A essência da metrópole

sábado, setembro 20, 2008 ·

Diversas vezes usei a terceira pessoa para escrever. É uma forma que me agrada e faz com que eu me sinta observador de mim. Mas hoje uso a primeira pessoa. Acho que adentro uma fase de maior exposição dessa pessoa que eu sou. E não é que eu deixe de ser eu em terceira pessoa. Mas quando optei pela opção que me dei, apenas me desdobrava entre o observado e observante. Se isto para você é devaneio, para mim é também. E davaneios são assim, deliciosos enquanto inofensivos.

Era a terceira vez que ele parava defronte ao stand. Pediu-me alguns informativos. Eu, do mesmo modo desde a sua primeira visita, obedeci ao seu pedido, bem como duvidei de que seu ato fosse algo verdadeiro. E foi agora que trocamos algumas palavras, das quais eu não entendi quase todas. E aí descobri que tratá-se de um homem já aposentado, que a pinga lhe agrada, embora as medicações que toma o impeçam de sorver o álcool que gosta de arder na garganta. Consegui finalizar a conversa. Rimos algumas vezes. E, quase o tempo todo, me fiz compreender, embora eu inventasse, posto que o homem possuia severa dificuldade para articular palavras.

São Paulo é assim cheio de personagens. Outro dia abordei um homem que a cara inchada o qual ele a expõe com excesso de maquiagem, cujo exagero parece metafórico, na medida em que ela representa o pesar que sua alma transparece no rosto que não é nada convidativo. Ele não aceitou conceder-me uma entrevista sem um cachê. O modo como confirmou a necessidade de algum valor que lhe valesse à pena dizer-me quem é, demonstrou classe e firmeza. Claro, não senti raiva alguma dele, pois entendi que era a necessidade que o fazia cobrar para falar. O que posso dizer dele é que o vi algumas vezes. Ele anda pela Avenida Paulista, nas proximidades da Consolação. Abordá-lo não se deu no primeiro momento que o vi naquele domingo. Eu calculei que o máximo que ele me ofertaria seria um "não". Do cálculo feito, a precisão foi perfeita. Mas eu me senti vitorioso, pois não apenas havia abordado a pessoa, bem como descobrira pistas de quem seria aquele ser humano.

A primeria vez que vi e ouvi aquele oriental cantando e pregando a palavra de Jesus foi há alguns anos. Naquela época, eu nem pensava em escrever, embora fosse coisa que eu gostasse. Dia algum, naqueles dias daquele tempo melancólico, tencionei entrevistá-lo. Hoje, contudo, as mudanças da vida, este blog, o curso de jornalismo, fez com que este homem se tornasse mais interessante do que simplesmente observá-lo. De certo, ele dá uma história. E, sem dúvida, tratá-se de alguém que pessoa que utiliza o metrô poderá tê-lo visto e, quem sabe, se aborrecido com sua pregação contínua, que se dá não apenas pela voz que destoa, bem como nas escritas em sua camiseta sempre preta. E por que será que ele veste sempre a camiseta preta? E será que eu não me confundo e esqueço que já o vi com outras cores?

São Paulo, sobretudo, é isto. Pessoas. Histórias. Seres humanos. Algumas pessoas desafiam a invisibilidade do dia-a-dia. São transgressoras da paisagem urbana, em que pessoas comuns como nós não são vistas. Passam desapercebidas. E se acaso invadimos o campo ocular alheio, sentimo-nos hostilizados de algum modo, seja pela indiferença, ou até pela dureza da expressão do outro. São Paulo, metrópole, não é para todos. E se você quer exemplo, eu o tenho aqui nas mangas da memória. Ela, bela de rosto e corpo, assustou-se com esta cidade. Chorou debaixo do chuveiro. Sentiu saudade de sua "vidinha" naquela cidade do interior. E, de fato, voltou para lá. Aqui, o medo era grande. De um modo tal, que esperar o próximo trem do Metrô era inevitável a sensação de alguém pudesse empurrá-la na frente do trem.

Assim, ao final deste texto, pode quem lê perguntar-se por que escrevi isto. É que, perdoa-me, nesta cidade, muito mais interessante do que os carros, as propagandas, as sirenes desvairadas, discussões de trânsito, discursos de corpos, magnatas descolados da realidade, obras, produtos, sobretudo produtos e suas vitrines - perdoa, não esqueça disto -, muito mais interessantes são as pessoas que habitam aqui. E isto independe da classe social de cada um. Os seres humanos aqui é que carregam a essência desta metrópole. E, mesmo aqueles que desgostamos, cada um de nós carrega verdades as quais nem nós, donos delas, temos exata consciência.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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