Culpado no espelho

quarta-feira, outubro 29, 2008 · 0 comentários

Passou por aqui. Olhos arregalados e olhar horizontal deram-me a impressão de sua ilusão. Havia entusiasmo demais em cada passo dado. Algo ali era mero discurso, invenção. Aquela expressão de felicidade não me convenceu. Toda ela parecia-me pura ilusão de si.
Antes disto, pessoas pra lá pra cá. Parecia-me uma imensa escuridão onde ninguém nada enxergava, como na obra de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. No livro do escritor português, apenas uma pessoa enxergava. Fica dito, eu não me confundo com ela.
Aborrecido, afirma que se fosse um desavisado se entristeceria menos. Queria a si a cegueira intelectual. Um discurso seu que me foi relatado por um terceiro. Se você acredita nas palavras ditas pelo ser melancólico, tem meu respeito. Se desacredita e entende que não passa de discurso em vão, tem a minha concordância. É e assim pra mim, discursos não me convencem, sobretudo quando o comportamento desdiz a pessoa no púlpito.
Essa minha acidez é de agora. Na mistura humana, diversos ingredientes. O que vale é a dosagem de cada um. E isto é absolutamente circunstancial.

Voltemos à cegueira geral. Olhemos ao redor e não enxerguemos ninguém. Ignoremos o outro como quem vinga de si. É o desamor alastrado. Fiquemos com os produtos. Amemos-os! E depois abracemos a solidão como quem não existe nem mesmo para si. No final, façamos a escolha do culpado. Nos isentemos de qualquer responsabilidade. Mas antes do último horizontal, olhemos no espelho. Mesmo que não enxerguemos, o culpado estará lá.



Papel de outra cor

terça-feira, outubro 28, 2008 · 0 comentários

No papel, o desenho azul de letras de um cinza interno que faz visita. Já não está mais na sala de espera. Já visitou todos os cômodos, espalhando emoções indesejadas. No ato sem vontade. Na palavra não dita. Na negação do olhar, resquícios de uma "desvontade". Assim que entrou o cinza por uma porta, entes disto, pela porta mesma, foram-se as vontades. E o que é um ser humano sem vontades para realização de simples ato, como, por exemplo, o de se comunicar?
Quisera que fosse cinza a superfície que recebe o deslizar esferográfico de agora. E assim, a cada linha, usasse cores diversas de tinta e pintasse dentro de si um novo quadro. Contudo, a rigidez da moldura não permite troca da tela indesejada. O que se tem, então, é obra de si que prefirira não ter.
A máquina humana só aceita um OFF. É pena, pois desligar vez em quando seria até bom. Mas esta opção talvez não fosse a melhor. Das cinzas da alma ressurgimos cada vez mais fortes. No momento das emoções em labaredas, a sensação de fraqueza é doída. E o problema pode ser a busca pelo prazer que nos foi imposto pelos diversos mecanismos de comunicação. É proibido ficar triste, diz as entrelinhas do filme, cuja idiotice maior está no indivíduo que segura saco de pipoca e se sente igualmente idiota ao outro. Ele é o outro. E no semblante enganoso carimba satisfação e felicidade inventadas. É a sociedade dos discursos. Em algum momento, quando a morte bater à porta, o indivíduo irá furtar-se dos seus discursos. Aquele "eu é um outro" dará as caras. E aí, apenas neste momento, é que ele se fará amar. De qualquer forma, se a morte resolver ficar, o tempo sepultará os bons sentimentos que no momento fúnebre você admitiu ter por ele. O que restará serão apenas não-lembranças...



