Ano que vem

terça-feira, dezembro 23, 2008 · 1 comentários

blog férias

Ao entrar de férias, o que se tem pela frente é algo um tanto incerto. Refiro-me ao ano de 2009. Embora esteja prevista uma desaceleração na economia brasileira, não se sabe ao certo como será. O fato é que 2009 chega como um ano que ninguém gostaria de esperar. Se pudéssemos, pularíamos para 2010 e colocaríamos os problemas econômicos debaixo do tapete. Mas isso não é possível. O jeito é enfrentar a crise de peito aberto e com muito positivismo, com um olho na fritura que é para não se queimar.
Felizmente, em decorrência do nosso amadurecimento democrático, o Brasil, até o presente momento, passa bem pela crise externa. Nosso ritmo de crescimento tem sido tão forte que ainda vai respingar no ano que vem, o que nos ajudará muito. Não apenas teremos problemas, como eles já estão aí. Ainda assim, nós brasileiros podemos olhar a crise de frente. Para muitas outras economias o horizonte é muito menos desejoso de se mirar olhos firmes.Dizem para olharmos o lado positivo do fato. Na crise há esta face. Ela pode até obrigar o país a fazer reformas que não fez. Curioso como situações assim fazem com que as responsabilidades sejam assumidas e as medidas tomadas. Na crise, os caminhos são menos optativos. Muitas vezes só há uma coisa a se fazer.
Esperamos que no final do ano que vem o mundo, economicamente, de um modo geral, já esteja em melhor condição. Neste sentido, será fundamental o cérebro de Barack Obama, a melhor notícia do ano. Os EUA formam o palco inicial da crise, que de lá exportou o espetáculo da balburdia financeira pelo mundo afora, pegando até países que desdenhavam dela. Como ator principal deste show sem humor algum, Obama terá a missão e carregará nas costas o fardo deixado pela terrível era Bush. Tratá-se de um mistura de gêneros. Do drama ao terror, sem passar pela comédia, o presidente eleito dos EUA fará sua atuação. Sai o canastrão George Bush, um fiasco de bilheteria, e entra um ator carismático e com fama de bom menino. Que 2009 seja o ano de Barack Obama e um ano de aprendizado para todos.Falei de economia. Há um link com a questão ambiental. Para a natureza esta crise é boa. Boas férias a todos.

o blog volta em 25 de Janeiro de 2009


opiniões opiniones opinition

Sabe aquela esperança que os brasileiros tinham com o Lula? agora o mundo tem com o Barack Obama.

Nayana



O último andar

sexta-feira, dezembro 19, 2008 · 0 comentários

Faz alguns dias que perdeu o amigo. Ele cerrou sua existência mediante ato violento contra si. Estava perdido nas drogas e abandonado pelos que sempre discursaram amizade. Sozinho, sem por que, triste e infeliz, optou pelo fim. Ela afirmou que o entende perfeitamente. Sei que a moça utiliza algumas drogas, quais de fato ignoro. Jamais a vi colocando para dentro de seu organismo as substâncias da felicidade momentânea. Não passa do que já me falaram. De qualquer forma, na pouca convivência que tive com ela, percebi suas emoções à flor da pele. Percebi também um ganho de carinho e respeito entre nós.


Faria o mesmo que o amigo, não fossem as pessoas que gostam dela. Cita o exemplo de quando ficou internada e via pessoas chorando por ela. Calculei que choraria no momento do relato das cenas emotivas no hospital. Mas seus olhos claros permaneceram no mesmo tom. Eu bem que olhei, e acreditei que disfarçava bem.


Comentei que o seu amigo deveria sentir uma tristeza muito forte. E ela mencionou entendê-lo perfeitamente. Que já passou por situação igual. Chegou a mencionar que a vida não faz sentido, sem dizer diretamente desta forma.


Gosto de conversar com ela. Sua sinceridade e graça me agradam. Claro que não temos uma amizade de fato. O que podemos ter não vai além das paredes da empresa em que trabalho e da qual ela utiliza os serviços oferecidos. Nosso limite é ali, nada além disto. Mas isso é normal. É com poucos que nos permitimos ir além das fronteiras. De qualquer forma, enganos serão sempre cometidos. E muitas vezes você apostará em pessoas erradas, e verá também que a ficha que outros lançaram em você também não passava de equívoco.


Naquele dia ela estava estressada. A empresa não pagara o salário integralmente como deveria fazê-lo. Fizera um escândalo com seu supervisor por motivos que nada têm a ver com finanças. Naquele dia, corria atrás de notas na faculdade em que conclui sua primeira graduação. Seu ódio pela instituição foi declarado de forma sincera e vociferante. Já afirmei aqui algumas vezes que a vez do outro é hoje, a nossa será amanhã. É a roleta da realidade. Com o tempo você percebe melhor isto. E aí, com esse passar dos anos, torna-se você alguém mais compreensivo.

