O filho não tal qual o pai

quinta-feira, abril 17, 2008 ·

blog imersão

Comunicou ao pai que deixaria o banco para estudar e tentar entrar na USP. Foi repreendido e acusado de incompetência para difícil tarefa. Mas o pai apenas queria o melhor para o filho, sem saber de fato o que era melhor. Cabe a reflexão de que ele não possuía informações suficientes para discernir a respeito. Era do tempo em que o jovem tinha que trabalhar para crescer, os estudos eram algo secundário. Nascera em meio à roça pobre.
O jovem não obedeceu a orientaçao paterna. E este não conhecia bem aquele que fora o primeiro rebento do seu segundo casamento. Não fazia idéia alguma da capacidade e obstinação daquele rapaz que sonhava vôos maiores, e que não queria ser uma simples mão-de-obra a ser explorada pela burguesia de seu país.
Sem apoio em casa, cruzou caminhos extremamente espinhosos. Estudava horas a fio. Gritava por silêncio nos demais cômodos, precisava se concentrar. Não tinha dinheiro. O pai não lhe respeitou a decisão, posto que se tratasse de opinião contrária à sua, o que muito lhe desgostava, pois era extremamente autoritário. O caminho para a realização de um sonho se mostrava cheio de obstáculos. Mas seguiu em frente. De certo, desanimou por diversas vezes. No primeiro vestibular, não logrou sucesso. Tinha que estudar mais e mais.
O pai jamais parabenizou o filho por ter conseguido entrar em universidade pública. Se não teve apoio psicológico, afetivo e econômico para prestar a prova, que é por demais concorrida, tampouco houve qualquer apoio para freqüentar o curso e se formar. Foi como se isto lhe fosse algo clandestino, paralelo.
O personagem em questão é oriundo da escola pública, embora tenha estudado dois anos do colegial em escola particular, pagos pelo pai, bem como tenha freqüentado, às suas expensas, cursinhos de bons nomes.
Não fosse uma pessoa inteligente e sensível, de certo não teria investido nos estudos, e hoje estaria em algum emprego de baixo salário. O fato é que não lhe foi o mais grave problema passar a maior parte de sua vida escolar em escola feia e cheia de más influências. Teve em sua própria família, com o não apoio dela, grande obstáculo para seguir em frente. E o pior é que seu intento vitorioso alimentou desavenças cristalizadas ao longo dos anos. Mas, não condenemos as pessoas que compõem esse quadro familiar. Elas seguem subordinadas às suas mentes que lhes massacram com a baixa auto-estima, o que lhes garante o despeito como sentimento presente.
Dizem que o mundo é complicado. Mas talvez o problema não seja a realidade tal qual ela se mostra, mas sim as mentes das pessoas que a compõem. De certo, é possível livrar-se das ervas-daninhas que tornam indivíduos meros fantoches de suas amarras internas. Contudo, o ato para libertar-se não é lá muito fácil. Seu início se dá pelo reconhecimento das imperfeições. Mas isto é complicado e doloroso. É frustrante, também. Afinal de contas, o indivíduo se depara com algo delicado de se relacionar: um ser imperfeito.
Atualmente, o jovem protagonista desta narrativa é um bom profissional no ramo em que se formou. Segue extremamente esforçado. Não deixa de estudar e praticar o esporte que mais gosta, outro grande desafio em sua vida. Evidentemente que ele deveria ser visto como motivo de orgulho para seus entes, mas isto só ocorre em um caso isolado. Se não lhe bastasse toda a dificuldade para realizar seus intentos, a vida lhe impôs a difícil condição de travar resistência à rejeição dos seus, face à sua condição de homen erudito, conquistada com graves dificuldades. Não apenas as que já foram relatadas, mas outras mais severas. Para clarear um pouco esta questão, fica a informação de que esse jovem teve que conviver com sua baixa auto-estima, além do mencionado ambiente familiar hostil a ele, sem deixar de citar os diversos medos que o assombravam dia e noite. De certo, ele é um sobrevivente. Sem dúvida, é injustiçado. Indaga-se por que alguns dos seus não reconhecem nele as mesmas fragilidades que vêm e si. Fica somente a certeza de que neste imbróglio afetivo, as fragilidades estão em todos os envolvidos.
Quando da morte do pai, chorou muito a dor doída. Teve com ele momento relatado. Um pedido de desculpas por parte de seu progenitor. Lágrimas nos olhos de ambos. Era uma despedida. A incerteza de que tudo podia ser diferente jamais será respondida. O que é possível afirmar era o velho erro da demonstração de amor somente nos momentos finais, quando não há mais tempo. De qualquer forma, talvez haja importância nisto e deve ter tido resultados positivos nas almas dos que ficam. Não se sabe...
O jovem casou-se. É bom marido, relata a esposa. Alguns meses se passarão e ele será pai. De certo, terá a oportunidade de ser para o filho (ou filha) o pai que quis para si. É como se a vida, num ato de admiração e desafio, desse a ele a oportunidade de desculpar aquele que tanto o aviltou. E o fez, muito provavelmente por estar desculpando alguém com a mente bastante adoecida, visto o modo pelo qual este se relacionou com suas mágoas. Afinal de contas, a vida lhe foi dura também. Tivera pai opressor. Vivera duras realidades. Fora extremamente pobre. E seu sentimento de inferioridade o fez um déspota. Agora, cabe ao filho ser pai. E, quem sabe, corrigir uma história que foi mal traçada.



1 comentários:

James Mytho disse...
abril 18, 2008  

Olá, Adelcir !

Obrigado por fazer um comentário no blog O.T.I
Achei o seu blog muito interessante, e vou lê-lo com calma.

Saudações.

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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