Melancolia nostálgica

sexta-feira, março 28, 2008 · 0 comentários

Ele era uma infelicidade só. Ao avistar casal, julgou-lhe felicidade. Desejou a mesma para si. Mas, só ficou com sua realidade que parecia dura. Não sabia que teria que esperar tanto tempo para a realização do seu sonho pequeno e não único. Pior, foi quando o dia chegou e ele se viu na mesma infelicidade do dia em que avistou aquele casal.
Tudo lhe era lição. Ignorava qualquer por quê. Vestir a fantasia de infortunado era saída isolada. Diante de tudo, creditar felicidade à determinada conquista se tornou dinâmica em sua vida. E a cada conquista e não-felicidade, ele aprendia sem saber. Foi que, diante de seu primeiro computador, viu-se absolutamente frustrado e mais uma vez infeliz. Não seria aquela a última vez. Desejara tanto aquela máquina que esperava muito dela. Contudo, a pobre matéria pouco lhe deu. E, em medida alguma, lhe ofertou o que mais desejava: significado para a vida, motivo para um riso da alma sua. Diante de mouse, teclado, CPU e monitor, viu-se absolutamente inerte. O IBM não era tudo que idealizara. Sentiu que era o mesmo diante do fato. Calou-se. Jamais comentou sobre a questão com quem quer que fosse. Não era trauma. Não era nada, senão esquecimento...
O tempo seguiu seu destino que é chegar a lugar algum. O rapaz cresceu. Dias melancólicos ele ainda passou. Esperou algo acontecer. Um fato inesperado que lhe tirasse do marasmo trivial, era sua crença maior, ou única. Era-lhe o modo de manter a chama fraca acesa. Por muitas noites ainda se aborreceria. O computador ainda estava lá. A opção de conectar-se à rede mundial passou a ser a forma de aliviar o vazio interno, ao passo que se tratava de alimento para o mesmo vazio.
Carecia-lhe objetivo, filosofava seu bom amigo. O outro alimento para o brando de sua alma cinza era o hedonismo. Narcisicamente, construiu o personagem preferido. Aquela máscara de beleza desproporcional à realidade, fazia-lhe mais. E nas vezes que o plano hedonista era sabotado, findava o brilho no olhar. O bom humor. A pretensa felicidade. A segurança inventada. Dinâmica tal que fingia alimentar existência, quando, em verdade, destruía o infeliz existir.
Para onde ele caminhava? Para lugar algum. Era um não ir. Não crescer. Nada ser. Uma negativa de si. Ignorância de si. Um se destruir. As conseqüências viriam. Uma avassaladora chuva-fina prenunciava-se em função de anos de existência fingida. Até que o personagem se perdeu em palco escuro. Na platéia, ninguém. Solidão total. E o início de dias chuvosos. A água precisava cair. Sua alma suportou o que pôde de nebulosidade. Para libertar-se necessitava chuva fina e ininterrupta. A forma que encontrou para diluir tantos maus-tratos. A cura estava na doença da alma.
Dias de muita dor. Ausência de vontades. A morte como visita esperada. Caminhar para o que o circundava tornou-se tarefa extremamente dolorida. O chão com seu nada lhe era visão melhor. Falar também se tornara indesejoso. Comunicar-se, tormento constante. Olhar o ser olhado, pior castigo. Mas toda aquela dor mostrou-se necessária nos dias que se seguiriam.
Á partir de dias tão cinzas, foi que buscou portas. Foi errante em muitas. Diversas demonstraram que abri-las era inútil. Estava profundamente chateado com a vida. Com tudo. E, sobretudo, consigo. Seu maior castigo era ele próprio.
Tudo que foi relatado era aula dura dada pela vida. Sim, o rapaz personagem do que foi contado não passava de um desavisado. Desarmônico entre o real e o ideal. Apanhou. Perdeu as competições. E mesmo quando gozou o prazer da vitória, perdia sem saber. O olhar quase se apagou. Não foi golpe da vida. Esta é bela. Era sua mente algoz. Enquanto mero fantoche dela, viveu errante e vacilante. Foi apenas quando se encontrou, apercebeu-se de si, que sua alma voltou a sorrir. Um sorriso adulto, mas muito semelhante com os sorrisos de infância. Foi um reencontro com a felicidade. E foi, acima de tudo, seu primeiro encontro consigo. Daí em diante, foram vários encontros. E o amor por si é alimentado a cada nova autodescoberta.



