torna mais belo e filosófico.


Um dos temas aqui apresentado é a contradição humana. Quando menino, aprendi que isto era grave crime sem perdão. Até que alguém me disse que por sermos humanos, a contradição não é crime, senão uma espécie de direito dado por nossa condição. Assim, fiz nova troca de Café. O problema é que voltei para aquele que eu criticara em outro texto. Mais grave é que deixo um Café que tanto elogiei por outro que, em verdade, desgosto bastante. Isto me faz igualmente contraditório àquele que voltou para os braços de alguém por quem guarda tantas mágoas. De qualquer forma, este meu retorno é tão fugaz quanto o tempo de agora. Pois de tão ruim o estabelecimento para o qual retornei, terei de buscar outro Café. E, em verdade, tal busca já se iniciou, pois há muitas opções, felizmente.


É possível que o leitor menos distraído se pergunte por que eu declinei de um local que tanto gostava para voltar a outro que ainda desgosto. Mas certo é que não darei resposta alguma, sem dar explicação que seja, talvez para ilustrar que certos fatos fogem ao alcance da análise, ou que talvez necessitem de tempo para a busca de conclusões mais precisas. Nesta espécie de auto-análise não serei precipitado em dar explicações. Se assim o fizesse, eu seria como aqueles profissionais da alma, cujo objetivo maior é tecer o comentário, no intuito de demonstrar competência, sendo que o paciente fica em último plano. É o palco da encenação não apenas do ego do terapeuta, bem como a expressão de suas fragilidades. Se a soma dessas palavras carrega a dura feição das críticas, no fim é sabido que aquele que te ouve é alguém que apenas veste a roupagem do papel que lhe cabe. E, claro, seria desonesto sonegar a informação de que muitos são altamente competentes. O problema é que lidam com algo bastante complexo. Assim, se qualquer destes profissionais abraçar o plano da absoluta certeza em algumas de suas avaliações, estará mergulhado em grave equívoco.


Façamos pequena observação. Algumas pessoas se acostumam e não trocam seus pontos de consumo. Não é o caso deste que escreve. Neste sentido, sou deveras volúvel. De modo que, se deixar elogios para seu estabelecimento e amanhã não aparecer mais, não estranhe. Pode ser que este seja modo meu de expressar meu gosto pela liberdade, esta que não existe de fato. Assim, pelos cantos do mundo, vou seguir em busca de locais que me agradem. Onde eu possa optar em sentar ou não. Fazer o pedido escolhido. Quem sabe, gostar do resultado. Com a chance de admirar o atendimento, cuja qualidade se dará muito em função do modo como me comunicar. E com a absoluta incerteza de que voltarei.



Os amigos que somos e temos

segunda-feira, setembro 14, 2009 · 3 comentários

Às vezes penso o que seríamos sem nossos amigos. Não, não se equivoque, falo dos poucos e raros amigos de fato, a maioria são apenas conhecidos. Aquele pequeno grupo composto por pessoas as quais você confia e gosta de verdade. São aquelas em que não há espaço para competições, ou o que seja de negativo. E você sabe, muitos não tem amigos de fato. Fazer o quê? Terá que gostar de si para gostar do outro. Pode ser que jamais consiga, são as vidas de muitos... Eu já vivi sem amigos...

Ele precisou de grande amparo do amigo. E este fez o possível e conseguiu exatamente o necessário. A porta ficou aberta para quxando fosse necessário passar por ela. Isto trouxe margem de segurança para aquele que não bateu à porta, mas que viu ela se abrir sem que pedisse. Não, não se surpreendeu, conhece bem o amigo e sabia que ele se prontificaria a fazer isto por ele. Não, ninguém disse que “amigos são pra essas coisas...”.

Pensou que devesse ajudar o amigo em tal questão. Mas calculou que se o fizesse não estaria sendo-lhe útil. Melhor deixar que aprenda com o tombo, com as dificuldades. Só assim para ele crescer. Sabe que é melhor ser justo, pois o dito “bonzinho” muitas vezes alimenta apenas ego próprio, não ajuda o outro no crescimento.

Sim, você já pensou que tivesse sentimentos de amizade por aquela pessoa. Até acreditou que fosse uma grande pessoa para ela, um bom amigo. Enganou-se. Não era a primeira vez. Você nem se percebia. Não sabia o quanto era cruel com o outro. Não, não se culpe. Do outro lado, a reciprocidade no engano. Vai demorar para saírem das armadilhas feitas pelos olhos fechados para si. Pode ser que nem saiam...

Demorou longos anos para fazer amizades de fato. Mas isto de modo algum o incomoda. Em verdade, sente-se feliz pelo momento em que constrói relações verdadeiras. Mas claro, ainda assim, por uma época, cometia o equívoco de acreditar sentimentos de carinho por algumas pessoas. A porta do engano se fechou. E agora a sinceridade e percepção de si facilitam as coisas no que se refere a inter-relacionamentos.

Mas a vida é crescimento. E, como diz uma boa amiga, é melhor que haja reparos, sem o qual não há sentido. Ela tem razão. Triste é ver tantos desgostos de si em pessoas insatisfeitas e enganadas por prioridades equivocadas. Triste obra humana que não foi construída, senão o contrário disto. E o que sobram são esses escombros de emoções, ditadas por desgosto e algo que não sei o quê, mas que bom não é, melhor se fosse minado, mas já não há mais tempo...

opiniões

Esse assunto é muito interessante.Todos queremos um grande amigo, ao menos um! Reflita sobre si mesmo...pra se ter um amigo é necessário saber ser um grande amigo. Tarefa árdua, pois requer dedicação, persistência, desapego e principalmente perspicáia para saber onde e quando estar.Deixo essa tarefa para todos os leitores desse riquíssimo blog, reflitam.
Verônica Araújo, Pegagoga
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Fala, Del...Sobre esse assunto de amizade te digo que temos amigos de verdade que contamos nos dedos e conhecidos que, ás vezes, podem te surpreender.Gostei muito do seu texto
Wagner Kern Velasques Jr, Formado em Direito



Dias em parágrafos

segunda-feira, setembro 07, 2009 · 1 comentários

Muita tecnologia espalhada pelo prédio onde estava seu corpo, mas que alma sua se ausentava. Não, o que se dava ali em nada tinha a ver com seu aborrecimento. Em verdade, quando está bem quase nada lhe incomoda. Portanto, não seria honesto colocar a culpa em tudo que ali ocorria. De qualquer forma, isto seria mais fácil, bem como absolutamente leviano. Sabia que dentro de si uma “formatação” era necessária, que é para sanar as daninhas, que no computador são os vírus, ou o que seja. De qualquer forma, foi hábil em perceber que melhor seria não se aborrecer. Assim o fez. Não que tenha mergulhado em mar de satisfação, mas ao menos não se enlameou por uma postura negativa frente a tudo. No fim, o prejudicado é sempre você.





