Trinta minutos de uma ida

quinta-feira, outubro 09, 2008 ·

Utiliza as palavras iniciais para provocar os sentimentos quietos dentro de si. As emoções, para que aflorem, necessitam motivação. Elas não se dão como desejamos, em momento escolhido. É por isso que quase todas as vezes que se propõe um texto, faz consigo provocação interna de sentimentos.


Sentou-se ao lado dela. Poderia ter sentado junto àquele senhor, mas fez rápida opção. Havia um motivo, pois o banco por ora preterido era de fato o preferido. Mas o homem com mais idade sentava-se de forma tal que ocupava quase todo o assento que não era o seu. Como negou a si o uso da palavra educada para sentar –se onde realmente queria, ficou junto à moça, e já estava de bom tamanho.


Mecanicamente abriu o jornal que não era de hoje. Leu algumas linhas com desfoque na atenção. Sem demora, compreendeu que não desejava tal leitura. Preferia observar, e, sobretudo, expressar seus sentimentos. Nada escreveu no momento relatado, embora tivesse tencionado fazê-lo. Observou os demais seres humanos. Havia nele, lamento por si e pelos demais ali presentes. Gostava-se naquele momento. Alguma esperança o tinha, e os seres humanos pareciam-lhe mais belos em suas essências.


As estações foram passando e sono algum o visitava. No olhar, ausência daquela dureza que finge proteção. Depreender que se tratava de uma serenidade alcançada é equívoco compreensível. Naquele quadrado preenchido de corpos e sentimentos, era ele um pote até aqui de emoções, como poderia dizer alguma canção do Chico. Em alguns momentos o olhar para o piso emborrachado era evidência de um aborrecimento. E, embora um pico de infelicidade o incomodasse, não sentia a angústia que este sentimento costuma trazer. Ao final dos cerca de trinta minutos da viagem, sentia-se melhor. Talvez fosse a clara evidência da boa administração que fizera de suas emoções.


Antes da chegada à estação de partida, cumprira obrigações financeiras. Até então, havia nele um pico de agressividade. Ao caixa daquele magazine não foi e nem quis ser simpático. Ainda representava o personagem metropolitano que, mergulhado em lodoso individualismo, caminhava mal humorado e com passos apressados ao seu destino indesejado, mas que obrigação e necessidade faziam-no abdicar dá liberdade desejada no ínterim em questão.


Lembrou-se que lera belíssimo samba escrito por Chico. A mesma canção que ofertara pela manhã com a utilização de outro sentido. Reafirmara a si a necessidade que todos têm pela arte, e que talvez seja a melhor invenção do homem, embora muitas vezes em mãos equivocadas.


Pausa. Silêncio. Por alguma razão a porta literária se fecha. Um lapso que não consegue explicar levou-lhe os sentimentos que lhe ofertam palavras para que sejam expressas no branco do papel. De repente, viu o cessar de luz. A porta fechava-se lentamente. O silêncio pedia lugar. Obedeceu sem querer compreender. E assim, submissamente, guardou a caneta. Dobrou papel. Cruzou braços e pernas. Olhou ao redor. Calou-se.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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