Esperança para os que nascem nesta semana

terça-feira, setembro 30, 2008 · 0 comentários

As calçadas de uma das avenidas do bairro que divido com outros seres humanos - cada qual com sua história - foram reformadas. Uma grande rede de magazines inaugurou ali um dos vários pontos de vendas que espalhou pela cidade. Estou no Tucuruvi, bairro com classe média cercada de muita pobreza. Retrato fiel das desigualdades sociais na capital mais rica da América Latina.

Vejo as pessoas e me incomoda a certeza de que quase todos ali, não me excluo nisto, possuem um nível educacional medíocre. Se a minha formação é frágil, a daqueles homens e mulheres de trajes simples, sofrimento nas faces, é ainda pior. E é essa possibilidade de comparação que me inquieta e me traz certo desgosto pela realidade social deste país que ainda não é de todos.

Confesso, deixo aqui o relato de meu grande sonho. Que o brasileiro possa usufruir de verdadeiro e denso sistema educacional. Mas isso é utopia, eu sei. Só mais uma das que carrego comigo. Quem sabe eu apenas não projete nos outros um desejo para mim. Quem sabe esse meu ato não é a expressão de meu egoísmo que se disfarça em coletivismo. Mas mesmo que o seja, não importa tanto.

Sejamos, então, menos utópicos e mais aventureiros. Encaremos o mundo como uma grande floresta hostil. Nela, cada indivíduo deve lutar não apenas para sobreviver, mas também escapar das armadilhas que o sistema vigente impõe. Nesse contexto árduo, só os mais aptos vencerão. E citemos como exemplo um menino de rua que virou economista, entre tantos outros que saíram do nada e mudaram suas realidades. Este é o uso das exceções. Um modo de justificar tudo como está. Nada mais cruel e hipócrita.

Sim, eu e você sabemos quantos são extremamente acomodados. Muita gente é assim. Mas pode ser que aprenderam justamente tal comportamento na escola pública, que produz sujeitos que não gostam de pensar. Daí, a Matemática é inimiga aceita passivamente. O caminho mais fácil e cômodo sempre será o preferido.

Por mais que eu tente justificar os péssimos índices socais, sempre irei encontrar o contraditório. Faça simples comparação. Pegue os filhos da classe média alta e os de famílias pobres. Os primeiros, quase todos, estudaram, têm curso superior e vivem bem do ponto de vista econômico. Os outros, do grupo que vive precariamente, em sua maioria, de certo não estão melhores que os seus pais. São as heranças sociais das quais é difícil se livrar. Estudaram pouco. Conseguiram os piores empregos. E as perspectivas sempre foram reduzidas.

Declino da contestação. Agora uso de positividade. Nosso país caminha vagarosamente para ser uma nação desenvolvida, ao que parece. Com a descoberta do Pré-sal, em Santos, surge a chance de avançar mais. Esperançoso, acredito que o país vai melhorar. O atual presidente que, com seu alto índice de aprovação, já pauta o próximo governo. O desenvolvimento petrolífero em nosso quintal deverá beneficiar a nação, afirmou Lula. De certo, o próximo presidente não irá retirar a pauta lulista de seu governo. O país só possui um caminho: avançar. E, ao que tudo indica, apenas uma crise externa pode nos atrapalhar. Sigo esperançoso que este Brasil será outro Brasil para gerações vindouras. Assim espero. Ao menos, teremos deixado uma boa herança para os que nascem agora e durante a semana.