Seca literária

segunda-feira, outubro 27, 2008 · 2 comentários

blog seca

Crise mundial. Escassez de dinheiro a ser emprestado. Queda nas bolsas. Bancos socorridos. Governos atônitos. Empresas e a obtenção de enormes prejuízos. Mas isto não é o assunto de agora. A escassez aqui é outra. Seca literária. E aí a pergunta: onde estão os textos? Cadê inspiração? O que dizer? E esse silêncio, por quê?
São indagações. Respostas se ausentam. Talvez algumas emoções de outrora, numa declinação do entusiasmo de viver, na distorção dos fatos, bem como na projeção nas diversas leituras humanas dadas em momentos e lugares variados, tragam alguma idéia. Mas passou a torrente emocional. O tempo seco permanece.
Escrever tem disto mesmo. Você passa dias e não vê luz alguma. Até abre esta ou aquela porta, mas pouco enxerga, senão palavras, cujo agrupamento não forma orações conexas. E nesse não emaranhado, você se cala. De qualquer forma, uma inquietação há. E aí o dado positivo, pois o incômodo é ferramenta exata e necessária para a revolução. Nessa revolta, você quer aguçar sentimentos, prolongar olhares. Mas há as emoções. Este descompasso. Um encontro nocivo. Não adianta perguntar o que será agora. Só o tempo passando. Somente ele prosseguindo sua viagem sem rumo e sem volta. Só assim você poderá se desamarrar dos laços da opressão que suas emoções de então lhe impõe.
Calma, leitor. Respire um pouco. Talvez os parágrafos iniciais tenham sido sufocantes. Abra a janela, deixe o vento entrar. Aqui, nestas quatro paredes que cercam e presenciam o ato da digitação não há vento que passe pela janela. Calor. Esse tempo quente. Sufoca alguns. Provoca ebulição de hormônios em outros. As reações variam, não há como enumerá-las. Aqui, neste quarto, a luz acessa, o cão à porta, barulho do ato de cada dedo sobre o teclado. O ambiente muito mal descrito, pode o leitor visualizar. Há mesa. Armário. Cama. Tapete. Cadeira. Cor. Odor. Sensações. Há ausências. Há pouco. Há muito. Depende. E não há, como já foi dito.
Pequeno texto. Pode chamá-lo de crônica. É um destravamento. Gota d'agua em meio a essa seca. Mas não ficará o cronista como sertanejo esperançoso de chuva hoje e amanhã. Essa gota é de agora. E ela sai como quer. Sim, há um certo esforço. Houve até declinações de rumo. Mas aí está. É este texto um oásis de letras. Ele é esta construção. Pode lhe agradar. Pode não fazer o efeito que desejara. Não importa. É a vida. Ela é assim. É como quer.


opiniões opiniones opinition

Vai chover, de novo, deu na TV!
Carol Beralde, São Paulo, estudante de jornalismo UNIP



Justiça de ricos contra pobres

sexta-feira, outubro 24, 2008 · 1 comentários

blog reflexão


Venha comigo. Façamos essa reflexão em conjunto. De que adianta divagar sozinho? Pra que tanta ilha de si? A questão a refletir. O rapaz que sequestrou a namorada e a matou. Deixemos de lado as falhas da polícia. Peguemos o algoz da vítima. Imaginemos que ele é alguém da elite, um promotor da Justiça de São Paulo, por exemplo. Então, fez tudo igualzinho. Sequestrou. Apontou uma arma. Deu material de trabalho para a imprensa. No final, a polícia invadiu e ele cumpriu sua palavra, apertou o gatilho contra a cabeça da menina. No dia seguinte, o jovem promotor aparece na tela de um site. Seu rosto não está inchado por pancada