Beijo suado

terça-feira, janeiro 29, 2008 · 0 comentários

Não sei se houve o beijo. O rapaz praticamente implorou. A penúltima carta foi a pergunta: “O que você achou de mim”? “Estou aprovado?” Recebeu um enigma como resposta. “Aprovado, aprovado não...”. O que será que o rapaz depreendeu dessa resposta? Pela avaliação de toda a situação, creio que poderia guardar esperanças.
Falou muito. Disse ter cabeça aberta, “enginheiro” que era. A mulher, trabalhadora simples, um filho pra criar, e medo, muito medo. Pediu-lhe “por favor” que não a abraçasse. Ele confessou desejo em beijá-la. Prometeu-lhe seriedade. Teceu filosofia sobre o matrimônio. E tentou se descolar da má reputação adquirida por nós homens.
Por vezes disse à moça cheia de receios que ela era maravilhosa. Calculou tempo e dinheiro para estar ali, argumento para demonstrar que não a queria fazê-la perder tempo. Mas ela estava irredutível. Deixava notórios seus pseudos bloqueios. Por um momento, me perguntei qual motivo faria alguém insistir em querer algo com outro que se mostrava um poço de problemas. Para mim, era sua carência. Esta o fazia tão insistente em tal empreitada.
Pelas pistas obtidas, concluí ser um encontro por meio da internet. Poderia até ser de uma outra forma, telefone talvez. De qualquer forma, estava claro que jamais haviam se visto.
Desesperado, ele a abraçou. Pediu-lhe para ficar encostada a seu corpo. A moça ficou por alguns segundos até livrar-se logo dos braços do pretendente desesperado.
De fato, tratava-se de um “xaveco”. Promessas. Popagandas. Filosofia. Experiência de vida. E, como endumentária da conquista, os óculos escuros.
Quando cheguei ali, o casal já estava lá. Durante a minha presença não o vi retirar o par de lentes. É sabido que vendedores jamais devem usar óculos escuros no ato da venda, pois assim perde-se toda a credibilidade. No caso do protagonista desta história, seu produto era ele próprio. E um de seus problemas era exatamente a falta de credibilidade no discurso e aparência.
Conversaram muito. Eram eloqüentes. Até que, em certo momento, angustiado, ele propôs a partida. Implorou para acompanhá-la até em casa. A moça hesitou. Mais uma vez, o conquistador disparou um discurso de convencimento. Então, finalmente comprou os bilhetes para que pudessem pegar o trem. Pude observá-los melhor. Finalizei a compreensão sobre o porquê de tamanha dificuldade na conquista. Foi quando me dispersei. Ainda os vi na plataforma de embarque. Quando olhei novamente, os enamorados esperavam a porta do trem abrir. Estavam de mãos dadas. E aí caí em dúvida: será que o misterioso pretendente finalmente conseguira o beijo suado?


No outro dia

No dia seguinte à construção deste texto, vi o nosso personagem. Estava na fila da bilheteria. Mesma estação do Metrô. Jeans, combinação preta entre sapatos e cinto, e os óculos escuros. Seguia deslocado e inseguro. Pediu desculpas para a moça por ter pisado em seu pé. Desembarcou na mesma estação de ontem. Terá ele ido à casa da moça?

Outros dias

Revi o mesmo homem algumas vezes. Fiquei surpreso ao vê-lo com a vestimenta de antes abandonada. Usava camiseta e bermuda, além dos óculos escuros.



"Tudo bem?"