Nós somos os outros

terça-feira, setembro 23, 2008 · 0 comentários

"A vida é um fardo. Temos que aceitar a dor". "A obrigação de cada um é ser feliz". As pessoas estão cansadas do que está aí". São frases ditas por diferentes pessoas. Há desigualdades intelectuais entre elas, como também não deixa de existir um abismo no que tange à inteligência emocional. Para mais, para menos, todos cumprem o papel permitido por suas mentes.
O fato é que as três filosofias trouxeram-me a tão necessária dúvida. Uma frase que seja minha, no debate em questão, não a tenho. O que trago comigo é inexistência de certeza. O que é bom, pois quem a tem vive cego e, como disse o intelectual, idiota. De qualquer forma, parece pertinente o que diz um dos três filósofos em questão, ao mencionar que não aceitamos as dores da alma. E aí indago por que o medo da tristeza. Parece-me que há a obrigação de sempre estar bem. Vai ver que é por isso que o outro não admite mau-humor ou destempero alheio. Podemos fechar o livro de cobranças e considerar que naquela hora, o nosso interlocutor não estava bem. Vai se saber o que se passa pela pessoa. E também, será possível entender por que aquela pessoa sempre finge semblante sorridente, quando na verdade por dentro é cinza, e só cinza.
Evidentemente que para compreender o outro, você terá que se machucar um pouco. E isto significará o reconhecimento de suas imperfeições, que, perdoe-me, são muitas. A partir disto, ao igual será possível dar uma chance que, de certo, você já desejou para si.
Com tudo dito, fica a certeza de que nem sempre as coisas se dão de forma tão simples. Desavenças, você as terá vez ou outra. Mas será possível que as caras duras e amarradas de hoje, num amanhã que não se sabe quando, sorrirem-lhe de modo sincero, e já sem tantas amarras de antes, mas claro, com algum resquício, não queiramos tanto. Lembrando que nós também somos os outros.



A essência da metrópole

sábado, setembro 20, 2008 · 0 comentários

Diversas vezes usei a terceira pessoa para escrever. É uma forma que me agrada e faz com que eu me sinta observador de mim. Mas hoje uso a primeira pessoa. Acho que adentro uma fase de maior exposição dessa pessoa que eu sou. E não é que eu deixe de ser eu em terceira pessoa. Mas quando optei pela opção que me dei, apenas me desdobrava entre o observado e observante. Se isto para você é devaneio, para mim é também. E davaneios são assim, deliciosos enquanto inofensivos.

Era a terceira vez que ele parava defronte ao stand. Pediu-me alguns informativos. Eu, do mesmo modo desde a sua primeira visita, obedeci ao seu pedido, bem como duvidei de que seu ato fosse algo verdadeiro. E foi agora que trocamos algumas palavras, das quais eu não entendi quase todas. E aí descobri que tratá-se de um homem já aposentado, que a pinga lhe agrada, embora as medicações que toma o impeçam de sorver o álcool que gosta de arder na garganta. Consegui finalizar a conversa. Rimos algumas vezes. E, quase o tempo todo, me fiz compreender, embora eu inventasse, posto que o homem possuia severa dificuldade para articular palavras.

São Paulo é assim cheio de personagens. Outro dia abordei um homem que a cara inchada o qual ele a expõe com excesso de maquiagem, cujo exagero parece metafórico, na medida em que ela representa o pesar que sua alma transparece no rosto que não é nada convidativo. Ele não aceitou conceder-me uma entrevista sem um cachê. O modo como confirmou a necessidade de algum valor que lhe valesse à pena dizer-me quem é, demonstrou classe e firmeza. Claro, não senti raiva alguma dele, pois entendi que era a necessidade que o fazia cobrar para falar. O que posso dizer dele é que o vi algumas vezes. Ele anda pela Avenida Paulista, nas proximidades da Consolação. Abordá-lo não se deu no primeiro momento que o vi naquele domingo. Eu calculei que o máximo que ele me ofertaria seria um "não". Do cálculo feito, a precisão foi perfeita. Mas eu me senti vitorioso, pois não apenas havia abordado a pessoa, bem como descobrira pistas de quem seria aquele ser humano.

A primeria vez que vi e ouvi aquele oriental cantando e pregando a palavra de Jesus foi há alguns anos. Naquela época, eu nem pensava em escrever, embora fosse coisa que eu gostasse. Dia algum, naqueles dias daquele tempo melancólico, tencionei entrevistá-lo. Hoje, contudo, as mudanças da vida, este blog, o curso de jornalismo, fez com que este homem se tornasse mais interessante do que simplesmente observá-lo. De certo, ele dá uma história. E, sem dúvida, tratá-se de alguém que pessoa que utiliza o metrô poderá tê-lo visto e, quem sabe, se aborrecido com sua pregação contínua, que se dá não apenas pela voz que destoa, bem como nas escritas em sua camiseta sempre preta. E por que será que ele veste sempre a camiseta preta? E será que eu não me confundo e esqueço que já o vi com outras cores?

