Recapitulando

quinta-feira, agosto 07, 2008 ·

blog convidados

Por Adalmir Sandro

Às vezes, eu não entendo bem porque as coisas são como são e acontecem como acontecem. Estou em um momento de não saber para onde ir. Sinto-me estranho. É como se, apesar de tantas perdas e tanta insegurança no campo financeiro, afetivo, etc., eu percebesse algo de positivo em toda essa balbúrdia existencial... É claro que não posso negar que estou triste por estar perdendo oportunidades tão valiosas profissionalmente. É surpreendente como eu tenho perdido, ou deixado de aproveitar tais oportunidades. Penso isso por estar fazendo uma recapitulação de minha vida e estou começando a perceber (hopefully!) que nem sempre colaboro com o meu próprio bem-estar. Parece que acho, inconscientemente, que não mereço o sucesso ou a felicidade, ainda que não saiba conceituar com exatidão essas duas categorias. Parece que tudo envolve o financeiro. Mas, aí, vem alguém bem sucedido que se suicida. Isso relativiza o raciocínio linear de que em se tendo dinheiro, tem-se a felicidade, ou manda-se buscá-la, aludindo aos irônicos de plantão. Enfim, fica até mesmo difícil dizer porque estando triste, sinto-me, de certo modo, bem. Não estou bem por ter perdido, mas, talvez, por pensar que não tenha realmente perdido uma oportunidade, mas ganhado uma outra que surgiu imediatamente depois da perda. Bizarro? Acho que não. Dinâmica humana. Ao perder, pela segunda vez em um espaço de poucos meses, a oportunidade de entrar para outra grande empresa do ramo de ensino de idiomas, eu tremi, quase chorei (devia ter chorado!), fiquei pasmado diante de tanto azar; se eu fosse do tipo supersticioso ou excessivamente místico, pensaria que há demandas contra mim. Macumba mesmo. Ao nos desesperarmos ficamos vulneráveis a todo tipo de crendices irracionais. O desespero enfraquece a razão, a condição de pensar. Em meu caso, talvez, haja outro ponto: a intuição. É um não-sei difuso, inexplicável (se o fosse, não seria um não-saber). Estou na merda, trabalhando para uma instituição medíocre, estudando sem resultados financeiros. Apenas intelectuais. Que não se ofendam os acadêmicos. Sou psicólogo, mas tenho somente uma cliente, que já pensa em deixar a terapia. Honestamente eu digo "graças a Deus". Ninguém merece depender de um psicólogo! Isso é bom por um tempo. Ao requentar um café notei em minha face um sorriso, um leve sorriso. Uma certeza de que, no meio de tanto erro (sou errante), eu estava no caminho certo: o meu. Este é o meu caminho. Sei melhor do que ninguém que é responsabilidade minha construir esse caminho. São escolhas, nem sempre conscientes, que o constroem e o desconstroem e o reanimam. Tenho o privilégio, ou a arrogância, de dizer que escolho por onde quero ir. Essa é a ideologia do individualismo, não é mesmo?Acreditar que estou por minha conta. Quanto privilégio! Fuck off! Ninguém está por conta de si mesmo! Muitos pensadores do mundo do trabalho podem dizer isso. Quando aquele que pode mais resolve detonar o subalterno, voltamos a entender que estamos em um espaço compartilhado e estabelecido por relações de poder, profundamente afetivas, mas de poder. Ah, como é bom falar sem precisar citar outros! A academia, por vezes, me cansa porque minha fala só é ouvida, ou lida, ou discutida, se for enrabada por outra. Nada pode ser excessivamente meu! Acho que esta é a regra. Bem, voltando à minha intuição, sinto-me bem, apesar de nunca ter estado tão pobre desde que me entendo por profissional no que faço. Nunca soube tanto sobre mim mesmo e minha profissão. Nunca fui tão pouco reconhecido financeiramente. Nunca senti tão de perto o que é viver neste pedaço de terra que chamam de Brasil. Fica difícil até sorrir no meio de tanto desprazer. Não vale a pena comentar. O Brasil não merece tanto destaque. Entendam esse Brasil como aquele que nos faz mal. Não falo do povo. Este nunca existiu para o Brasil. De qualquer forma, também não sou admirador das massas. Só admiro o que tem história. Talvez, neste momento de minha existência, eu esteja sendo massa. É por isso que me sinto mal por ter perdido tanto; mas, deixo de ser massa quando resolvo dizer algo de minha própria boca. Este texto é uma catarse, mas uma catarse pensada. Se não eu não poderia chegar até aqui. Acho que ninguém leria até aqui se não houvesse desejo de continuar sabendo o que penso. Às vezes, temos que ter a arrogância de querer que o mundo nos ouça, ou nos leia. Acreditar que nossas palavras farão alguma diferença. Enfim, não sei. Sentei para escrever por causa do que sinto e não por vontade de escrever. Detesto a obrigação. Acho que é por isso que não me dou bem com o que chamam de emprego. Ninguém quer saber o que sinto nesse contexto. Tudo o que tenho que fazer é fazer. Nada mais. Até porque não interessa saber algo mais de mim, desde que eu produza. Detesto o emprego! Mas, preciso de dinheiro! Não há existência que não entre em crise a não ser que não se dê conta de existir. Bem, é isso. Eu só precisava ocupar minha atenção. Sou hiperativo (rótulo) e não tenho paciência de ficar concentrado por muito tempo. Acho que não consigo.

Adalmir Sandro, Psicólogo, São Paulo SP
http://www.psicopoemasereflexoes.blogspot.com/

opiniões opiniones
É um grande privilégio ter uma colaboração como esta no blog. E ela é profundamente você. Abraço!
Adelcir Oliveira, autor do blog



1 comentários:

opiniões&crônicas disse...
agosto 07, 2008  

É um grande privilégio ter uma colaboração como esta no blog. E ela é profundamente você.

Abraço!

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
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