Escola da alma

quarta-feira, abril 30, 2008 · 0 comentários

Desconfiança. Agora é a compreensão que te abraça. Parece ter sido necessário cair para entender. O jeito do outro fechado em seu mundo. Se antes você não tolerava, agora compreende. É o benefício dado pela tristeza que veio. Pela falta de sentindo repentinamente. Por um vazio torturante. Tudo isto que o fez igual aos que você criticava como um inquisidor. Agora é o renascimento de um período breve de morte em vida.
Talvez a vida não cesse ensinamentos. As melhores lições, as mais importantes e difíceis, são ensinadas de modo severo. Sem perceber, o brilho nos olhos, as vontades e toda aquela coragem lhe são roubados. A queda inesperada mina sua auto-estima. Você indaga motivos. Tava tudo tão bem! Daí, a única saída é firmar parceria com o tempo. Ter nele o alívio que virá. Nesse acordo com o tempo, só o futuro vale como opção.
O aprendizado pode vir logo. Talvez não seja a primeira lição que dê o efeito necessário. Se assim for, novos abalos em sua alma vão se dar. E, em muitos casos, em decorrência do mau aluno que você foi, diversas lições serão em vão. Mas há a cobrança pela prestação de serviço que não foi bem aproveitado. O preço é a sua felicidade. Ao final do curso da vida, tendo você aprendido não o necessário, a vida roubará sua felicidade. E essa cobrança é feito com boa antecipação. É quando você é tido como irremediável. Não tem mais conserto. E a culpa é somente sua, toda sua.
Para aquele que viu o desejo de viver ser minado por tempestades severas, mas que após o encharcar da alma aprendeu a lição e nela encontrou ferramenta para entender melhor as pessoas e o mundo, a possível felicidade. Agora, a letargia dele você não critica. A inabilidade do outro para se comunicar é mais bem entendida. Mas não se engane. Ainda há resquícios. Você não foi tão bem nas provas. Resigne-se. A nuvem nublada que o acompanha não é à toa.



Fluxos

terça-feira, abril 29, 2008 · 0 comentários

À frente do meu expositor dorme o rapaz. Ele está num dos postos da SPTrans (São Paulo Tranportes – empresa que gere os coletivos da cidade). Ali, o usuário adiciona crédito em seu Bilhete Único, cartão com chip que é usado no lugar do antigo passe de ônibus, feito de papel. O sistema também é bem utilizado por quem vai de metrô.
A mulher de pele escura passa e me olha marotamente. Embora eu seja um apaixonado pelas negras, ela não me desperta interesse. Talvez eu a desejasse se ela me fosse bela, mesmo com a certeza de que salto alto, jeans apertado e cabelos bem cuidados não são o suficiente. O problema é que as mulheres aprendem logo cedo que ficar bela é o mais importante. Busca por conteúdo fica negligenciada. Felizmente, a mudança se iniciou. Belas mulheres adicionam ao kit-sedução a aquisição de conteúdo.
As pessoas exalam o que são. Até conseguem enganar por algum tempo. Mas o que se vai por dentro não agüenta e necessita expressão. Daí, a pessoa, num ato despercebido, engana seu disfarce.
Pessoas passam por aqui. Vez em quando dou uma olhada. Os fluxos são menores neste sábado. Cumprimento um dos guardas de azul. A auto-estima deles é muito abaixo das dos homens de preto de função igual. Hás nos azulões uma letargia patente.
Já tomei um café. Tive que ir a outra lanchonete, cujo atendimento é sofrível. A exigência por bom atendimento, nos dias que se passam, é maior. Não basta mais contratar aqueles que se sujeitam a baixos salários. É preciso mão-de-obra educada e com bom poder de comunicação. A cara fechada do homem de bigode ao balcão é um tiro no pé. Outros mais voltariam se fossem atendidos decentemente. Isso indica que os candidatos a estas vagas terão que estudar mais. Essa mudança, na verdade, é boa para todos.
Não chego a lascar a unha. Foi apenas um esbarrão do dedo. E sem saber explicar a razão, lembro-me dela. Uma mulher que desejei, e acabou por ser possuída pelo 171. Um dia ele teria que me contar. Daí contou sobre todas as outras. Segue na mesma dinâmica, com as mulheres como lenha para sua existência. Fora disso, sobram apenas esposa e filhos.
Há um sono. Dou uma espremida nos olhos. Abro a boca. Já ensaio o final. Justamente no momento de outro fluxo de pessoas. Não é o último. E o que se tem é simples crônica que estava guardada. Arquivo de textos. Muitos ficam por lá. Outros são anulados. É o fluxo de textos. Ele tem que continuar.