São Paulo, sobretudo, é isto. Pessoas. Histórias. Seres humanos. Algumas pessoas desafiam a invisibilidade do dia-a-dia. São transgressoras da paisagem urbana, em que pessoas comuns como nós não são vistas. Passam desapercebidas. E se acaso invadimos o campo ocular alheio, sentimo-nos hostilizados de algum modo, seja pela indiferença, ou até pela dureza da expressão do outro. São Paulo, metrópole, não é para todos. E se você quer exemplo, eu o tenho aqui nas mangas da memória. Ela, bela de rosto e corpo, assustou-se com esta cidade. Chorou debaixo do chuveiro. Sentiu saudade de sua "vidinha" naquela cidade do interior. E, de fato, voltou para lá. Aqui, o medo era grande. De um modo tal, que esperar o próximo trem do Metrô era inevitável a sensação de alguém pudesse empurrá-la na frente do trem.

Assim, ao final deste texto, pode quem lê perguntar-se por que escrevi isto. É que, perdoa-me, nesta cidade, muito mais interessante do que os carros, as propagandas, as sirenes desvairadas, discussões de trânsito, discursos de corpos, magnatas descolados da realidade, obras, produtos, sobretudo produtos e suas vitrines - perdoa, não esqueça disto -, muito mais interessantes são as pessoas que habitam aqui. E isto independe da classe social de cada um. Os seres humanos aqui é que carregam a essência desta metrópole. E, mesmo aqueles que desgostamos, cada um de nós carrega verdades as quais nem nós, donos delas, temos exata consciência.



O dia que virou ontem

terça-feira, setembro 16, 2008 · 0 comentários

Adentro ao vagão e procuro um banco à janela. É que carrego tanto sono que tramo dormir. O cansaço se evidencia em meu semblante. Observo ao redor meu de modo até belo. É gostoso mirar rostos sem condená-los. Nem mesmo observar o vomitar da criança me traz repugnação. Olho para aquelas pessoas, partículas de uma massa inerte, e não as vejo mais como vítimas de um sistema cruel. Somo-me a elas e concluo que a culpa é nossa. Delegamos responsabilidades e seguimos assim alheios às principais questões das vidas nossas. Podemos culpá-los?

Acho que estou assim, bobo. De um modo tal que não sentiria raiva alguma de você. Nem mesmo condeno o jovem negro que entrou atabalhoadamente e tomou a frente de velhinhas brancas para sentar-se. Pensei até que ele se vingasse do preconceito que mancha seu cotidiano de cinza. Ofereci meu lugar a uma delas, mas não como quem quisesse ser escola. Acho que temia a opinião alheia. A senhora, um tanto assutada, avisou-me que desceria na estação seguinte, não carecia.

Seguimos viagem. Meus olhos observam. A próxima estação era a que eu desceria. A escada me leva, eu não tenho pressa, embora esteja atrasado. Meu horário de entrada é anotado pelo funcionário que já tenho como amigo. Alguém que dá uma história que talvez um dia eu conte. Dirijo-me ao meu espaço. Ajeito tudo ao modo que gosto. Visto mais uma blusa, aqui é frio e vento. E receio escrever. Algumas idéias povoam a minha mente. Mas eu temia escrever mais do mesmo.

Dirijo-me à cozinha e lá encontro um guarda de azul que parece tentar disfarçar alguma tristeza. Hoje não senti o repúdio de antes. Esqueci-me de seus pedidos impertinentes. Ofereço-lhe café. Mas ambos declinamos do ato. O líquido que preenche a garrafa está frio. Despedi-me e voltei para o meu canto.

