Triste fim de Policarpo Quaresma: o herói inexistente

quinta-feira, outubro 23, 2008 ·

blog convidados



por Adalmir Oliveira, piscólogo

É árduo para qualquer escritor ou cronista, ou seja lá quem for, escrever sobre o Brasil com um olhar crítico. Como brasileiros, tendemos a ser parciais. O Brasil é um país de contrastes, imenso, pluricultural, com uma identidade própria e ao mesmo tempo difusa em suas diversas, quase infinitas nuances. Entretanto, o que trago hoje como reflexão não me permite ser parcial, pois tem a ver com ética, vocábulo conhecido, mas nunca vivido pela sociedade brasileira. Há pouco mais de um século, o médico espírita Bezerra de Menezes afirmou que a sociedade brasileira estava gravemente enferma. Depois de tanto tempo, o que se pode, ainda, dizer? Eu respondo: o mesmo. Desde o Brasil colônia de Portugal (hoje colônia dos EUA, Europa, Japão, China e de quem mais chegar), nosso país sempre inexistiu. Primeiramente, para os portugueses. Não passávamos de um pedaço imenso de terra para extração de riquezas. Inexistimos para os portugueses um dia e hoje inexistimos para nós mesmos. A sociedade brasileira está gravemente enferma. Falta-nos saúde mental, boa auto-estima. Fomos a latrina de Portugal, dos colonizadores europeus, dos norte-americanos. Hoje, pelo que vejo, escolhemos ser latrina, ou viver nela. Aceitamos o matagal à beira dos rios, as fezes que flutuam nas águas não tratadas, as ruas sujas por nós mesmos, os cães soltos, abandonados nas cidades, o mau cheiro, o ar poluído, as crianças chorosas de tristeza por causa da pobreza e dos maus tratos que recebem de seus pais, também maltratados ao longo de suas vidas, crianças que foram um dia. Aceitamos pequenas ilhas de opulência ao lado de tudo isso. Aceitamos um Estado inexistente, que escolhe não existir para o povo que teoricamente representa. Aceitamos uma elite que nos dá algo de comer e vestir todos os anos por meio dos programas da televisão, Unicef, Teleton, etc., mas que nunca se comprometeu com um processo legítimo de transformação social. Lembrando Dom Helder Câmara, dão o pão, mas não questionam por que falta o pão. São cinco séculos de indiferença e descompromisso emocional com o outro. Não existe alteridade no Brasil. Aludindo a Goffman, a dor e a tragédia se tornaram o espetáculo a ser consumido nos milhões de lares, graças a uma imprensa que sobrevive da dor e da lamentação. Bebe até a última gota do sangue dos sofridos. Ganha milhões de reais com isso. Nós escolhemos vê-los todos os dias. Não aprendemos a desligar nossos aparelhos de televisão para que percebam em seu bolso (só assim para sentirem alguma coisa!) que merecemos o melhor. Obviamente é legítimo que saibamos o que acontece. Mas, eu sinto pessoalmente que a dor é explorada para além da necessidade de informar as pessoas. É, por outro lado, um instrumento explorado até as suas últimas conseqüências sem nenhum interesse de convidar a população a refletir sobre as causas que nos levam a sermos uma sociedade tão indigna de ser chamada de humana. Escolhemos ser subumanos. Não fomos postos nesta condição pelos norte-americanos ou europeus. Eles não têm esse poder. Aceitamos estar aqui, ter chegado aqui. E é onde estamos hoje... Carl Rogers dizia que para nos curarmos, precisamos, primeiramente, aceitar onde estamos. Voltando à triste imprensa brasileira, não posso culpá-la como a responsável por nossa desgraça histórica. São jornalistas, editores, etc., filhos de famílias brasileiras. Como disse João Ubaldo Ribeiro, vieram de casas brasileiras, são a nossa cara. Quando os vemos sugar a tragédia e torná-la espetáculo de consumo, é a nós mesmos que estamos vendo. Jean Baudrillard responsabiliza as massas, a quem ele chama de "maiorias silenciosas", por serem o que são, ou o que escolheram não ser. Araceli, Eloá, Lindenberg, o maníaco do parque, o bandido da luz vermelha, Lindomar Castilho, Daniela Perez, e tantos outros são vítimas de nossas escolhas, do abandono em que escolhemos viver e ao qual nos condenamos um ao outro. A violência contra a juventude e a infância está fora do controle. O narcotráfico é um Estado paralelo. Já não sabemos quem nos governa. A polícia briga entre si enquanto ficamos alheios às verdadeiras causas de tanto ódio mútuo. Os brasileiros aceitaram ser reféns de sua própria história medíocre. Não somos nada para quem nos colonizou e escolhemos não ser nada uns para os outros. Coitado de Policarpo Quaresma; triste fim realmente. Uma personagem idealizada, o sonho de um brasileiro que teria construído outro Brasil se não fosse tão só e irreal. Muitos o leram e o lêem. Mas, não somos Policarpo. Parece que não queremos existir. Um exemplo disto é a última tragédia televisionada em tempo recorde pelas emissoras de televisão brasileiras. Não houve ninguém competente para realmente desarmar o assassino de Eloá. Nenhuma classe profissional conseguiu desfazer o desarranjo interior do jovem Lindenberg. Não puderam, pois não tinham sensibilidade e educação suficientes para compreender o abandono existencial em que vivia e que o levou a uma atitude tão extrema e condenável. Pensei comigo: provavelmente, isto se deu porque, em nosso contexto brasileiro pós moderno, o outro não existe. Perdemos a habilidade de persuadir o outro a resgatar a sua humanidade. Afinal de contas, o outro deixou de existir para nós. Não houve um ser completamente humano que tivesse essa competência. Somos todos vítimas. Está certo. Mas, somos as nossas próprias vítimas e reiteramos a decisão de sermos vítimas de nossa própria insensatez. O futuro a que nos referíamos com tanto ardor no século passado já chegou. Somos, cada um de nós, sem exceção, os frutos de quinhentos anos de inexistência. A sociedade brasileira está gravemente enferma!



1 comentários:

Gabriel disse...
março 28, 2010  

texto PERFEITO!

por um olhar critico, é o que resume nossa sociedade hoje em dia.

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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