A imprensa, o chapéu e a platéia

quinta-feira, abril 24, 2008 · 1 comentários

blog opinião

Após a compra da moída que se mostrou equivocada posteriormente, deixo o açougue apressadamente. Caminho até o carro alheio, entro e dou a partida. Saio guiando de forma civilizada, sem utilizar da pressa como argumento para truculência ao volante. A primeira à esquerda é contra-mão. Sigo reto e entro na rua seguinte. Deparo-me imediatamente com veículo de uma emissora de TV. Logo avisto outros veículos de outros canais. Vejo câmeras de vídeo armadas sobre tripé. Fotógrafos, repórteres, pessoas. Concluo que estou na rua da família de Isabella Nardoni. Olho curiosamente sem alterar a velocidade. Por alguns segundos encontro-me no meio do espetáculo. Não me confundo com a platéia, pois passava pelo local ali absolutamente desavisado. Segui meu rumo e fui para a minha casa. Como foi o resto daquele domingo, pouco me recordo. Sei que ele me foi de descanso. Eu precisava. Muitos precisavam.
No dia seguinte, dentro do lotação, a colega aponta-me que aquele é o prédio onde se deu a tragédia com a menina. Olho com curiosidade. Depois, comento com familiares. Não me recordo se discuti sobre a tragédia com a moça no banco ao lado daquele veículo que nos levava ao mesmo local naquela manhã de segunda-feira. Sei apenas que ouvi muitas reclamações da vida por parte dela, o que me deixou um pouco irritado.
Sei que parece frieza o que digo, mas tenhamos todos a certeza de que tragédias sempre vão ocorrer. Platéias para elas estarão sempre aptas a comparecer gratuitamente. E esta mesma platéia fará seu esforço para deixar de ser mera audiência e tornar-se personagem coletivo do espetáculo. Nesta coletividade da representação, células individuais farão o esforço que a oportunidade oferecer para obter destaque em meio à massa.
A mídia fará o papel de informar com chapéu na mão. Setores da publicidade dos diversos canais gozarão calados a venda de espaços publicitários agora mais desejados, posto que a audiência explode. Tudo bem, eles sabem, é só uma bolha que logo se esvazia. Mas esperar o surgimento de outra é dinâmica que já se acostumaram. Sentimentalmente, não há preocupação quanto à tragédia. O que está em jogo são as cifras que se ganha. Tudo bem, é do jogo. É o trabalho deles. Alguém sempre ganha. Se no lugar deles estivéssemos, faríamos o mesmo.
No Rio de Janeiro, não sei quantas crianças morreram sem que alguém as jogasse de algum andar. Bastou a picada de um mosquito que a saúde público deixou voando. Uma sabida tragédia social, mas esta não atraiu enorme platéia. Talvez, quem sabe, por se tratar de um acontecimento que envolve atores simples, de bairro simples. Mas não sejamos tão críticos, o apelo emocional destas mortes é muito menor. E as mortes são cobertas pela mídia com maior discrição. E é dada a elas uma conotação política, que pouco tem de emocional. No cerne da questão fica qual esfera governamental tem a culpa.
Na semana passada, a Polícia Federal prendeu integrantes de uma quadrilha que assaltava os cofres públicos do governo federal. Entre os membros, prefeitos e juízes. Ao que se sabe, não houve platéia esbravejando sentimentos de repulsa. A imprensa fez o seu papel outra vez mais. Não insistiu na questão, nem estendeu chapéu. Não por isso, a questão deixa de ter enorme gravidade. Apenas não excita a platéia. E esta quer emoção. Crime de corrupção traz consigo grande frieza e nulo apelo emocional. É assim mesmo. São inerências humanas que temos.

opiniões opiniones

Em cada mazela da humanidade na qual a mídia se fizer presente, haverá pessoas tentando vender seu peixe. Isso denota a pobreza de alma a que estamos acostumados, porque muitas vezes só nos apercebemos desse oportunismo quando alguém nos chama a atenção para o fato, ficando as vezes o ato dessas pessoas confundido com sincera solidariedade.Del, parabéns pelo texto.
Zena Duarte, 39, GO, administradora doméstica



