Sala da covardia

domingo, abril 06, 2008 ·

Quando chegou ao local do primeiro encontro, levou alguns minutos para avistá-la. Ao dar por sua presença à mesa daquele café, surpreendeu-se com tamanha beleza. De certo, encontrava-se constrangido pelo enorme atraso. Mas nem sempre os cálculos da pontualidade dão certo. Os obstáculos, por vezes, se mostram instransponíveis.
Foi uma tarde muito agradável para o casal, cujo primeiro beijo não se demorou, nem mesmo foi necessário mudar de ambiente para enfraquecer a fêmea, como ensinou-lhe certo amigo ao se referir à táticas de sedução. Para não fugir da verdade, tal ensinamento se deu em ocasião posterior a esta. Foi em dada noite. O rapaz era segurança alguma. As emoções – que nada tinham a ver com a mulher de pele alva – fizeram-no inábil. Diante de tanta insegurança, foi absolutamente incompetente no ato da sedução. O “não” da bela foi inevitável. Minutos depois, o apontamento da falha pelo amigo instrutor. No rapaz, além de certo pesar, não pelo fracasso, mas sim pelas emoções desagradáveis, a certeza de que seduzir com técnicas é menosprezar o que há de mais belo quando se seduz e se faz seduzir: a naturalidade.

Do café, o casal dirigiu-se a qualquer restaurante do shopping. Na verdade, qualquer um que o preço parecesse agradável ao bolso dele. Eram os mesmos tempos de vacas magras. Escolhia sem deixar que ela percebesse a verificação dos preços. Julgou sucesso na empreitada, mas nada garante se a bela loira percebeu a movimentação do seu par de poucas platas.
Fazia tempo que não caminhava com mulher ao lado seu feito namorada sua. Seu ego inflava-se com tamanha beleza. Daquele shopping, a acompanhou até sua casa. Aquele mesmo corredor de ônibus fora percurso de alguns textos. Nas diversas viagens que fez, pautas, inspirações, lembranças. E foi justamente em um veículo longo, neste mesmo corredor, que conhecera a bela de então.

Ao ter primeiro contato com família dela, fragmentada pela migração, iniciou-se nele processo de desconstrução da relação que se iniciava. Tal dinâmica não lhe era novidade. Deixar portas abertas para saída prevista, era-lhe absolutamente trivial. A certeza da existência de portas não lhe trazia conforto algum. Passar por elas era questão de tempo. E isto era danoso para a relação que se passava do lado de dentro. Eram incertezas constantes. Uma dinâmica destrutiva. O incômodo maior sempre foi a não-atitude.
Vai ver que toda relação é um monte de portas mesmo. E aí ocorre a abertura de algumas que se fecham ou não com o tempo. E o modo de encará-las é diferente ou igual. As reações são diversas. Há os que relevam quase tudo. Fecham os olhos e cerram portas. Alguns até trancam-nas e jogam fora as chaves. Com o metal, vai-se um pouco da pessoa. E há também aqueles casais com tantas portas abertas raiando luz incômoda, alimentando ódio íntimo dia-a-dia, mas que nenhum dos dois tem coragem de correr porta afora.

O embate se deu. A vaidade entrou em jogo. Utilizar a saída e abrir mão de tamanha beleza? Argumento preciso para postergar a “fuga”.

O dia raiou. Ele dormira no sofá. Pela manhã, melodia pobre e letra profana causam desagrado nele. Somado a isto, o ambiente desarmônico. Uma porta se mexia, então... Outros dias viriam. Neles, a primeira noite de amor. Na moça, gritos de traumas. Na alcova, satisfação masculina.
As razões pela qual a relação terminou não são muito sabidas. Claro que para a moça surgiram portas. Uma das quais ela relatou: o medo de amá-lo. Ele, em toda a sua covardia, deixou a solução de tudo para o tempo.
Ao ver nela portas abertas, apenas esperou que ela passasse por uma das opções, enquanto trancafiou-se, ficando sempre à espreita. Era-lhe a sala adequada. Podia ser chamada de “sala de espera”. Mas nome correto mesmo era “sala da covardia”.

Tudo entre o casal foi rápido. Foi bom, prazeroso. A tarde de aproximação foi vida imitando cinema. Foi tudo glamouroso. Satisfez egos. O primeiro encontro não deixou por menos. Mas a cine-vida não está nem aí para finais felizes. Do ideal para o real, o casal se desconstruiu. E as últimas palavras que ouviu dela foram: “Tenho medo de me prender a você...”. Daí para o fim de mais uma história de amor, foi tempo curto. O rapaz, instalado confortavelmente na sala da covardia, brindou a porta do medo. Dela.



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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