Feito o vento

quinta-feira, junho 26, 2008 ·

Foram poucos passos da porta até o assunto escolhido. Próximo do movimento derradeiro de pernas, um desejo sincero de escrever. A lembrança imediata do caderno companheiro, que não é tão velho. Dize-lo como tal seria forma comum de escrever. Ao sentar-me no banco caramelo, que minha memória já confundiu com a cor mostarda, indaguei-me assunto. Mirar olhos contemplativos sobre a caneta prateada era representação literária. Clara intenção de preencher lacunas com momento fingindo. A procura por folha vazia foi mais rápida que a certeza da data. Olhar em redor. Batucar caneta sobre o papel e a velha dúvida de assunto, tudo isso compôs o momento.

Cinco linhas escritas e ao final delas o risco em diagonal. Era a desistência não da intenção, mas de um parágrafo que se mostrava fraco desde o nascimento. Após isto, foi melhor abraçar o estilo preferido. Relatar as preliminares do texto. Feito isso, obteve-se o que se pode chamar de destravamento.

Olhar os rostos que a cada estação somam feições amarradas é modo de buscar caminhos para as palavras que querem sair. Optar por indagação de tantos desgostos nesses rostos é real, mas não conveniente. Talvez por que a curiosidade existencial não combine com a leveza deste texto, que eu me indago se de fato é uma crônica.

Talvez pelas horas dormidas em demasia o humor daquele cujas mãos a natureza empresta não seja o melhor. Mas é questão de uma soma maior de horas acordadas. É de fato, questão de tempo desconsiderando o imprevisível.

Quatro unhas bem feitas de mão que já foi dada em casamento são admiradas de forma rápida e pura. A coxa grossa em demasia encostada à minha é maneira humana de aquecer. De modo enviesado vejo que a cabeça do homem realiza movimentos curtos de forma brusca, conseqüências de uma ação de sua mente que ele não controla.

O jeito deseducado da mulher ao sentar-se permite contato entre nossos corpos que podia ser evitado. A dureza do meu rosto fez com que ela desistisse de sua curiosidade em relação ao meu ato literário. A morena em pé de uniforme azul colado ao corpo e semblante que não me agrada já faz parte da insistência do meu desejo de deseja-la.

Do vagão do trem já me ausentei faz alguns minutos. De certo, pelo tempo passado, todos que estavam lá dividindo espaço comigo seguem solitariamente seus caminhos. São rostos quase em sua maioria já esquecidos. Aqueles que ainda insistem presença na memória são insistências provisórias. Logo serão apagados, para nunca mais serem recordados. E mesmo que rosto meu com rostos deles se cruzem por aí, sereremos existências absolutamente ignoradas.

Na cabeça a boa música da banda brasileira de rock de qualidade que agrada, Titãs, segue tocando de forma fragmentada. “Domingo” é a canção de hoje, segunda-feira. Uma obra feita com grande talento. Retrato de um “dia de descanço, nem precisava tanto”.

O dia deste que escreve já se iniciou. O atraso se configurara antes mesmo de cerrar e trancar a porta da sala para que estranhos ou algum malfeitor não entre. Mas é também para evitar obra natural do vento. E hoje, neste frio gostoso, recebe-lo por aquela que se abriga confortavelmente em casa sua, não é lá muito desejado. Que o vento fique conosco aqui fora. Quase todos bem protegidos. E quase ninguém desigual à invisibilidade dele. É assim que temos nos tratado dia-a-dia. Cada um para o outro indesejável como o vento que entra repentinamente pela sala neste frio. Todos uns para os outros invisíveis como o vento.


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A grandeza do ser humano deve constar de cultura espiritual, capaz de "ler" alguma coisa, ainda que dentro dos corações.

Parabéns pelas matérias!!!

Marli Porto - São Paulo - SP



1 comentários:

Marli Porto disse...
junho 26, 2008  

A grandeza do ser humano deve constar de cultura espiritual, capaz de "ler" alguma coisa, ainda que dentro dos corações.
Parabéns pelas matérias!!!
Marli Porto

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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