Um debate de três

domingo, agosto 03, 2008 ·

blog eleições 2008

O jornalista da Band pede ao candidato Ciro Moura uma explicação melhor sobre “poluição humana”, mencionando os moradores de rua, perguntando ao candidato o que faria em relação à enorme escassez de banheiros públicos na cidade de São Paulo. Moura, primeiramente, se explica em relação ao termo por ele utilizado, “poluição humana”, para depois enveredar para uma resposta evasiva e que demonstrou absoluto desconhecimento do modo como vivem os habitantes das calles paulistanas. No mais, o candidato parecia estar brincando de fazer campanha. Leva-lo a sério era perda de tempo. Em uma outra resposta que deu, não pude acompanhar, pois aproveitei para ir à cozinha e hidratar-me com um copo de água.

Podemos dividir o debate que a Band realizou ontem com os candidatos à prefeitura de São Paulo, em três segmentos. O primeiro, o mais antigo, é composto por candidatos que utilizam o debate como mero palanque eletrônico, desconsiderando o significado de tal evento como momento de debater de modo elevado os problemas e as soluções para esta metrópole. Nele se inserem Marta Suplicy, Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab e Paulo Maluf. Os quatro candidatos tentaram aproveitar ao máximo o tempo exíguo para convencer o eleitor a votar neles, desprezando a cidade, o debate a respeito dela, explicitando o projeto pessoal de cada um, o cidadão paulistano que se dane, vale é ganhar.
Marta mencionou Lula e o Bolsa Família. Alckmin citou tucanos falecidos, entre eles Mário Covas e Ruth Cardoso, com objetivo igual de sua oponente. Na mesma linha, Kassab usou o nome de Serra. E Maluf citou a si próprio, arrogando-se experiência e formação como "inginheiro". Frisemos que o discurso de cada um foi calculado por seus marketeiros. Explicita-se o não desejo de debater, mas de apenas buscar o voto de modo insano. Esses tipos de políticos não contribuem para o amadurecimento da nossa jovem e corrompida democracia.

O segundo grupo pode ser chamado de zona neutra, em que se incluiu solitariamente Ciro Moura, que não parecia ser candidato de fato, posto que suas respostas evasivas com chavões o faziam parecer menino brincando de fazer política, imitando os velhos políticos.

Propostas, debates de idéias, a cidade em primeiro plano, o respeito ao eleitor, ficou para o segmento dos candidatos que realmente pensam a cidade: Soninha Francine, Ivan Valente e Renato Reichmann. Os três agraciaram o eleitor avisado com reflexões sobre a cidade de forma sincera e humana. De modo algum buscaram as palavras mais certas pela simples busca do voto. Fizeram um debate elevado entre eles. Suas palavras foram absolutamente esclarecedoras. Contribuição necessária para a nossa jovem democracia.

De qualquer forma, infelizmente, do ponto de vista comunicacional, o primeiro grupo é mais eficiente, na medida em que fala para convencer, considerando o despreparo educacional do eleitor paulistano, reflexo de um ensino de qualidade desprezível. Mas o que está em questão aqui é o modo de fazer política. Neste sentido, Soninha Francine falou algo extremamente importante e delicado, que denuncia os políticos do modo antigo. No encerramento do debate, a candidata condenou a distribuição de cargos para favorecer bases aliadas, entregando postos importantes da administração municipal à pessoas desqualificadas técnicamente, o que compromete a gestão pública, bem como favorece os esquemas de corrupção. Esta mensagem vai claramente para os candidatados do primeiro grupo aqui definido, que estão em primeiro lugar nas pesquisas, meramente por serem mais conhecidos, o que não qualifica ninguém para cargo público algum.

O amadurecimento da democracia implica algum tempo que não se sabe quanto. Sem dúvida, ao ver presentes candidatos que realmente debatem a cidade nos traz alento quanto ao futuro de nossa aldeia. Não há dúvidas que a má administração pública, contaminada pela corrupção, tem como principal responsável o próprio eleitor, vitimado por uma educação de nível raso, que não lhe dá condições de discernimento. Assim, o blog deixa aqui sua proposta: o fim do voto obrigatório. Se estamos em uma democracia, não se pode obrigar ninguém a ir à urna para votar despretensiosamente, favorecendo políticos que apenas buscam ganhar eleições para favorecer seu grupo e a si. Há neste país uma parcela acordada da massa. Garanto que ela não se ilude com as táticas do uso dos debates como palanques eletrônicos. Mas fique claro, essa parcela é diminuta. Não nos iludamos e pensemos que a classe média é que a compõe integralmente. A cegueira política permeia todas as classes sociais. Sei de pessoas que concluíram o curso superior, mas são absolutamente ineptas para pensar politicamente. Elas ainda votam nos mesmos. São conservadoras. Iludem-se ao acreditar que é melhor permanecer como está. Desconsideram que o país é um todo, e que precisa melhorar para que tenhamos mais harmonia social. Mas fica aqui a mensagem positiva. A nossa democracia passa por um amadurecimento. Nela, somos todos meros personagens. E fica a informação importante sobre a organização da sociedade para mudar nossas realidades. Cita-se como exemplo a ONG Nossa São Paulo, que trabalha com propostas, bem como a mobilização do cidadão paulistano na busca por propostas que tragam melhorias para a cidade. É, de fato, um convite político-sentimental para cada habitante que luta aqui nessa metrópole. É um alerta claro para mostrar que a cidade é nossa, não apenas de um grupo privilegiado.

link da ONG: http://www.nossasaopaulo.org.br/portal



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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