O convidado não veio. O cozinheiro estava aos gritos com suas frutas longe dali. E ele, espécie de anfitrião daquela festa, compareceu sem esperança alguma. De modo algum se aborreceu. Desagradou-lhe, sim, a postura do segurança, mas que ele sabia que o fato de se incomodar era indicativo de algo errado em si. Dali partiu com uma informação importante sobre a organização de outra festa. Neste caso, a instituição financeira não teria opção, seria presença obrigatória. Contudo, declinou da intenção na semana seguinte. Não sendo dele a dívida, pouco se importava com tantos juros a serem pagos. Em verdade, achava mesmo merecedor da parte do responsável tal agiotagem permitida.





Saiu do consultório. Seguia observador de si. Ao redor, melhor não olhar, observar. A alma turva era impedimento de contemplação da realidade. Cerrou não os olhos, senão o olhar. E ficou em si. No vagão de trem, homem simplório, cara castigada pela pobreza, pediu-lhe atenção à leitura que lhe faria da Bíblia. De modo cortes, mas pouco hábil, aceitou a oferenda. Gostou do texto, posto que é muito bem escrito. Contudo, após a leitura veio a explanação insana que logo lhe desagradou. Via o simples homem como mero eco de ideias alheias. Pediu-lhe licença, pois desceria naquela estação. Em verdade, apenas queria trocar de vagão, mas não houve tempo. Perdeu o trem. Esperou o próximo. Foi melhor assim. Havia tempo de sobra...





A sopa estava pronta e a fome era grande. Fartou-se dos dois sabores e comeu do pão. Quando ficaram a sós, o cansaço lhe impedia de algo mais. Pediu-lhe que baixasse o som da televisão, apagasse alguma luz. Precisava descansar olhos e ouvidos. E ela, gentil e solícita, fez tudo o que lhe foi pedido. Ele duvidou que teria energia além da que necessitava naquele exato momento. Mas dela cobrou o beijo prometido. Seria um teste de energia, disse ele de outro modo. E de alguma reserva veio-lhe o suficiente para considerar o “teste” bem sucedido. Na manhã seguinte iria para sua casa...





No elevador, ouviu o senhor elogiar a peça, mas o fez de modo depreciativo. Até que ouviu a pergunta sobre que nota dava àquela apresentação teatral. O senhor ouviu um dez como resposta e estranhou. “Dez?”. Após confirmação da nota, a explicação curta e sincera, no que o homem de idade avançada não discordou, mas que lembrou de outros detalhes os quais ele lamentava. O rapaz apenas ouviu e deu um “boa noite” ao velho homem. Não, não queria debate algum. Não estava apto para tanto. Ligou seu carro e se foi com as emoções que a peça lhe proporcionara e com as que nele já estavam. Estava absolutamente satisfeito com o presente ofertado à alma sua.





Retornara. Era o único jeito. De modo algum podia seguir negligenciando suas emoções. O trem descarrilhara e nos trilhos apenas ele. Sua própria locomotiva passava por cima de si. Já se perdia. Contudo, fragilizara-se e reconhecia tal estado. Baixava suas armas contra si e contra todos. E isto não apenas era bom, como imprescindível. Fez a confissão de seus erros e ouviu explicação positiva da questão. Saiu dali melhor do que entrou, sabedor de que teria que voltar inúmeras vezes. Sua ausência por algum tempo o fez mudar a ótica sob a questão. O mesmo se deu em outros detalhes, todos ligados a ele. Dali em diante, negligência de si nunca mais...






Foram alguns dias e parágrafos escolhidos nessa ausência literária dada por mão lesionada. Mas a vida é assim feita de contratempos, você sabe. E nesse caminhar, a reconstrução de si pede maior atenção. O que não se pode é cerrar os olhos para si. Você vai precisar do passar dos dias e de um forte tombo para perceber onde reside seu erro. A locomotiva vai saindo dos trilhos e você nem percebe. Lá na frente, o acidente e a realidade como forte obstáculo. Não há outro caminho que não direção diferente. O que é melhor. A manutenção nos vagões e as emoções assentadas. Você já pode seguir. O trem já parte. A viagem prossegue.



Pequeno aviso

segunda-feira, agosto 31, 2009 · 2 comentários

O autor do blog obteve do inesperado contusão na mão que lhe impede de digitar textos. Por alguns dias não pôde sequer tomar uma caneta à mão. Exatamente a mão maestra dos movimentos sinceros de esferográfica qualquer esteve impedida de dançar sobre"papel submisso". Assim, nesta semana não será possível uma publicação. Fica pedida ao leitor a espera necessária e inevitável. Os agradecimentos também ficam.


Adelcir Oliveira



Café pretexto

domingo, agosto 23, 2009 · 2 comentários

Aquele que acompanha o blog sabe das minhas trocas de Cafés. E é sabedor do meu retorno para um determinado estabelecimento que tanto desgosto. De qualquer forma, este início de texto é aviso ao leitor que fez simples, primeira, e, não se sabe, única visita.

Gosto de Marketing, e isto já se evidenciou em alguns textos em que tratei a questão do atendimento ao público. Para quem me conhece, sabe que meu gosto pelo assunto em questão se evidencia de várias formas.

A dona daquele Café jamais me pedirá dica alguma que fosse para melhorar sua loja, quem sabe evitar equívocos que observo. Mas, acaso me fosse possível deitar a dica, diria a ela que se ausentasse da linha de frente do atendimento.

O senhor já de idade acusou de propaganda enganosa determinado anúncio do Café. A proprietária do estabelecimento, loira pequena em ótima forma física, abandou o atendimento que me fazia para partir em direção ao senhor reclamante. Não lhe disse desaforo algum, apenas ensinou severamente que havia certa condição para obtenção do desconto avisado pela placa, esta que jamais notei. O simples senhor abandonou o local antes mesmo da total aproximação da jovem empresária. E, evidentemente, todos assistiram àquela cena violenta, em certa medida, entre cliente e comerciante.