Pela manhã estive com irmão, cuja vida lhe parece aborrecedora, mas que de algum modo ele tenta portas que o tragam alguma emoção. Antes de tudo aqui dito, sair da cama foi luta que venci, embora com algum atraso. Desta vez, felizmente a obrigação venceu a preguiça.

Recordo-me agora das eleições. Época que evidencia o quanto nos eximimos das responsabilidades. Deixamos o orçamento da cidade nas mãos de um grupo. Não nos apresentamos. Não cobramos. Aliás, as cobranças deixamo-nas para a impresa. Apenas reclamamos. E muitas vezes de modo improcedente. Deixamos tudo nas mãos do outros. Se tudo não está tão bem, a culpa é só deles?

Hoje é domingo e já foi o tempo de "tudo está fechado". Pessoas passam por aqui sem me causar espécie alguma de incômodo. E não é que eu carregue comigo algum êxtase de felicidade. Há, de certo, algum aborrecimento, o que considero algo muito positivo.

Agora, no ato da digitação deste texto, é outro dia. O domingo se foi, e até que me agradadaram as horas deste "dia de descanço". A partir daqui, muda o tempo do verbo. O domingo é passado, como tantos outros domingos. E se você perceber, é tão rápido que a gente nem percebe. Não sei ao certo como terminou o dia de ontem. Mas houve amigo, família, eu. Mas também não houve. Mas isto é outro assunto, o qual, agora, a porta se fecha. Este parágrafo já entra para o passado.



Rápida edição de cenas

domingo, setembro 14, 2008 · 0 comentários

Parou. Olhou. Imediatamente desviou olhar. Não demorou segundos que dessem um minuto e se foi com sua turma. Seu rosto já são fragmentos de um registro que logo se vai. Jogou a caneta sobre o papel e esperou. Olhou em redor. Precisava de um outro personagem não identificado. O ato do início deste parágrafo se repete agora.
Ficou entre escrever sobre os dois que, proibidamente, corriam, e a mulher que ainda há pouco, quase nada, pedira informação. E até quis dizer algo sobre a morena bela e ombro que doia ao apoiar braço no que talvez seja um para-peito.
Do bolso tirou a mão. Descruzou pernas. Avistou rosto conhecido. Gostou do decote. Enquanto quase tudo isto, senhor procurava papel com endereço. Pediu a informação de maneira cortês e seguiu seu caminho. A caneta registrou imediatamente fatos ocorridos. Comparou seus olhos com a lente da câmera que registra imagens. Não entendeu a cena. O senhor de muletas chamava por alguém. Dois rapazes de óculos ficaram bravos ao ver que não era com eles. Surge no quadro que não se pode dimensionar uma senhora que pode ser sua esposa. Buscam a saída daqui. No corte de cena, a visão de outro homem com muleta. Não é encontro algum, senão algo casual. E na expressão do que foi registrado, a desistência como opção. Já parou aqui senhor que arranjou por comunicar-se mal. E já se foi jovem insistente com pedido de favor que ter sido atendido poderia trazer transtornos. Fundo preto.



