Flerte poético

quarta-feira, fevereiro 27, 2008 ·

O mundo tá uma correria. Faz tempo isso. À orelha direita, o som da central telefônica do meu plano de saúde. À orelha esquerda, o som clássico de harpa. Frente aos olhos meus, poesia de Drumond ofertada pelo bom irmão. Às mãos, a caneta para anotar o dia da consulta. Na última linha do poeta, o anúncio de que "virei coisa". Bom o atendimento dado pela funcionária de voz delicada. Música clássica de qualidade. Palavras poéticas de sabedoria e sensibilidade.
As coisas estão corridas. O homem virou coisa. O poeta diz que seu personagem paga para ser anunciante das marcas. E paga caro, vezes muitas. Vezes outras, dá calote, não paga. O nome, então, fica protestado. E a pessoa, agora coisa, fica por aí de frente, de lado. Perdoe esse meu querer poetar. Perdoe, sou livre. Ao menos, sinto-me assim. Mas acho que minto. Pra mim. Pra você. Pra mim, sem saber.
Cinco minutos nem existem. Alencar já fez deles história de amor. Era-me interessante quando eu deveras romântico me sentia . Hoje, já não tão como antes, não gosto do livro. Faz tempinho tentei reler. Parei. Desisti. Não li nem cinco minutos.
Sai cedo todo dia. Fica fora dia todo. Sábado e domingo não se vai. Rimaria com não se ía. Mas a construção não me permitiu. Escrevi o que devia. Mas meu desejo não mentiu. Queria mesmo era rima com dia.
Gente pra lá e pra cá. Pernas que não cessam. Se descansam, ou chegam, há substituições. O movimento prossegue. Na Terra em noites suas. Perna esquerda, perna direita. Uma frente, outra atrás. E o revesamento. Tudo para continuar. E assim se vai. A noite, as horas, os minutos. Os segundos nem existem.
Correm os dedos. Movimento contínuo. Às vezes vascila. Olha para o lado, procura. Mas não se demora. Pode até parar para um descanso. Mas breve, tem que ser breve. Parece imitar trabalhadores. Bolivianos, canavieiros, escravos. O tempo passa, passa, o mundo em algumas partes suas não evolui.
Um trem. Outro. Ônibus. Outro. Táxi. Outro. E outro, outro, outro. Correria total. O mundo nasceu ontem, parece. As cidades crescem. O país, infra-estrutura carece. O presidente promete. O plano é lançado. Vem a oposição, dá um tapa na cara da situação. E o povo? Que que tem ele? Tem o que pede, o que merece. Não sei, não. Acho que é desaviso, não é merecimento.
E agora o final. Esse é sempre apressado. Vem sempre, não se sabe como. É importante. Para alguns, fundamental. Por favo não me conta o final do filme! Mas que isso? O todo é importante! Detalhes, detalhes. Mas é isso está dito. A vida é assim mesmo. Vai, vai, vai... Já foi, foi, foi...



2 comentários:

Mariana - Lagartixa - Roots disse...
fevereiro 27, 2008  

Del, meu blog....rs
http://paginasmariana.blogspot.com/

Entra lá

BJS

Anônimo disse...
março 01, 2008  

Del, meu raro...
Amigo raro...carinhoso...sensivel...
Pitoresto...picaresco...
Amo você obrigado pelas dicas,pelas palavras...

pela bela amizade ao vc
Beijos Mariana

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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
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