Justiça de ricos contra pobres

sexta-feira, outubro 24, 2008 ·

blog reflexão


Venha comigo. Façamos essa reflexão em conjunto. De que adianta divagar sozinho? Pra que tanta ilha de si? A questão a refletir. O rapaz que sequestrou a namorada e a matou. Deixemos de lado as falhas da polícia. Peguemos o algoz da vítima. Imaginemos que ele é alguém da elite, um promotor da Justiça de São Paulo, por exemplo. Então, fez tudo igualzinho. Sequestrou. Apontou uma arma. Deu material de trabalho para a imprensa. No final, a polícia invadiu e ele cumpriu sua palavra, apertou o gatilho contra a cabeça da menina. No dia seguinte, o jovem promotor aparece na tela de um site. Seu rosto não está inchado por pancada alguma. Neste mesmo dia, seus advogados entram com um pedido de habeas-corpus no STF (Superior Tribunal Federal), que aprecia favoravelmente a solicitação. O jovem rico, promotor de justiça, está solto. A menina morta. A família pobre chora. E o criminoso, que é alguém da classe dominante, não é hostilizado pela imprensa, tampouco pelas pessoas.Esse fato que criei tem verdades as quais todos conhecemos. Pois um promotor de Justiça em São Paulo, num passeio pela praia, matou um outro jovem após este ter desrespeitado sua namorada. Foi uma reação de momento, descabida, tudo bem. Mas a lei está aí para impedir e punir atitudes humanas que resultam na morte do outro. Pois bem, o jovem promotor foi reconduzido ao cargo. O bom salário que recebe é pago por mim, por você, por outros. Ou seja, pagamos um enorme soldo para um funcionário público que matou um outro ser humano por puro ciúmes, muito provavelmente levado pela sua enorme vaidade, bem como uma sensação de impunidade que permeia o crime no Brasil. Mas e se o promotor não fosse promotor? Se fosse um ajudante de um serviço mais simples? Ele estaria nas ruas? O STF teria concedido que ele retornasse às suas tarefas do dia-a-dia? Aliás, ele teria acesso ao STF? Não creio. A Justiça no Brasil foi desenhada para proteger os ricos contra os pobres. De qualquer forma, não devemos fechar os olhos e apenas lamentar. O Brasil ainda não é um país democrático de fato. Caminhamos para tanto. E chegaremos lá? Não sei. Mas caminhamos. De qualquer forma, falta a nós não-membros da sociedade dominante nos apresentarmos e lutarmos por nossos direitos. Neste sentido, o eleitor tem um papel fundamental. Se votar em pessoas mais parecidas com ele, que conhecem a sua realidade, que vivem de modo parecido, as chances poderão ser maiores no sentido de conquistar uma sociedade mais plural e democrática. Eu falo, evidentemente, do eleitor pobre, ou até da classe-média. Talvez aqui possamos filosofar e crer que a divisão do poder deveria se dar em função das camadas sociais. Neste sentido, a elite seria menos representada, na medida em que é bem menor sua participação em termos numéricos na sociedade. No Brasil atual, há uma inversão. São justamente aqueles que têm mais poder econômico os representados de modo mais eficiente nos diversos poderes. O que se tem é uma elite que não permite muita abertura, uma democratização das nossas riquezas. E este comportamento é corroborado pelo individualismo que impregna nossa sociedade. A própria classe-média luta para crescer economicamente. No Brasil há a tripudiação sobre aquele que tem menos. E há o endeusamento dos que são mais ricos, não importanto seu caráter, bem como seu comportamente ético. Para encerrar, retomemos o promotor e o ajudante. O primeiro está livre, embora tenha tirado a vida de alguém. O motivo foi uma mulher. O segundo está preso e já foi bastante espancado. Tornou-se uma assassino por causa de mulher também. A diferença é que fez vítima exatamente o elemento feminino. Enfim, ambos cometeram um crime. Assassinaram uma pessoa. Mas por que a justiça brasileira os trata de modo diferente? Por que termos certeza de que um ficará preso, e ainda desconfiamos que será executado atrás da grade? Enquanto, sobre o outro, temos a grande incerteza de que será punido? Por quê?



1 comentários:

naty disse...
julho 04, 2009  

Parabenizo mais uma vez o autor do blog ,seus textos são escritos de forma com que aproximamos da realidade de maneira sutíl.
um desses que mais chamou á atenção, que me tocou bastante
" monstros fabricados" que relata as condições precárias
que os brasileiros na maioria vivem e imfelizmente não recebem apoio em seu próprio país ,sendo obrigado sair embusca de uma vida melhor, e vivendo sobre um domínio mais crel que um ser humano pode viver, aí eu me pergunto onde está nossos direitos,cadê aqueles que defendem a nossa diguinidade,na constituiçao diz:temos direitos e deveres, onde estão nossos direitos? certamente está bem guardado, onde se quer foi aberto.
único direito que é o de sonhar.
tentando encontrar meios para uma vida melhor,e na maioria das vezes, quase sempre nem tem um começo, sabemos qual fim desta dura realidade.

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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