alguma. Neste mesmo dia, seus advogados entram com um pedido de habeas-corpus no STF (Superior Tribunal Federal), que aprecia favoravelmente a solicitação. O jovem rico, promotor de justiça, está solto. A menina morta. A família pobre chora. E o criminoso, que é alguém da classe dominante, não é hostilizado pela imprensa, tampouco pelas pessoas.Esse fato que criei tem verdades as quais todos conhecemos. Pois um promotor de Justiça em São Paulo, num passeio pela praia, matou um outro jovem após este ter desrespeitado sua namorada. Foi uma reação de momento, descabida, tudo bem. Mas a lei está aí para impedir e punir atitudes humanas que resultam na morte do outro. Pois bem, o jovem promotor foi reconduzido ao cargo. O bom salário que recebe é pago por mim, por você, por outros. Ou seja, pagamos um enorme soldo para um funcionário público que matou um outro ser humano por puro ciúmes, muito provavelmente levado pela sua enorme vaidade, bem como uma sensação de impunidade que permeia o crime no Brasil. Mas e se o promotor não fosse promotor? Se fosse um ajudante de um serviço mais simples? Ele estaria nas ruas? O STF teria concedido que ele retornasse às suas tarefas do dia-a-dia? Aliás, ele teria acesso ao STF? Não creio. A Justiça no Brasil foi desenhada para proteger os ricos contra os pobres. De qualquer forma, não devemos fechar os olhos e apenas lamentar. O Brasil ainda não é um país democrático de fato. Caminhamos para tanto. E chegaremos lá? Não sei. Mas caminhamos. De qualquer forma, falta a nós não-membros da sociedade dominante nos apresentarmos e lutarmos por nossos direitos. Neste sentido, o eleitor tem um papel fundamental. Se votar em pessoas mais parecidas com ele, que conhecem a sua realidade, que vivem de modo parecido, as chances poderão ser maiores no sentido de conquistar uma sociedade mais plural e democrática. Eu falo, evidentemente, do eleitor pobre, ou até da classe-média. Talvez aqui possamos filosofar e crer que a divisão do poder deveria se dar em função das camadas sociais. Neste sentido, a elite seria menos representada, na medida em que é bem menor sua participação em termos numéricos na sociedade. No Brasil atual, há uma inversão. São justamente aqueles que têm mais poder econômico os representados de modo mais eficiente nos diversos poderes. O que se tem é uma elite que não permite muita abertura, uma democratização das nossas riquezas. E este comportamento é corroborado pelo individualismo que impregna nossa sociedade. A própria classe-média luta para crescer economicamente. No Brasil há a tripudiação sobre aquele que tem menos. E há o endeusamento dos que são mais ricos, não importanto seu caráter, bem como seu comportamente ético. Para encerrar, retomemos o promotor e o ajudante. O primeiro está livre, embora tenha tirado a vida de alguém. O motivo foi uma mulher. O segundo está preso e já foi bastante espancado. Tornou-se uma assassino por causa de mulher também. A diferença é que fez vítima exatamente o elemento feminino. Enfim, ambos cometeram um crime. Assassinaram uma pessoa. Mas por que a justiça brasileira os trata de modo diferente? Por que termos certeza de que um ficará preso, e ainda desconfiamos que será executado atrás da grade? Enquanto, sobre o outro, temos a grande incerteza de que será punido? Por quê?