Pequena expressão de pequeno aborrecimento

terça-feira, abril 22, 2008 · 0 comentários

O que fazer? Tudo lhe parece sem graça. Dá até para entender esse hedonismo, essa superficialidade, a cara amarrada, sua falta de jeito. Mas por que esse gosto amargo na boca? Por qual motivo esse desânimo que veio sem aviso. E o que faz maltratar-se tanto? Lamento, se há indagações aqui, não há respostas para elas. Queixe-se, caso queira.
O fato é que a vida se mostra às vezes profundamente sem graça. As coisas, então, quaisquer que sejam, se tornam aborrecedoras. É dinâmica humana, isto. Tudo bem. Temos que aceitar sem querer entender. Daí, é opção deitar-se, findar luz no quarto, cerrar olhos e portas para o mundo. Mas lamento se amanhã a chatice não passou.
Faça-se uma reviravolta. A inconstância emocional traz frutos. É num questionamento interno que se pode produzir boa arte. De uma tristeza profunda, o poeta nos presenteia com tocante poesia. De emoções mal resolvidas, pinta o pintor alma sua. Compõe o compositor música que traduz gritos sinceros de almas diversas. E nisso tudo, tomado como fragmento de exemplo, tem-se o mais belo: a arte.
Já faz algum tempo que travei casamento sincero com o mundo das artes. Até que a morte me separe dela, que seguirá em frente com seus diversos pares. A arte é eterna. Eu e você, somos efêmeros, menores. E arte existe por quem a cria para quem a consome. Já que há um amor pelo consumo, façamos da arte nosso produto principal. É este um consumir que não traz prejuízos, tampouco alimenta insatisfações.
O leitor gosta quando se identifica. Então, faça par comigo neste meu pequeno aborrecimento. Configure solidariedade com minhas inquietudes. Sentemos no sofá. Façamos silêncio. Deixemos paradas as pedras do tabuleiro. O quadrado xadrez representa a vida. Ela pede pausa, sem saber da inexistência desta opção. Respeitemos nossos sentimentos. Fiquemos feito às pretas e brancas. Estáticos. Calados. Inertes. E igualmente aborrecidos.



