Reivenção de si

terça-feira, novembro 18, 2008 ·

Como as coisas acontecem. Ele queria mesmo era dormir. Marcara horário com ela, mas cansaço e melancolia mudavam suas vontades. A moça titubeou em entrar no elevador e partir. Calculou que ele estivesse cansado. No fim, a obrigação tomou conta da situação. Às 22h daquele sábado sentaram-se frente ao computador e deram início aos trabalhos. Dali, só sairiam às 5h de domingo, com um intervalo para um café próximo ao local onde estavam.

"Você precisa se reinventar". Ouvira exatamente o que calculara pelas ruas do Baixo Mooca daquele sábado que lhe parecia triste, quando a auto-estima em baixos níveis o maltratava.

À mesa daquele café, o papo inicial. A vida alheia como pauta. Surpresas para ela, embora seja sabedora de que as coisas quase sempre não são como parecem. Sabe também que muito é discurso, nada mais que isto. Mera propaganda enganosa.

As conversas de início eram mero aquecimento para que eles virassem pauta, afinal de contas, falar do outro pode ser falar de si. E aí as confissões, as conclusões. Ele confessou sua prisão interna, seu estado de insatisfação. E ela, sábia agora, em função das experiências que passou, ensinou-lhe a necessidade de reinventar-se. Assim ela o fez. E só agora, reinventada, é que se sente feliz por ser outra pessoa, desta vez alguém melhor para si, e, como conseqüência, para os outros.

Não imagina quem lê, que frente a frente, xícaras de café estáticas sobre mármore claro, estavam duas pessoas que não se toleravam. Que em cochichos criticavam um ao outro. E que numa certa circunstância perderam as estribeiras e discutiram insanamente. Mas a vida é isso, circunstância. E, assim, pediu tempo para colocar o casal à mesa. Ali, debaterem um pouco sobre a existencialidade da vida. Nos elogios dela, pitadas para a obra da reinvenção. Conclusão a que ele chegara e que precisou de um café para firmar a certeza da empreitada. No dia seguinte, e talvez já naquele mesmo dia, ele estava melhor. De qualquer forma, não se iludia. Sabia que poderia ter sido mera injeção de ânimo dada pela colega. É preciso esperar, sabe. Observar-se. E, dadas as circunstâncias, reinventar-se vagarosamente. De certo, há muito que construir. Não que almeje a perfeição, faz tempo deixou isto de lado. Aprendeu que humano que é, cometer falhas é normal. E segue na aceitação de suas imperfeições. Apenas necessita reinventar-se para ser alguém melhor.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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