Triste fim de Policarpo Quaresma: o herói inexistente

quinta-feira, outubro 23, 2008 · 1 comentários

blog convidados



por Adalmir Oliveira, piscólogo

É árduo para qualquer escritor ou cronista, ou seja lá quem for, escrever sobre o Brasil com um olhar crítico. Como brasileiros, tendemos a ser parciais. O Brasil é um país de contrastes, imenso, pluricultural, com uma identidade própria e ao mesmo tempo difusa em suas diversas, quase infinitas nuances. Entretanto, o que trago hoje como reflexão não me permite ser parcial, pois tem a ver com ética, vocábulo conhecido, mas nunca vivido pela sociedade brasileira. Há pouco mais de um século, o médico espírita Bezerra de Menezes afirmou que a sociedade brasileira estava gravemente enferma. Depois de tanto tempo, o que se pode, ainda, dizer? Eu respondo: o mesmo. Desde o Brasil colônia de Portugal (hoje colônia dos EUA, Europa, Japão, China e de quem mais chegar), nosso país sempre inexistiu. Primeiramente, para os portugueses. Não passávamos de um pedaço imenso de terra para extração de riquezas. Inexistimos para os portugueses um dia e hoje inexistimos para nós mesmos. A sociedade brasileira está gravemente enferma. Falta-nos saúde mental, boa auto-estima. Fomos a latrina de Portugal, dos colonizadores europeus, dos norte-americanos. Hoje, pelo que vejo, escolhemos ser latrina, ou viver nela. Aceitamos o matagal à beira dos rios, as fezes que flutuam nas águas não tratadas, as ruas sujas por nós mesmos, os cães soltos, abandonados nas cidades, o mau cheiro, o ar poluído, as crianças chorosas de tristeza por causa da pobreza e dos maus tratos que recebem de seus pais, também maltratados ao longo de suas vidas, crianças que foram um dia. Aceitamos pequenas ilhas de opulência ao lado de tudo isso. Aceitamos um Estado inexistente, que escolhe não existir para o povo que teoricamente representa. Aceitamos uma elite que nos dá algo de comer e vestir todos os anos por meio dos programas da televisão, Unicef, Teleton, etc., mas que nunca se comprometeu com um processo legítimo de transformação social. Lembrando Dom Helder Câmara, dão o pão, mas não questionam por que falta o pão. São cinco séculos de indiferença e descompromisso emocional com o outro. Não existe alteridade no Brasil. Aludindo a Goffman, a dor e a tragédia se tornaram o espetáculo a ser consumido nos milhões de lares, graças a uma imprensa que sobrevive da dor e da lamentação. Bebe até a última gota do sangue dos sofridos. Ganha milhões de reais com isso. Nós escolhemos vê-los todos os dias. Não aprendemos a desligar nossos aparelhos de televisão para que percebam em seu bolso (só assim para sentirem alguma coisa!) que merecemos o melhor. Obviamente é legítimo que saibamos o que acontece. Mas, eu sinto pessoalmente que a dor é explorada para além da necessidade de informar as pessoas. É, por outro lado, um instrumento explorado até as suas últimas conseqüências sem nenhum interesse de convidar a população a refletir sobre as causas que nos levam a sermos uma sociedade tão indigna de ser chamada de humana. Escolhemos ser subumanos. Não fomos postos nesta condição pelos norte-americanos ou europeus. Eles não têm esse poder. Aceitamos estar aqui, ter chegado aqui. E é onde estamos hoje... Carl Rogers dizia que para nos curarmos, precisamos, primeiramente, aceitar onde estamos. Voltando à triste imprensa brasileira, não posso culpá-la como a responsável por nossa desgraça histórica. São jornalistas, editores, etc., filhos de famílias brasileiras. Como disse João Ubaldo Ribeiro, vieram de casas brasileiras, são a nossa cara. Quando os vemos sugar a tragédia e torná-la espetáculo de consumo, é a nós mesmos que estamos vendo. Jean Baudrillard responsabiliza as massas, a quem ele chama de "maiorias silenciosas", por serem o que são, ou o que escolheram não ser. Araceli, Eloá, Lindenberg, o maníaco do parque, o bandido da luz vermelha, Lindomar Castilho, Daniela Perez, e tantos outros são vítimas de nossas escolhas, do abandono em que escolhemos viver e ao qual nos condenamos um ao outro. A violência contra a juventude e a infância está fora do controle. O narcotráfico é um Estado paralelo. Já não sabemos quem nos governa. A polícia briga entre si enquanto ficamos alheios às verdadeiras causas de tanto ódio mútuo. Os brasileiros aceitaram ser reféns de sua própria história medíocre. Não somos nada para quem nos colonizou e escolhemos não ser nada uns para os outros. Coitado de Policarpo Quaresma; triste fim realmente. Uma personagem idealizada, o sonho de um brasileiro que teria construído outro Brasil se não fosse tão só e irreal. Muitos o leram e o lêem. Mas, não somos Policarpo. Parece que não queremos existir. Um exemplo disto é a última tragédia televisionada em tempo recorde pelas emissoras de televisão brasileiras. Não houve ninguém competente para realmente desarmar o assassino de Eloá. Nenhuma classe profissional conseguiu desfazer o desarranjo interior do jovem Lindenberg. Não puderam, pois não tinham sensibilidade e educação suficientes para compreender o abandono existencial em que vivia e que o levou a uma atitude tão extrema e condenável. Pensei comigo: provavelmente, isto se deu porque, em nosso contexto brasileiro pós moderno, o outro não existe. Perdemos a habilidade de persuadir o outro a resgatar a sua humanidade. Afinal de contas, o outro deixou de existir para nós. Não houve um ser completamente humano que tivesse essa competência. Somos todos vítimas. Está certo. Mas, somos as nossas próprias vítimas e reiteramos a decisão de sermos vítimas de nossa própria insensatez. O futuro a que nos referíamos com tanto ardor no século passado já chegou. Somos, cada um de nós, sem exceção, os frutos de quinhentos anos de inexistência. A sociedade brasileira está gravemente enferma!



Fato e reflexão

segunda-feira, outubro 20, 2008 · 2 comentários

blog discussão

Parece que o blog adentra a uma fase mais jornalística, prendendo-se aos fatos, muito embora eu acredite que a vida não seja feita só de novidades, muitas das quais absolutamente desnecessárias. Aliás, podemos até fazer uma pequena e singela reflexão sobre muitas notícias veiculadas pelos mais diversos veículos de comunicação. Daí então, o telespectador é informado que um automóvel entrou dentro de um bar, que um botijão explodiu em uma casa, que um cachorro matou seu próprio dono. São fatos que ao saber deles nada somam ao crescimento de qualquer indivíduo. Mas é jornalismo, barato, mas é. É, penso, modo de manter o sujeito anestesiado dos fatos que realmente interessam. Um trabalho para a manutenção das coisas como elas patéticamente são.