O filho não tal qual o pai

quinta-feira, abril 17, 2008 · 1 comentários

blog imersão

Comunicou ao pai que deixaria o banco para estudar e tentar entrar na USP. Foi repreendido e acusado de incompetência para difícil tarefa. Mas o pai apenas queria o melhor para o filho, sem saber de fato o que era melhor. Cabe a reflexão de que ele não possuía informações suficientes para discernir a respeito. Era do tempo em que o jovem tinha que trabalhar para crescer, os estudos eram algo secundário. Nascera em meio à roça pobre.
O jovem não obedeceu a orientaçao paterna. E este não conhecia bem aquele que fora o primeiro rebento do seu segundo casamento. Não fazia idéia alguma da capacidade e obstinação daquele rapaz que sonhava vôos maiores, e que não queria ser uma simples mão-de-obra a ser explorada pela burguesia de seu país.
Sem apoio em casa, cruzou caminhos extremamente espinhosos. Estudava horas a fio. Gritava por silêncio nos demais cômodos, precisava se concentrar. Não tinha dinheiro. O pai não lhe respeitou a decisão, posto que se tratasse de opinião contrária à sua, o que muito lhe desgostava, pois era extremamente autoritário. O caminho para a realização de um sonho se mostrava cheio de obstáculos. Mas seguiu em frente. De certo, desanimou por diversas vezes. No primeiro vestibular, não logrou sucesso. Tinha que estudar mais e mais.
O pai jamais parabenizou o filho por ter conseguido entrar em universidade pública. Se não teve apoio psicológico, afetivo e econômico para prestar a prova, que é por demais concorrida, tampouco houve qualquer apoio para freqüentar o curso e se formar. Foi como se isto lhe fosse algo clandestino, paralelo.
O personagem em questão é oriundo da escola pública, embora tenha estudado dois anos do colegial em escola particular, pagos pelo pai, bem como tenha freqüentado, às suas expensas, cursinhos de bons nomes.
Não fosse uma pessoa inteligente e sensível, de certo não teria investido nos estudos, e hoje estaria em algum emprego de baixo salário. O fato é que não lhe foi o mais grave problema passar a maior parte de sua vida escolar em escola feia e cheia de más influências. Teve em sua própria família, com o não apoio dela, grande obstáculo para seguir em frente. E o pior é que seu intento vitorioso alimentou desavenças cristalizadas ao longo dos anos. Mas, não condenemos as pessoas que compõem esse quadro familiar. Elas seguem subordinadas às suas mentes que lhes massacram com a baixa auto-estima, o que lhes garante o despeito como sentimento presente.
Dizem que o mundo é complicado. Mas talvez o problema não seja a realidade tal qual ela se mostra, mas sim as mentes das pessoas que a compõem. De certo, é possível livrar-se das ervas-daninhas que tornam indivíduos meros fantoches de suas amarras internas. Contudo, o ato para libertar-se não é lá muito fácil. Seu início se dá pelo reconhecimento das imperfeições. Mas isto é complicado e doloroso. É frustrante, também. Afinal de contas, o indivíduo se depara com algo delicado de se relacionar: um ser imperfeito.
Atualmente, o jovem protagonista desta narrativa é um bom profissional no ramo em que se formou. Segue extremamente esforçado. Não deixa de estudar e praticar o esporte que mais gosta, outro grande desafio em sua vida. Evidentemente que ele deveria ser visto como motivo de orgulho para seus entes, mas isto só ocorre em um caso isolado. Se não lhe bastasse toda a dificuldade para realizar seus intentos, a vida lhe impôs a difícil condição de travar resistência à rejeição dos seus, face à sua condição de homen erudito, conquistada com graves dificuldades. Não apenas as que já foram relatadas, mas outras mais severas. Para clarear um pouco esta questão, fica a informação de que esse jovem teve que conviver com sua baixa auto-estima, além do mencionado ambiente familiar hostil a ele, sem deixar de citar os diversos medos que o assombravam dia e noite. De certo, ele é um sobrevivente. Sem dúvida, é injustiçado. Indaga-se por que alguns dos seus não reconhecem nele as mesmas fragilidades que vêm e si. Fica somente a certeza de que neste imbróglio afetivo, as fragilidades estão em todos os envolvidos.
Quando da morte do pai, chorou muito a dor doída. Teve com ele momento relatado. Um pedido de desculpas por parte de seu progenitor. Lágrimas nos olhos de ambos. Era uma despedida. A incerteza de que tudo podia ser diferente jamais será respondida. O que é possível afirmar era o velho erro da demonstração de amor somente nos momentos finais, quando não há mais tempo. De qualquer forma, talvez haja importância nisto e deve ter tido resultados positivos nas almas dos que ficam. Não se sabe...
O jovem casou-se. É bom marido, relata a esposa. Alguns meses se passarão e ele será pai. De certo, terá a oportunidade de ser para o filho (ou filha) o pai que quis para si. É como se a vida, num ato de admiração e desafio, desse a ele a oportunidade de desculpar aquele que tanto o aviltou. E o fez, muito provavelmente por estar desculpando alguém com a mente bastante adoecida, visto o modo pelo qual este se relacionou com suas mágoas. Afinal de contas, a vida lhe foi dura também. Tivera pai opressor. Vivera duras realidades. Fora extremamente pobre. E seu sentimento de inferioridade o fez um déspota. Agora, cabe ao filho ser pai. E, quem sabe, corrigir uma história que foi mal traçada.