sexta-feira, janeiro 25, 2008 · 0 comentários

Brás. Esse é o destino do ônibus. Subiu a escada do veículo de modelo ultrapassado e logo deparou-se com a boa amiga. Imediatamente viu tristeza. Poderia ser projeção. Oi, tudo bem? Sim, e você? Tô bem também! Bom, na verdade não estou muito bem... Eu também não... A gente fala por assim dizer... É verdade...
Depois da confissão das reais situações interiores, o papo recomeçou e mostrou-se melhor. Daí, aquele apoio que um deu ao outro pela simples confissão dos sentimentos foi benéfico para ambos. Para ele foi bom olhar para a amiga sincera. Talvez para ela tenha se dado o mesmo benefício.
O momento durou pouco. Ainda no corredor do ônibus, rumo à porta de saída, o rapaz sentia-se melhor. Logo pensou na importância dos amigos. Lembrou-se de alguns em especial. Nas amizades verdadeiras que conquistou nos últimos três anos. Mas um pensamento lhe ocorreu. “Por que será que ambos dissemos estar bem?” “Faltou confiança recíproca?”. Vai ver que não é fácil assumir que não se está bem de fato...
Tomou rumo ao metrô. Olhou maquinalmente as duas loiras. Na plataforma de embarque quis adivinhar a profissão daquele senhor. Desgostou da expressão da mulher no trem parado na plataforma contrária. Olhou. Pensou. Concluiu da necessidade de harmonia interna para observar, libertar-se do próprio mundo. Só assim poderia haver uma busca eficaz por pautas.
Dentro do vagão caminhou firmemente até o banco escolhido por detrás da transparência do vidro da porta do trem. Sentiu-se decidido neste momento. Olhou a coxa da jovem ao seu lado. Um arrependimento veio ao calcular a idade estampada no rosto dela.
Tomou às mãos caderno e caneta. Não havia jornal para ler, do contrário teria deixado de lado esta crônica. O fato é que se sentia melhor. Mas a real razão em escrever não sabia. Apenas desconfiava. Talvez quisesse apenas que seu corpo estivesse ali. Desceria na estação Vila Mariana...



"O papel é submisso!"

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Tantos rostos tristes. Difícil mirá-los. Todos me são espelho agora. Projeção destrutiva. Alguém me dê uma máscara! Quisera gritar: “Socorro, não estou sentindo nada!”. Mas não é assim. É outro jeito. Olhar não está sendo fácil...
Se não olhássemos com a alma, dias assim não seriam doloridos. E se não nos projetássemos tanto, estar em público se tornaria menos complicado.
E o que será o papel para quem escreve? Talvez também seja espelho. Não aquele que castiga pelo desgosto da imagem indesejada. Ele reflete, possivelmente, o interior do tecedor de palavras. Como disse Alan Davis, o papel é submisso e, neste sentido, pode nos enganar. E daí, quem sabe, trazer certo alívio. Mas será muito melhor se a submissão das folhas pautadas for usada de forma verdadeira. Enquanto isso, o papel reflete o que lhe dão...



Luz apagada. Luz acesa

sexta-feira, janeiro 18, 2008 · 1 comentários

Muitas vezes eu olhei para o papel ou tela do monitor e procurei uma palavra. Olhei também para o teclado, ou mirei lá fora, e fiz a mesma procura. Nos últimos dias tenho olhado para dentro de mim e vasculhado um pouco. Em todas as tentativas eu não me demorei. Daí que pensei que o não texto é texto também. Pois de alguma forma eu absorvia o que se ia. Via o que se passava ali. Fazia leituras. Conversava com pessoas. E, sobretudo, observava meu comportamento errante em uma questão altamente particular.
Não nego que me preocupava a dificuldade em escrever qualquer coisa. Talvez se me dessem uma pauta eu obteria sucesso na empreitada. Mas eu estava sozinho, “solitário como um paulistano”. E nessa solidão nem mesmo palavras me acompanhavam. Era um vazio de idéias que me incomodava.
A verdade é que ainda sigo do mesmo modo. Este ato de confissão é ferramenta terápica, tentativa de desbloqueio. Quem sabe assim eu faça casamento com uma série de textos.
Algo que nos faz escrever são os incômodos. Eu, por exemplo, sigo inquieto quanto ao modo de vida que nos impuseram. Hoje, ao passar por aquela calçada, vi cada um ali como um personagem de um game que é controlado pelos donos dos poderes político e econômico. Porque parece que é assim mesmo. Eles criam seus produtos, fazem estudos sobre o nosso comportamento, e aí trabalham para ganhar o máximo do dinheiro que produzimos. Nisso tudo, somos ratinhos de laboratórios para eles.
Eu, aqui em frente ao computador, sou mero personagem também. Mais um que posta textos em um blog. Consumo a ferramenta genialmente criada que é a internet. E grito talvez de modo ineficaz. Se um desses donos do mundo lesse isso, apenas riria da ineficácia de minhas palavras.
Claro que ao escrever isto, eu pareço abraçar o pessimismo. Mas na verdade eu sonho. Eu tento. Eu sigo tagarelando. Crio um espaço. Procuro adentrar almas. Antes, adentro à minha para reparti-la com os leitores. Mas claro, tudo pode ser em vão. De qualquer forma, eu não posso deixar de tentar. Não me permito deixar esta vida sem a tentativa de dar um beliscão na massa. E eu faço parte desta massa. Acordei por completo? Claro que não! Sigo negligente em muita coisa. Mas dentro de mim se vai algo que me faz ser utópico. Tudo bem, talvez a massa consumidora não acorde. Mas não quero deixá-la dormir sossegada. A minha luz deve ficar acessa a noite toda...