Imaginemos um veículo de comunicação desprendido de interesses políticos e comerciais. Digamos que ele fiscalize, como é um dos papéis da imprensa, a gestão da prefeitura. De certo, teria muito a contribuir para a população, na medida em que seria ferramenta de cobrança para uma administração eficaz e condizente com o interesse da cidade. De certa forma, os jornais até fazem isto. Mas pensemos bem. Se há tanta corrupção, e todos nós sabemos que há, por que jornais e revistas dedicam tão pouco espaço às investigações neste sentido? Parece-me que há uma espécie de corroboração com atos lesivos aos cofres públicos.

Voltemos ao blog. O fato é que há uma ausência de luz literária que fez este blog silenciar textos. Esperar, deixar a solução no tempo, é opção válida. O que não se pode é abraçar a indiferença e deixar o leitor sem qualquer satisfação. Assim, fica depreendido que se dá sobre o autor do blog morte de palavras, que lhe calaram textos ao longo da semana que se passou. Opção é atentar-se aos fatos. Parece que este é caminho mais fácil, embora não seja desejado, uma vez que este blog se caracteriza muito mais por um aspecto literário que jornalístico.

A escolha do fato. O lamento pela morte da menina sequestrada pelo ex-namorado com sérios problemas emocionais. A falha da polícia. O apetite da imprensa. A esperança da família e de muitos brasileiros solidários. E a certeza de que não é a última tragédia, pois que sempre teremos fatos trágicos em sua duração, bem como em seu desfecho, o que faz tinir diversos repórteres, editores e pauteiros. Daí, você vê na TV debate sobre a tragédia. É a imprensa brincando de ser séria, quando na verdade faz é exata exploração da morte alheia, fingindo interesse real pela questão, quando em verdade estão em jogo os índices de audiência, o quanto se ganha, bem como a exposição do jornalista, o que resulta em valorização do seu "passe".

Evidentemente que não se propõe aqui que a imprensa se cale. Tragédias sempre vão ocorrer e faz parte do papel dos veículos de comunicação fazer a cobertura, bem como trabalhar nos desdobramentos. Só não nos iludamos com a existência de preocupação real com o sofrimento alheio. Talvez não devamos entender isto como uma crítica, senão como uma reflexão sincera, pois é possível que a postura do jornalista seja diferente mesmo, desprendendo-se do fato, realizando seu trabalho jornalístico o menos subjetivamente possível. No fim, acho que dá pra entender. Apenas a audiência pode ficar alerta e não se iludir com emoções que se tentam passar.

O blog lamenta a morte da menina assassinada pela ciúmes doentio, advindo de uma baixa auto-estima por parte do seu algoz, lembrando que diversos pares de muitas mulheres as matam dia a dia. O que podemos dizer é que a família perde boa parte da alegria necessária para enfrentar a vida. O rapaz, preso por ora, realizou seu trabalho de vingança. A justiça irá condená-lo, posto que é cidadão pobre. Se fosse um homem rico, poderíamos duvidar da eficácia das leis, como no caso do promotor de justiça que matou e volta ao trabalho por determinação do STF. Mas o sequestrador é pobre. De certo, não terá muito tempo de vida, pois alguém poderá vingar a morte da menina. Mas isto é outra questão.

Gostaria de poder entrevistar o sequestrador. Investigar causas. Saber de fatos que a imprensa tradicional não pesquisa. Saber mais do que está por trás. O ser humano é isto, uma caixa- preta. Eu gostaria de abrir a caixa-preta do fato. Investigar passado. Sem querer inocentar quem quer que seja. E com a certeza de que a família daquela que se foi sofrerá por um tempo imposto pela morte. "É o preço que pagamos". Não foi, nem será a última vez.



Um dia como outro

domingo, outubro 12, 2008 · 0 comentários

Faz um tempo que mudei de jornal. Sigo lendo um outro que também é de grande circulação no país. A leitura é feita com estrita vigilância, feito os trens do filme a que um dia eu assisti, mas que a memória não registrou quase nada, cujo nome é "Trens estritamente vigiados". De certo, terei outra chance. Mas o assunto aqui não é a obra que vi em tela de minha sala, nem mesmo o periódico, mas sim aquele que domina as páginas de toda imprensa mundial. Falo de um fato que tem dado preocupação grande a muitas pessoas, excluídas aquelas que seguem à deriva dos fatos. Trata-se da crise financeira mundial. Evidentemente que não posso abordar aspectos econômicos, pois não sou especialista no assunto. Deixo apenas aqui as sensações minhas que tenho ao ler sobre o assunto em questão, posto que nós leitores espalhados por todo este mundo não somos lá tão diferentes.