Inocência naquele olhar

domingo, março 23, 2008 · 1 comentários

blog influência

Ao olhar para o nada, tinha à sua frente as pernas dela cobertas por tecido colado ao belo par. Quando percebeu, era fulminado pelo olhar reprovador dele. Imediatamente sentiu-se injustiçado. Era condenado no exato momento em que não cometia o crime.
Na obra machadiana "Dom Casmurro", o personagem central do romance cai em dúvida em relação ao olhar de sua esposa para o defunto homem. O gênio morreu e ainda hoje se debate se Capitu traiu ou não Bentinho, cujo apelido dá o nome ao livro.
Ela ao volante percebe o carro que ameaça entrar à sua frente. Ao lado seu, o namorado cheio de inquietações que o faziam desconfiado. Imediatamente, teve certeza sobre o olhar dela. A discussão se daria ao chegar ao destino. A bela moça quase chorou a acusação insana.
A invasão no olhar alheio. As mulheres fazem muito isto. Talvez um desejo pelo olhar dado à outra. Sabedor disto, olha lascivamente aquela que passa e repentinamente flagra uma mulher vigiando seus olhos. Na troca de olhares, a parte vigilante logo abandona o que antes vigiava. Algum desavisado poderia entender como sendo interesse, flerte.
A volta ao início da crônica. Explicação honesta e necessária. Os olhos de reprovação dele. Havia razão de ser. Ligação com fato passado. O elogio a ela sem saber que falava com parceiro dela. Pode qualquer um questionar que era apenas um elogio. Mas para cada mente uma forma de interpretação. Quem sabe, fez o rapaz levantar diversas desconfianças. A dinâmica mental vai além do que se pode imaginar. Após o fato, houve desconforto com a presença do galanteador. Mas foi o tempo, e deu-se o surgimento da construção do que pode vir a ser uma amizade. E quanto à mulher, não se nega, ela realmente é encantadora. De certo, ele não é o único a mirá-la com brilho. Mas ali, naquele momento, seus olhos viam o nada. Pode até ser condenado por seus desejos. Mas durante os segundos em que ficou com olhos estáticos, carregava consigo culpa alguma.



Simples reflexão sobre autoconhecimento

quinta-feira, março 20, 2008 · 0 comentários

da letargia para a reflexão

A folha em branco não é o meu incômodo. Olhar pelo vagão não traz desagrado. O senhor bêbado que me indagou localização não me trouxe sentimentos de repulsa. O trânsito lá fora não faço idéia como está. Pareço indiferente, sei. Mas não é o caso. Creio que os exageros nas horas dormidas me anestesiaram um pouco.
Na verdade, há algo que me incomoda. É a mesma incerteza de tantas outras vezes. Escrever, neste sentido, imita a vida. Se viver é uma aventura gostosa, que traz emoções variadas, escrever não é lá tão diferente. Na vida, há a incerteza quanto aos logros. Aqui não é diferente.
Não sou o tipo que linka felicidade com sucesso. Eu que escrevo, você que lê, sabemos que muitos há que são felizes nas mais diferentes condições sociais. Felicidade, para mim, está atrelada ao autoconhecimento, o que me parece imprescindível para se viver melhor.
Luís Vagner, um amigo-irmão, tem o seguinte pensamento: “A obrigação de todo indivíduo é ser feliz”. O tecedor desta bela frase é alguém que se auto-conhece e, assim, possui as rédeas de suas emoções.
Sei de pessoas que inventam personagens e fiam-se neles. No discurso, as virtudes que não possuem. Se hoje demonstram serenidade, amanhã voltam para o mar interno de lama mal cheirosa.
O fato é que muitos lançam mão do artifício do discurso. A opção pela aparência. Crenças como paliativos. Leituras de auto-ajuda. Teorias feitas apenas para a subtração monetária de tantos desavisados de si. Por aí, estas pessoas seguem semeando inimizades. Fingindo controle interno. Forjando amizades. Sem saber, perdem para o tempo nesta vida fugaz.
O fato é que aquele que se percebe não é um Dom Casmurro da vida, ou seja, não mente para si, para os outros, segue incomparavelmente mais feliz. Essa pessoa sabe lidar melhor com as situações e pouco incorre em enganos. E quando comete deslizes, tira tudo como lição. Vê que ainda tem muito a aprender de si, do mundo. Não mergulha em destrutivo sentimento de profunda frustração. Ela olha para frente. Vê o fato como mais um aprendizado. E faz disto soma no autoconhecimento, que é constante.



