Pausa necessária

terça-feira, julho 08, 2008 ·

blog férias

Para o leitor que faz sua primeira visita o aviso de uma prática que este blog faz semestralmente. Não se trata de cerrar portas, pois há o arquivo de textos que pode ser degustado pelo leitor que gosta de passos maiores e cujo apetite literário encontra-se em estado selvagem. O que temos são trinta dias de pausa necessária, que leva o nome de férias. Neste intervalo de um mês, a reflexão tranqüila a respeito do rumo deste blog que já não é tão feito de crônicas.
De certo, se este veículo tivesse caráter comercial não poderia parar. O dinheiro não aceita pausas. Tudo deve ser feito no ritmo capitalista da atualidade. De qualquer forma, há distinções entre este blog e um veículo que se sustenta com publicidade. Possivelmente, a liberdade aqui seja maior, embora possa até não ser plena, no sentido de que aquele que escreve pode se autocensurar. Podemos considerar que a liberdade de expressão neste blog está intrinsecamente conectada às circunstâncias. Algumas observações críticas, por exemplo, precisam de um momento adequado e seguro para serem expressas. Afinal de contas, todos temos nossas fragilidades. Neste sentido, a espera se apresenta como única opção. E não se trata de afirmar que esperar seja algo ruim. Em muitos casos, como no xadrez, é o melhor a se fazer.
Nesses dias de descanso vai o autor permanecer nesta metrópole desigual. Trata-se de uma viagem dentro de sua própria aldeia. Conhecer locais famosos, porém ignorados por aquele que publica sinceros textos.
Cabe aqui uma satisfação aos leitores, considerando apenas a reclamação de alguns sobre a desaceleração que sofreu este blog. Por razões relacionadas às lutas diárias, uma quantidade menor de textos foi publicada. Isso não é algo negativo necessariamente, pois para o autor das palavras deste veículo é sabido que o não-texto também é texto. Mas qual a explicação desta afirmativa?
A questão é simples. Diversas vezes o papel permaneceu calado dentro da surrada mochila de cor escura. A caneta silenciou o azul das letras do idioma nativo. Por outro lado, leituras seguiam sendo feitas, e estas são de uma necessidade inquestionável para quem escreve. Somado a isto, o ato natural de observar e sentir. E isto é soma que aduba a alma para expressar-se em momento oportuno e até inoportuno, depende da ótica do momento.
Feita a justificativa, parte a caneta para o silêncio. Recolhe-se o caderno na mochila citada. Guarda o autor idéias e intenções, bem como abandonos do mesmo par. Nada escreverá, crê. Mas ler, observar e sentir não são escolhas. É ato natural, necessário. Seguir adiante é preciso. Parar, olhar ao redor, sentir e refletir não deixam por menos. Até agosto.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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