Loteria emocional

sexta-feira, agosto 08, 2008 ·

Na tela à minha frente, o branco do quadrado que não espera nada. É como se fosse sabedor de minha prisão literária. Um labirinto do qual já escrevi, mas que não publiquei por ora. E, em meio a tantos corredores, tantas passagens, portas, desvios, vãos, e caminhadas vãs, eu, perdido, absolto, cheio de frio, sem fome, e apenas o um desejo imenso de dar o calor que o sono traz ao dormir. Há, de fato, uma melancolia. Não é generalizada, sei. Mas ela está por aí. Nos diferentes rincões do mundo. Nas mais belas e horrendas calles do mundo. E muitos, diversos s seres humanos, agonizam na tristeza de hoje quase igual a de ontem.
Em mim, há alguma chatice que não pode ser vista com profundeza ao tê-la feito tristeza. É um certo enfado. É coisa que ocorre. Mas não chega a ser algo que me impossibilita. Não feito a mãe do amigo que, muito provavelmente, está em sua casa, calada, talvez deitada, e triste, muito triste, agredida tenazmente pela depressão que a faz silenciosa, senão apenas com todos que não sejam a mãe que a ouve.
Dói muito a alma da mulher em questão. O marido não está presente e eu nem sei onde foi parar. A família une forças econômicas para dar o tratamento necessário. Isso é um alento. Mas quem tem a dor da alma não pensa muito em solução quando é intenso o sofrimento interno. Quer mesmo é o silêncio eterno. É fraqueza, podemos argumentar. Mas é assim mesmo que o indivíduo fica em estado depressivo, absolutamente fragilizado.
O horário está marcado. Ele chega com a alma em rascunho. Bate à porta. A terapeuta se mostra solidária com sua dor expressa pela face, pelo olhar de desespero. É o caminho insano que já lhe foi aberta a porta, mas que ele manobra para tentar desvio. Naquela sala confortável, pessoas de classe média pagam para aliviar dores internas. Exercícios de relaxamento são aplicados. Estes, baseados em teorias que não se sabe serem aceitas pela academia, funcionam como promessa de solução. Com o tempo, o rapaz percebe que a vibração dos músculos se dá mesmo é pela posição, não por alguma energia intracorpórea.
Um outro dia, a profissional pede que ele fale. Infeliz na empreitada, ela fica sem ouvir palavras para buscar soluções. Ao rapaz não lhe foi esclarecido a necessidade de falar. Ele fora programado, durante o período de visitas, a respirar e deixar vibrar músculos. Até que se encheu e não voltou mais.
Caminha cabisbaixo. O médico diz que ele está chateado. A forma de se dirigir ao paciente é absolutamente seca e desprovida de afetividade. Uma relação de outros endereços para o serviço procurado lhe é ofertada. E ele escolhe o local, telefona, marca a entrevista. A solução se ascende. Do primeiro dia em diante, diversas mudanças ocorrerão. Demorar-se-á muito ali. Alguns anos. Mas ele irá se aborrecer. Tem dificuldades em administrar as contradições alheias. Poderá até ser acusado de perfeccionismo. Mas será chuva no molhado insistente.
Preocupado, a terapia se transformara em uma muleta. Desconfiado, já não deseja mais ir ali. Sente como se estivesse preso. Quer andar com suas próprias pernas. Precisa se permitir ser e deixar de lado tantas proibições ditadas pelo modo de vida dito correto. Não se convence do padrão católico que manda a pessoa estudar, trabalhar, casar e ter filhos. Não vê como normais os que seguem esta receita enganosa. Naquele barco, o baile de máscaras terminara. Ele não pode mais ficar ali. Já está fora!
Sente-se preocupado nos primeiros dias. Teme guardar em si tantos pensamentos que expurgava em palavras. Mas segue firme no propósito solitário de ser ele. E assim o faz. Investe seu dinheiro em algo que desejava, mas que a terapeuta condenava. Precisa recuperar sua auto-estima, os grãos necessários de hedonismo, o amor por si, a vaidade e auto-admiração. Precisa ser ele e não o que discurso dela sugestiona.
Os dias passam. Ele pesquisa um atendimento com mais filosofia. Descobre um endereço, mas o preço lhe desagrada. Depois, acha que está atrás de outra muleta. Lembra-se das palavras do diretor de teatro, Alberto Santos, o que lhe traz um incômodo. Alberto falava sobre o medo que as pessoas têm de sofrer, por isso tomam antidepressivos. Mencionou a necessidade de ingerir pensamentos filosóficos. Alertou da dor provável com o ato indicado. Mas esclareceu que ela é necessária. Com medo, dinheiro escasso, ele nada fez. E assim segue. Tentando recuperar sua liberdade.
Lá na cama está ela. Não sei desde quando silenciou-se para o mundo. Certo é que não se trata da única pessoa. Na loteria emocional, muitos terão sua alegria roubada. Sorrisos calados. Dor ao ver. Distorções dos pensamentos. Silêncio. Insatisfação. Tristeza, muito tristeza. Muitos vão vencer e dar a volta por cima. Outros vão se iludir com os picos de felicidade. E há aqueles que não agüentarão e darão fim. De tudo.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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