De Pessoa a Ghandi

terça-feira, abril 15, 2008 · 0 comentários

blog filosofia

A indagação minha, para mim, era por que a negação do desejo. De forma rápida, buscava respostas. E em cada busca, me desviava da vontade. De tudo dito, uma única certeza era-me propriedade: o desejo intenso de escrever.
Talvez eu soubesse por que tão reticente. Em verdade, um medo subseqüente de um outro. Temi, confesso, ler Pessoa na pessoa de Bernardo Soares. Meu temor era plagiar o poeta após ter com seus escritos. Mas, ao mergulhar em sua prosa-poética, fui atado por todos os lados. Devorava. Inquietava-me. Impacientava-me. “desassossegava-me.”
O personagem do livro possuía absurdo tédio pelo cotidiano. A vida lhe era um não existir. Aborrecia-se com tudo. Era infeliz e deprimido. A leitura fazia-me pensar...
Não ouso comentar a obra do gênio, posto que não possuo elementos para tanto. E nem seria desejo meu fazê-lo, ainda que me fosse possível. O fato é que toda a tristeza do personagem, deitada no papel de modo genial, é de uma beleza que não comparo. Ler tal livro fazia ferver emoções em mim. A inquietação era maior do que eu. O único remédio era correr caneta por linha reta.
Sim, de certa forma eu me identifico com os aborrecimentos descritos no “Livro do desassossego”. Quando o bom amigo apontou-me a falta de objetivos, pareceu-me água no mar. Mas o tempo pediu a si a obra do aviso. O amigo, eu não sabia, tinha razão. E hoje, diante de inúmeras placas iluminadas, adiciono filosofia aprendida. Se nos objetivos da vida estiver incluído além de você, o cotidiano torna-se mais desejoso. Mesmo porque, é possível cotidianizar criativamente. É quando simples momentos se tornam maiores do que nossa casual existência. Quando nem tudo é levado a sério, sem, contudo, tornar-se negligente.
Nas brincadeiras com outro grande amigo, Alan Davis, membro ativo do Conselho deste sincero blog, modo belo de ver a vida. Entre filosofias e desaforos, nosso modo bem humorado de tratar com a realidade. É maneira cinéfilo de ver a vida. E todos, inclusive o par de amigos, não são mais que meros personagens em suas vidas fugazes. Para o poeta do livro citado, todos os corpos são meros fantoches, todos inexistentes.
De certo, não posso negar, é aborrecedor a existência superficial proposta à massa por parte da mídia. E a massa se permite aviltação, por exemplo, pela programação diária dos canais de TV com maior audiência. Ou a infeliz opção de ter vitrines de shoppings como “obras de arte” aos domingos. Ou quem sabe, meramente se prestar a viver no rastro de celebridades. Enfim, deixando de lado inúmeros exemplos, esse existir do modo como apontado aqui, é absolutamente inútil.
Não nego. Sempre me indago se o indivíduo não percebe tamanha desnecessidade no ato letárgico do consumo de produtos nocivos à alma. E comete engano quem achar que esse jeito de besta de existir pertence somente às classes menos abastadas. Em casas de pessoas com algum luxo, ingere-se também pasmaceiras 4x3.
Peço desculpas pela acidez. Lamento se ao mirar rosto tal, vejo um vazio igual a muitos outros vazios. Que fazer, além de reclamar? É tudo desse jeito! Fizeram o mundo assim! Mas, e agora? A saída, penso, é o preceito de Ghandi: revolucionar a si. Esta, dizia o pensador, é a única revolução possível. Com tudo dito, peço licença por ora.



Sentados

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Ao balcão da lanchonete, espera dar o horário de iniciar o cumprimento da carga-horária de trabalho. Hoje, ainda não veste uniforme azul. Segue ali, cabisbaixa e calada. Para passar o tempo, brinca com o celular. Sempre faz isso no intervalo de descanso para, quem sabe, ausentar-se de suas realidades.
À mesa do refeitório, subtrai o trio de alimentos no pequeno quadrado verde que lhe foi emprestado, mas que não precisa mais devolver. Tranqüilo, observa os demais que compõe a cena. Trama consigo um texto, o que gosta de chamar de tocaia literária. Seu ato não é apenas consumo de calorias e observação. Faz planos, sonha, deseja. Tudo enquanto executa garfadas, cumprimenta um e outro. Nisto tudo, sabe que é mero personagem sem ensaio algum.
À frente do rapaz contemplativo, debruça-se à madeira branca homem de uniforme cinza. A barba está por fazer. Algo o inquieta. No semblante, um incômodo. Há nele certa tensão, algum desgostar. O quê, não é sabido. Mas numa troca de palavras com parceiro seu de uniforme, a informação da carteira vazia. Provável, seja esta um vestígio daquela aparente angústia. Mas nada além de uma possível explicação. Um por que, talvez...
Brincando ao celular, o garoto encontra modo de se esconder. É evidente sua insegurança em meio àquelas pessoas. Sentar-se de costas para o núcleo do ambiente, é saída melhor. Por duas vezes, mira os olhos no rapaz que consome seu trio calórico. Este, depreende no outro algum desejo de se expressar verbalmente. Por enquanto, a expressão apenas é feita com a ferramenta dada pela natureza para que veja o que lhe incomoda. Para também ver a si, sem garantia alguma de não obter descontentamento.
A cadeira daquela mesa em restaurante-lanchonete muito freqüentado serve-lhe como cama que é feita para dormir. Ela é percebida, ninguém evita. É fato inusitado. Alguém brinca que foi a comida que lhe serviram. É coisa que acontece, enriquece o cotidiano.
Sabe que é provável a menina estar com depressão. Ela adentra à sua sala. Junta três cadeiras. Pede algo para se cobrir, mas não há. Cerra os olhos e tenta sono. Enquanto ele, numa tarde muito anterior à data desta crônica, segue em frente ao computador. Vez ou outra, olha para a menina deitada. Verifica a caixa-postal de seu e-mail. Visita sites. Fala ao telefone. Ouve música. E enquanto se dá tudo isto, muitos seguem sentados. Alguns lendo uma rápida e simples crônica.



