O indigente no bar. Os menores na estação

domingo, agosto 17, 2008 ·

Maltrapilho. Maltratado. Descuidado. Deselegante. Segue ele em diante. O que vai ser não existe mais. Ele já não é nada além de um ser invisível. Adentra ao restaurante. Pede água. Um copo que não se paga. Há resquícios de uma refeição sobre a mesa pequena. Pede permissão para finalizar o prato que ainda não foi retirado. É autorizado de forma até carinhosa. Após a primeira garfada, vem o aviso de que irão separar para ele em uma marmita para que a leve, não fique por ali, os clientes podem não gostar. Nessas horas o homem deixa de ser invisível. Ganha importância negativa. Recebe a água. Pega sua marmita de um resto de alguém que doou sem saber. E se vai.

A cena foi observada. O rapaz tomava seu café. Faz isso diariamente. Diverte-se ao fazê-lo. Finalizada a xícara e pão-de-queijo, paga e se vai. Segue na sua luta em busca da construção de seu futuro, do reparo do passado, do rearranjo do presente. Depois disto, o texto desfoca. Não retrata mais nada do que se passou. É o vazio na memória. Talvez, nada importante tenha ocorrido. O jeito é misturar fatos, dias.

O menino passa pelo bloqueio daquela estação do Metrô. O problema é que o faz sem pagar. E ri como se fosse brincadeira. A metroviária vê, mas faz apenas careta. Não há outra reprimenda maior. Aquele que tomava café observa divertidamente. Não interfere. É mero personagem da cena. O menino toma o rumo. Desce a escada e desaparece. Voltará depois. É quando a brincadeira ficará séria.

O garoto está de volta e trás companhia. Agora o que se tem é um trio. A parada é dura para os metroviários. As crianças são convidadas a abandonar a estação, pois ali não é lugar para bagunça. Mas elas avisam a permanência a qualquer custo. Ninguém ali imagina que tudo vai terminar na delegacia de menores.
Há uma arma. Somente depois que o participante obsevador ficou sabendo. Ela foi apontada contra um dos metroviários. Guardas de preto trazem um dos garotos pelo braço. Querem que ele mostre onde guardou o estilete, o qual nega existência. Mas um trabalho de convencimento é feito. É a prova que os funcinários do Metrô precisam para levá-las à delegacia. Obtido êxito, todas as crianças são escoltadas até à delegacia.

Já houve vezes em que a balbúrdia se deu com outros garotos. Usuários, indignados, comentam que é necessário surrá-los. Sabem que isto não é solução. Querem mesmo é a expressão de suas violências reprimidas nas caras amarradas. O rapaz ouve o comentário sem expressar qualquer opinião. Sabe que isto não é solução. Crianças, para que não se tornem infratoras, necessitam de escola e família saudável, bem como muito entretenimento. Ainda assim haverá deliquência, mas de certo os números que irão compor a estatística da violência serão menores.

Ninguém fala em surrar empresário que roubam cofres nossos e são soltos por habeas-corpus. Aliás, nem algemá-los o STF permite. Enquanto eram os pobres que passavam por tal "constrangimento" ninguém se pronunciava. Basta o país caminhar para uma democracia de fato, a lei valer também para os ricos, que autoridades dão um jeito de proteger seus pares. Mas não fiquemos em desalento. Vivemos em um regime liberal que caminha para a democracia. E esta só existe quando há cidadania plena. Ainda estamos longe, mas seguimos em frente.

O expediente se encerra. Ele guarda o material com o qual trabalha. Fatos que se sucederam serão esquecidos ou não. Comenta com alguns que crianças foram presas lá no Metrô. As pessoas se espantam. O dia se dará e o que foi não é recordado. No dia seguinte, verá dois meninos do grupo da querela de ontem. A metroviária já havia avisado com ódio na expressão que todos seriam soltos. O Estado, que não quer fazer nada, solta-os pelas ruas. As calles que cuidem. É de fato a certeza de que um dia a morte prematura e violenta vai resolver tudo.


opiniões opiniones opinition

Muito bom o texto. Faço um acréscimo: as calles que cuidem 'e a polícia que os mate'. Afinal, neste país, as soluções para problemas sociais que resultem em violência - e o abandono de menores é um deles - é a polícia. Visão esta estampada na idéia malufista de pôr a Rota na rua como solução. Será que só isto resolve?
Adalton César, casado, economista, São Paulo



1 comentários:

Adalton disse...
agosto 18, 2008  

Muito bom o texto. Faço um acréscimo: a calle que cuidem 'e a polícia que os mate'. Afinal, neste país, as soluções para problemas sociais que resultem em violência - e o abandono de menores é um deles - é a polícia. Visão esta estampada na idéia malufista de pôr a Rota na rua como solução. Será que só isto resolve?
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

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Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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