"Ônibus 174"

quinta-feira, março 13, 2008 ·

Ao término da exibição do documentário que dá título a este artigo, as pessoas se mostram indignadas. Para elas, houve diversas chances de matar o bandido. No fim, deu quase tudo errado. Morreu a vítima também.

Aquele teatro do horror. A transpiração da sociedade. Sandro, um produto, saiu das entranhas de uma favela. Tornou-se criminoso e quando quis mudar de vida, viu-se preso ao crime. Seu maior medo era voltar para a cadeia, "ambiente de maldade", que não recupera ninguém, cujo principal objetivo é aviltar os indivíduos que lá são jogados.

Já que quase tudo no mundo criado pelos homens é mercadoria, vamos nos ver apenas como produtos . Assim, temos a criança que acaba de nascer em uma favela deste Brasil. Lá, a presença do tráfico está consolidada. Facções criminosas dominam os becos . Na cabeça de desavisados, bandidos são apenas aqueles que apertam gatilhos contra pessoas inocentes, às vezes não tão inocentes. O que vale lembrar é há que muitos bandidos, que agem no atacado, roubando dinheiro público. Seus assaltos são aos milhões e as marcas de sangue são terceirizadas em função das tragédias sociais resultantes de suas ações contínuas. De certo, se essas quadrilhas instaladas no Estado não agissem, muitos meninos e meninas das periferias teriam escola, teatro, parques e pais mais bem instruídos e com melhores condições econômicas a oferecer para seus filhos. Mas os bandidos de colarinhos bem lavados possuem profundo desprezo pelos outros. Roubam verbas públicas sem nenhum pudor. É a contribuição que dão para a fábrica de bandidos como Sandro que seqüestrou o ônibus linha 174 naquela tarde carioca.

Para muitos, de certo a maioria, basta matar os Sandros. Não pensam que temos que desmantelar a fábrica social de seqüestradores, traficantes, ladrões de vários tipos. Para tanto, é necessário fechar a fábrica maior, composta por pessoas de nível universitário, que vivem nos melhores bairros, compram carros de luxo, e roubam o futuro de milhares de crianças brasileiras.

No momento do seqüestro, um tiro certeiro em Sandro era a solução para salvar aquela vítima que acabou morrendo pela falha do soldado do Bope. Mas esta era uma saída circunstancial. Matar bandidos e não levantar o debate em relação à enorme desigualdade social condena muitos jovens da periferia à vida criminosa. É assinar a sentença de morte de inúmeros brasileiros que vivem em péssimas condições sociais.

O fato de que trata o documentário "Ônibus 174", com direção de José Padilha, se deu há alguns anos. Ladrões que andam de carros importados seguem soltos e admirados. Com dinheiro conseguido de forma desonesta pagam o luxo do seu dia-a-dia. Fulminam a imagem do Brasil. Colocam armas nas mãos de garotos. Apontam gatilhos para diversas cabeças. Essas pessoas não contribuem para o bem do país. Devem ser encarceradas. Elas é que não temos necessidade de recuperar. As péssimas condições das cadeias devem ser dadas a este tipo de gente. São, sem dúvida, os maiores criminosos de qualquer sociedade. Urge que aniquilemos a corrupção neste país, mas sem AK47, que muita gente ganha dinheiro vendendo para traficantes. Repito, gente bem nutrida, pele branca, colarinho de mesma cor e alma nenhuma.



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Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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