Trânsitos

quinta-feira, agosto 14, 2008 ·

Não sei. E nem seria possível saber. Cada um tem seus motivos para escrever. Alguns deles parecidos. Outros iguais. E uma parte absolutamente diferente. Imaginemos um desses indivíduos. Dentro de si um trânsito de palavras. É o caos interior. E a incapacidade momentânea de organizar os vocábulos, a fim de regular o trânsito gramatical e, deste modo, formar, ora suas ruas, ora avenidas, em que se lê durante o percurso do trajeto ocular.

A bagunça dos automóveis nos dias atuais em São Paulo é por demais aborrecedora. Que gera estresse todos sabem. Gera angústia, ansiedade. Combinar palavras, num encadeamento organizado, onde não há atropelamentos, senão numa leitura equivocada, é mais simples. O custo não é possível comparar. Em verdade, o que resulta em trabalho competente é de consequência de um prazo em parte comprido, que demandou um passado regrado entre quatro paredes e toda a pressão da pequena maldade que permeia as escolas. Se a aplicação do aluno for maior, em casa ele terá a extensão da sala de aula. Neste sentido, o lar é nossa segunda escola. Numa hierarquização correta, o lar é a primeira escola.
Entre as palavras há um espaço delimitado e respeitado. Traseiras são amassadas em conseqüência de ato imprevidente de motoristas descuidados, que muitos podem ter como ousados. Mas a distância mínima não obedecida fez ser em vão a marca preta no asfalto do pneu que se arrastou até o choque com barulho, cor e cheiro. Em quem presencia, uma lembrança eterna. Vai saber identificar sempre quando presenciar outra batida.

A seqüência vocabular é tida como uma construção feita por alguém que possui gosto pela armação de parágrafos conexos ou não, isso não importa para determinados construtores literários. Muitos, ao verem enorme trânsito gramatical, desesperam-se, desistem. Ao deixar a porta do ambiente o qual lhe resguardava da balbúrdia automotiva lá fora, depara-se com o caos formado por elementos de aço levados por quatro rodas. Só de imaginar o enfrentamento inevitável, ele se desanima e se vai dele um pouco da tranqüilidade. Em alguns casos teremos o extremo. Uma fechada brusca resulta em discussão que vai terminar com gatilho pressionado que dará o tiro fatal. Quem vê, lê, ouve, vê e ouve, fica absolutamente pasmo. Considera desumano tal ato, que em verdade é absolutamente humano.

Para economizar espaço usa-se um coletivo. Ele contém todos os membros os quais o escritor não quer mencionar, posto que prefere evitar desperdícios. Milhares de autos seguem solitariamente. Neles, apenas o banco do motorista é ocupado. E esse desmembramento coletivo soma a densidade automotiva pelas calles até organizadas. Pessoas mais simples, lá no ponto de ônibus com banco para sentar, e que antes eram mais belos com a presença de um anúncio luminoso. Hoje, essas pessoas deparam-se com um quadrado vazio, cheio de lixo e restos de lâmpadas que podem cortar qualquer um. Ali, elas esperam o coletivo que vai levá-las juntamente com um bando de desconhecidos. A tecnologia trouxe a possibilidade de duplicar os ônibus, que sanfonados são coletivos maiores. Excetuando os veículos antigos, tem-se alguns novíssimos, macios, que dá gosto de “tomar”. Pode ser indicativo de tendência. Esperemos que o seja, mesmo sabendo da demora de sua consolidação.
De de tudo o que foi dito, de palavras para um rumo só, busca-se o final. Sobre os carros e ônibus para lá e pra cá, passam executivos, cujo s minutos são valiosos. Pessoas tidas como mais importantes que nós, meros personagens de um trânsito caótico de uma cidade que ainda se mostra menina em termos de organização, uma vez que seu crescimento se deu sem olhos maiores. Esses homens e mulheres, roupas bem cortadas, olhar distante, responsabilidades enormes, não se arriscam a pegar faróis e congestionamentos. Ricos, eles vão de helicópteros. Não façamos uma crítica quanto à possibilidade que eles têm de utilizar tal alternativa. Fiquemos com a aceitação das diferenças. Apenas que lá sobre os asfalto deslizem veículos de transporte coletivo de ótima qualidade. Afinal de contas, estamos tratando da cidade mais rica do país.

Para quem gosta de terceirizar soluções, permitido por um bolso mais abonado, fazendo uma junção dos trânsitos aqui mencionados, faz-se o uso daquela que se propõe ser a última palavra. Nela, o retrato de uma dinâmica comum no dia-a-dia de Sampa. Aqui, unem-se os trânsitos das ruas e das palavras. Tratás-e de uma alternativa para evitar um enfretamente mais direto, mas que não se trata de mera propaganda, senão lembrete, bem como manobra literária: táxi.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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