Importantes um para o outro

segunda-feira, abril 14, 2008 · 1 comentários

blog romantismo

Cerca de três anos, o casal ficou sem fazer um único contato sequer. Nas lembranças dele e dela, os belos momentos passados. As noites de amor sem igual. Os gestos. Os desejos. As saudades. Foram as circunstâncias que fizeram a separação acontecer. Ela, com o tempo, passou a ser o maior desejo do par.
Ele sentiu fortemente quando recebeu a notícia que sua amada havia refeito seu casamento. As emoções lhe invadiram de tal modo, que uma dificuldade de respiração, uma tensão, tomou-lhe conta pelo resto da noite. De sua casa, partiu para um show de blues no mesmo local onde haviam se reencontrado pela última vez. Era um workshop de blues. Em meio às explicações e canções, ela lhe vinha à mente. Para uma amiga, mentiu para si ao dizer que pouco se importava. Mas a amiga sabia da verdade dos sentimentos dele por ela.
Eles tiveram um ao outro por um ano e alguns meses, talvez nem três. Os 180 dias iniciais do relacionamento foram algo mágico para ambos. A paixão foi arrebatadora. O amor sobreveio, embora o rapaz sempre negasse tal sentimento - necessitou perdê-la para ser convencido de tal sentimento. E o prazer que os corpos deram a ambos jamais foi igualado, como jamais houvera sido.
Mas a vida não gosta muito de ser perfeita. A fase dos dois não era nada boa. Logo, os problemas internos de cada um se impuseram frente àquele amor. A frase dela em natal de absoluta melancolia jamais saiu de sua cabeça: “Nós não nos ajudamos”. Era o fim da relação que deixara de ser bela há algum tempo. Era a despedida...

Casais se tornam errantes quando cada parte dele não tem de si plena consciência. E assim o foi. Eles voltaram. O reencontro naquele centro cultural na bela Vila Mariana. Ela estava mais linda do que antes, elegantemente vestida de preto. E ele, trajado com a camisa que comprara pensando nela. Dali, foram para a casa da bela mulher. A noite de amor era uma readaptação, não podia ser tão maravilhosa. Mas a loucura na alcova, eles reencontraram nos dias que vieram. A despedida final veio em noite melancólica demais em pizzaria na zona norte de Sampa. Dali, a certeza de que jamais se veriam novamente. Era o fim para sempre. Ambos saíram aliviados de tal encontro. E os dois saiam cheios de sentimentos negativos um do outro.
Esqueceram-se por algum tempo. A amiga dele perguntava sobre a tal mulher. Demorou, mas ele disse taxativamente que ela era um capítulo encerrado em sua vida. Pareceu firme no que disse. E o fez sem saber que o livro ainda não havia terminado de ter a história contada. Um site de relacionamentos entre amigos faria a reaproximação.

Os anos se passaram. Ele mudou, ela também. Ambos estavam absolutamente admirados e encantados um com o outro. Ela se tornara mais filosófica. Ele havia adquirido tranqüilidade e confiança. Almoçaram juntos. E combinaram outro encontro. O beijo aconteceu...
O segundo encontro foi no mesmo local do anterior. Um café muito glamouroso na Paulista. Ela estava linda para ele. Conversaram muito. Após o filme, a moça contaria sua nova realidade. Temia ser condenada, sem saber que condenar é verbo que deixou de ser conjugado pelo rapaz à sua frente à mesa.
Estava casada. A sua relação com o marido não era lá muito trivial. Ele a tinha apenas como esposa, mas não como mulher. Sexo, procurava fora. Dela, só queria carinho, companheirismo e o discurso de casal comum para a sociedade. E esta mulher, mergulhada em seus estudos, após pesquisar, indagar a si e a outros, abriu a porta da relação como saída para manter o casamento vivo.
Ela ficou atônita com a reação dele. Admirava-se do modo tranqüilo como recebeu a informação. O rapaz, amante da forma como a vida imita a arte, ficou entusiasmado. Via em sua frente um filme, um livro. Considerava tudo fantástico. E ela, que sempre lhe parecera advinda das telas de cine-europeu, agora se tornara verdadeiramente uma personagem de cinema, cuja história era baseada em boa obra literária.
Fora uma das tardes mais agradável para o casal. Riram. Divertiram-se. Ele sentia-se muito feliz ao lado dela. “A gente se quer bem”, era a nova frase a ocupar a sua memória. E tal afirmação era de fato verdade. A situação pouco importava. O que valia era esse sentimento um pelo outro.
Depois deste dia, já se passaram muitos outros. Não houve reencontro, mas eles se falaram diversas vezes. Na verdade, ainda mantém contato. Trocam e-mails vez em quando. E já arquitetam novo reencontro. Seguem tranqüilos. E já declaram muitas saudades. Há muito mais o que dizer desta história, mas não é dito. E não é por censura, senão o simples ato de pôr no papel o que vem primeiro.



