Melancolia nostálgica

sexta-feira, março 28, 2008 ·

Ele era uma infelicidade só. Ao avistar casal, julgou-lhe felicidade. Desejou a mesma para si. Mas, só ficou com sua realidade que parecia dura. Não sabia que teria que esperar tanto tempo para a realização do seu sonho pequeno e não único. Pior, foi quando o dia chegou e ele se viu na mesma infelicidade do dia em que avistou aquele casal.
Tudo lhe era lição. Ignorava qualquer por quê. Vestir a fantasia de infortunado era saída isolada. Diante de tudo, creditar felicidade à determinada conquista se tornou dinâmica em sua vida. E a cada conquista e não-felicidade, ele aprendia sem saber. Foi que, diante de seu primeiro computador, viu-se absolutamente frustrado e mais uma vez infeliz. Não seria aquela a última vez. Desejara tanto aquela máquina que esperava muito dela. Contudo, a pobre matéria pouco lhe deu. E, em medida alguma, lhe ofertou o que mais desejava: significado para a vida, motivo para um riso da alma sua. Diante de mouse, teclado, CPU e monitor, viu-se absolutamente inerte. O IBM não era tudo que idealizara. Sentiu que era o mesmo diante do fato. Calou-se. Jamais comentou sobre a questão com quem quer que fosse. Não era trauma. Não era nada, senão esquecimento...
O tempo seguiu seu destino que é chegar a lugar algum. O rapaz cresceu. Dias melancólicos ele ainda passou. Esperou algo acontecer. Um fato inesperado que lhe tirasse do marasmo trivial, era sua crença maior, ou única. Era-lhe o modo de manter a chama fraca acesa. Por muitas noites ainda se aborreceria. O computador ainda estava lá. A opção de conectar-se à rede mundial passou a ser a forma de aliviar o vazio interno, ao passo que se tratava de alimento para o mesmo vazio.
Carecia-lhe objetivo, filosofava seu bom amigo. O outro alimento para o brando de sua alma cinza era o hedonismo. Narcisicamente, construiu o personagem preferido. Aquela máscara de beleza desproporcional à realidade, fazia-lhe mais. E nas vezes que o plano hedonista era sabotado, findava o brilho no olhar. O bom humor. A pretensa felicidade. A segurança inventada. Dinâmica tal que fingia alimentar existência, quando, em verdade, destruía o infeliz existir.
Para onde ele caminhava? Para lugar algum. Era um não ir. Não crescer. Nada ser. Uma negativa de si. Ignorância de si. Um se destruir. As conseqüências viriam. Uma avassaladora chuva-fina prenunciava-se em função de anos de existência fingida. Até que o personagem se perdeu em palco escuro. Na platéia, ninguém. Solidão total. E o início de dias chuvosos. A água precisava cair. Sua alma suportou o que pôde de nebulosidade. Para libertar-se necessitava chuva fina e ininterrupta. A forma que encontrou para diluir tantos maus-tratos. A cura estava na doença da alma.
Dias de muita dor. Ausência de vontades. A morte como visita esperada. Caminhar para o que o circundava tornou-se tarefa extremamente dolorida. O chão com seu nada lhe era visão melhor. Falar também se tornara indesejoso. Comunicar-se, tormento constante. Olhar o ser olhado, pior castigo. Mas toda aquela dor mostrou-se necessária nos dias que se seguiriam.
Á partir de dias tão cinzas, foi que buscou portas. Foi errante em muitas. Diversas demonstraram que abri-las era inútil. Estava profundamente chateado com a vida. Com tudo. E, sobretudo, consigo. Seu maior castigo era ele próprio.
Tudo que foi relatado era aula dura dada pela vida. Sim, o rapaz personagem do que foi contado não passava de um desavisado. Desarmônico entre o real e o ideal. Apanhou. Perdeu as competições. E mesmo quando gozou o prazer da vitória, perdia sem saber. O olhar quase se apagou. Não foi golpe da vida. Esta é bela. Era sua mente algoz. Enquanto mero fantoche dela, viveu errante e vacilante. Foi apenas quando se encontrou, apercebeu-se de si, que sua alma voltou a sorrir. Um sorriso adulto, mas muito semelhante com os sorrisos de infância. Foi um reencontro com a felicidade. E foi, acima de tudo, seu primeiro encontro consigo. Daí em diante, foram vários encontros. E o amor por si é alimentado a cada nova autodescoberta.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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