Notas literárias pela falta de rumo

sexta-feira, maio 23, 2008 ·

No rádio, ouvi uma matéria sobre uma professora de história que utiliza a música para ensinar seus alunos. Dos dois exemplos tocados, a que me tocou mesmo foi “Índios”, de Renato Russo. A introdução no violão é algo belo. A letra é profunda. Mostra o índio que foi enganado, assassinado. Pensamentos dispararam em minha mente. Senti como se nós, ditos civilizados, fomos grandes ladrões de terras alheias. Lembrei-me da questão que se dá em Roraima, onde arrozeiros e índios enfrentam grave problema que o governo brasileiro não sabe como resolver. Posteriormente, senti profunda raiva dos europeus da época colonial. Os índios “entregaram seu ouro a quem prometia amizade”, depois, foram dizimados. Mas, claro, era um contexto que eu não tenho elementos para entender.
Esse mundo dos homens não existe sem problemas. Evidentemente que o problema não é a existência destes, senão a não visualização de solução. Pensemos em Israel e Palestina. Li uma entrevista dada por um grande escritor israelense. O medo que seu povo tinha de deixar de existir. A sensação de que as paredes são frágeis, numa alusão à incerteza de suas fronteiras. Muitas vezes, pergunto-me a quem interessa essa questão não solucionada. Mas vale registrar o orgulho que seu povo tem por si em função da nação rica que construíram, relatou o escritor, que teve um filho morto em combate.
Pela manhã de hoje, morreu um dos únicos políticos admiráveis no Brasil, o senador Jéferson Perez – PDT/AM. Foi este um homem que trabalhou seriamente pelo país. A perda é de um tamanho tal que me preocupa. Mas sinto-me aliviado ao lembrar que o nobre senador não era o único homem sério neste país, embora eles me pareçam poucos.
Estas são notinhas que faço. Um modo literário de informar. Não se trata de iniciar novo rumo ao blog, senão a exatidão da falta de rumo. É, em verdade, a falta de inspiração. Um calar que me tem. Talvez, se eu escrevesse o que se vai em mim, não fosse o texto algo lá tão agradável. “Vem de repente um anjo triste dentro de mim”. Não se explica. Ele chega sem pedir passagem, sem pedir ficar. E aí ele fica. Quando eu me indago com quem está o controle. Talvez comigo, mas eu não saiba. Quem sabe, eu esteja certo. Melhor se for assim.
Perez se foi. Israel já não tem tanto medo deixar de ser. A professora é ao ensinar musicalmente. E eu sou este pequeno pedaço de existência. Que daqui a pouco seguirá passos lentos e imprecisos. Sentará naquele banco de plástico cor de mostarda. Talvez abra um jornal, muito mais como forma de ausentar meu olhar ao redor meu, do que de fato me informar. É possível que eu cerre olhos e durma um pouco. Uma ausência melhor. Depois, ficarei atento à estação em que desço. Aguardarei com certa angústia a porta abrir. Optarei pelos degraus que me levam. Cumprimentarei simpaticamente o colega que deixará o local substituído por mim. Farei a pequena burocracia de sempre. Em seguida, rodarei a catraca e os degraus que me levarão para fora da estação serão estáticos. Lá no café, o sorriso daquele morena me fará bem. A energia gostosa que ela me passa como se fosse meu Prozac. Pagarei com dinheiro virtual. Voltarei à escada em diagonal pra baixo. O metroviário autorizará minha passagem de forma sempre simpática. Sentarei no banquinho. Pegarei o jornal. Meu corpo estará ali. Eu, em lugar algum...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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