Minhas desculpas a você

domingo, março 16, 2008 · 2 comentários

Desculpe-me você. Que acha suficiente ter seu celular com opção de fotografia. Um carro zero quilômetro. Jeans apertado e barriga de fora. Quem sabe, salto alto e batom. Desculpe-me se sua felicidade está no bumbum perfeito. Nos músculos à amostra. Hedonismo doentio. No egoísmo diário. Desculpe-me você de cara feia e olhar no vazio. Você, cheio de desprezo pelo outro, principalmente por aquele que é pobre, ou o miserável excluído. Peço desculpas a você que rouba dinheiro público por achar que ele não tem dono, como se tudo precisasse de dono para não ser roubado. Pelos tantos milhões que você lava lá fora. Você que adentra à política para enriquecer. Que goza de prazer o luxo da cadeira do poder. Utiliza sua posição para auferir benefício para si e os seus. Você que faz de sua família uma célula desconexa do mundo. “Para nós, todo esse luxo. Para vocês, nosso desprezo”. Humildemente, peço desculpas. A você que vê no consumo sua religião. No produto, seu deus. Você dentro do automóvel com os olhos do ego voltados àqueles lá no ponto de ônibus. Você mergulhado em luxo egoísta. Dia-a-dia com seu vazio. Peço desculpas a você mulher que aprendeu a ser feliz apenas se for bela. As minhas desculpas eu peço a todos vocês. Que buscam seus diplomas apenas pelos possíveis ganhos financeiros. Fazem de seu status ferramenta arrogante. Sentem-se maiorais apenas frente ao volante. Buscam nas paqueras um modo de serem superiores. Vêem no outro um inimigo a ser combatido continuamente. Apertam o power para ver programas que alimentam o vazio interno. Pagam 16 reais para botar olhos sobre a tela e dela extrairem lixo holywoodiano. Você que finge bagagem cultural. Finge felicidade. Finge serenidade. Perdoe-me você. Eu peço desculpas pelo seu vazio. Desculpas por não saber o que lhe dizer. Há muito mais desculpas a pedir..

opiniões opiniones


Desculpa a culpa q sinto em ler isto !!!
(Chepo) Diário de Chepo por Chepo


Resposta do autor:

De certo, pelo o que te conheço, você não está entre as pessoas que peço desculpas.
Adelcir Oliveira

Sobre o texto, mandei-o a você para uma reflexão sobre a questão de postura: direita x esquerda, progressista x conservadores, etc. Na verdade, foi uma resposta ao seu texto "Desculpas a você".
Desculpamos alguém por atitudes não intencionais, portanto, avaliações de cunho moralista devem ser feitas com muito cuidado. Na verdade, é o que o texto enviado diz: no fundo, nós que condenamos agimos do mesmo jeito que o condenado (Bush x Kennedy). Em verdade, somos dois moralistas e isso me incomoda.
Abs, Adalton - Economista - Membro do Conselho do blog



Resposta do autor:

Meu caro, fui para casa reflexivo sobre seu comentário. De certo, você tem toda razão. "Desculpas a você" vale como desculpas a todos nós. De certo, em muitos momentos nos inserimos na crítica.
Adelcir Oliveira

Penso que o texto, embora enxunto e objetivo, possua uma carência idiossincrática. Pois sucumbe diante de uma redundância histórica concebida pelos amantes da velha e boa utopia. Meu caro Adelcir, parabéns por sua qualidade em uma escrita tecnicamente simples e desprovida de um "barroquismo" insosso, mas ressalto que o que indagas é, como já diria o fílosofo Artur Schopenhauer: "Uma premissa da qual o homem será eternamente compelido" (A Metafisica do Amor e da Morte, p. 123). Sem isso - que obviamente, nós, pessoas de bom senso não somos obrigados a sermos participativos -, não teriamos nossa antitese, que por sua vez nos causa a sensação de inquietude e nos faz, acima de tudo, produzirmos nossas analogias (risos).

