Fato e reflexão

segunda-feira, outubro 20, 2008 ·

blog discussão

Parece que o blog adentra a uma fase mais jornalística, prendendo-se aos fatos, muito embora eu acredite que a vida não seja feita só de novidades, muitas das quais absolutamente desnecessárias. Aliás, podemos até fazer uma pequena e singela reflexão sobre muitas notícias veiculadas pelos mais diversos veículos de comunicação. Daí então, o telespectador é informado que um automóvel entrou dentro de um bar, que um botijão explodiu em uma casa, que um cachorro matou seu próprio dono. São fatos que ao saber deles nada somam ao crescimento de qualquer indivíduo. Mas é jornalismo, barato, mas é. É, penso, modo de manter o sujeito anestesiado dos fatos que realmente interessam. Um trabalho para a manutenção das coisas como elas patéticamente são.

Imaginemos um veículo de comunicação desprendido de interesses políticos e comerciais. Digamos que ele fiscalize, como é um dos papéis da imprensa, a gestão da prefeitura. De certo, teria muito a contribuir para a população, na medida em que seria ferramenta de cobrança para uma administração eficaz e condizente com o interesse da cidade. De certa forma, os jornais até fazem isto. Mas pensemos bem. Se há tanta corrupção, e todos nós sabemos que há, por que jornais e revistas dedicam tão pouco espaço às investigações neste sentido? Parece-me que há uma espécie de corroboração com atos lesivos aos cofres públicos.

Voltemos ao blog. O fato é que há uma ausência de luz literária que fez este blog silenciar textos. Esperar, deixar a solução no tempo, é opção válida. O que não se pode é abraçar a indiferença e deixar o leitor sem qualquer satisfação. Assim, fica depreendido que se dá sobre o autor do blog morte de palavras, que lhe calaram textos ao longo da semana que se passou. Opção é atentar-se aos fatos. Parece que este é caminho mais fácil, embora não seja desejado, uma vez que este blog se caracteriza muito mais por um aspecto literário que jornalístico.

A escolha do fato. O lamento pela morte da menina sequestrada pelo ex-namorado com sérios problemas emocionais. A falha da polícia. O apetite da imprensa. A esperança da família e de muitos brasileiros solidários. E a certeza de que não é a última tragédia, pois que sempre teremos fatos trágicos em sua duração, bem como em seu desfecho, o que faz tinir diversos repórteres, editores e pauteiros. Daí, você vê na TV debate sobre a tragédia. É a imprensa brincando de ser séria, quando na verdade faz é exata exploração da morte alheia, fingindo interesse real pela questão, quando em verdade estão em jogo os índices de audiência, o quanto se ganha, bem como a exposição do jornalista, o que resulta em valorização do seu "passe".

Evidentemente que não se propõe aqui que a imprensa se cale. Tragédias sempre vão ocorrer e faz parte do papel dos veículos de comunicação fazer a cobertura, bem como trabalhar nos desdobramentos. Só não nos iludamos com a existência de preocupação real com o sofrimento alheio. Talvez não devamos entender isto como uma crítica, senão como uma reflexão sincera, pois é possível que a postura do jornalista seja diferente mesmo, desprendendo-se do fato, realizando seu trabalho jornalístico o menos subjetivamente possível. No fim, acho que dá pra entender. Apenas a audiência pode ficar alerta e não se iludir com emoções que se tentam passar.

O blog lamenta a morte da menina assassinada pela ciúmes doentio, advindo de uma baixa auto-estima por parte do seu algoz, lembrando que diversos pares de muitas mulheres as matam dia a dia. O que podemos dizer é que a família perde boa parte da alegria necessária para enfrentar a vida. O rapaz, preso por ora, realizou seu trabalho de vingança. A justiça irá condená-lo, posto que é cidadão pobre. Se fosse um homem rico, poderíamos duvidar da eficácia das leis, como no caso do promotor de justiça que matou e volta ao trabalho por determinação do STF. Mas o sequestrador é pobre. De certo, não terá muito tempo de vida, pois alguém poderá vingar a morte da menina. Mas isto é outra questão.

Gostaria de poder entrevistar o sequestrador. Investigar causas. Saber de fatos que a imprensa tradicional não pesquisa. Saber mais do que está por trás. O ser humano é isto, uma caixa- preta. Eu gostaria de abrir a caixa-preta do fato. Investigar passado. Sem querer inocentar quem quer que seja. E com a certeza de que a família daquela que se foi sofrerá por um tempo imposto pela morte. "É o preço que pagamos". Não foi, nem será a última vez.



2 comentários:

Lilian disse...
outubro 20, 2008  

Dica de leitura...Textos ácidos e sarcásticos, pra quem quer ficar por dentro dos assuntos políticos de forma leve.


www.mosaicodelama.blogspot.com

Boa leitura!

Caroline disse...
outubro 23, 2008  

Concordo plenamente!

Gostei do Blog...

Bjos

Carol

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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