A imprensa, o chapéu e a platéia

quinta-feira, abril 24, 2008 ·

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Após a compra da moída que se mostrou equivocada posteriormente, deixo o açougue apressadamente. Caminho até o carro alheio, entro e dou a partida. Saio guiando de forma civilizada, sem utilizar da pressa como argumento para truculência ao volante. A primeira à esquerda é contra-mão. Sigo reto e entro na rua seguinte. Deparo-me imediatamente com veículo de uma emissora de TV. Logo avisto outros veículos de outros canais. Vejo câmeras de vídeo armadas sobre tripé. Fotógrafos, repórteres, pessoas. Concluo que estou na rua da família de Isabella Nardoni. Olho curiosamente sem alterar a velocidade. Por alguns segundos encontro-me no meio do espetáculo. Não me confundo com a platéia, pois passava pelo local ali absolutamente desavisado. Segui meu rumo e fui para a minha casa. Como foi o resto daquele domingo, pouco me recordo. Sei que ele me foi de descanso. Eu precisava. Muitos precisavam.
No dia seguinte, dentro do lotação, a colega aponta-me que aquele é o prédio onde se deu a tragédia com a menina. Olho com curiosidade. Depois, comento com familiares. Não me recordo se discuti sobre a tragédia com a moça no banco ao lado daquele veículo que nos levava ao mesmo local naquela manhã de segunda-feira. Sei apenas que ouvi muitas reclamações da vida por parte dela, o que me deixou um pouco irritado.
Sei que parece frieza o que digo, mas tenhamos todos a certeza de que tragédias sempre vão ocorrer. Platéias para elas estarão sempre aptas a comparecer gratuitamente. E esta mesma platéia fará seu esforço para deixar de ser mera audiência e tornar-se personagem coletivo do espetáculo. Nesta coletividade da representação, células individuais farão o esforço que a oportunidade oferecer para obter destaque em meio à massa.
A mídia fará o papel de informar com chapéu na mão. Setores da publicidade dos diversos canais gozarão calados a venda de espaços publicitários agora mais desejados, posto que a audiência explode. Tudo bem, eles sabem, é só uma bolha que logo se esvazia. Mas esperar o surgimento de outra é dinâmica que já se acostumaram. Sentimentalmente, não há preocupação quanto à tragédia. O que está em jogo são as cifras que se ganha. Tudo bem, é do jogo. É o trabalho deles. Alguém sempre ganha. Se no lugar deles estivéssemos, faríamos o mesmo.
No Rio de Janeiro, não sei quantas crianças morreram sem que alguém as jogasse de algum andar. Bastou a picada de um mosquito que a saúde público deixou voando. Uma sabida tragédia social, mas esta não atraiu enorme platéia. Talvez, quem sabe, por se tratar de um acontecimento que envolve atores simples, de bairro simples. Mas não sejamos tão críticos, o apelo emocional destas mortes é muito menor. E as mortes são cobertas pela mídia com maior discrição. E é dada a elas uma conotação política, que pouco tem de emocional. No cerne da questão fica qual esfera governamental tem a culpa.
Na semana passada, a Polícia Federal prendeu integrantes de uma quadrilha que assaltava os cofres públicos do governo federal. Entre os membros, prefeitos e juízes. Ao que se sabe, não houve platéia esbravejando sentimentos de repulsa. A imprensa fez o seu papel outra vez mais. Não insistiu na questão, nem estendeu chapéu. Não por isso, a questão deixa de ter enorme gravidade. Apenas não excita a platéia. E esta quer emoção. Crime de corrupção traz consigo grande frieza e nulo apelo emocional. É assim mesmo. São inerências humanas que temos.

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Em cada mazela da humanidade na qual a mídia se fizer presente, haverá pessoas tentando vender seu peixe. Isso denota a pobreza de alma a que estamos acostumados, porque muitas vezes só nos apercebemos desse oportunismo quando alguém nos chama a atenção para o fato, ficando as vezes o ato dessas pessoas confundido com sincera solidariedade.Del, parabéns pelo texto.
Zena Duarte, 39, GO, administradora doméstica



1 comentários:

Zenna disse...
maio 01, 2008  

Em cada mazela da humanidade na qual a mídia se fizer presente, haverá pessoas tentando vender seu peixe. Isso denota a pobreza de alma a que estamos acostumados, porque muitas vezes só nos apercebemos desse oportunismo quando alguém nos chama a atenção para o fato, ficando as vezes o ato dessas pessoas confundido com sincera solidariedade.

Del, parabéns pelo texto.

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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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