Ela voltou para o caixa, avisando aos funcionários de que não deixassem “desaforos” sem respostas. Esqueceu-se que os seus assalariados a temem de tal modo que palavras professadas melhor que sejam de elogios ou carinho inventado a ela, pois sabem da estrita vigilância..

Assim que tomou posse novamente do seu trono, fez a reclamação do cliente. Eu coloquei que se tratava de um senhor de idade e que as pessoas, parte delas, possuem certa dificuldade de interpretação de certas leituras. Não me recordo de sua resposta. Sei que não me deu ouvidos. O direito dela de discordar foi preservado. De qualquer modo, não era caso algum para debate.

Sejamos honestos. Se ali, enquanto pagava o que consumi, considerava seu atendimento ruim, bem como desagradável a sua pessoa, eu, de minha parte, merecia um PROCON contra mim, em termos de simpatia. Na rápida conversa que tivemos houve dose recíproca de desprezo. Neste ínterim, descobrimos nossas formações universitárias a partir de indagações feitas por ela. Não caia o leitor na inocência de que dela houvesse interesse por minha pessoa. E o fato de não haver indagação alguma de minha parte, não significa que não desejasse pistas a seu respeito. Acaso o leitor aposte em algum interesse sexual meu, incorre em novo equívoco. Do pouco que observara a respeito da sua relação com seus funcionários, eu já depositava ali um único interesse: o literário.

Surpreendeu-se ao saber que também sou jornalista. Desejou saber por que eu não atuava em algum veículo, sem obter grandes explicações a respeito. Avisou-me que escreve para determinada revista. Senti prazer em dizer que desconhecia tal veículo ao ser indagado, como se a fama fosse sinal sincero de qualidade jornalística de qualquer publicação que seja. E em seguida anunciou sua prestação de serviços para determinado político, o prefeito da cidade. Foi quando perdi a piada, conforme me avisou colega de trabalho ao ouvir minha narrativa sobre o fato. Ocorre que o político para o qual ela presta serviços, certa vez partiu para cima de um senhor aposentado, botando-o para correr com o uso de determinado adjetivo. O colega ouvinte riu-se e afirmou que ela aprendera com o patrão. Perfeita analogia.

Paguei a conta e despedida afetiva fiz apenas para os funcionários. Calculei que não deveria deixar meu dinheiro em estabelecimento de propriedade de pessoa assim. Mas pensei depois que se assim o fizesse perderia histórias e campo de análise.

Desagradou-me, por exemplo, quando ao balcão com sua nova contratada, ouvi o aviso de que ela devia vender, não conversar. Como cliente, senti-me desrespeitado. Era como se dissesse à ingressante em sua empresa que não deveria perder tempo com o cliente. Equivocava-se, pois o que a funcionária fazia com certa habilidade era cativar o cliente. Portanto, tolia a criatividade da jovem, o que poderá resultar em queda de rendimento da trabalhadora. O outro equívoco era com o cliente, em termos de fino trato.

Alguns dias depois voltei ao Café. Sim, havia um pretexto que não era só literário, mas que nada tinha a ver com a patroa. Em verdade, desejei que não ela estivesse por lá. De modo que, ao avistar ao longe o que de fato me interessava no interior da loja, fiz silenciosa comemoração.

Ao me aproximar ao balcão, cumprimentar esse ou aquele atendente, observei neles alguma apreensão. A única que me é bela ali, cumprimentou-me com um “oi amigo”. Seu belo rosto estava carregado de medo, que nada tinha a ver comigo. Não demorou, ouvi a voz da jovem patroa, ao fazer o aviso à equipe sua da necessidade de determinado ato para o recebimento das horas-extras. E logo emendou que havia funcionário demais na loja, posto que era troca de turno. A turma da parte da manhã deveria se ausentar, ficou claro. Concordei com a patroa naquilo que ela disse. Mas o que me parecia ocorrer ali era uma opressão sobre seus funcionários, cuja pista era dada pelo medo que gritava nos olhares de cada um deles, defensores de pequeno salário.

Um dos clientes presente, este que escreve, imediatamente ficou contrariado com a presença da dona no local. Depreendi que o atendimento hoje não seria a meu gosto. Além disso, o verdadeiro fator de minha outra visita ali, pretexto maior, estava ocupada demais com o medo da opressão patronal.

Minha presença foi rápida. O atendente esqueceu-se de minha predileção por café-curto. Acho que posso tê-lo prejudicado ao lembrá-lo disto. Calculei que pudesse ser repreendido posteriormente. Mas quanto a isto, posso estar absolutamente equivocado. Desta vez, o que observei foi apenas uma dinâmica naquele Café. E não que eu tenha feito a escolha do tema. Como sempre, os fatos surgem de modo independente. Sou simples servo e observador.

Alguns membros da equipe, sobretudo as mulheres, preocupavam-se em dizer o que fosse à patroa. Era como se buscassem a alforria da opressão psicológica que eles viviam. Percebi nítida invenção de afetividade, bem como irreal interesse em colaborar na resolução de inúmeras questões referentes à loja. Aliás, essa necessidade de fingimento de colaboração deu-me impressão de que fosse fruto das palestras da patroa. Mas isto é apenas desconfiança, que pode devidamente ser verificada. O que me interessa aqui é o que vi e senti por meio da observação. No caso, a simpatia inventada da equipe amedrontada.

Passaram-se alguns dias e eu voltei lá para almoçar. Mas já tinha meu almoço comigo, utilizei apenas a estrutura da loja. Eu me informara com a jovem dona do estabelecimento a respeito desta possibilidade. Conversei com os atendentes rapidamente. Sim, estava lá a jovem opressora, bem como aquele que me parece ser seu marido, algo assim. E vi que ela se ocupava com um homem maduro de aparência sombria. Uma reunião ali no Café. Carregava comigo certas desconfianças a respeito disto. Sorvi uma xícara cafeínada. E não me recordo se meu pretexto maior estava por lá, linda e sorridente. Com medo ou não. Depois disto, as circunstâncias me afastaram da estação do metrô onde eu cumpria horas remuneradas. Faz dias que não apareço. Vez em quando, meu pretexto visita minhas lembranças, como que me convidando para um café...