Ato aleatório de palavras

segunda-feira, setembro 08, 2008 · 1 comentários

No âmbito da questão. A escolha imprecisa da idéia. O uso de conteúdos calados. A busca pelo destravamento sentimental. A recordação de outros fatos, outros usos. Uma leviandade na paquera. Ela como mero teste. Ainda está em forma? Depois disto, o que se tem é rápida desistência. Daí, o caminho que surge é inexistente. Como caminhar? Prosseguir? Ir? Sem opção a olhos vistos, vai o passo seguinte. Não sabe onde pisa. Parece cutucar algo em seu obscuro interior. E o que encontra, ele gosta? Se não gosta, se esquiva? Nem um, nem outro. Gostar não é a questão. O que lhe vale é a imediata expressão. Uma utilização aleatória de palavras. Para que, nessa perfuração literária, encontre em seu âmago alguns “eus” desconhecidos, e até os que já não são novidade.
É o texto terapia. O mergulho por meio de vocábulos. No divã, ele. À escuta, ele também. Ato insano? Devaneio? Será que tudo o que você faz tem explicação, razão? É você uma máquina perfeita que não comete atos ilógicos? Mas por que lhe indago tão agressivo? Não sei. E, confesso, você atrapalhou, desviou o galope das palavras.
O final do parágrafo antecessor. O engano cometido. Desvio da falta de rumo. Segundos de silêncio. Escuridão de idéias que retorna. Cilada despercebida. Novamente, tática aleatória na construção de frases. É, de fato, o caminhar para o canto. Sentar-se. Resignar-se. Silenciar. Mas, de forma alguma, lastimar. É assim mesmo, já é sabido. Quantas vezes não abrimos mão de uma empreitada? Não é a última vez. Importa é a serenidade do ato silencioso. Não é desistência com algum ranço de derrota ...
A obrigação das circunstâncias interrompeu o processo construtório de palavras. E assim, por ora, agora, silêncio é o que se dá.



Os meninos da "Embalagem"

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blog série - "Naquela empresa"


Revolvi o arquivo do blog. Encontrei a uma série de textos: "Naquela empresa". Um passado presente. Uma falha minha comigo e com os leitores. Eu deixei de escrever a respeito do assunto a que se refere esta série. Há muito o que dizer a respeito. Os cincos anos naquela empresa foram-me aulas práticas de sociologia. Dali, muitos reflexões podem ser tiradas. Seja dos relacionamentos entre as pessoas. A relação patrão-empregados. O estudo como libertação. A escravidão assalariada em função das péssimas condições sócio-economicas dos trabalhadores. Enfim, há o que dizer.

Dia-a-dia o elevador parava no 10º andar. Tocava a campainha e entrava. Eu já não era o mesmo dos anos iniciais de quando entrei na empresa. O movimento de libertação se dava em mim. Talvez o primeiro passo tenha sido a revolta. Sim, eu não podia estar ali naquele ambiente aviltante. Éramos como se fóssemos trabalhadores excluídos da legislação trabalhista. No pagamento, quando assinávamos dois holerits, éramos lembrados dos desrespeito aos nossos diretos. O dono daquela empresa expressava seu desprezo para com seus funcionários. Por ele, todos ali morreriam ganhando o mesmo salário de cinco anos atrás. Ele não tinha a obrigação de gostar de ninguém. Tudo bem que sua religião eram os lucros. Mas o respeito aos trabalhadores não prescinde amor ao próximo. Sentíamos fortemente a ausência do Estado. Nem mesmo uma carta-denúncia mudaria tudo. Só havia uma saída: o pedido de demissão.

Ao conversar com um dos funcionários em que a revolta contra o patrão era das maiores, percebi a diferença de mundos que vivíamos. No contexto da conversa, perguntei-lhe a cor das paredes de sua casa. Informou-me que não possuiam cor alguma. Depreendi, imediatamente, que ele morava em casa de tijolos vermelhos rebocados. Mas talvez pudesse ser algo mais precário ainda. Se o leitor não consegue visualizar, basta que procure fotos das casas nas periferias de São Paulo. O meu interlecutor morava num dos bairros mais pobres desta metrópole desigual: Guaianazes, zona leste da capital. Não me constrangi com a minha pergunta. Eu aprendera e usar do bom humor reconquistado para sair dos labirintos impostos pelas diferenças sócio-culturais dentro daquele empresa. Afirmar que eu sempre era hábil seria uma precisa inverdade.

