Luz apagada. Luz acesa

sexta-feira, janeiro 18, 2008 ·

Muitas vezes eu olhei para o papel ou tela do monitor e procurei uma palavra. Olhei também para o teclado, ou mirei lá fora, e fiz a mesma procura. Nos últimos dias tenho olhado para dentro de mim e vasculhado um pouco. Em todas as tentativas eu não me demorei. Daí que pensei que o não texto é texto também. Pois de alguma forma eu absorvia o que se ia. Via o que se passava ali. Fazia leituras. Conversava com pessoas. E, sobretudo, observava meu comportamento errante em uma questão altamente particular.
Não nego que me preocupava a dificuldade em escrever qualquer coisa. Talvez se me dessem uma pauta eu obteria sucesso na empreitada. Mas eu estava sozinho, “solitário como um paulistano”. E nessa solidão nem mesmo palavras me acompanhavam. Era um vazio de idéias que me incomodava.
A verdade é que ainda sigo do mesmo modo. Este ato de confissão é ferramenta terápica, tentativa de desbloqueio. Quem sabe assim eu faça casamento com uma série de textos.
Algo que nos faz escrever são os incômodos. Eu, por exemplo, sigo inquieto quanto ao modo de vida que nos impuseram. Hoje, ao passar por aquela calçada, vi cada um ali como um personagem de um game que é controlado pelos donos dos poderes político e econômico. Porque parece que é assim mesmo. Eles criam seus produtos, fazem estudos sobre o nosso comportamento, e aí trabalham para ganhar o máximo do dinheiro que produzimos. Nisso tudo, somos ratinhos de laboratórios para eles.
Eu, aqui em frente ao computador, sou mero personagem também. Mais um que posta textos em um blog. Consumo a ferramenta genialmente criada que é a internet. E grito talvez de modo ineficaz. Se um desses donos do mundo lesse isso, apenas riria da ineficácia de minhas palavras.
Claro que ao escrever isto, eu pareço abraçar o pessimismo. Mas na verdade eu sonho. Eu tento. Eu sigo tagarelando. Crio um espaço. Procuro adentrar almas. Antes, adentro à minha para reparti-la com os leitores. Mas claro, tudo pode ser em vão. De qualquer forma, eu não posso deixar de tentar. Não me permito deixar esta vida sem a tentativa de dar um beliscão na massa. E eu faço parte desta massa. Acordei por completo? Claro que não! Sigo negligente em muita coisa. Mas dentro de mim se vai algo que me faz ser utópico. Tudo bem, talvez a massa consumidora não acorde. Mas não quero deixá-la dormir sossegada. A minha luz deve ficar acessa a noite toda...


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Ser utópico é o que falta a maioria de nós. Utopia é um caminho, como diz Eduardo Galeano:

"¿Para qué sirve la Utopía?
Ella está en el horizonte.
Me acerco dos pasos y ella se aleja dos pasos.
Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.
Por mucho que yo camine nunca la alcanzaré.
¿Para qué sirve la Utopía?
Para eso sirve: para caminar."


Adalton Oliveira, economista



1 comentários:

Adalton disse...
janeiro 21, 2008  

Ser utópico é o que falta a maioria de nós. Utopia é um caminho, como diz Eduardo Galeano:

"¿Para qué sirve la Utopía?
Ella está en el horizonte.
Me acerco dos pasos y ella se aleja dos pasos.
Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.
Por mucho que yo camine nunca la alcanzaré.
¿Para qué sirve la Utopía?
Para eso sirve: para caminar."

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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