opiniões opiniones
Ser utópico é o que falta a maioria de nós. Utopia é um caminho, como diz Eduardo Galeano:

"¿Para qué sirve la Utopía?
Ella está en el horizonte.
Me acerco dos pasos y ella se aleja dos pasos.
Camino diez pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá.
Por mucho que yo camine nunca la alcanzaré.
¿Para qué sirve la Utopía?
Para eso sirve: para caminar."


Adalton Oliveira, economista



Ele vive em função do dinheiro

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O evento é uma confraternização entre famílias. O rapaz puxa conversa. Logo despeja suas recentes conquistas materiais. No semblante uma expressão que desagrada. Como complemento a informação de que sua namorada é um “filé”. Tudo para ele é mercadoria, inclusive aquela que ele poderá desposar. Sua alma está carimbada por cifrões. Ouvi-lo demandou abandono de comportamentos competitivos.
Evidentemente que o rapaz em questão cava uma infelicidade futura, acaso ela não seja uma realidade atual. Mas esse apego ao materialismo insano o faz apenas mais uma vítima do tão almejado sucesso.
Essas pessoas presas às conquistas são, necessariamente, desapegadas de preceitos éticos. Um fato ilustra a pouca dignidade do nosso personagem. Perguntara se o motorista comprara sua “carteira” de habilitação. Avisado do erro, argumentou que a carteira compra a carta.
Ele é apenas um exemplo de tipos que vivem apenas pelo dinheiro. Que lutam tenazmente pelo sucesso. Essas pessoas não fazem o mundo melhor. Não têm dentro de si o que faz os olhos brilharem, que é amor pelo mundo, não pelas coisas que se compra. Lamentável e persistente existência.

opiniões opiniones

Alan disse...
Brother, esse texto me lembra uma frase que tenho usado muito constantemente: "EU QUERO É DINHEIRO!". Algo para r
efletir...



Paciência

quarta-feira, janeiro 16, 2008 · 0 comentários

blog poesia


por Juliana Benício

Eu odeio o tempo
E a forma que ele insiste em passar!
São nove meses pra se nascer
Um mês pra lua cheia linda se mostrar
Doze horas pra se curti o dia ou trabalhar
Doze horas pra se curtir a noite ou descansar
Segundos pra te ganhar
Segundos pra te perder
Três estações pra primavera florescer
Uma semana inteira pra te ver
Um ano todo pra se ter um ano novo
Horas ao telefone!
Horas pensando em você!
Dias lembrando do seu nome
Meses sem te esquecer
Coisas que não deu tempo de fazer
Coisas que não tive tempo de falar
Uma vida inteira pra se viver até a morte chegar!
Dizem que tudo acontece no momento certo.
Mas continuo a Odiar o tempo e a forma que ele insiste em passar!
Uma coisa aprendi!
Aprendi a Esperar!