A reflexão que quero fazer a partir deste passado naquele empresa é a prisão a que se submetem trabalhadores pelas simples impossibilidade de mudar de emprego, em função não apenas do seu baixo nível de escolaridade, bem como uma alta taxa de desemprego. Assim, aqueles jovens rapazes que praticamente brincavam o dia inteiro naquele setor que chamávamos de "Embalagem" carregavam dentro de si enorme revolta com o pequeno salário pago, desproporcional ao excesso de trabalho. Todos, não havia excessão, queriam sair dali. Contudo, nenhum deles possuía uma profissão, uma especialidade. No currículo, apenas as experiências passadas e atuais. A única forma de libertar-se seria estudar. Mas pagar um curso era algo impensável. Alguns deles possuíam filhos, embora não fossem casados. Outros, planejavam o casamento. Havia até quem fosse separado e casara-se novamente. O que se tinha ali era um caldo social acizentado. O nível de leitura era extremamente baixo. O jornal que corria a sala era o "Lance", que trata só de futebol. Aliás, as peladas dos finais de semana eram assunto recorrente. Para quem olhasse de fora, veria felicidade. Tudo bem, havia uma alegria momentanea. Mas a conta chegaria lá na frente. E talvez nem demorasse muito.


Os anos iniciais naquela empresa foram extremamente difíceis, como eu já relatei nos outros textos sobre este mesmo assunto. Mas eu não sou o personagem central nesta história. Aliás, seria covardia eu me colocar igualmente aos garotos da "Embalagem". Se estudei, foi por que pertenço a um outro segmento social. Estar ali era circunstancial. E foi com dinheiro de familiares que paguei mais de três mil reais em um curso. Nove meses depois, consegui um outro emprego, agora em uma empresa que é séria nas questões trabalhistas. Claro, não sejamos inocentes. Há forte fiscalização sobre as grandes empresas. Mas isto é outra questão.

O patrão passa pela "Embalagem" e não dá bom dia a ninguém. Todos ali o temem. O medo é fruto do poder que ele tem como dono da empresa. Há uma relação explícita de desprezo entre ele os meninos da "Embalagem". Caras amarradas. Vozes silenciadas. Passos que fazem barulho. É o gigante verificando seu gado. Dali, o patrão entra em outro setor. O mesmo medo. Silêncio igual. Na sala de edição, pode ser que ele dê um "bom dia". O tratamento melhora um pouco. Eu, boa parte da minha presença ali, fui cortês com ele. Dava-lhe bom dia e recebia tratamento igual. O patrão, em verdade, era homem educado. Seu problema era apenas seu caráter despótico em relação às pessoas mais humildes. De qualquer forma, diversas vezes recebi o mesmo desprezo. Mas não o tenho em má conta. Aquele homem carregava consigo um desamor pelo ser humano. Ele parecia vingar-se da humanidade.

continua outro dia....



Cálculos imprecisos

domingo, setembro 07, 2008 · 3 comentários

blog data real 25AGO2008


Fez cálculos imprecisos. Baseou-se em histórias do cotidiano. Concluiu que era por isso mesmo. De repente, todo aquele desconforto, a dor da alma. O medo de sentir tamanha angústia. O domínio da mente. Uma cilada psíquica. A fuga de si como saída única.
Mas no dia seguinte, dos cálculos feitos, fez a busca por solução. Colocou em prática a estratégia arquitetada. Com o passar das horas, a queda da certeza. A matemática sua se mostrou traiçoeira. Outra vez mais foi pego pela tristeza, angústia e desconforto. A porta da ausência foi a única que desejou. Após passar por ela, cerrar olhos foi ato gostoso e necessário. E surpreendeu-se com sua melhora já no final do dia.
Temeu a manhã seguinte. De um modo tal, que não cumpriu as obrigações das primeiras horas de uma segunda-feira indesejada. Manteve-se mais um pouco ausente do mundo. Quando voltar para o mundo das obrigações mostrou-se imperativo, temeu fortemente as dores da alma que se anunciavam. Mas seguiu em frente. Não por coragem, senão por necessidade.
Lembrou-se da filosofia do bom amigo que mencionou o medo que temos pelos momentos infelizes. Sim, ele queria não temer angústias e esse desgostar-se repentino.
Tudo se mostrava ruim como ele projetara. Ao seu lado, o medo. Sua luta pela indiferença desafiava os sentimentos de desgosto. Alguma alegria, e dava como ilusão. Até que na segunda xícara de espresso, as mudanças se mostravam maiores e melhores. Estar ali em público já parecia possível. Agora não era doído estar em meio àquele vai-e-vem de pessoas desconexas entre si. Estava melhor... Um outro eu se calava...