Um indivíduo no metrô de São Paulo. Outra na Rússia. Um alemão em Berlim. Japonês. Inglês. Irlandês. Americano. Este último, de certo o mais preocupado. Quem sabe um dos que hipotecou sua casa para ter crédito para especulação, mas que agora não tem liquidez para honrar o compromisso assumido. Outros compatriotas que se embrenharam no mesmo negócio, parte deles, mora hoje em seus automóveis, pois tiveram que entregar as casas, que eram as garantias oferecidas aos bancos para tomarem empréstimos e assim consumir como queriam.

Aquele indivíduo que lê o caderno de economia no metrô desta capital que é caótica em muitos aspectos, mas que segue trabalhando para ser uma metrópole referêncial no mundo. Preocupa-se. É avisado que o Brasil crescerá cerca de 5,4% neste ano. Que os fundamentos da nossa economia são sólidos e nosso sistema bancário é muito bem vigiado pelo Banco Central. Fica mais tranquilo. Mas e ano que vem, indaga-se? E meu emprego? E os mais pobres? E as ações irrisórias que possui? E lamenta-se que há algumas semanas atrás só lia boas notícias sobre economia a respeito do seu país. Agora, a inflação corre riscos por problemas de vizinhos ditos irrresponsáveis.

A cada dia que lê um artigo busca neles uma frase que alivie a preocupação, o medo. Economia e política tangem nossas vidas, aprendeu faz tempo. E sabe que o assunto não é lá tão palatável à maioria das pessoas. Quer uma análise, uma afirmativa cheio de certezas que diga que o pior já passou, está tudo sobre controle. Algumas vezes consegue linhas que apaziguam a preocupação. Mas lê vez em vez que o incerto está no ar, que os mercados estão nervosos. Constata nas leituras as derrocadas das bolsas em todo o mundo.

Enquanto escreve este texto, ao prosseguir dois dias após tê-lo iniciado, pensa que poderá afugentar o leitor com tal assunto. Assim, cresce nele a intenção pela completa declinação. Então, volta para o local do início, aquele vagão de trem do Metrô de São Paulo. Tudo limpinho. Avisos sonoros ofertados aos passageiros de modo educado. Vai demorar para as pessoas se acostumarem a não aglomerar nas portas dos trens, pois é este o maior motivo da atraso dos trens. Obediente, assim que adentra ao retângulo da composição, busca o corredor. Mas sabe que muitos precisam desobedecer para se auto-afirmar. Coisas do ser humano, já não se revolta.

O assunto em questão pede passagem novamente. Até o final da viagem, é possível que o índice da bolsa de valores de São Paulo caia mais um pouco. Muitos irão perder mais dinheiro. Recorda-se do telefonema do corretor, afirmando que o momento é bom para investir. Mas mesmo que estivesse desavisado não teria fechado negócio, pois não tinha dinheiro para tal.

Dorme. O sono é grande e o assento de plástico é convidativo, embora isto pareça estranho. Cerra os olhos sem constrangimento algum. Acorda vez em quando. As manchetes estão em suas mãos, impressas na folha daquele jornal. Sente um cheiro desagradável e não compreende a razão do odor. Pensa que é da estação por qualquer motivo que seja. Após dormir mais um pouco, é obrigado a levantar-se para dar lugar à uma senhora que aceita de muito bom grado a gentileza vestida de obrigação. Mira olhos para atrás e vê o porquê do cheiro. Uma criança vomitara. Expressa indignação, que na verdade é o receio de que o vômito pudesse ter golpeado sua roupa. Um dia destes acordará com a roupa suja por necessidades alheias, pensa.

O fim da viagem já se deu, é rápido mesmo, quando você se dá conta, já foi. Abre a chave da porta da sua sala onde cumpri carga-horária que é de meio período. Liga o computador e novas notícias sobre a crise externa estão estampadas no site em que se conecta para verificar sua caixa-postal. Clica em alguns links, quer mais notícias, precisa se atualizar. É a velocidade com que chega a informação desde o advento da rede mundial de computadores. Para alguns, o jornal de papel está fadado. Mas na internet, ele não encontra o aprofundamento que gosta nos periódicos de papel.