Dívida que não é minha

domingo, agosto 16, 2009 · 0 comentários

Eu subia a rua dos Estudantes na Liberdade e trazia comigo dívida que não é minha. A participação que tenho nela se dá pelo depósito de confiança em familiar sabido não muito afeito à honestidade, bem como inepto para a gestão de seus negócios. Em verdade, eu incorria no mesmo erro. E agora pagava o preço pela lição não aprendida.




Estava ali em busca de um acordo financeiro com a intenção de diminuir juros de dívida em nome meu, mas que centavo algum sairá do meu bolso para a quitação devida. A atual Constituição preferiu desproteger os clientes de bancos contra a cobrança abusiva de juros. Mas o lobby deles é maior que o nosso, conforme me ensinou amigo recém-formado em Direito. E, ainda segundo este amigo, a Carta anterior previa o máximo que um banco poderia cobrar de juros de seus clientes. Caso a informação aqui passada seja equivocada, cobrem do amigo. E se não fiz a devida checagem que o curso de jornalismo ensina, é apreço maior que tenho pela literatura. Portanto, a cobrança, caso devida, deve ser cobrada do amigo e da Literatura.





Não, a dívida do banco não pesava sobre as minhas costas enquanto subia a rua. Conforme afirmei, ela não é minha, leva apenas meu nome. Ela me é injusta do ponto de vista ético-familiar. Legalmente, é minha, o que pode trazer prejuízos à minha tranqüilidade. Mas por ora não traz, lamento por quem ficar decepcionado. Tudo bem que já me irritei deveras com a situação. Já levantei a voz para o produtor da dívida. Mas o fiz não pelo valor devido, senão pela indignação frente a um problema que detenho somente a titularidade.




Fui ao PROCON, conforme fiquei sabendo que assim o fizera irmã minha em uma questão financeira de cobranças indevidas por parte de seu banco. E lá no Poupatempo da Sé me avisaram que “minha” dívida é devida, portanto, deve ser paga, o que concordo plenamente. Ou seja, cabe no máximo alguma renegociação. Por estes anos que vivi, cumpri todos os meus compromissos com instituições financeiras. Não me iludo com a filosofia malandra de que dívida que não é paga deixa de existir.





Da Sé, fui para o local o qual me orientaram. Eu estava em frente ao prédio da Federação Comercial à rua da Glória, no mesmo bairro do início deste texto. Esperei cerca de dez minutos para que os portões fossem abertos pelo porteiro, senhor simpático e solícito. Jamais estivera em um local assim. Também me enganei ao pensar que estaria lotado de gente endividada. Não passávamos de cinco até o momento que adentrei à sala final.




Deixemos de fora diversos detalhes que observei, principalmente os que se referem à dificuldade de comunicação do jovem atendente, que presumi fosse um estudante de Direito. Não cabe o cálculo precário por parte de quem lê a suspeita (pior se for certeza) de que o jovem demonstrava pouco conhecimento sobre o problema que me levara ali, muito pelo contrário. Os minutos que estive ali frente a ele me foram rápida e boa aula



O jovem não me iludia. Disse-me que tentaríamos uma audiência conciliatória , mas que o banco não possuía obrigação alguma em comparecer. Uma carta-convite seria enviada à poderosa instituição. Você já deve ter recusado diversos convites. A instituição, fui informado, recusou 97% deles. Creio que eu e você não chegamos a tanto, e nem se trata de educação. Aliás, parece que foi o tempo que o pessoal que trabalha em banco era tão deseducado, mas isto é outro assunto.





Sim, eu fiz indagações sobre outros caminhos. Confirmei o que me ensinou o advogado amigo. De fato, posso optar por levar a questão aos tribunais e ter a esperança de que o juiz depreenda que da dívida existente muito são juros exorbitantes. Para tanto, teria que entrar com uma “ação ordinária”, fui ensinado. “O que é uma ação ordinária?”. “O senhor teria que pagar os gastos com o processo, com advogado...”. “ E o trabalho que um advogado tem com um processo de cem mil reais não difere de um de três mil reais”. Ou seja, explicou-me, que a conta final poderia ficar ainda mais salgada. O rapaz até fez uma metáfora com molho, mas que não me recordo.




Não nego que pensei na amizade com o advogado amigo que aqui já citei e que receberá este texto em sua caixa de e-mail. Fiz o cálculo malandro de que “meu” caso lhe servisse de laboratório, o que significaria não falarmos em valores. De certo, ele vai se rir dos meus pensamentos comentados aqui, bom entendedor que é da alma humana.




Antes do atendimento em questão, no corredor de espera, sorvi cafezinho e água. Também fui ao banheiro. E eu me recordei de Kafka logo que adentrei às instalações internas do prédio. Para aquele que ignora por que Kafka me veio à mente, peço que verifique comentários sobre sua obra literária “O processo”. Faço o mesmo pedido àquele que estranhou, ou até usou de deboche, quando falei em “esperança” em relação à uma decisão do juiz que fosse favorável a “mim” em uma improvável ação judicial contra o banco.




Despedi-me de modo cortês daquele que me prestou bom serviço ao que me pareceu. O jovem foi recíproco na cordialidade. Fui embora e tudo ali me pareceu obra de Kafka. Um capítulo seu o qual eu não podia fugir. Mas por que essa vergonha? Ser personagem de tamanho gênio não se trata de um privilégio?




Caminhei em direção à estação Liberdade. Subi a rua dos Estudantes. Dei com a Praça da Liberdade. Parei e observei um pouco o resultado pobre da reforma feita ali por uma determinada instituição financeira, que não é aquela que desgosta dos convites mencionados. A mesma que receio não me fará entrar no clube dos eleitos por ela, composto por 3% de seus clientes, ou ex-clientes. São aqueles os quais ela aceitou convite para uma audiência conciliatória.





Eu seguia calmo e despreocupado. A dívida não é minha de fato, reitero. O leitor pode indagar se o verdadeiro responsável vai pagá-la. Asseguro que sim, salvo imprevistos maiores, para os quais terei que estar preparado.




Adentrei à Estação Liberdade do metrô. Não cito aqui pensamentos nostálgicos que tive ao participar do novo cenário.O colega de um quiosque de café outra vez mais me presenteou com a bebida sem que necessitasse pagá-la, o que me pareceu irônico. De certo, se o juiz lesse esse texto e se desagradasse com essa espécie de outra dívida, creio que minhas esperanças estariam diminuídas. Mas receio que estes operadores do Direito já estão ocupados demais com tantas leituras relacionadas ao seu dia-a-dia profissional. E desconfio sinceramente que pouquíssimos leram Kafka, sobretudo a obra já citada.


