O dia que virou ontem

terça-feira, setembro 16, 2008 ·

Adentro ao vagão e procuro um banco à janela. É que carrego tanto sono que tramo dormir. O cansaço se evidencia em meu semblante. Observo ao redor meu de modo até belo. É gostoso mirar rostos sem condená-los. Nem mesmo observar o vomitar da criança me traz repugnação. Olho para aquelas pessoas, partículas de uma massa inerte, e não as vejo mais como vítimas de um sistema cruel. Somo-me a elas e concluo que a culpa é nossa. Delegamos responsabilidades e seguimos assim alheios às principais questões das vidas nossas. Podemos culpá-los?

Acho que estou assim, bobo. De um modo tal que não sentiria raiva alguma de você. Nem mesmo condeno o jovem negro que entrou atabalhoadamente e tomou a frente de velhinhas brancas para sentar-se. Pensei até que ele se vingasse do preconceito que mancha seu cotidiano de cinza. Ofereci meu lugar a uma delas, mas não como quem quisesse ser escola. Acho que temia a opinião alheia. A senhora, um tanto assutada, avisou-me que desceria na estação seguinte, não carecia.

Seguimos viagem. Meus olhos observam. A próxima estação era a que eu desceria. A escada me leva, eu não tenho pressa, embora esteja atrasado. Meu horário de entrada é anotado pelo funcionário que já tenho como amigo. Alguém que dá uma história que talvez um dia eu conte. Dirijo-me ao meu espaço. Ajeito tudo ao modo que gosto. Visto mais uma blusa, aqui é frio e vento. E receio escrever. Algumas idéias povoam a minha mente. Mas eu temia escrever mais do mesmo.

Dirijo-me à cozinha e lá encontro um guarda de azul que parece tentar disfarçar alguma tristeza. Hoje não senti o repúdio de antes. Esqueci-me de seus pedidos impertinentes. Ofereço-lhe café. Mas ambos declinamos do ato. O líquido que preenche a garrafa está frio. Despedi-me e voltei para o meu canto.

Pela manhã estive com irmão, cuja vida lhe parece aborrecedora, mas que de algum modo ele tenta portas que o tragam alguma emoção. Antes de tudo aqui dito, sair da cama foi luta que venci, embora com algum atraso. Desta vez, felizmente a obrigação venceu a preguiça.

Recordo-me agora das eleições. Época que evidencia o quanto nos eximimos das responsabilidades. Deixamos o orçamento da cidade nas mãos de um grupo. Não nos apresentamos. Não cobramos. Aliás, as cobranças deixamo-nas para a impresa. Apenas reclamamos. E muitas vezes de modo improcedente. Deixamos tudo nas mãos do outros. Se tudo não está tão bem, a culpa é só deles?

Hoje é domingo e já foi o tempo de "tudo está fechado". Pessoas passam por aqui sem me causar espécie alguma de incômodo. E não é que eu carregue comigo algum êxtase de felicidade. Há, de certo, algum aborrecimento, o que considero algo muito positivo.

Agora, no ato da digitação deste texto, é outro dia. O domingo se foi, e até que me agradadaram as horas deste "dia de descanço". A partir daqui, muda o tempo do verbo. O domingo é passado, como tantos outros domingos. E se você perceber, é tão rápido que a gente nem percebe. Não sei ao certo como terminou o dia de ontem. Mas houve amigo, família, eu. Mas também não houve. Mas isto é outro assunto, o qual, agora, a porta se fecha. Este parágrafo já entra para o passado.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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