Dali em diante, o trabalho irá tomar seu tempo. Neste ínterim, há um desligamento do mundo das informações. Agora opera algumas tecnologias. Mas à noite, terá em mãos o exemplar do dia do jornal que não é exatamente o preferido. Cansado de ler sobre economia, fará opção inicial por política. Vai ler sobre as eleições municipais, assunto que o interessa. Mas talvez, de cansado que estará, abdicará de leituras. Ficará a ora olhar o nada, ora observar o todo, que se fragmenta em sua inevitável subjetividade. E este é apenas um dia de tantos outros. Até que não mais.



Trinta minutos de uma ida

quinta-feira, outubro 09, 2008 · 0 comentários

Utiliza as palavras iniciais para provocar os sentimentos quietos dentro de si. As emoções, para que aflorem, necessitam motivação. Elas não se dão como desejamos, em momento escolhido. É por isso que quase todas as vezes que se propõe um texto, faz consigo provocação interna de sentimentos.


Sentou-se ao lado dela. Poderia ter sentado junto àquele senhor, mas fez rápida opção. Havia um motivo, pois o banco por ora preterido era de fato o preferido. Mas o homem com mais idade sentava-se de forma tal que ocupava quase todo o assento que não era o seu. Como negou a si o uso da palavra educada para sentar –se onde realmente queria, ficou junto à moça, e já estava de bom tamanho.


Mecanicamente abriu o jornal que não era de hoje. Leu algumas linhas com desfoque na atenção. Sem demora, compreendeu que não desejava tal leitura. Preferia observar, e, sobretudo, expressar seus sentimentos. Nada escreveu no momento relatado, embora tivesse tencionado fazê-lo. Observou os demais seres humanos. Havia nele, lamento por si e pelos demais ali presentes. Gostava-se naquele momento. Alguma esperança o tinha, e os seres humanos pareciam-lhe mais belos em suas essências.


As estações foram passando e sono algum o visitava. No olhar, ausência daquela dureza que finge proteção. Depreender que se tratava de uma serenidade alcançada é equívoco compreensível. Naquele quadrado preenchido de corpos e sentimentos, era ele um pote até aqui de emoções, como poderia dizer alguma canção do Chico. Em alguns momentos o olhar para o piso emborrachado era evidência de um aborrecimento. E, embora um pico de infelicidade o incomodasse, não sentia a angústia que este sentimento costuma trazer. Ao final dos cerca de trinta minutos da viagem, sentia-se melhor. Talvez fosse a clara evidência da boa administração que fizera de suas emoções.


Antes da chegada à estação de partida, cumprira obrigações financeiras. Até então, havia nele um pico de agressividade. Ao caixa daquele magazine não foi e nem quis ser simpático. Ainda representava o personagem metropolitano que, mergulhado em lodoso individualismo, caminhava mal humorado e com passos apressados ao seu destino indesejado, mas que obrigação e necessidade faziam-no abdicar dá liberdade desejada no ínterim em questão.


Lembrou-se que lera belíssimo samba escrito por Chico. A mesma canção que ofertara pela manhã com a utilização de outro sentido. Reafirmara a si a necessidade que todos têm pela arte, e que talvez seja a melhor invenção do homem, embora muitas vezes em mãos equivocadas.


Pausa. Silêncio. Por alguma razão a porta literária se fecha. Um lapso que não consegue explicar levou-lhe os sentimentos que lhe ofertam palavras para que sejam expressas no branco do papel. De repente, viu o cessar de luz. A porta fechava-se lentamente. O silêncio pedia lugar. Obedeceu sem querer compreender. E assim, submissamente, guardou a caneta. Dobrou papel. Cruzou braços e pernas. Olhou ao redor. Calou-se.



Além de pegue-e-pague

domingo, outubro 05, 2008 · 0 comentários

O ambiente de agora não o utilizo. Opto por criar outro que talvez seja o que desejo, e que em breve, neste mesmo dia, estarei nele, o que é apenas uma probabilidade não calculada. É uma troca de tempos. Presente pelo futuro. Ilustração sincera do engodo que é a dita existência de liberdade numa democracia capitalista. Mas é assim a vida para quem tem obrigações. Muito provavelmente não nos relacionaríamos bem com a liberdade plena. Só não nos venda ilusões, por favor.

Precisei de quatros pardes, som do Chico, luz acesa. Uma solidão bem vinda, necessária. É o cansaço de tudo, de tanto consumo desavisado. Ele com um pacote em mãos com o chipe que a nova companhia telefônica vende. Puxa, por que você se resume a só isto? Não há mais do que ser mero e manipulável consumidor?

