De Pessoa a Ghandi

terça-feira, abril 15, 2008 ·

blog filosofia

A indagação minha, para mim, era por que a negação do desejo. De forma rápida, buscava respostas. E em cada busca, me desviava da vontade. De tudo dito, uma única certeza era-me propriedade: o desejo intenso de escrever.
Talvez eu soubesse por que tão reticente. Em verdade, um medo subseqüente de um outro. Temi, confesso, ler Pessoa na pessoa de Bernardo Soares. Meu temor era plagiar o poeta após ter com seus escritos. Mas, ao mergulhar em sua prosa-poética, fui atado por todos os lados. Devorava. Inquietava-me. Impacientava-me. “desassossegava-me.”
O personagem do livro possuía absurdo tédio pelo cotidiano. A vida lhe era um não existir. Aborrecia-se com tudo. Era infeliz e deprimido. A leitura fazia-me pensar...
Não ouso comentar a obra do gênio, posto que não possuo elementos para tanto. E nem seria desejo meu fazê-lo, ainda que me fosse possível. O fato é que toda a tristeza do personagem, deitada no papel de modo genial, é de uma beleza que não comparo. Ler tal livro fazia ferver emoções em mim. A inquietação era maior do que eu. O único remédio era correr caneta por linha reta.
Sim, de certa forma eu me identifico com os aborrecimentos descritos no “Livro do desassossego”. Quando o bom amigo apontou-me a falta de objetivos, pareceu-me água no mar. Mas o tempo pediu a si a obra do aviso. O amigo, eu não sabia, tinha razão. E hoje, diante de inúmeras placas iluminadas, adiciono filosofia aprendida. Se nos objetivos da vida estiver incluído além de você, o cotidiano torna-se mais desejoso. Mesmo porque, é possível cotidianizar criativamente. É quando simples momentos se tornam maiores do que nossa casual existência. Quando nem tudo é levado a sério, sem, contudo, tornar-se negligente.
Nas brincadeiras com outro grande amigo, Alan Davis, membro ativo do Conselho deste sincero blog, modo belo de ver a vida. Entre filosofias e desaforos, nosso modo bem humorado de tratar com a realidade. É maneira cinéfilo de ver a vida. E todos, inclusive o par de amigos, não são mais que meros personagens em suas vidas fugazes. Para o poeta do livro citado, todos os corpos são meros fantoches, todos inexistentes.
De certo, não posso negar, é aborrecedor a existência superficial proposta à massa por parte da mídia. E a massa se permite aviltação, por exemplo, pela programação diária dos canais de TV com maior audiência. Ou a infeliz opção de ter vitrines de shoppings como “obras de arte” aos domingos. Ou quem sabe, meramente se prestar a viver no rastro de celebridades. Enfim, deixando de lado inúmeros exemplos, esse existir do modo como apontado aqui, é absolutamente inútil.
Não nego. Sempre me indago se o indivíduo não percebe tamanha desnecessidade no ato letárgico do consumo de produtos nocivos à alma. E comete engano quem achar que esse jeito de besta de existir pertence somente às classes menos abastadas. Em casas de pessoas com algum luxo, ingere-se também pasmaceiras 4x3.
Peço desculpas pela acidez. Lamento se ao mirar rosto tal, vejo um vazio igual a muitos outros vazios. Que fazer, além de reclamar? É tudo desse jeito! Fizeram o mundo assim! Mas, e agora? A saída, penso, é o preceito de Ghandi: revolucionar a si. Esta, dizia o pensador, é a única revolução possível. Com tudo dito, peço licença por ora.



0 comentários:

Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br