Eles queriam apenas dinheiro

sábado, março 01, 2008 ·

blog opinião

Jovem empresário em franca decadência. Herdou muito e já se foi quase tudo. Não divaga sobre o mundo. Sua visão não vai além de seu umbigo. Mas vê na política a chance de recuperar e, muito desejosamente, inflar seu patrimônio. Por meio de “amigo” influente adentra a uma pequena legenda, desses partidos nanico que se diferenciam das agremiações maiores no tamanho (dos negócios?).
O jovem dono de empresas se candidata, então, a vereador. A campanha é feita sem publicitário mesmo, pois um profissional deste custa muito caro e os recursos em caixa são escassos. Homens mais experientes naquilo que acreditam ser política orientam o postulante ao cargo que uma pessoa ocupa a fim de trabalhar para a comunidade o qual ela representa. Muitos pensam que os representados são apenas seus familiares e amigos. Ledo e leviano engano.
Sem carisma algum, ele vai à “luta”. Precisa do Estado para se recuperar economicamente. Seu ego grita e pede o luxo de volta. Nos negócios já se mostrou incompetente, ou mais honestamente dizendo, sem condições emocionais para dirigir uma empresa. Agora é sair às ruas e apertar mãos que ele jamais apertou. Olhar em rostos que ele sempre desprezou. Mentir para si a missão de ajudar ao povo, à cidade. Negócios poderá fechar. Comprar aquele carro de alto luxo. Trocar de residência para uma bairro ocupado somente por “nobres”. A esperança está no ar. A conta corrente poderá voltar a engordar.
Um outro se candidata. Agora é a um cargo de maior pompa. Quer ser deputado estadual. Diferentemente do jovem já citado, ele é um homem experiente. Homem rico, mora em uma cobertura em bairro bom de São Paulo. É um dos diretores de uma grande empresa nacional. De certo, caso ganhe, representará os interesses da empresa que o fez homem de posses. No discurso, o povo como ferramenta pra chegar lá, afinal de contas precisa de muitos votos. Não fosse isso, falaria apenas para os sues.
Ambos os personagens reais desta história foram derrotados nas últimas eleições municipais pelo país afora. Isto não pode ser exatamente tratado como boa notícia, pois outros com interesses também pessoais entraram no lugar destes. De qualquer forma, façamos justiça, também foram eleitas pessoas sérias que pensam o mundo e não se limitam a fazer da vida apenas dia-a-dia para ganhar dinheiro.
Representar um povo, independentemente do cargo, é tarefa para poucos. De certo, somente as pessoas que pensam o mundo, que possuem senso coletivo de vida, não importando seu grau de instrução ou sua condição econômica, estão aptas para tanto. De forma equivocada, indivíduos fazem política como algo para si e os seus. Errado! Absolutamente equivocado! Política não é algo para ser tratado com a mediocridade trivial daqueles que levam a vida apenas como consumidores. Política é para utópicos. Para aqueles que dormem com o mundo tatuado em sua alma. Aqueles que sonham com uma sociedade mais justa e igualitária. Para quem a democracia é forma de desenvolvimento para todos, não somente para si.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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