Ando pelos locais onde outras pessoas circulam. O fragmento do mundo atual expresso nas diferentes partes de modo igual. Donos do poder ditam o que devemos comprar, ler, ouvir, assistir e até não sentir. Não há a liberdade que os capitalistas apregoam. Lamento, isso é falácia. Estamos presos num mundo raso em que consumir é o que nos resta. Sinto, mas, humanos, somos além de pegue-e-pague. Há muito mais para se viver. Há os sentimentos. A essência de cada um. Por que alguém famoso deve ter tanta importância? E o que se vai dentro desta pessoa? Será realmente que ela é digna de nossos aplausos, ou dos gritos violentos da extrema carência? Será que as ditas celebridades merecem a atenção que um ser humano digno e de boa alma tem direito? Claro, ninguém é tão bobo. Se você não se preocupa com o caráter, o interior das pessoas, tanto faz que humano de fato é aquele por quem você se menospreza.

Estou em um hotel de luxo. Uma pessoa conhecida nacionalmente. Já está acostumada em ser abordada. Corpos femininos estão à sua disposição. Ela se serve de alguns deles em ocasiões que a chance dá. O falso carinho que você demonstra por ela ganha reciprocidade exatamente na falsidade. Eu apenas a cumprimento educamente. Não vou além disso. Não quero fotos ao lado da pessoa em questão. Lamento, mas não me resumo a comportamentos de tietagem. Faço meu trabalho e o que mais desejo é sair daquele lugar. Não nego incômodo em ver o comportamenteo dos fãs, que se desgostam entre si. Abraçam a superficialidade e endeusam o famosos. Sua essência. Seu caráter. Isso tudo os fãs não indagam. Bom, vai ver que nem a si, sobre quem são de fato, eles se questionam.
Vou-me embora. O grito se cala em mim. Sobre o assunto, nada comento com conhecidos. As informações, guardo parte delas. Na espera de momento qualquer, a expressão dos sentimentos. Críticas e lamentos. São questionamentos que faço e necessito. Vai ver que duvidar e indagar é uma necessidade. E não apenas na hora do pegue-e-pague. Nossa existência está muito além disto. Desculpem-me donos do capital. Perdoem-me por não acreditar em vocês. Acho que assim, desacreditanto, toco levemente a liberdade.



Digitais do futuro

sexta-feira, outubro 03, 2008 · 0 comentários

Domingo. As eleições se darão pelo país. Em cada cidade o ato do voto feito com o desleixo dado pela desinformação. Para muitos, votar é mais inútil do que existir. Assim ensinaram a estas pessoas. E desta maneira elas devem seguir pensando. Só assim para indivíduos absolutamente equivocados se elegerem. Depois de eleitos, o povo tem que correr dia a dia, não há tempo, a sombra das necessidades se faz presente.
Claro, não podemos esperar muito de eleitores que passaram quatro anos obcecados pelas idiotices na tela da TV. Todas elas exibidas pelos canais campeões de audiência. Daí, eu me recordo daquele refeitório. Do aparelho 4x3 ligado. Das pessoas caladas. Fixas. Inertes. Imbecis. Na tela algo absolutamente idiota comandado pela apresentadora, cujo vazio é evidente, cuja essência é desnecessária para o mundo. Mas ela faz seu papel. O grupo de trabalhadores anestesiados também faz o seu. Eu faço o meu. E a prisão é coletiva.
Quando digitais diferentes teclarem no verde ou vermelho, será como o planejamento de mais quatro anos para os municípios. O prazo já dá um pouco do grau de importância no ato de votar que é desprezado pela maioria. Estaremos, todos nós, apertando a tecla do futuro. Dá pra ser negligente com tal ato?
O blog exibe ao lado deste texto uma lista com os candidatos que obtiveram média superior a sete. A ONG Voto Consciente (http://www.votoconsciente.org.br/) analisou o mandato de homens e mulheres eleitas pelo povo. Opiniões & Crônicas estabeleceu como nota mínima a sete. Assim, só foram aprovados por este blog um pequeno número de vereadores. Na escola o aluno tem que atingir uma nota mínima. Na faculdade a mesma coisa. Numa fábrica há metas. Em bancos também há. Para os vereadores também deve haver um valor mínimo a se atingir. E aquele que não o fizer, deve ser reprovado e ficar de fora das elelições seguintes. Para aqueles que votarão com consciência, bom voto. Para os que votarão por votar, meus lamentos por todos.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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