Minhas desculpas a você

domingo, março 16, 2008 ·

Desculpe-me você. Que acha suficiente ter seu celular com opção de fotografia. Um carro zero quilômetro. Jeans apertado e barriga de fora. Quem sabe, salto alto e batom. Desculpe-me se sua felicidade está no bumbum perfeito. Nos músculos à amostra. Hedonismo doentio. No egoísmo diário. Desculpe-me você de cara feia e olhar no vazio. Você, cheio de desprezo pelo outro, principalmente por aquele que é pobre, ou o miserável excluído. Peço desculpas a você que rouba dinheiro público por achar que ele não tem dono, como se tudo precisasse de dono para não ser roubado. Pelos tantos milhões que você lava lá fora. Você que adentra à política para enriquecer. Que goza de prazer o luxo da cadeira do poder. Utiliza sua posição para auferir benefício para si e os seus. Você que faz de sua família uma célula desconexa do mundo. “Para nós, todo esse luxo. Para vocês, nosso desprezo”. Humildemente, peço desculpas. A você que vê no consumo sua religião. No produto, seu deus. Você dentro do automóvel com os olhos do ego voltados àqueles lá no ponto de ônibus. Você mergulhado em luxo egoísta. Dia-a-dia com seu vazio. Peço desculpas a você mulher que aprendeu a ser feliz apenas se for bela. As minhas desculpas eu peço a todos vocês. Que buscam seus diplomas apenas pelos possíveis ganhos financeiros. Fazem de seu status ferramenta arrogante. Sentem-se maiorais apenas frente ao volante. Buscam nas paqueras um modo de serem superiores. Vêem no outro um inimigo a ser combatido continuamente. Apertam o power para ver programas que alimentam o vazio interno. Pagam 16 reais para botar olhos sobre a tela e dela extrairem lixo holywoodiano. Você que finge bagagem cultural. Finge felicidade. Finge serenidade. Perdoe-me você. Eu peço desculpas pelo seu vazio. Desculpas por não saber o que lhe dizer. Há muito mais desculpas a pedir..

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Desculpa a culpa q sinto em ler isto !!!
(Chepo) Diário de Chepo por Chepo


Resposta do autor:

De certo, pelo o que te conheço, você não está entre as pessoas que peço desculpas.
Adelcir Oliveira

Sobre o texto, mandei-o a você para uma reflexão sobre a questão de postura: direita x esquerda, progressista x conservadores, etc. Na verdade, foi uma resposta ao seu texto "Desculpas a você".
Desculpamos alguém por atitudes não intencionais, portanto, avaliações de cunho moralista devem ser feitas com muito cuidado. Na verdade, é o que o texto enviado diz: no fundo, nós que condenamos agimos do mesmo jeito que o condenado (Bush x Kennedy). Em verdade, somos dois moralistas e isso me incomoda.
Abs, Adalton - Economista - Membro do Conselho do blog



Resposta do autor:

Meu caro, fui para casa reflexivo sobre seu comentário. De certo, você tem toda razão. "Desculpas a você" vale como desculpas a todos nós. De certo, em muitos momentos nos inserimos na crítica.
Adelcir Oliveira

Penso que o texto, embora enxunto e objetivo, possua uma carência idiossincrática. Pois sucumbe diante de uma redundância histórica concebida pelos amantes da velha e boa utopia. Meu caro Adelcir, parabéns por sua qualidade em uma escrita tecnicamente simples e desprovida de um "barroquismo" insosso, mas ressalto que o que indagas é, como já diria o fílosofo Artur Schopenhauer: "Uma premissa da qual o homem será eternamente compelido" (A Metafisica do Amor e da Morte, p. 123). Sem isso - que obviamente, nós, pessoas de bom senso não somos obrigados a sermos participativos -, não teriamos nossa antitese, que por sua vez nos causa a sensação de inquietude e nos faz, acima de tudo, produzirmos nossas analogias (risos).

Grande abraço
Tito Oliveira, 29, artista plástico
http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-feira-outra-analise-e-a-inercia



2 comentários:

Chepo disse...
março 19, 2008  

Desculpa a culpa q sinto em ler isto !!!

Tito Oliveira disse...
março 27, 2008  

Penso que o texto, embora enxunto e objetivo, possua uma carência idiossincrática. Pois sucumbe diante de uma redundância histórica concebida pelos amantes da velha e boa utopia. Meu caro Adelcir, parabéns por sua qualidade em uma escrita tecnicamente simples e desprovida de um "barroquismo" insosso, mas ressalto que o que indagas é, como já diria o fílosofo Artur Schopenhauer: "Uma premissa da qual o homem será eternamente compelido" (A Metafisica do Amor e da Morte, p. 123). Sem isso - que obviamente, nós, pessoas de bom senso não somos obrigados a sermos participativos -, não teriamos nossa antitese, que por sua vez nos causa a sensação de inquietude e nos faz, acima de tudo, produzirmos nossas analogias (risos).

Grande abraço

Tito Oliveira

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

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Adelcir Oliveira
Alan Davis



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