Na minha carteira a cópia da carta-convite para a audiência conciliatória. Eu estarei lá, espécie de dono da festa que sou. O prato principal é a dívida citada. O cozinheiro, creio, estará em seu trabalho a gritar pelo clientes para que comprem suas frutas. Para quem não entendeu bem, o cozinheiro é o senhor da dívida, o responsável. Tem coisas na vida que a gente não escolhe. Cozinheiros e cunhados são duas delas.




O medo como incentivo e mecanismo de manipulação

domingo, agosto 09, 2009 · 3 comentários

Por Adalton Oliveira

O medo é um sentimento atávico. Como ao rato na “Pequena Fábula” de Kafka, o medo nos impulsiona para frente, na ânsia de dele fugirmos, ou entendermos a sua causa. Do medo, nasceram a religião e a ciência. Duas formas de se interpretar o mundo e, a partir delas, encontrar algum conforto.
Mas, se o medo é uma mola propulsora, ele assim o é porque o seu reverso é a coragem. Como dizia Montaigne, só há coragem onde existe medo. Aquele que não sente medo, não pode ser corajoso e será dito temerário, um louco rumo ao precipício.
Todos temem, seja o medo da morte ou do desconhecido; até mesmo a felicidade é temida. Talvez tenhamos medo dela porque tememos perdê-la, receamos experimentá-la e, depois, não suportar mais viver na ausência dela. A alegria suprema de ser pai, por exemplo, vem acompanhada pelo medo sobre o destino daquela criatura tão querida. Em nossa sociedade violenta e de punição duvidosa, temer é quase somente o que nos resta a fazer. É com medo que vivemos nosso dia a dia, e assim podemos nos tornar heróis de nossas existências, vencendo nossos medos cotidianos.
O medo é ainda uma forma de manipulação. George W. Bush usou-o para justificar sua política belicista contra o terror. Pelo discurso do medo, seu governo restringiu liberdades no território norte-americano, invadiu o Iraque e praticou torturas em Guantánamo. Graças ao medo do comunismo, difundido entre a classe média brasileira, nossos militares, apoiados pelos privilegiados de sempre, impuseram a ditadura por mais de duas décadas. O mesmo discurso ajudou na eleição de Collor de Melo à presidência. É, pois, em razão do medo que, por diversas vezes, paralisa a capacidade reflexiva, que discursos como estes frutificam. E é o que vemos agora quando a imprensa nos bombardeia diariamente com notícias sobre a gripe suína, estampando nas primeiras páginas dos jornais o número de mortos até o momento. Vemos então o pânico se difundir, e esquecemos que a tal gripe não se mostra mais letal do que as gripes já conhecidas.. Esquecemo-nos de que a dengue mata muito mais, de que o estado dos hospitais públicos, em várias partes desse país, é muito mais letal do que qualquer nova gripe. Mas, o medo transforma-se em notícia e ajuda a vender jornais ou a segurar a audiência.
Sentir medo é algo natural. O que não devemos permitir é que ele nos domine, nos tire a capacidade de agir e de pensar.
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Dica de leitura: "Reflexões a respeito do perdão"

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Devo parabenizar essa família de intelectuais e escritores! O Del já havia dito que o próximo texto seria de sua autoria, devo admitir que estávamos ansiosos por esse dia. Você descreveu o medo com perfeição. Esse sentimento já foi pauta em textos anteriores e em algumas de minhas conversas com o autor deste blog, o ser humano age contra e a favor do medo simultâneamente. Razões? Quiçá pudéssemos idêntidicá-las rsrs Parabéns, adorei seu texto. O Del devería repetir essas edições especiais! Bjs
Bjs, Verônica, Pedagoga, Mora em São Paulo, é paulistana


Resposta :

Verônica, agradeço muito a você por suas observações.
Adalton
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Nós seres humanos sentimos tanto medo de errar, mas esquecemos de pensar que o erro é algo positivo em nossas vidas, os erros são muitas vezes dolorosos, mas são o único jeito de descobrirmos quem realmente somos, acontece que as vezes é preciso fazer o que é errado, as vezes é preciso cometer um grande erro, para podermos consertar as coisas. O “medo” de tentar algo novo nos impede muitas vezes de descobrirmos quem realmente somos, e o que realmente queremos, se não arriscarmos e não tentarmos, arriscar um novo emprego, um novo amor, um novo caminho, podemos não errar, e continuar exatamente onde estamos, mas também perdemos a chance de acertar, e realizarmos sonhos que achávamos impossíveis, pelo medo de errar, perdemos a chance de um novo despertar. E se pararmos para analisar a fundo, aprendemos sem sombras de dúvidas muito mais com os nossos erros que com acertos, que muitas vezes nos passam desapercebidos. Então nós não podemos permitir sermos manipulados pelo medo do novo, pelo medo da morte, pelo medo da dor, temos mesmo é que nos arriscarmos, e encontrarmos o que há de mais belo em nossos erros, e chegarmos a seguinte conclusão: Porque repetir erros antigos se há tantos erros novos pra escolhermos ?
Patricia Alves - Professora do Ensino funtamenta I, Agosto 11, 2009



As ilhas que somos

sábado, agosto 01, 2009 · 1 comentários

texto pós-férias

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Às 4h da manhã levantei-me e desci à cozinha. Fiz busca frustrada por um medicamento, qual fosse, para a garganta. Os que encontrei estavam todos com o prazo de validade há muito vencido. Frustrei-me em ter às mãos frasco de xarope tão bem conservado, mas tão impróprio para uso. O motivo já foi dado. Tudo era um problema de tempo, para simplificar a questão. Mas em um hospital o que se teria era a constatação da falta de organização. De qualquer forma, estava em minha casa, portanto, abandonemos essa perfeição administrativa tão falsamente vendida pelas empresas.

Errei em pensar que o outro xarope que encontrei fosse indicado para a circunstância enferma vivida por minha garganta. Meu erro grave e inocente fora fazer uso de medicação e somente depois verificar na internet as indicações dos princípios ativos informados no rótulo do frasco. Sim, a caixa fora para o lixo e com ela a tão necessária bula. Quem o fez, não posso afirmar ao certo. Pode até ter sido eu. Mas isto é irrelevante.