Grande abraço
Tito Oliveira, 29, artista plástico
http://www.overmundo.com.br/overblog/uma-feira-outra-analise-e-a-inercia



"Ônibus 174"

quinta-feira, março 13, 2008 · 0 comentários

Ao término da exibição do documentário que dá título a este artigo, as pessoas se mostram indignadas. Para elas, houve diversas chances de matar o bandido. No fim, deu quase tudo errado. Morreu a vítima também.

Aquele teatro do horror. A transpiração da sociedade. Sandro, um produto, saiu das entranhas de uma favela. Tornou-se criminoso e quando quis mudar de vida, viu-se preso ao crime. Seu maior medo era voltar para a cadeia, "ambiente de maldade", que não recupera ninguém, cujo principal objetivo é aviltar os indivíduos que lá são jogados.

Já que quase tudo no mundo criado pelos homens é mercadoria, vamos nos ver apenas como produtos . Assim, temos a criança que acaba de nascer em uma favela deste Brasil. Lá, a presença do tráfico está consolidada. Facções criminosas dominam os becos . Na cabeça de desavisados, bandidos são apenas aqueles que apertam gatilhos contra pessoas inocentes, às vezes não tão inocentes. O que vale lembrar é há que muitos bandidos, que agem no atacado, roubando dinheiro público. Seus assaltos são aos milhões e as marcas de sangue são terceirizadas em função das tragédias sociais resultantes de suas ações contínuas. De certo, se essas quadrilhas instaladas no Estado não agissem, muitos meninos e meninas das periferias teriam escola, teatro, parques e pais mais bem instruídos e com melhores condições econômicas a oferecer para seus filhos. Mas os bandidos de colarinhos bem lavados possuem profundo desprezo pelos outros. Roubam verbas públicas sem nenhum pudor. É a contribuição que dão para a fábrica de bandidos como Sandro que seqüestrou o ônibus linha 174 naquela tarde carioca.

Para muitos, de certo a maioria, basta matar os Sandros. Não pensam que temos que desmantelar a fábrica social de seqüestradores, traficantes, ladrões de vários tipos. Para tanto, é necessário fechar a fábrica maior, composta por pessoas de nível universitário, que vivem nos melhores bairros, compram carros de luxo, e roubam o futuro de milhares de crianças brasileiras.

No momento do seqüestro, um tiro certeiro em Sandro era a solução para salvar aquela vítima que acabou morrendo pela falha do soldado do Bope. Mas esta era uma saída circunstancial. Matar bandidos e não levantar o debate em relação à enorme desigualdade social condena muitos jovens da periferia à vida criminosa. É assinar a sentença de morte de inúmeros brasileiros que vivem em péssimas condições sociais.

O fato de que trata o documentário "Ônibus 174", com direção de José Padilha, se deu há alguns anos. Ladrões que andam de carros importados seguem soltos e admirados. Com dinheiro conseguido de forma desonesta pagam o luxo do seu dia-a-dia. Fulminam a imagem do Brasil. Colocam armas nas mãos de garotos. Apontam gatilhos para diversas cabeças. Essas pessoas não contribuem para o bem do país. Devem ser encarceradas. Elas é que não temos necessidade de recuperar. As péssimas condições das cadeias devem ser dadas a este tipo de gente. São, sem dúvida, os maiores criminosos de qualquer sociedade. Urge que aniquilemos a corrupção neste país, mas sem AK47, que muita gente ganha dinheiro vendendo para traficantes. Repito, gente bem nutrida, pele branca, colarinho de mesma cor e alma nenhuma.



