O lixo que consumimos

quarta-feira, março 12, 2008 ·

blog convidados

Adalton Oliveira

Um dia desses, observando a enorme fila que se formava diante da máquina de sorvete de uma famosa rede de lanchonetes, pus-me a questionar por que as pessoas, em sua maioria, apreciam coisas de notória má qualidade. Seria uma questão de preço? Provavelmente não, pois há produtos melhores do que os oferecidos pela tal rede a preços mais baixos. A razão talvez esteja na força do marketing, que nos leva a acreditar que o produto A tenha esta ou aquela característica que, na realidade, ele não tem. Mas, este pressuposto implica em aceitar que as pessoas podem ser constante e continuamente enganadas; ou seja, os consumidores seriam intrinsecamente ingênuos. Hipótese difícil de aceitar. A questão talvez vá além da mera ingenuidade.
A teoria econômica, em sua vertente clássica/neoclássica, assume consumidores racionais, sempre em busca da melhor razão custo/benefício que possam encontrar. Assim, este axioma estaria em contradição com aquilo descrito no parágrafo anterior, pois ao procurarem pelo produto da conhecida rede de lanchonetes, os consumidores não estariam obtendo a mais vantajosa relação custo/benefício disponível. Então, há algo mais escondido na questão, que a minguada visão econômica ortodoxa não elucida.
No texto de 1941, "Arte nova e cultura de massa", Max Horkheimer cunhou o termo "indústria cultural", aprofundando sua análise desse conceito em "A dialética do esclarecimento", livro escrito na companhia de Theodor Adorno. Para eles, a indústria cultural tomou o lugar da religião na tarefa de dar sentido à existência dos indivíduos e promover a coesão social necessária ao funcionamento do sistema econômico e político. Dessa forma, ela passa a responder aos anseios e às demandas das pessoas, ofertando-lhes produtos que parecem suprir suas necessidades (verdadeiras ou fictícias), dando-lhes a impressão de livre escolha. O consumo passa assim a ser imposto pelo sistema econômico que, premido pela inexorável roda da acumulação, cria mais e mais objetos de desejo: sejam os celulares de última geração, sejam televisões de plasma e etc., pondo em nós a sensação de que são imprescindíveis, sem os quais não há felicidade possível. Acerca disso, o Prof. Renato da Costa nos lembra que "O que chamamos de preferências individuais são na verdade fruto de uma autêntica construção coletiva, num jogo constante de sugestões e induções que constitui a própria dinâmica da sociedade"[1].
Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural retira do indivíduo "uma responsabilidade que, no limite, coincide com aquela envolvida no exercício de sua própria liberdade, que não deveria se restringir à possibilidade de escolher entre um produto A e um produto B, mas à autonomia do sujeito num sentido mais substantivo, como, por exemplo, assumir as rédeas do seu próprio destino. (...) As pessoas, de fato, acreditam escolher livremente viverem como vivem quando, na verdade, na base do seu modo de vida encontra-se uma enorme coerção, que apenas não é percebida por elas enquanto tal." [2] Estão como que anestesiadas; boquiabertas olhando as vitrines do enorme shopping center em que o mundo se transformou, perderam o senso crítico. Assim, aceitam e consomem com sofreguidão hambúrgueres e sorvetes insípidos, programas de televisão imbecis e 'imbecilizantes', músicas de qualidade duvidosa, etc., etc. e etc.
Parafraseando Sócrates: ninguém busca o mal deliberadamente, só o faz por loucura, por alguma espécie de ilusão.

Conversando com um grande amigo meu, expôs a ele a minha dificuldade de lidar com a idéia de consumidor consciente, da qual ele se mostra um entusiasta. Do ponto de vista econômico, a consciência do consumidor está ligada a uma racionalidade dirigida para a busca do melhor custo/ benefício, e que se dane todo o resto. Na visão excessivamente crítica de Horkheimer e Adorno, a manipulação é o elemento a mover o consumidor. Então, não se pode falar em consciência. Coloquei a ele que a idéia do consumo consciente não passava de utopia, apegando-me à etimologia da palavra: "lugar nenhum". Depois, lendo a introdução do livro "Utopías e ilusiones naturales", de Francisco Fernández Buey, deparei-me com a bela definição do termo, de autoria de Eduardo Galeano:

¿Para qué sirve la Utopía?
Ella está en el horizonte.
Me acerco dos pasos y ella se aleja dos pasos.
Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.
Por mucho que yo camine nunca la alcanzaré.
¿Para qué sirve la Utopía?Para eso sirve: para caminar.

Isto me fez voltar a pensar no assunto sobre consumidor consciente e me lembrei dos dizeres de Ulrich Beck[3], para quem o consumidor é um 'gigante adormecido'. Mas, para que ele desperte, é preciso que deixemos a preguiça de lado e recuperamos (desenvolvamos) nosso amor à reflexão. Somos muito mais do que consumidores passivos.


[1] COSTA, Renato da. "Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva" em Interface – Comunic., Saúde, Educ., v.9, n. 17, p.235-248, mar/ago 2005.
[2] DUARTE, Rodrigo. "A celebração da virtualidade real" em http://www.fafich.ufmg.br/~roduarte/Acelebracaodavirtualidadereal.pdf
[3] BECK, Ulrich. Pouvoir et contre-pouvoir à l'ère de la mondialisation. Paris: Flammarion, 2003.


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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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