Em tempos de banda-larga, o horário não é necessariamente desânimo para uma pesquisa na rede mundial. E não demorou que eu constatasse meu engano. O remédio que fiz uso é indicado para alergia, entre outros problemas, o que me deu a certeza que minha mãe é quem o utiliza. O conforto foi saber que a droga em questão também serve para bursite, que é um processo inflamatório, salvo engano. Bom, mas o que se iniciava em minha garganta era exatamente isto. Fui dormir com o propósito de logo pela manhã comprar a medicação mais adequada. E eu já sabia em qual farmácia o faria.

Antes de retornar à cama, cobri meu cão com um cobertor. Era noite de frio. Ele estava na sala, no espaço que mais lhe agrada em um dos sofás. Subi, e já no quarto vesti uma blusa de lã. Debaixo do cobertor, luz apagada, percebi que o cãozinho viera buscar minha companhia. Dormi. Eu me levantaria às 7h do mesmo dia, caso não utilizasse as opções do celular que me ofertam mais minutos na cama. São dez a mais, e acho que não posso escolher. A função tem apelido e não a condenemos, afinal é útil e foi ótima sacada das fábricas de celular. E, em verdade, desconfio seriamente que é possível configurar a duração da soneca como se queira.

Não sei você, mas sempre que adoeço, logo que acordo e me levanto, tenho sincera impressão de melhora. Faço até uso do engano da cura, para depois ver que não é bem assim. Mas desta vez, se não houve a cura, deu-se a melhora, que muitas vezes pode ser enganada como passo para o fim da enfermidade.

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Tomei meu banho. Fiz a minha barba, e o resultado na pele me agradou. Não, o ânimo era pouco. Eu queria mesmo era ficar em casa. Ainda chovia e frio forte chegara no dia anterior. Tomei meu desayuno e quase nada dele foi para o cão. Preparei as refeições para o dia. Eu as levo em minha sofrida mochila. Isto é para aliviar meu bolso, bem como fazer crescer os músculos que sofrem cargas durante a semana. Quem freqüenta academia sabe do que falo. Quem entende do assunto, também o sabe.
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Fazia frio intenso para um país tropical. Chovia. As pessoas seguiam como sempre, ilhadas. As exceções estão por aí. Eu não sou uma delas. Minha ilha de emoções estava fortemente protegida por exército medroso.
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Nesses tempos de nova gripe, o transporte público é risco inevitável. Você nota todo o desconforto dos veículos que transportam inúmeros corpos, sobretudo quando está deveras cansado e estressado. No seu carro, possivelmente está mais protegido de um contato indesejado com alguém infectado pela nova doença. Quanto a isso, não restam dúvidas. Os problemas são outros, apenas. Enfim, viver na civilização tem preço, uma escritora mencionou. Às vezes, pode ser o simples e último contágio.
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Tinha mochila pesada nas costas, e não nego preocupação com tal peso, mas que não me lembro como se calcula o limite em relação ao peso do meu corpo, debilitado pelo cansaço, que em nada tem a ver com o retorno das férias. Em uma das mãos segurava a sacola com material de trabalho que usaria nestas primeiras horas desta sexta-feira gripada. Na outra, enorme paráguas preto que não entreguei ao amigo, conforme missão a mim confiada. Esse cansaço pede a companhia do estresse para habitar-me. O prejuízo fica todo comigo, calculo. Mas é possível fazer reflexão. Vai ver o cansaço que ir para outro corpo. Tem pressa e pede reforço a fim de me convencer em respeitar meus limites. Eu me resigno e lhes digo que sigo aprendendo. Em minha ilha, sou rei que obedece.
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No vagão do metrô, aquele que adentrei, todos os assentos estavam ocupados por diversas ilhas. A soma de todos os exércitos de cada ilha resulta na constante Guerra do Medo. Essa que nos faz tão agressivos e arrogantes uns com os outros. Guerra, cujo único vencedor é o medo, que não é o macro da questão. Esse desamor que cada um tem por si resulta neste nosso comportamento belicoso. A paz com o outro começa pela paz consigo. Enquanto isso, levantaremos nossas armas, inconformados com o que somos. O jeito é essa nossa arrogância, só assim para não nos sentirmos tão inferior ao outro. E, curioso, é a reciprocidade no comportamento. Enquanto isso, lancemos mão de paliativos. Compremos por aí. Façamos nossas dívidas com as operadoras de cartão de crédito. E, cada vez mais, fiquemos "protegidos" em nossas ilhas. E, como me disseram ter afirmado o médico, juntemos bastante dinheiro para gastá-lo quase todo com nossas doenças advindas de nossa castigada alma. E terminemos a vida absolutamente infelizes. A guerra continua.
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Desembarquei na estação São Bento. Minha comunicação estava um tanto limitada. Assinei o controle de presença do Metrô. Mas se não o fizesse, não seria cobrado pelo não-ato. Cumprimentei a moça do stand ao lado, sem utilizar de grande simpatia. Ela, por sua vez, ofertou-me novamente seu sorriso bonito, cuja beleza é limitada por seus medos. Se na Idade Média a grande prisão era o medo da morte, a condenação, alimentada e utilizada pela religião católica, a prisão atual são as nossas emoções, tão bem negligenciadas por nós.

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No decorrer das horas que deveria cumprir, na primeira etapa de trabalho, fiz as minhas leituras. Desejei me cercar de revistas, jornais e livros. Tudo como forma de isolamento. Até que me cansei de passear olhos por páginas a fio. Percebi dificuldade de concentração e abandonei as leituras. Quando então me armei de papel e caneta e teci as críticas aqui. E elas se dirigem a mim e a vocês. De certo, meu objetivo maior era fugir dessa minha ilha. Deixar nela apenas meu exército. Triste com a incerteza de obtenção de êxito. Feliz em saber que não sou solitário nessa revolução de si. Angustiado em saber que por mais algumas horas ficaria na estação do Metrô. O problema não são essas outras ilhas. Não me iludo, tampouco posso culpar o outro. E façamos justiça. Muitos que passavam por lá, seguiam livres, desamarrados, o que é bom. A senhora me perguntou as horas. Informei que faltavam vinte minutos para às 14h. Mas isto se fora há cinco minutos...
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sugestão de leitura:
"Os videogames", por Adalton Oliveira

