Mesa dezoito

quarta-feira, novembro 26, 2008 ·

blog personas

Nas esquinas do mundo muitos bares, goles, conversas e desabafos. Na Augusta com a Oscar Freire encontra-se o tradicional Bar BH. Há sete anos a mesma mesa de número dezoito testemunha encontros e desencontros. Ali, um personagem conhecido da redondeza vende seus caleidoscópios para ajudar em sua dura sobrevivência. Estamos falando de Ludv Hoovi, o escritor chileno da mesa que intitula esta matéria. Brevemente, lançará seu livro em circuito internacional, "Agustâncias", uma simbiose entre a Augusta e as circunstâncias vividas por seus personagens da vida real.
É ali, aos finais de semana, sobre o pequeno objeto quadrado feito de madeira escura, que deitam copos, xícaras, cinzeiros e angústias. Pessoas bem resolvidas economicamente têm aquele espaço como uma fuga. "Aqui é o início de tudo", explica o jovem escritor. "Esse lugar é uma fuga para eles. Os relacionamentos com outras pessoas se dão aqui, tendo a mim como elo". "São pessoas lúcidas, mas que sentem a dor na alma em função do mundo em que vivemos".
Durante a nossa entrevista, nosso entrevistado aponta um ou outro personagem. "Todos são sociopatas. O meu livro aborda a questão psicossocial". O que se percebe claramente, é que a obra do escritor chileno funciona como uma espécie de terapia, no caso, literária. É, sem dúvida, uma forma que as pessoas das quais "Agustânças" trata têm de se expressar. "No livro, eu construo diálogos que o representam".
O que podemos observar é que há um grande carinho em meio àquela roda de pessoas em volta à mesa já mencionada. São homens e mulheres com boa formação cultural, cujas almas estão adoecidas. "Elas já conquistaram tudo. Querem algo mais. Nossos momentos aqui funcionam como uma fuga para eles".
É curioso, e muito prazeroso, ter contato com humanos que você poderá ler em um romance. O que resulta em um desejo ter observá-las, bem como investigá-las pscológicamente, para depois confrontar com as palavras escritas pelo nosso personagem. Estranho, é que por alguns momentos eu me pergunto se Ludv realmente é o personagem central desta história. Num ato de surrealismo, elejo a mesa dezoito como ator principal das cenas que meus olhos captam. Afinal de contas, ela é o início de tudo. É a mesa que está sempre ali, senhora de todos os momentos, testemunha das confissões, dores expressas em ato destrutivo de sorver álcool. Para ela, ninguém precisa fingir sentimentos. Não é necessário dizer palavra alguma. A mesa, é a mesma, indepente do que ocorre ali. Abandono meu devaneio. Olho para o advogado que compõe o elenco da "Augustâncias". Juntamente com o maestro, que jamais o vi sentar, em todas as visitas que fiz, parecem-me os mais aborrecidos. Vejo tristeza permanente no olhar de cada um. Mas claro, pode ser que simplesmente cometa uma ato de projeção.
O que sinto é que, no local onde estamos, naquela pequeníssima fração do mundo, ausentam-se os sentimentos de competição que permeiam o dia-a-dia do paulistano. Parece-me haver um desprendimento de tudo que nós é vendido pelo marketing constante que nossos sentidos podem captar. É interessante a sensação que tenho em meio àqueles humanos. É como adentrar um espaço deles, mas que não se encontra fechado para aqueles que querem apenas dividir momentos agradáveis juntos.
Se no início, a gerência do BH não gostava da presença de Ludv, hoje há uma parceria não declarada entre eles. Afinal de contas, muitos voltam ali simplesmente para ter com o vendedor de caleidoscópio. A bebida, ou o que se pode comer ali, são é apenas complementos. Eles voltam ao espaço pela busca da companhia gostosa de Ludv, que se mostra alguém que gostar e se permite ouvir o outro. Em meio a tantas vozes caladas nesta metrópole da solidão, um ser humano, que mesmo vivendo precariamente, tem o gosto por saber das angústias alheias. Uma espécie de consultório a céu aberto. Cuja divã, podemos dizer, é a uma mesa. O número já foi dito.


texto estraído da revista feita como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso)



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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