opiniões opiniones opinition

Pois é, Dell. Nosso indissociável personagem de cada dia. Os meus cálculos também são imprecisos. Cest' la vie...Está tudo muito bom por aqui! =)Beijos
Carolina Oliveira, estudante de jornalismo UNIP



Tantas indagações

quinta-feira, setembro 04, 2008 · 0 comentários

Dessa negação quero fazer assunto. Da vontade para a prática a coisa muda. Complica. Emperra. Daí, indaga-se se a saída é imediata necessidade. Parecido com opção. Caminho. Jeito. E prosseguir, de repente, já se torna inevitável. Agora que começou, termina. Se o desânimo bate, desacelera. Parar, não. Fazer o quê? Não é assim que tudo funciona? O humano, agora máquina, tem de se portar como tal. Bom, já que é assim, façamos revisão. Vez em quando emperramos. O sujeito, tem dia, nem sair da cama quer. Pane emocional. E quantas máquinas humanas estão emperradas? Neste momento. Enquanto há o abuso de indagações aqui. São muitos, sabemos. E a causa disto, qual será? Você sabe? Eu sei? Os dominadores dos sistemas sabem? Hoje são essas pessoas. Amanhã poderá ser nós. Mas é cada um por si. Dispersão. Desconexão. Isolacionismo. Individualismo necessário? Inevitável? E afinal, por que essa culpa quando a alma não sorri? Será comportamento natural ou aprendimento com o tempo na na cruel escola da vida?



Somas imprecisas

quarta-feira, setembro 03, 2008 · 0 comentários

A soma que faço, do tempo que observo, na imprecisão da lembrança, dá o resultado de três. São casais extremamente apaixonados. Sobreviventes do pouco romantismo que ainda percebo por aí. Mas, tão falha é a memória, que visualizo na mente apenas dois pares que se beijam e se despedem de modo intenso. São as falhas da memória, indicativo da qualidade duvidosa da máquina humana.
Há outras somas. As pessoas que se destacam em meio à multidão. Desta vez, no cálculo do agora, não há resultados. Dois desses personagens, eu me recordo. Mas, em verdade, o que se tenta recordar aqui é absolutamente secundário. O que caracteriza este texto é o ato provisório, absolutamente incerto, das somas precariamente feitas. Muito provavelmente, tentar reconstruir fatos passados é falso desejo. Sobre a calculadora os dedos deixam digitais com pouca, quase nenhuma, vontade. Expressa, isso sim, o desejo real de agora. Que é escreve, sentir, somar palavras.



Não-crônica

segunda-feira, setembro 01, 2008 · 0 comentários

A não-crônica é feita de negações. Seu êxito se dá fundalmente em não observar. Pra que isso ocorra é necessário que o envolto seja absolutamente indesejável. De um modo tal, que simples registro do movimento alheio de pernas sem vontade é razão para que algum conteúdo seu grite lá de dentro até você desviar os olhos. De qualquer forma, desviar olhar é fuga de um elemento de incômodo. Pode lamentar-se, o desconforto que você sente pelo o que vê não é causado pela imagem momentânea. Há dentro de ti um "pote até aqui de mágoas". Há uma soma de fatos não resolvidos. Há, sim, o salto das inquietudes suas que utilizam do outro para se expressar. É uma dor, e a dor é amiga. Aviso de que algo precisa ser feito.
Então, é um pouco disto o não ato da construção de uma crônica por pior que seja. Você abandona qualquer tentativa de observação. Fecha-se em seu pequeno mundo "tão complicado". Resume a sua existência a você mesmo. E nem se trata de um mergulho interno, senão uma ausência de tudo. Sim, é uma renúncia. Você está aborrecido, amendrontado. Mas é assim, caso você queira deixar de escrever o gênero literário em questão. E assim, por aí, por todos os lados, o que se tem é esse silêncio de palavras. Olhe nos rostos e verá inúmeras não-crônicas.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
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