Importantes um para o outro

segunda-feira, abril 14, 2008 ·

blog romantismo

Cerca de três anos, o casal ficou sem fazer um único contato sequer. Nas lembranças dele e dela, os belos momentos passados. As noites de amor sem igual. Os gestos. Os desejos. As saudades. Foram as circunstâncias que fizeram a separação acontecer. Ela, com o tempo, passou a ser o maior desejo do par.
Ele sentiu fortemente quando recebeu a notícia que sua amada havia refeito seu casamento. As emoções lhe invadiram de tal modo, que uma dificuldade de respiração, uma tensão, tomou-lhe conta pelo resto da noite. De sua casa, partiu para um show de blues no mesmo local onde haviam se reencontrado pela última vez. Era um workshop de blues. Em meio às explicações e canções, ela lhe vinha à mente. Para uma amiga, mentiu para si ao dizer que pouco se importava. Mas a amiga sabia da verdade dos sentimentos dele por ela.
Eles tiveram um ao outro por um ano e alguns meses, talvez nem três. Os 180 dias iniciais do relacionamento foram algo mágico para ambos. A paixão foi arrebatadora. O amor sobreveio, embora o rapaz sempre negasse tal sentimento - necessitou perdê-la para ser convencido de tal sentimento. E o prazer que os corpos deram a ambos jamais foi igualado, como jamais houvera sido.
Mas a vida não gosta muito de ser perfeita. A fase dos dois não era nada boa. Logo, os problemas internos de cada um se impuseram frente àquele amor. A frase dela em natal de absoluta melancolia jamais saiu de sua cabeça: “Nós não nos ajudamos”. Era o fim da relação que deixara de ser bela há algum tempo. Era a despedida...

Casais se tornam errantes quando cada parte dele não tem de si plena consciência. E assim o foi. Eles voltaram. O reencontro naquele centro cultural na bela Vila Mariana. Ela estava mais linda do que antes, elegantemente vestida de preto. E ele, trajado com a camisa que comprara pensando nela. Dali, foram para a casa da bela mulher. A noite de amor era uma readaptação, não podia ser tão maravilhosa. Mas a loucura na alcova, eles reencontraram nos dias que vieram. A despedida final veio em noite melancólica demais em pizzaria na zona norte de Sampa. Dali, a certeza de que jamais se veriam novamente. Era o fim para sempre. Ambos saíram aliviados de tal encontro. E os dois saiam cheios de sentimentos negativos um do outro.
Esqueceram-se por algum tempo. A amiga dele perguntava sobre a tal mulher. Demorou, mas ele disse taxativamente que ela era um capítulo encerrado em sua vida. Pareceu firme no que disse. E o fez sem saber que o livro ainda não havia terminado de ter a história contada. Um site de relacionamentos entre amigos faria a reaproximação.

Os anos se passaram. Ele mudou, ela também. Ambos estavam absolutamente admirados e encantados um com o outro. Ela se tornara mais filosófica. Ele havia adquirido tranqüilidade e confiança. Almoçaram juntos. E combinaram outro encontro. O beijo aconteceu...
O segundo encontro foi no mesmo local do anterior. Um café muito glamouroso na Paulista. Ela estava linda para ele. Conversaram muito. Após o filme, a moça contaria sua nova realidade. Temia ser condenada, sem saber que condenar é verbo que deixou de ser conjugado pelo rapaz à sua frente à mesa.
Estava casada. A sua relação com o marido não era lá muito trivial. Ele a tinha apenas como esposa, mas não como mulher. Sexo, procurava fora. Dela, só queria carinho, companheirismo e o discurso de casal comum para a sociedade. E esta mulher, mergulhada em seus estudos, após pesquisar, indagar a si e a outros, abriu a porta da relação como saída para manter o casamento vivo.
Ela ficou atônita com a reação dele. Admirava-se do modo tranqüilo como recebeu a informação. O rapaz, amante da forma como a vida imita a arte, ficou entusiasmado. Via em sua frente um filme, um livro. Considerava tudo fantástico. E ela, que sempre lhe parecera advinda das telas de cine-europeu, agora se tornara verdadeiramente uma personagem de cinema, cuja história era baseada em boa obra literária.
Fora uma das tardes mais agradável para o casal. Riram. Divertiram-se. Ele sentia-se muito feliz ao lado dela. “A gente se quer bem”, era a nova frase a ocupar a sua memória. E tal afirmação era de fato verdade. A situação pouco importava. O que valia era esse sentimento um pelo outro.
Depois deste dia, já se passaram muitos outros. Não houve reencontro, mas eles se falaram diversas vezes. Na verdade, ainda mantém contato. Trocam e-mails vez em quando. E já arquitetam novo reencontro. Seguem tranqüilos. E já declaram muitas saudades. Há muito mais o que dizer desta história, mas não é dito. E não é por censura, senão o simples ato de pôr no papel o que vem primeiro.



1 comentários:

Anônimo disse...
abril 18, 2008  

Querido Amigo;

Quantas coincidências encontrei neste texto. ( Você bem sabe!)
Será que são necessários tantos desencontros para que enfim haja UM encontro viável?
Sorte deste casal em questão, penso que muitas vezes... seremos aí "neste futuro encontro", então: Meros estranhos.

Pergunta: Este texto é fictício ?

Envio-te beijos e a admiração de sempre...

ps.: Você tem uma facilidade pra erotizar os textos! rs! Mas eu gosto, sempre dentro do "tom".

JUJU!
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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