Dívida a ser assumida

domingo, maio 11, 2008 ·

Não há uma tristeza. Permanece um desprendimento que não é, nem pode ser, absoluto. Pensamentos ciganos que me povoam. Há uma mistura de emoções. A absoluta certeza de que a vida não pode ser vivida em mundo só seu. Ebulição de sentimentos após a leitura de mais um texto da boa revista Piauí. Daniela Pinheiro é a responsável pelas emoções minhas de agora. Com seu talento, deu-me momentos com os mais ricos. Pessoas de um outro mundo que é só deles.
A repórter narra parte do dia-a-dia de corretoras de altíssimo luxo. Como elas vendem imóveis que conseguem custar acima de 10 milhões de reais. Durante a leitura, não senti um tapa nas caras nossas. Apenas refleti. E após a ingestão das palavras escritas com grande talento, senti compaixão por mim e estas pessoas que passam por aqui.
Não creio que devamos desarmar os ricos. Penso mesmo que devemos respeitá-los como pessoas que vivem uma grande ilusão. Deixemos os milionários à vontade. Façamos o que eles nos pedem: não falemos, nem olhemos para eles. Não se trata de ignorá-los, senão harmonizar ao modo que eles exigem.
Não nego que já senti raiva daqueles que são muito endinheirados. De certo, a inveja que me guiava era um desejo de ser um deles. Mas hoje não. O que tenho em mim é uma espécie de desilusão. Mas não se trata de um abandono revolucionário, senão um ajuste pragmático.
As pessoas que me acercam são simples. Utilizam aqui o metrô como forma de transposição. Se não são livres de fato, não estão presas como os magnatas do texto de Daniela. Um arquiteto muito rico projetou um espaço em São Paulo para paulistanos exageradamente abonados. Ali, famílias eleitas vão morar, trabalhar e passear, bem como comprar em lojas caras. É a clara criação de uma bolha. Como diz uma das corretoras de luxo, um local só para as boas famílias. É, sem dúvida, um parque onde se brinca de viver de modo alheio. É, de fato, uma grande ilusão que não sai por menos de 4 milhões. Mas talvez eu realmente não compreenda o mundo dos ricos. E até me contradigo se pareço crítico. Afinal de contas, propus aqui uma espécie de pacto com eles: deixá-los viver em suas ilusões.
Possivelmente, em função de nossa formação social, o melhor a ser feito é um pacto-social. Deixar os ricos em paz, desde que esta paz tenha o preço da responsabilidade social. Isso significa que qualquer sociedade onde haja milionários, não poderá haver miséria, escola feia e ensino ruim, favelas, menores abandonados, serviço público ruim. O que se propõe é uma paz social, um modo de tornar a vida de um rico mais tranquila, sem esse caldo violento que os ameaça em função de tanta probreza dispersa. Desse modo, ninguém precisaria se indignar com os preços que os eles pagam pelos produtos que os aprazem. E, sobretudo, não haveria quem pudesse acusá-los de desprezo pelos seus compatriotas que dividem céu e terra com eles.
Antes de iniciar este texto, fui tomar um café. Duvidei fazê-lo pelo preço a pagar. Daí, lembrei-me de Daniela e seus personagens reais, o que me fez esquecer que não devo gastar tanto, afinal de contas seria a minha quarta xícara antes das 15h. Ao caminhar, sentia-me como alguém que guardava um segredo. Era como se o texto de Daniela fosse algo que não pudesse ser revelado. Parecia-me que aquelas pessoas seguiam enganadas. Cada uma fazendo seu papel. Nenhum deles existente para aquele mundo que eu lera a respeito. Passar pelo homem que dormia no chão sem notá-lo, não me era possível. Mirei meus olhos em seu rosto. Vi sua boca aberta. Estava sujo e maltratado. Ele representava, para mim, uma conta que o rico pendurou.
Caminhei até à lanchonete. Desta vez não brinquei muito com as meninas que suam seus salários atrás daquele balcão. Olhei nos rostos ali. Observei a rua e seus passantes. Senti aquele momento. Quando saí dali, com regresso dado pelo mesmo caminho, o homem caído se tornara fato comum para mim, dívida esquecida. Em mim, pleno desejo de expressar as emoções que o texto de Daniela me dera.
Embora eu me resguardasse, acabei por riscar o papel. E findo o texto. Não sei se o homem segue lá deitado. Não farei verificação alguma. Tampouco, vou excluir minha parte na dívida que ele representa. Mas não guardarei incerteza alguma dos responsáveis maior por tal questão. E somente quando estas pessoas assumirem tal responsabilidade, é que será dado a elas o direito feliz de estourar champagne pelo negócio milionário concretizado. Somente assim o líquido gelado poderá descer suas gargantas de modo puro, prazeroso e quitado.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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