Um dia como outro

domingo, outubro 12, 2008 ·

Faz um tempo que mudei de jornal. Sigo lendo um outro que também é de grande circulação no país. A leitura é feita com estrita vigilância, feito os trens do filme a que um dia eu assisti, mas que a memória não registrou quase nada, cujo nome é "Trens estritamente vigiados". De certo, terei outra chance. Mas o assunto aqui não é a obra que vi em tela de minha sala, nem mesmo o periódico, mas sim aquele que domina as páginas de toda imprensa mundial. Falo de um fato que tem dado preocupação grande a muitas pessoas, excluídas aquelas que seguem à deriva dos fatos. Trata-se da crise financeira mundial. Evidentemente que não posso abordar aspectos econômicos, pois não sou especialista no assunto. Deixo apenas aqui as sensações minhas que tenho ao ler sobre o assunto em questão, posto que nós leitores espalhados por todo este mundo não somos lá tão diferentes.

Um indivíduo no metrô de São Paulo. Outra na Rússia. Um alemão em Berlim. Japonês. Inglês. Irlandês. Americano. Este último, de certo o mais preocupado. Quem sabe um dos que hipotecou sua casa para ter crédito para especulação, mas que agora não tem liquidez para honrar o compromisso assumido. Outros compatriotas que se embrenharam no mesmo negócio, parte deles, mora hoje em seus automóveis, pois tiveram que entregar as casas, que eram as garantias oferecidas aos bancos para tomarem empréstimos e assim consumir como queriam.

Aquele indivíduo que lê o caderno de economia no metrô desta capital que é caótica em muitos aspectos, mas que segue trabalhando para ser uma metrópole referêncial no mundo. Preocupa-se. É avisado que o Brasil crescerá cerca de 5,4% neste ano. Que os fundamentos da nossa economia são sólidos e nosso sistema bancário é muito bem vigiado pelo Banco Central. Fica mais tranquilo. Mas e ano que vem, indaga-se? E meu emprego? E os mais pobres? E as ações irrisórias que possui? E lamenta-se que há algumas semanas atrás só lia boas notícias sobre economia a respeito do seu país. Agora, a inflação corre riscos por problemas de vizinhos ditos irrresponsáveis.

A cada dia que lê um artigo busca neles uma frase que alivie a preocupação, o medo. Economia e política tangem nossas vidas, aprendeu faz tempo. E sabe que o assunto não é lá tão palatável à maioria das pessoas. Quer uma análise, uma afirmativa cheio de certezas que diga que o pior já passou, está tudo sobre controle. Algumas vezes consegue linhas que apaziguam a preocupação. Mas lê vez em vez que o incerto está no ar, que os mercados estão nervosos. Constata nas leituras as derrocadas das bolsas em todo o mundo.

Enquanto escreve este texto, ao prosseguir dois dias após tê-lo iniciado, pensa que poderá afugentar o leitor com tal assunto. Assim, cresce nele a intenção pela completa declinação. Então, volta para o local do início, aquele vagão de trem do Metrô de São Paulo. Tudo limpinho. Avisos sonoros ofertados aos passageiros de modo educado. Vai demorar para as pessoas se acostumarem a não aglomerar nas portas dos trens, pois é este o maior motivo da atraso dos trens. Obediente, assim que adentra ao retângulo da composição, busca o corredor. Mas sabe que muitos precisam desobedecer para se auto-afirmar. Coisas do ser humano, já não se revolta.

O assunto em questão pede passagem novamente. Até o final da viagem, é possível que o índice da bolsa de valores de São Paulo caia mais um pouco. Muitos irão perder mais dinheiro. Recorda-se do telefonema do corretor, afirmando que o momento é bom para investir. Mas mesmo que estivesse desavisado não teria fechado negócio, pois não tinha dinheiro para tal.

Dorme. O sono é grande e o assento de plástico é convidativo, embora isto pareça estranho. Cerra os olhos sem constrangimento algum. Acorda vez em quando. As manchetes estão em suas mãos, impressas na folha daquele jornal. Sente um cheiro desagradável e não compreende a razão do odor. Pensa que é da estação por qualquer motivo que seja. Após dormir mais um pouco, é obrigado a levantar-se para dar lugar à uma senhora que aceita de muito bom grado a gentileza vestida de obrigação. Mira olhos para atrás e vê o porquê do cheiro. Uma criança vomitara. Expressa indignação, que na verdade é o receio de que o vômito pudesse ter golpeado sua roupa. Um dia destes acordará com a roupa suja por necessidades alheias, pensa.

O fim da viagem já se deu, é rápido mesmo, quando você se dá conta, já foi. Abre a chave da porta da sua sala onde cumpri carga-horária que é de meio período. Liga o computador e novas notícias sobre a crise externa estão estampadas no site em que se conecta para verificar sua caixa-postal. Clica em alguns links, quer mais notícias, precisa se atualizar. É a velocidade com que chega a informação desde o advento da rede mundial de computadores. Para alguns, o jornal de papel está fadado. Mas na internet, ele não encontra o aprofundamento que gosta nos periódicos de papel.

Dali em diante, o trabalho irá tomar seu tempo. Neste ínterim, há um desligamento do mundo das informações. Agora opera algumas tecnologias. Mas à noite, terá em mãos o exemplar do dia do jornal que não é exatamente o preferido. Cansado de ler sobre economia, fará opção inicial por política. Vai ler sobre as eleições municipais, assunto que o interessa. Mas talvez, de cansado que estará, abdicará de leituras. Ficará a ora olhar o nada, ora observar o todo, que se fragmenta em sua inevitável subjetividade. E este é apenas um dia de tantos outros. Até que não mais.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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