Os meninos da "Embalagem"

segunda-feira, setembro 08, 2008 ·

blog série - "Naquela empresa"


Revolvi o arquivo do blog. Encontrei a uma série de textos: "Naquela empresa". Um passado presente. Uma falha minha comigo e com os leitores. Eu deixei de escrever a respeito do assunto a que se refere esta série. Há muito o que dizer a respeito. Os cincos anos naquela empresa foram-me aulas práticas de sociologia. Dali, muitos reflexões podem ser tiradas. Seja dos relacionamentos entre as pessoas. A relação patrão-empregados. O estudo como libertação. A escravidão assalariada em função das péssimas condições sócio-economicas dos trabalhadores. Enfim, há o que dizer.

Dia-a-dia o elevador parava no 10º andar. Tocava a campainha e entrava. Eu já não era o mesmo dos anos iniciais de quando entrei na empresa. O movimento de libertação se dava em mim. Talvez o primeiro passo tenha sido a revolta. Sim, eu não podia estar ali naquele ambiente aviltante. Éramos como se fóssemos trabalhadores excluídos da legislação trabalhista. No pagamento, quando assinávamos dois holerits, éramos lembrados dos desrespeito aos nossos diretos. O dono daquela empresa expressava seu desprezo para com seus funcionários. Por ele, todos ali morreriam ganhando o mesmo salário de cinco anos atrás. Ele não tinha a obrigação de gostar de ninguém. Tudo bem que sua religião eram os lucros. Mas o respeito aos trabalhadores não prescinde amor ao próximo. Sentíamos fortemente a ausência do Estado. Nem mesmo uma carta-denúncia mudaria tudo. Só havia uma saída: o pedido de demissão.

Ao conversar com um dos funcionários em que a revolta contra o patrão era das maiores, percebi a diferença de mundos que vivíamos. No contexto da conversa, perguntei-lhe a cor das paredes de sua casa. Informou-me que não possuiam cor alguma. Depreendi, imediatamente, que ele morava em casa de tijolos vermelhos rebocados. Mas talvez pudesse ser algo mais precário ainda. Se o leitor não consegue visualizar, basta que procure fotos das casas nas periferias de São Paulo. O meu interlecutor morava num dos bairros mais pobres desta metrópole desigual: Guaianazes, zona leste da capital. Não me constrangi com a minha pergunta. Eu aprendera e usar do bom humor reconquistado para sair dos labirintos impostos pelas diferenças sócio-culturais dentro daquele empresa. Afirmar que eu sempre era hábil seria uma precisa inverdade.

A reflexão que quero fazer a partir deste passado naquele empresa é a prisão a que se submetem trabalhadores pelas simples impossibilidade de mudar de emprego, em função não apenas do seu baixo nível de escolaridade, bem como uma alta taxa de desemprego. Assim, aqueles jovens rapazes que praticamente brincavam o dia inteiro naquele setor que chamávamos de "Embalagem" carregavam dentro de si enorme revolta com o pequeno salário pago, desproporcional ao excesso de trabalho. Todos, não havia excessão, queriam sair dali. Contudo, nenhum deles possuía uma profissão, uma especialidade. No currículo, apenas as experiências passadas e atuais. A única forma de libertar-se seria estudar. Mas pagar um curso era algo impensável. Alguns deles possuíam filhos, embora não fossem casados. Outros, planejavam o casamento. Havia até quem fosse separado e casara-se novamente. O que se tinha ali era um caldo social acizentado. O nível de leitura era extremamente baixo. O jornal que corria a sala era o "Lance", que trata só de futebol. Aliás, as peladas dos finais de semana eram assunto recorrente. Para quem olhasse de fora, veria felicidade. Tudo bem, havia uma alegria momentanea. Mas a conta chegaria lá na frente. E talvez nem demorasse muito.


Os anos iniciais naquela empresa foram extremamente difíceis, como eu já relatei nos outros textos sobre este mesmo assunto. Mas eu não sou o personagem central nesta história. Aliás, seria covardia eu me colocar igualmente aos garotos da "Embalagem". Se estudei, foi por que pertenço a um outro segmento social. Estar ali era circunstancial. E foi com dinheiro de familiares que paguei mais de três mil reais em um curso. Nove meses depois, consegui um outro emprego, agora em uma empresa que é séria nas questões trabalhistas. Claro, não sejamos inocentes. Há forte fiscalização sobre as grandes empresas. Mas isto é outra questão.

O patrão passa pela "Embalagem" e não dá bom dia a ninguém. Todos ali o temem. O medo é fruto do poder que ele tem como dono da empresa. Há uma relação explícita de desprezo entre ele os meninos da "Embalagem". Caras amarradas. Vozes silenciadas. Passos que fazem barulho. É o gigante verificando seu gado. Dali, o patrão entra em outro setor. O mesmo medo. Silêncio igual. Na sala de edição, pode ser que ele dê um "bom dia". O tratamento melhora um pouco. Eu, boa parte da minha presença ali, fui cortês com ele. Dava-lhe bom dia e recebia tratamento igual. O patrão, em verdade, era homem educado. Seu problema era apenas seu caráter despótico em relação às pessoas mais humildes. De qualquer forma, diversas vezes recebi o mesmo desprezo. Mas não o tenho em má conta. Aquele homem carregava consigo um desamor pelo ser humano. Ele parecia vingar-se da humanidade.

continua outro dia....



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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