O amigo dela, eu jamais conheci. E agora não haverá como fazê-lo. Não que isto fosse um desejo meu de fato. Não vou aqui fingir que tenho as portas abertas para novas amizades. Esse campo é seleto demais para negligenciá-lo, e ainda assim cometo deslizes. Pode o leitor questionar que uma conversa minha, ou de quem quer fosse, poderia tê-lo ajudado. Faz tempo tornei -me um ser que aceita as coisas como elas são. É modo belo, que suaviza a vida nos momentos doloridos. Mas claro, isto é um pensamento. Se naquele prédio eu estivesse, teria conversado com o rapaz e pedido para que não pulasse daquele andar, o terceiro do prédio, o último para ele.



O retorno de um comportamento

quarta-feira, dezembro 17, 2008 · 0 comentários

Claro, você se indaga por que tão poucos textos. A conclusão primeira é a falta de tempo. Depois, coloca mais água no copo até enchê-lo e calcula que é o fim, nada mais de escrever crônicas.
Mas foi preciso deixar passar o tempo, a poeira deitar em solo seu. E assim feito, percebeu que estava muito menos observador, de tão resguardado. Fora modo encontrado para precaver-se e até sobreviver. Um modo selvagem de levar a vida, foi.
Mas ali, naquele trajeto que nunca fizera, o subúrbio de Sampa a olhos seus. Foi na experiência nova que reencontrou velho comportamento. No silêncio do vagão, acomodado sobre confortável poltrona, observou pessoas e paisagem. Lá fora parecia-lhe pintura que fingia abandono. Prédios velhos e precários. Espécie de ruínas. Curioso lhe pareceu a possibilidade de donos de fortunas por detrás de tantas paredes sem tinta.
Observou pessoas também. Em meio à paisagem de gente simples, aquele homem destoava. Calçava belos sapatos e vestia camisa da moda e calça sarja. Era o único a ler algo, um livro. Buscou saber o título do autor da crônica. Era clara intenção de calcular a intelectualidade do jovem homem de cavanhaque. Mania difícil de perder. E que certamente não é só sua.
Ponderou que muito do observado, quase tudo por ele era ignorado. Numa possível crônica, a ausência de dados cuja importância não sabemos. Daí, a pergunta sobre o que será um bom observador.
Prosseguia a viagem de muitas estações de trem da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Um sono pedira licença, mas logo se foi. Ele regressava de um trabalho em que aposta êxito financeiro. Consigo, materiais que dariam excelentes negócios para homens ou mulheres de armas em mãos.
Na Estação da Luz desembarcou desajeitadamente ao carregar bolsa grande e pesada. Precisava de um café. Fez o pedido com calma, até que, outra vez, naquele mesmo estabelecimento, o sistema lhe impedia de pagar pela xícara de café. Imediatamente declinou do pedido e se foi. Naquele “domingo de descanso” mais trabalho o esperava.
Não terminou o texto aqui no dia em que começou a tecê-lo. Assim, criou para si o problema de dar um final satisfatório. Até pensou em rememorar o domingo em questão. Contudo, declinou rapidamente, sob o risco de transformar estes parágrafos em fragmentos de um diário. Releu o que já digitara para saber se realmente valia à pena o encerramento necessário. Feita a leitura, julgou que o trabalho de agora não seria em vão. Assim, não excluiu a crônica e deu a ela o fim que lhe pareceu a contento.



Silêncio

segunda-feira, dezembro 15, 2008 · 0 comentários

Na busca por palavra iniciava de qualquer maneira. Caminhando com letras, de certo encontraria dentro de si o que dizer. Uma espécie de varredura em busca de conteúdo calado. Foi o tempo, tal técnica caiu em desuso. De tanto pronunciar dificuldades para escrever, por fim acreditou na real impossibilidade do ato. Daí, então, um silêncio tomou conta de si. Construir texto que fosse ficou fora de questão.
A certeza de que poderia tecer algo a contento é frustrante mediante silêncio contínuo. De certo, tratar desta “problemática” é início de um rompimento desejado. Quem sabe seja minar esse vazio de idéias. Produzir, quiçá, uma explosão que faça surgir tantas letras quantas forem necessárias para obtenção de êxito literário.
O cronista adoece quando não há mais crônicas. Aposta cura em mais leitura, num contato indireto com arte. Calcula que necessita sensibilizar-se. Até que se percebe bem menos observador. De um modo tal fechado, que abraça a indiferença como única companhia. E aí, possivelmente, a raiz do seu problema. E que se pode dar um único nome: silêncio.