Porta que muda de nome

domingo, abril 13, 2008 · 0 comentários

blog exercício

Não há saída, senão a confissão. Há um bloqueio interno. As portas da imaginação estão cerradas. A procura por chaves se mostra errante. Inventar sentimentos seria opção, mas não quero ser ator de mim. Então, o que fazer?
O ser humano possui capacidades, algumas levianas. Fingir é uma delas. Talvez esta seja a única porta cuja tranca se mostra frágil. É a porta da tocaia contra si. Fingir fará a pequena mancha cinza aumentar na alma.
Nem sempre é fácil seguir em frente. Hoje está assim. O ato da escrita agora é mero exercício. É obedecer ao dito que diz que há caminho ao se caminhar. O que não dá é esperar a solução, a pauta. Cabe, contudo, uma reflexão. A produção literária-jornalística necessita do “cheiro da rua”. Nas calles há muitas pautas, muitos textos. Estão pra lá, pra cá, parados. Seguem ocultos, ou gritantes. Rasos, profundos. É necessário estar lá. E ainda assim, é possível que nada se verifique.
Mas enquanto a rua está ao longe, faz-se o exercício do desbloqueio. Mergulha-se nas vias internas. Procura o que permite sair. Extrair dos acúmulos de sensações palavras que, simples, constroem um texto. De certo, a memória participa deste trabalho. Que é incompetente, inócuo. Se assim é, é inesperado, improvável. Já que não se sabe o que será, deixa-se correr a caneta. Iria dizer “livremente”, mas não há garantias de liberdade no ato literário. Pode haver diversas amarras. E o que se propõe desbloqueio, pode exatamente ser resultado de diversos bloqueios.
O motivo da suspensão da caneta é absolutamente ignorado. Não, não foram pelas pernas dela, pois estas entraram no campo de visão recheado de muitas pernas. Em verdade, estava o olhar absolutamente despropositado. Era bloqueio que virou desbloqueio? E nesse não saber, fecha-se a porta. Ela mudou de nome. Caiu em dúvida. E “dúvida” é a palavra que a nomeia, que faz este texto encerrar-se. Fecha-se a porta.



Sala da covardia

domingo, abril 06, 2008 · 0 comentários

Quando chegou ao local do primeiro encontro, levou alguns minutos para avistá-la. Ao dar por sua presença à mesa daquele café, surpreendeu-se com tamanha beleza. De certo, encontrava-se constrangido pelo enorme atraso. Mas nem sempre os cálculos da pontualidade dão certo. Os obstáculos, por vezes, se mostram instransponíveis.
Foi uma tarde muito agradável para o casal, cujo primeiro beijo não se demorou, nem mesmo foi necessário mudar de ambiente para enfraquecer a fêmea, como ensinou-lhe certo amigo ao se referir à táticas de sedução. Para não fugir da verdade, tal ensinamento se deu em ocasião posterior a esta. Foi em dada noite. O rapaz era segurança alguma. As emoções – que nada tinham a ver com a mulher de pele alva – fizeram-no inábil. Diante de tanta insegurança, foi absolutamente incompetente no ato da sedução. O “não” da bela foi inevitável. Minutos depois, o apontamento da falha pelo amigo instrutor. No rapaz, além de certo pesar, não pelo fracasso, mas sim pelas emoções desagradáveis, a certeza de que seduzir com técnicas é menosprezar o que há de mais belo quando se seduz e se faz seduzir: a naturalidade.

Do café, o casal dirigiu-se a qualquer restaurante do shopping. Na verdade, qualquer um que o preço parecesse agradável ao bolso dele. Eram os mesmos tempos de vacas magras. Escolhia sem deixar que ela percebesse a verificação dos preços. Julgou sucesso na empreitada, mas nada garante se a bela loira percebeu a movimentação do seu par de poucas platas.
Fazia tempo que não caminhava com mulher ao lado seu feito namorada sua. Seu ego inflava-se com tamanha beleza. Daquele shopping, a acompanhou até sua casa. Aquele mesmo corredor de ônibus fora percurso de alguns textos. Nas diversas viagens que fez, pautas, inspirações, lembranças. E foi justamente em um veículo longo, neste mesmo corredor, que conhecera a bela de então.