O lixo que consumimos

quarta-feira, março 12, 2008 · 0 comentários

blog convidados

Adalton Oliveira

Um dia desses, observando a enorme fila que se formava diante da máquina de sorvete de uma famosa rede de lanchonetes, pus-me a questionar por que as pessoas, em sua maioria, apreciam coisas de notória má qualidade. Seria uma questão de preço? Provavelmente não, pois há produtos melhores do que os oferecidos pela tal rede a preços mais baixos. A razão talvez esteja na força do marketing, que nos leva a acreditar que o produto A tenha esta ou aquela característica que, na realidade, ele não tem. Mas, este pressuposto implica em aceitar que as pessoas podem ser constante e continuamente enganadas; ou seja, os consumidores seriam intrinsecamente ingênuos. Hipótese difícil de aceitar. A questão talvez vá além da mera ingenuidade.
A teoria econômica, em sua vertente clássica/neoclássica, assume consumidores racionais, sempre em busca da melhor razão custo/benefício que possam encontrar. Assim, este axioma estaria em contradição com aquilo descrito no parágrafo anterior, pois ao procurarem pelo produto da conhecida rede de lanchonetes, os consumidores não estariam obtendo a mais vantajosa relação custo/benefício disponível. Então, há algo mais escondido na questão, que a minguada visão econômica ortodoxa não elucida.
No texto de 1941, "Arte nova e cultura de massa", Max Horkheimer cunhou o termo "indústria cultural", aprofundando sua análise desse conceito em "A dialética do esclarecimento", livro escrito na companhia de Theodor Adorno. Para eles, a indústria cultural tomou o lugar da religião na tarefa de dar sentido à existência dos indivíduos e promover a coesão social necessária ao funcionamento do sistema econômico e político. Dessa forma, ela passa a responder aos anseios e às demandas das pessoas, ofertando-lhes produtos que parecem suprir suas necessidades (verdadeiras ou fictícias), dando-lhes a impressão de livre escolha. O consumo passa assim a ser imposto pelo sistema econômico que, premido pela inexorável roda da acumulação, cria mais e mais objetos de desejo: sejam os celulares de última geração, sejam televisões de plasma e etc., pondo em nós a sensação de que são imprescindíveis, sem os quais não há felicidade possível. Acerca disso, o Prof. Renato da Costa nos lembra que "O que chamamos de preferências individuais são na verdade fruto de uma autêntica construção coletiva, num jogo constante de sugestões e induções que constitui a própria dinâmica da sociedade"[1].
Para Adorno e Horkheimer, a indústria cultural retira do indivíduo "uma responsabilidade que, no limite, coincide com aquela envolvida no exercício de sua própria liberdade, que não deveria se restringir à possibilidade de escolher entre um produto A e um produto B, mas à autonomia do sujeito num sentido mais substantivo, como, por exemplo, assumir as rédeas do seu próprio destino. (...) As pessoas, de fato, acreditam escolher livremente viverem como vivem quando, na verdade, na base do seu modo de vida encontra-se uma enorme coerção, que apenas não é percebida por elas enquanto tal." [2] Estão como que anestesiadas; boquiabertas olhando as vitrines do enorme shopping center em que o mundo se transformou, perderam o senso crítico. Assim, aceitam e consomem com sofreguidão hambúrgueres e sorvetes insípidos, programas de televisão imbecis e 'imbecilizantes', músicas de qualidade duvidosa, etc., etc. e etc.
Parafraseando Sócrates: ninguém busca o mal deliberadamente, só o faz por loucura, por alguma espécie de ilusão.

Conversando com um grande amigo meu, expôs a ele a minha dificuldade de lidar com a idéia de consumidor consciente, da qual ele se mostra um entusiasta. Do ponto de vista econômico, a consciência do consumidor está ligada a uma racionalidade dirigida para a busca do melhor custo/ benefício, e que se dane todo o resto. Na visão excessivamente crítica de Horkheimer e Adorno, a manipulação é o elemento a mover o consumidor. Então, não se pode falar em consciência. Coloquei a ele que a idéia do consumo consciente não passava de utopia, apegando-me à etimologia da palavra: "lugar nenhum". Depois, lendo a introdução do livro "Utopías e ilusiones naturales", de Francisco Fernández Buey, deparei-me com a bela definição do termo, de autoria de Eduardo Galeano:

¿Para qué sirve la Utopía?
Ella está en el horizonte.
Me acerco dos pasos y ella se aleja dos pasos.
Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.
Por mucho que yo camine nunca la alcanzaré.
¿Para qué sirve la Utopía?Para eso sirve: para caminar.

Isto me fez voltar a pensar no assunto sobre consumidor consciente e me lembrei dos dizeres de Ulrich Beck[3], para quem o consumidor é um 'gigante adormecido'. Mas, para que ele desperte, é preciso que deixemos a preguiça de lado e recuperamos (desenvolvamos) nosso amor à reflexão. Somos muito mais do que consumidores passivos.