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Sempre que posso entro no seu blog para ler um de seus textos. Hoje eu tirei um tempinho para ler esse que você relatou "as ilhas que somos ". Confesso que ri não pelo que aconteceu contigo, porque tomou o remédio errado, mas pela sua inocência!(rs). Olha, quanto ao seu cachorrinho, com certeza ele ficou feliz em dormir com você., principalmente nesse frio . A minha Kika, enquanto escrevo, está debaixo do meu cobertor (rs). Gostei da sua crônica! Melhoras, tá bom? Cuide-se. bjs


Naty Macedo, universitária, mora em São Paulo, é mineira




Resposta do autor:


Obrigado, querida! A minha garganta não chegou a adoecer! O cãozinho realmente adora dormir comigo, faça frio, faça calor (rs) bjs. Del



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Eu li uma frase do Arnaldo Jabor que dizia : "Estamos cada vez mais cercados de pessoas e mais sozinhos". Seja sozinhos em casa procurando um remédio que não encontramos ou na estação de metrô cercados de "ilhas". Essa é a realidade do ser humano, atrás de cararicaturas felizes, frases feitas e sorrisos amarelos encontramos o medo....não se sabe bem do quê, mas o fato é que ele existe!

Del, adorei essa crônica! Como sempre você consegue expor os fatos de maneira cômica e dramática a mesmo tempo!!
Bjs, Verônica, Pedagoga, Mora em São Paulo, é paulistana

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Resposta do autor:
O Jabor produz textos excelentes do ponto de vista literário. Do ponto de vista político, é odiado por muitos que conheço que ainda se dizem de esquerda. Eu fico com a parte literária, sempre com respeito às opiniões do escritor em questão, muitas das quais eu concordo.

Bj pra você também!
Del



Excelente texto, caro! Esse merece destaque .....

Jamais poderíamos ter a atenção das pessoas o tempo todo, mas concordo com vc que a modernidade afasta cada vez mais o convívio social, o amor e alimenta um "medo estranho" dentro da gente. É verdade...
Daniel Grecco, jornalista, futuro locutor de futebol, mora em Sampa






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blog debate

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Adalton Oliveira: Texto revisto. Acho que um questionamento é necessário: por que as pessoas vivem isoladas? Mas, será que elas vivem isoladas ou parecem assim viver? Será que isto é uma característica dos tempos modernos, que elevou o eu às alturas, ou é algo intrínseco ao ser humano? Há espaço para a crítica dessas situação ou apenas nos restar lamentar a nossa sina que nos obriga a viver reclusos? E aqueles que parecem que superaram o isolamento, de fato o fizeram ou é apenas mais uma máscara? Manter o outro distante não seria nada mais do que uma estratégia de sobrevivência; afinal, é preciso se estar precavido contra os estranhos?

Adelcir Oliveira: Eu acho realmente que se trata de precaução na maioria dos casos. Não apenas em função da violência, mas sobretudo uma precaução do ego. Creio que seja nosso instinto de defesa. E, desse ponto de vista, entendo a todos nós, Na verdade, devemos ser entendidos em todos os pontos de vista. De qualquer forma, percebo que o sentimento maior é o desejo pelo não-isolamento, afinal precisamos dos outros. Falo por mim, não gosto de me isolar em meio ao público. Minha carência grita do modo seu. Agora, há pessoas que me parecem tranquilas em silêncio seu, onde quer que estejam. Estas, eu admiro. A minha crítica é para os que não suportam esse isolamento, mas que o mantém, premidos pelo medo, sem buscar saída que seja. Eu, isolado, sou um deles. No fim, o que me parece ideal, digamos assim, é simplestemente ser livre, silenciosos ou não. Ao me cobrar, ao me incomodar com meu isolamento circunstancial, é sinal de que algo não está bem em mim. Essa é minha visão. Se se trata de algo intrínseco ao ser humano, essa questão do isolamento, não possuo elementos para discorrer a respeito. Por ora, prefiro a minha busca.

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Adalton Oliveira: Eu entendo isto. Estamos no campo da metafísica, onde as respostas são difíceis, senão impossíveis de serem dadas. Então, Alberto Caieiro pode estar correto; melhor não nos preocuparmos com isso, melhor aceitarmos nossa carência, encararmos com naturalidade nossa postura de isolamento; afinal, ela pode estar mais de acordo com nossa natureza do que a posição contrária. Algum poeta, que são quase sempre mais interessantes que os filósofos, disse que é preciso, antes de tudo, aprender a ser sozinho. Vinícius de Moraes escreveu que a solidão é o destino de quem ama, eu digo que ela é o destino de todos, amemos ou não. Sabe, meu caro, ando flertando com o budismo, uma maneira de viver na qual encarar a vida da forma como ela é torna-se questão fundamental. E, no budismo, o sofrimento é parte integrante e majoritária da vida. Daí, saber lidar com sentimentos negativos como ódio, solidão, angústia, excesso de desejos é um meio para se fugir da dor de viver. Concluo do que eu disse que Alberto Caieiro era budista.




Res

Adelcir Oliveira: Bela explanação. Eu concordo com os budista na seguinte questão: os fatos. Para mim, eles são como são. Mas carrego a ideia de auto-revolução. Não quero mudar os fatos, quero apenas melhorar como pessoa. Deixar a vida correr por si tem me ajudado, sobretudo com as mulheres, quando antes eu queria dominar tudo e criar relações. Hoje, o que tiver que ser será. Esse seu comentário de agora só posso publicar se me autorizar. SE quiser, posso editar e retirar as afirmações que se referem mais à sua intimidade.

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ps: o que mais gosto na discussão sobre o ser humano é a exata incerteza.

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Adalton Oliveira:Pois, melhorar como pessoa é o que o budista procura. Aliás, por uma questão lógica: já que os fatos são imutáveis, apenas eu posso passar pelo processo de modificação. Quanto a publicar o que eu disse, faça como quiser.
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Os debatedores:

Adalton Oliveira é revisor de textos do Opiniões&Crônicas e orientador literário do autor deste blog.

lAdelcir Oliveira é o autor do blog


O debate involuntário foi feito por meio de troca de e-mails. A próxima publicação no Opiniões&Crônicas será um texto de autoria de Adalton Oliveira sobre o medo. A participação nos debates é livre a qualquer pessoa. Basta enviar sua opinião para opinioesecronicas@yahoo.com.br



Monstros fabricados

quarta-feira, julho 01, 2009 · 1 comentários

texto reflexivo antes das férias
ppppppppppppppppp
Algumas leituras feitas e a reflexão que fica. Estranho saber alguns absurdos que se dão pelo mundo. Pior, é o cálculo do muito que ocorre e não sabemos. Acho que deveríamos fazer o movimento dos "Sem Informações". Talvez seja necessário refletirmos sobre o que não nos é informado. Nas próximas linhas ilustro esse pensamento.