Ao ter primeiro contato com família dela, fragmentada pela migração, iniciou-se nele processo de desconstrução da relação que se iniciava. Tal dinâmica não lhe era novidade. Deixar portas abertas para saída prevista, era-lhe absolutamente trivial. A certeza da existência de portas não lhe trazia conforto algum. Passar por elas era questão de tempo. E isto era danoso para a relação que se passava do lado de dentro. Eram incertezas constantes. Uma dinâmica destrutiva. O incômodo maior sempre foi a não-atitude.
Vai ver que toda relação é um monte de portas mesmo. E aí ocorre a abertura de algumas que se fecham ou não com o tempo. E o modo de encará-las é diferente ou igual. As reações são diversas. Há os que relevam quase tudo. Fecham os olhos e cerram portas. Alguns até trancam-nas e jogam fora as chaves. Com o metal, vai-se um pouco da pessoa. E há também aqueles casais com tantas portas abertas raiando luz incômoda, alimentando ódio íntimo dia-a-dia, mas que nenhum dos dois tem coragem de correr porta afora.

O embate se deu. A vaidade entrou em jogo. Utilizar a saída e abrir mão de tamanha beleza? Argumento preciso para postergar a “fuga”.

O dia raiou. Ele dormira no sofá. Pela manhã, melodia pobre e letra profana causam desagrado nele. Somado a isto, o ambiente desarmônico. Uma porta se mexia, então... Outros dias viriam. Neles, a primeira noite de amor. Na moça, gritos de traumas. Na alcova, satisfação masculina.
As razões pela qual a relação terminou não são muito sabidas. Claro que para a moça surgiram portas. Uma das quais ela relatou: o medo de amá-lo. Ele, em toda a sua covardia, deixou a solução de tudo para o tempo.
Ao ver nela portas abertas, apenas esperou que ela passasse por uma das opções, enquanto trancafiou-se, ficando sempre à espreita. Era-lhe a sala adequada. Podia ser chamada de “sala de espera”. Mas nome correto mesmo era “sala da covardia”.

Tudo entre o casal foi rápido. Foi bom, prazeroso. A tarde de aproximação foi vida imitando cinema. Foi tudo glamouroso. Satisfez egos. O primeiro encontro não deixou por menos. Mas a cine-vida não está nem aí para finais felizes. Do ideal para o real, o casal se desconstruiu. E as últimas palavras que ouviu dela foram: “Tenho medo de me prender a você...”. Daí para o fim de mais uma história de amor, foi tempo curto. O rapaz, instalado confortavelmente na sala da covardia, brindou a porta do medo. Dela.



Rompimento de um breve silêncio

quarta-feira, abril 02, 2008 · 0 comentários

Calei-me para mim. Não pensei em textos por alguns dias. Depois, vi que o cansaço me outorgava silêncio. Submeti-me à imposição do meu estado físico e mental. Submissão necessária.
Sem aviso, deu-se o rompimento da obediência. E o que não se pode chamar de grito, tem o tamanho de uma folha A4 em branco. E agora cá estou sob permissão daquilo que já não me tem mais, o cansaço.
Vejo o tecer sereno de um texto. Causa-me deleite essa dinâmica tranqüila. É como se estivesse observando o mar que finge estar parado. Mas as palavras aqui não atraiçoam. São de fato tranqüilas. Sim, são modestas frente ao mar. Diminutas comparadas a ele. Praticamente inexistentes.
O A4 aqui se divide em duas colunas. Foi modo tramado de aproveitar melhor o espaço. A primeira coluna se despede agora. Dá então a inauguração da segunda com palavras quaisquer. Não há exaltação. Ausenciam-se discursos. Carece demagogia. É apenas ato puro, simples, inócuo.
O que me cerca, não cito. E nem sei por que não o faço. É opção que não optei. É de fato, acaso. É, em verdade, escrever o que vem. Se o que me rodeia permanece aqui, neste texto ele não adentra. Para o que vejo, fecho as portas da observação. Não é por incômodo, insisto. Não é por nada.
Tem-se agora o que era desejo. Findar texto simples que rompeu meu silêncio. Liberto-me? Não sei. Melhor ser sincero. Eu não estava preso. Apenas cansado. E por tamanho cansaço, calado. Por fim, escrevo. Já não me calo.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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