[1] COSTA, Renato da. "Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva" em Interface – Comunic., Saúde, Educ., v.9, n. 17, p.235-248, mar/ago 2005.
[2] DUARTE, Rodrigo. "A celebração da virtualidade real" em http://www.fafich.ufmg.br/~roduarte/Acelebracaodavirtualidadereal.pdf
[3] BECK, Ulrich. Pouvoir et contre-pouvoir à l'ère de la mondialisation. Paris: Flammarion, 2003.


clique no título para ler Brasília, cidade-fantasma



Estação Vila Mariana

sexta-feira, março 07, 2008 · 0 comentários

blog observação

“No metrô não é permitido sentar no chão”. Exemplo de algumas palavras que vez ou outra são anunciadas pelas diversas caixas acústicas espalhadas na estação Vila Mariana. Sigo aqui fazendo um determinado trabalho. Sentado ao stand, observo. As regras impostas dizem que não se pode ler aqui. É preciso ficar atento aos que se aproximam. De certo, escrever é pecado muito maior.
O trabalho é diário. Faço contatos com usuários que possuem dúvidas as mais diversas. Meus olhos percorrem os diversos corredores. Pessoas surgem das várias entradas que também funcionam como saídas. Em dias de semana o movimento é intenso. Assim como o trânsito de carro, os passageiros são deslocados por fluxos. Vez em vez há um pico de passantes.
Neste mês são poucos os que se interessam pelo que tenho aqui a oferecer. De qualquer modo, este trabalho serve como divulgação da empresa e seus serviços. E esta propaganda se dá em diversas estações do metrô. De certo, dá retorno.
A diversidade de pessoas pra lá e por acolá. O metrô ilustra São Paulo. Daria um tom de democracia se realmente todos pudessem utilizá-lo. Ocorre que vez ou outra, aquele que não dispõe de 2 reais e 40 centavos não passa pelo bloqueio. Daí, se a pessoa desprovida souber contar uma história, ou casar-se com alguma dose de sorte, poderá ter o acesso liberado mesmo sem os trocados cobrados pela tarifa.
Os tipos de mulheres são variados. Brancas de cabelos negros, ou castanhos, ruivos, loiros. Cortes e tamanhos os mais variados. Alturas diversas. Cores de peles também. São de vários tamanhos, essas mulheres. Diversos olhares e expressões. As vestimentas variam na cor. Modelos se repetem. A moda impõe. Elas obedecem. Jeans justo. Salto alto e batom. Cada uma delas com seu conteúdo. Este está expresso nos trejeitos, na linguagem corporal, na face que se expressa. Não há como se esconder.
O senhor bêbado será expulso pelos homens de preto. Eles o abordam primeiramente de forma educada. Indagam-no. Pedem que ele se retire. No metrô, desordem não é permitido. Cada segurança pega em um braço do homem alcoolizado e levam-no para fora dali. Meus olhos acompanham a cena. Eles não julgam. Apenas registram o momento como se fossem câmeras. Os ouvidos captam o áudio. Acho que não sou homem, sou máquina. Poetas avisaram. Filósofos também. Clóvis Rossi reclamou, prefere seres humanos a máquinas.
O rapaz de Adidas que já resultou em texto bastante simples, por mim é chamado. Percebo seu estranhamento. Aproxima-se do stand. Informo-lhe que quero entrevista-lo para um documentário. Ele ri e hesita. “Minha família não sabe que faço isto”. É um momento jornalístico meu. Isto me traz algumas reflexões.
É isto. Observação resulta em histórias. Não receio que seja possível fazer produções em vídeo ou cinema dentro do metrô. O mundo aqui é rico. Veloz. Constante. Controlado por fluxos. E a desordem aqui não é permitida. A lei é rápida e funciona. “Não corra, isto pode causar acidentes”.