Imperfeições apontadas

terça-feira, janeiro 15, 2008 · 0 comentários

Deparar-se com suas imperfeições pode fazer ferver emoções guardadas num pote mal fechado. E quando tais defeitos são apontados por outrem, manter a serenidade na face torna-se tarefa complicada. Vai precisar de algum tempo para o indivíduo dirimir suas imperfeições.
O sujeito está em casa que não é sua. Não se atenta às diferenças comportamentais. Nem se toca que o ambiente é outro. Comporta-se como se em sua casa estivesse. Recebe atônito as observações de sua parceira. Num primeiro momento fica sem chão. Sua mente faceira mostra-lhe um caminho para se desvencilhar do relato de suas falhas. Dá-lhe como carta a indagação sobre possível perfeccionismo da moça. De modo sereno, a moça educada tece explicações. Usa de boa didática para persuadir o namorado a entender sua mensagem. Até que ele entende e uma luz interna acende. De qualquer forma, o rapaz fica um tanto perturbado. Aquela noite não lhe seria lá muito agradável. E não é a presença dela que o incomoda. O que lhe aflige são as notícias de seus erros.
Evidentemente que isto é uma forma de crescer e soma no auto-conhecimento. Ilustra a importância do outro para que cada um se conheça melhor. É aprendizado de boa convivência. Uma forma de melhorar os modos. É lição. Pode ter doído num primeiro momento, mas não houve castigo algum.



Blog retorno

segunda-feira, janeiro 14, 2008 · 1 comentários

Ao sair de férias não se estabeleceu uma data retorno. Dizer que houve uma razão não seria verdadeiro. O que se deu foi uma desatenção aceita posteriormente como feliz opção. Daí, voltar seria uma questão de ter um texto pronto. E assim o foi.
O blog, desta vez, optou por mudanças que não as de caráter estético. Agora, há um selo de garantia de direitos autorais de todos os textos aqui publicados, o que confere profissionalismo sério a este veículo. O leitor poderá se comunicar diretamente com o autor por telefone ou e-mail. Mas a grande novidade é o bate-papo do Opiniões & Crônicas. O autor, sempre que estiver on-line, estará no Chat para falar com qualquer visitante do blog. Essa inovação é obra do nosso conselheiro Alan Davis. Esse canal de comunicação aumenta a interatividade entre o blog e seus leitores. Tudo isso é mais um passo para que a expansão do nosso trabalho e para que deixemos de ser mais uma ilha isolada na blogosfera.
A seção Seu olhar foi substituída pela Blog imagem. Isso significa que o próprio autor poderá inserir imagem feita por ele, além de continuar como um espaço de expressão visual do leitor.
O verde permanece em função da onda ambiental que vivemos e que não passará. As pautas seguem com a diversidade. Na enquete que fizemos, sobressaíram os textos melancólicos e os reflexivos. Mas, como já foi dito, isto não vai balizar a produção literária aqui. Tratou-se apenas de uma constatação a ser feita após um debate com uma leitora que prefere o anonimato. Também, uma forma de gerar interação do leitor conosco. Outras pesquisas serão feitas. Os temas deverão ser sobre questões nacionais.
Continuamos a contar com nossos colaboradores na publicação de textos. A universitária Juliana Benício segue com suas poesias de caráter intimista, e o economista Adalton César com seus artigos sempre muito valiosos. Ambos contribuem de forma enriquecedora para que façamos um trabalho cada vez mais plural. A idéia é ter diversos colaboradores, todos comprometidos com o que escrevem.
O objetivo maior do blog segue sendo perseguido serenamente. Acordar e organizar a massa consumidora. Nesse sentido, a partir deste ano, será iniciado um trabalho de integração com outros blogs, a fim de disseminar informação. A intenção por trás disto é usar a blogosfera como ferramenta democrática de pressão sobre governos e empresas.
O autor deste veículo de comunicação segue convicto sobre o poder da massa consumidora. É assim que o blog acredita que a sociedade pode se organizar e exigir para todos uma sociedade melhor. Isso significa agir de forma consciente, exercendo o papel de consumidor, que é apenas o que somos para os donos dos meios de produção. Neste sentido, devemos agir como tal. E, a partir disto, nos organizar para que o mundo seja bom para nós, não apenas para eles. Bom 2ºº8 para TODOS.



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fotos: Patrícia Crispim
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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


Ex-revisores
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Adalton César
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