A questão da verdade e a crise financeira atual

quinta-feira, novembro 27, 2008 ·

blog convidado




por Adalton Oliveira










A Erística era uma arte empregada pelos antigos sofistas para vencer uma discussão e não necessariamente alcançar a verdade. Para Sócrates, chegar-se-ia ao conhecimento por meio da dialética, ou seja, por meio do encontro de opiniões contrárias conduzindo à verdade. Uma discussão supõe antes de tudo, a amizade, o respeito mútuo. Discutir, antes de tudo, não é brigar, não significa embate, mas sim diálogo, um meio para se chegar à verdade.



O que se verifica na maior parte das vezes é um desapego à verdade e um desejo de se vencer a discussão a qualquer custo, nem que para isto a verdade tenha que ser sacrificada. O que se busca é a vitória sobre o oponente, a autopromoção, a fama. Nesses embates orais quer-se desqualificar o interlocutor; lança-se mão de falsos argumentos a fim de provocar confusão, usa-se da mentira deslavadamente e, quando não há mais saída, apela-se para a violência – verbal ou física - pura e simplesmente. A discussão civilizada, aquela que objetiva alcançar um novo entendimento daquilo que se discute, a Sprachethik (uma discussão civilizada) de que nos fala Jürgen Habermas, é posta de lado. Cada oponente sai da discussão com a certeza de que manteve incólume sua opinião, de que a verdade ainda lhe pertence. No fim, nada aprendeu e coisa alguma ensinou.



O sofista faz da discussão um fim em si mesmo, o dialético a considera um meio para se chegar à verdade. Mas, existe uma verdade ou ela depende do contexto social e do momento histórico? A física newtoniana reinou incólume enquanto suas prescrições respondiam às questões até então formuladas. Mas, com as idéias de Einstein e com as perguntas que daí surgiram, as teorias de Newton já não eram mais capazes de explicar um universo que se “tornara” complexo demais.



Em Economia, nos últimos anos, reinou a verdade de que o Estado deveria ser reduzido ao mínimo, atendo-se apenas àquelas atividades que o setor privado não fosse capaz ou não quisesse executar. Pregou-se a desregulação a todo o custo e ai daqueles que se opusessem a ela, eram tratados como párias, como dinossauros, como “neobobos”. Vemos agora as conseqüências desse modo de pensar, materializado na crise financeira e econômica que ora recai sobre o mundo todo. Economistas que antes pregavam idéias ditas liberais, hoje, ou se calam ou se desdizem. Eu já tive a oportunidade (ou o desprazer) de estar em seminários com economistas da auto-proclamada corrente dominante no pensamento econômico, os neoliberais, adeptos das teses do Estado mínimo e total liberdade dos agentes (no sentido econômico, obviamente). Geralmente, muito bem vestidos e perfumados, entram na sala de debate com um ar arrogante, olhando seus “adversários” com superioridade; afinal, são eles os detentores de uma verdade sagrada. Com seus modelos econométricos complicados (e pouco úteis), verdadeiras cortinas de fumaça a esconder uma lamentável pobreza intelectual, buscam desqualificar as opiniões contrárias.



O capital quer apenas se valorizar. Deixado à sua própria sorte, ele se comporta como o moinho satânico de que nos fala Karl Polanyi, em seu magnífico livro A grande transformação. Ele destrói e transforma tudo que estiver à sua volta. Deixado à solta, o capital logo irá meter-se em confusão e, rapidamente, apelará ao Estado para que o socorra. O mesmo Estado que antes o capital queria ver distante. É o que nos mostra a dura verdade da crise atual.



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Adalton Oliveira é economista

opiniões opiniones

Parabéns pelo excelente texto...Criticar com propriedade é para poucos.
Sandra Regin, economista



1 comentários:

Sandra Regina disse...
novembro 29, 2008  

Parabéns pelo excelente texto...Criticar com propriedade é para poucos...

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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