Ato de crônica durante o fato

quarta-feira, março 05, 2008 · 0 comentários

Relatar este fato não carece de objetivos, senão entreter o leitor. A opinião do narrador é contrária às esmolas. Para quem quer ajudar, melhor procurar uma instituição de confiança. O metrô me ensinou. Antecipo-me à crítica, mensalmente faça a minha contribuição para duas ONGs.
Há evidências que o jovem que ainda se encontra a alguns metros de onde estou não necessita pedir esmolas. De alguma forma, ele passou a representar este papel. Pelo o que vejo, obtém sucesso com o ato.
Outra vez o microfone pede que os homens de preto compareçam. O supervisor da estação passa pela área onde se encontra aquele que contraria as regras do metrô. O rapaz está praticamente ao meu lado. Tencionei aborda-lo, mas faltou-me coragem, não há outra explicação. Cesso a escrita por alguns minutos. Passeio os olhos pela estação.
Distraí-me com a morena que não sei se a mesma de outro dia. Há muitas pessoas. Vento forte a cada saída de um trem. Calor.
Atendo a algumas pessoas. Dou as informações necessárias. Tudo é rápido. Ao que parece, realmente é a mesma moça. Já me retribuiu um olhar. Não passou disto.
Olho. Procuro. Não vejo. O pedidor de moedas se foi. Vento prossegue. As pessoas, excetuando as filas, são outras. É também o mesmo o casal de jovem orientais. Sorriu para mim a metroviária. Olho a minha volta um pouco mais. A morena - não sei se é mesmo a de outro dia -, já não está aqui. Organizou o troco. Escolheu caminhos. E se foi sem me olhar...



Eles queriam apenas dinheiro

sábado, março 01, 2008 · 0 comentários

blog opinião

Jovem empresário em franca decadência. Herdou muito e já se foi quase tudo. Não divaga sobre o mundo. Sua visão não vai além de seu umbigo. Mas vê na política a chance de recuperar e, muito desejosamente, inflar seu patrimônio. Por meio de “amigo” influente adentra a uma pequena legenda, desses partidos nanico que se diferenciam das agremiações maiores no tamanho (dos negócios?).
O jovem dono de empresas se candidata, então, a vereador. A campanha é feita sem publicitário mesmo, pois um profissional deste custa muito caro e os recursos em caixa são escassos. Homens mais experientes naquilo que acreditam ser política orientam o postulante ao cargo que uma pessoa ocupa a fim de trabalhar para a comunidade o qual ela representa. Muitos pensam que os representados são apenas seus familiares e amigos. Ledo e leviano engano.
Sem carisma algum, ele vai à “luta”. Precisa do Estado para se recuperar economicamente. Seu ego grita e pede o luxo de volta. Nos negócios já se mostrou incompetente, ou mais honestamente dizendo, sem condições emocionais para dirigir uma empresa. Agora é sair às ruas e apertar mãos que ele jamais apertou. Olhar em rostos que ele sempre desprezou. Mentir para si a missão de ajudar ao povo, à cidade. Negócios poderá fechar. Comprar aquele carro de alto luxo. Trocar de residência para uma bairro ocupado somente por “nobres”. A esperança está no ar. A conta corrente poderá voltar a engordar.
Um outro se candidata. Agora é a um cargo de maior pompa. Quer ser deputado estadual. Diferentemente do jovem já citado, ele é um homem experiente. Homem rico, mora em uma cobertura em bairro bom de São Paulo. É um dos diretores de uma grande empresa nacional. De certo, caso ganhe, representará os interesses da empresa que o fez homem de posses. No discurso, o povo como ferramenta pra chegar lá, afinal de contas precisa de muitos votos. Não fosse isso, falaria apenas para os sues.
Ambos os personagens reais desta história foram derrotados nas últimas eleições municipais pelo país afora. Isto não pode ser exatamente tratado como boa notícia, pois outros com interesses também pessoais entraram no lugar destes. De qualquer forma, façamos justiça, também foram eleitas pessoas sérias que pensam o mundo e não se limitam a fazer da vida apenas dia-a-dia para ganhar dinheiro.
Representar um povo, independentemente do cargo, é tarefa para poucos. De certo, somente as pessoas que pensam o mundo, que possuem senso coletivo de vida, não importando seu grau de instrução ou sua condição econômica, estão aptas para tanto. De forma equivocada, indivíduos fazem política como algo para si e os seus. Errado! Absolutamente equivocado! Política não é algo para ser tratado com a mediocridade trivial daqueles que levam a vida apenas como consumidores. Política é para utópicos. Para aqueles que dormem com o mundo tatuado em sua alma. Aqueles que sonham com uma sociedade mais justa e igualitária. Para quem a democracia é forma de desenvolvimento para todos, não somente para si.



Fale comigo

adelcir@gmail.com
k

fotos: Patrícia Crispim
c

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
Lilian Guimarães
Adalton César
v
c
b
c
c
c
l

opinioesecronicas@yahoo.com.br