Outra vez mais a boa revista Piauí. Um dos poucos exemplos de uma publicação de qualidade que foge do costumeiro ofício de vender tiragens. Foi nesta revista que fiquei informado sobre alguns dos absurdos que ocorrem lá nos Emirados Árabes. De certo, há muito mais absurdos que não chegam às páginas de jornal ou revistas, ou quem sabe às telas dos blogues. A matéria discorre sobre imigrantes que foram tentar a sorte em Dubai, iludidos por falsas promessas. A história que mais me tocou foi de uma mulher que deixou sua filha de quatro anos em sua terra natal para tentar a sorte como empregada doméstica em casa de estrangeiros abonados na cidade da “ilusão”. Trabalhou dois anos como escrava, com a promessa de pagamento no final do ano, até que não suportou e fugiu para a rua. Hoje, vive em albergue ou manicômio, e não tem como voltar pra casa, pois os documentos foram retidos pelos “patrões” de antes. Ela trabalhou para um casal de australianos. Tivessem eles um mínimo de humanidade não aceitariam essas regras de exploração do outro ser humano. Você lê e fica indignado. Depois, quando isso termina em tragédia, o algoz é visto como monstro. Mas se fizermos uma análise de toda a situação, poderemos depreender que o tal monstro foi fabricado por gente dita de bem, que durante anos matou o dia a dia de alguém que tentava a felicidade. Às vezes, os verdadeiros monstros se escondem atrás de tragédias.

O fato é que muito progresso tem sido alcançado com o sangue alheio. Eu me pergunto se Dubai não poderia construir suas torres tratando os trabalhadores de forma humanizada, de acordo com os Direitos Humanos, estes os quais inúmeros desavisados levantam bandeira contra, sem saber o que estão falando. Basta pensarmos que com a existência deles já há inúmeras crueldades, trabalho escravo, bem como tortura, entre tantas atrocidades que ocorrem e que não sabemos. Imaginemos se não existissem os Direitos Humanos, cuja defesa é feita por gente corajosa, debaixo de muitas críticas.

Não sei para o leitor, mas para mim é inadmissível que um presidiário seja massacrado entre as paredes de uma cadeia, sendo que seus gritos não podem ser ouvidos por mim, nem por você. Mas não sei se faria alguma diferença se ouvíssemos pedidos de socorro de alguém que é visto como o lixo da sociedade. Curioso é que todo lixo é produzido, de maneira que a obviedade do que está nas entrelinhas do que digo aqui derruba a opinião raivosa de muitos que por aí estão, entre eles diversos que roubam de modo mais polido, sem o uso de violência, como se cometessem o crime permitido.

Eu me recordo de um senhor que, ao avistar com seus olhos menores de rua badernando no saguão de um prédio, fez o discurso do extermínio como melhor solução. E aí me lembro de uma conversa que tive com um homem que dirigiu a FEBEM em São Paulo por longos quatorze anos e me relatou um fato absurdo demais, mas que de certo está ao gosto do senhor aqui mencionado. Ocorre que funcionários da instituição, feita para recuperar jovens menores que cometeram deslizes aos olhos da lei, juntamente com policiais, faziam a aposta fatal. Quem ganhasse o jogo lá no boteco poderia escolher qual menor seria espancado, mesmo que até a morte. Daí que o ex-diretor, que antes de assumir o cargo lecionava música para os menores, deu falta de um garoto que se destacava em suas aulas. Ao ser informado onde estava o menino, foi ao seu encontro, quando se deparou com um rosto desfigurado de tanta pancada que levara. “Ele era praticamente um músico. Eu o perdi”. O menino nunca mais freqüentou as aulas do professor, e não sabemos se ele ainda vive. Na rua, ele até pode ser dado como exemplo do que muitos chamam de “monstro”. Melhor indagarmos sobre os criadores desses monstros, ideal fecharmos a fábrica.
Não sei o que o leitor pensa a respeito. Eu fico extremamente indignado com fatos assim. Pior é saber que eles ocorrem à revelia da lei. A verdade é que raramente somos informados do que ocorre por baixo do tapete da vigilância, sendo que muitos, pagos para manter a ordem, preservar vidas, são os mesmos que tiram vidas, condenadas, muitas vezes, por condições sociais adversas. Para aqueles que o mundo pra si é perfeito, pois consomem e estão incluídos, meu lamento. Este mundo somente será melhor quando vivermos de forma humanizada e desenvolvida. Tudo bem, isto é absoluta utopia. Mas a busca por uma vida digna para todos não deve cessar. O blog volta no primeiro dia de Agosto.

clique no título do texto para uma sugestão de leitura




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Veronica deixou um novo comentário sobre a sua postagem "
Monstros fabricados":

Esse texto possui uma nota da realidade em que muitas pessoas preferem ignorar. Tenho conhecimento de muitos relatos feitos por duas pessoas que vivem neste meio (diretor geral da Febém e uma carcereira da prisão feminina) ex- colegas de faculdade.
Concordo plenamente com o autor e acho ainda que essas pessoas que vivem nessas instituições não terão chances de reabilitação enquanto nosso sistema penitencário estiver sobre os moldes de corrupção, vingança, descaso e abandono. É triste, porém verdade!

Verônica Araújo, 29, Pedagoga



Parabenizo mais uma vez o autor do blog.Seus textos são escritos de forma que faz com que nos aproximemos da realidade de maneira sutíl. Um desses que mais me chamou a atenção, que me tocou bastante, foi "Monstros fabricados" , que relata as condições precárias que os brasileiros , em sua maioria vivem, e, infelizmente, não recebem apoio em seu próprio país , sendo obrigados a sair embusca de uma vida melhor, vivendo sobre um domínio mais cruel que um ser humano pode viver. Aí eu me pergunto onde estão nossos direitos,cadê aqueles que defendem a nossa diguinidade. Nossa Constituiçao diz: temos direitos e deveres. Onde estão nossos direitos? Certamente estão bem guardados, onde se quer foram abertos. O único direito que é o de sonhar, tentando encontrar meios para uma vida melhor,e na maioria das vezes, quase sempre nem tem um começo, sabemos qual fim desta dura realidade.
Naty Macedo, 23, Universitária



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



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