Espera que pode ser em vão

quinta-feira, dezembro 11, 2008 · 0 comentários

blog outra seca


Não foi desespero que senti frente ao enorme espaço em branco. De qualquer forma, entusiasmo algum tomou conta de mim. Era exatamente uma obrigação que me mantinha sentado em frente ao computador. Depois, um tropeço com as palavras fez com que eu parasse por um momento em busca de idéias. A seca literária toma conta de mim faz alguns dias. Um silêncio. A maior ausência de idéias desde o advento deste blog. E até alguma desconfiança quanto ao futuro deste veículo. De maneira que, discorrer sobre tal dinâmica se tornou pauta única nesta escassez de expressão de vocábulos no idioma meu.
Assim, fica explicada a diferença entre um blog e outros veículos de comunicação. Ausenta-se neste espaço sincero - equivocado por vezes, posto que é expressão humana -, a obrigação em escrever. Não é como um jornal que amanhã deve ter todos os espaços preenchidos. Muitas vezes, de modo filosófico, toma conta aqui um silêncio, que é emudecimento do autor. E, como já dito, o não-texto também é texto. De qualquer maneira, há uma diferença no momento de agora com outros que já se foram. Antes, embora a caneta não dançasse, o pensamento tecia idéias. Agora, nada ocorre. É um apagão de idéias. Os fatos, pessoas e coisas, passam e nem são percebidos.
De tudo dito, fica a ilustração do que somos. Esse comportamento inesperado, não planejado, portanto. Um despropósito, perda de compromisso? Não. Talvez não. Fase apenas. Coisas de quem sente, e que agora não sente tanto. Do contrário, gritaria sentimentos no papel. Não há que aquietar-se. A fazer, é respeitar o silêncio. Esperar idéias. Olhar para o nada, como o branco do papel, o vazio literário. E esperar com a clara certeza de que poderá ser em vão.



A palestra e uma simples crônica

quarta-feira, dezembro 03, 2008 · 0 comentários

“A televisão me deixou burro demais”


Iniciou a palestra com dados sobre a má qualidade da educação brasileira. Pensei que estivesse ali alguém que desejasse baixar a auto-estima dos espectadores sentados em confortáveis poltronas daquele belo auditório. Por um momento, fiquei contrariado. De qualquer forma, não poderia sair dali, pois estava a trabalho. E a obrigação, por fim, ofertou-me uma excelente palestra.
Pelas poucas linhas que esta pequena página me oferta, não discorrerei sobre a palestra em si, senão a respeito do que ouvi e aprendi. O que me valeu mais foi a forte crítica à TV. “A televisão foi feita para baixar nosso espírito crítico”. Argumentou que isto ocorre para que compremos mais. Além disso, há os vídeo games, a internet, entre outros produtos eletrônicos. Abusar do uso deles é altamente nocivo para a mente humana, aprendi naquela feliz noite.
Ler muito. Este foi o recado principal. Não importa o que seja. É esta a melhor maneira de desenvolver a inteligência. O problema é que nossa sociedade lê muito pouco. Incríveis setenta milhões de brasileiros jamais leram um livro. São alvos fáceis da publicidade, bem como de programas de televisão que desrespeitam a inteligência humana.
Adentro àquele refeitório. O local em que estou pouco importa. A TV está ligada e as pessoas seguem hipnotizadas. Na tela, bobagens de um telejornalismo que parece programa de auditório. A matéria é de conteúdo pobre, em que informar é a última intenção. Vale para a emissora o ganho de ibope. Como matéria-prima, a ignorância daqueles que assistem passivamente os desvarios do apresentador. A seguir, alguns comerciais que vão incutir na pessoa um desejo de compra sem qualquer questionamento. De certo, poucos ali leram um livro.
Deixo o ambiente bastante contrariado. É dolorosa a certeza de que mudar a esta realidade é tarefa penosa. De qualquer forma, todos devemos fazer a nossa parte. De certo, o melhor presente a se dar para um ser humano é um livro. Termina a crônica com o exemplo dado pelo palestrante do início deste texto. Duas irmãs com curso superior que liam muito. Queixavam-se do irmão que não lia o que fosse. Até que uma das irmãs encontrou um livro sobre o time de futebol preferido do rapaz. Após alguma resistência, leu toda aquela edição. Apaixonou-se. Foi à livraria e comprou a biografia de um dos maiores craques da história de seu clube. Havia sido dado o início da paixão pela leitura. Hoje, ele lança um livro de poesias. Prova concreta de que mudar é possível.

crônica extraída do trabalho de conclusão de curso



Sem garantia

sábado, novembro 29, 2008 · 1 comentários

blog reflexão


Lia agorinha mesmo um blog de confissões sentimentais. E via o quanto nós seres humanos somos iguais. Que a vida é roda-gigante. Funciona como fluxo. Cada um tem sua vez Não há, nem haverá felicidade coletiva plena. Muitos estarão tristes e infelizes, outros o contrário disto.
Você se vê em uma cidade como São Paulo e sente-se solitário. Para um morador de outro canto mais tranquilo isto pode parecer absurdo. Mas o fato é que a correria do dia-a-dia nos faz ser cada vez mais distantes das pessoas. Até para rever amigos, você precisa se equilibrar na falta de tempo. Muitos deixarão de ser revistos. Talvez sobrem apenas os amigos de fato.
Nas confissões do blog seu, a mulher grita as angústias de um coração solitário. Reclama da solidão que dói. Do amor que espera. Da dor da alma que sente. Talvez você e eu nos vejamos nas linhas escritas de modo sincero pela sensível alma da mulher que resguardo. É assim mesmo, a gente passa por coisas que outros já passaram. Algumas realidades se mostram iguais. Talvez saibamos disto. Ninguém está só na dor ou na alegria. Mas cada um vive tais sentimentos ao modo seu.
Quantos olhares aborrecidos vemos por aí? E quantas vezes esses olhares são os nossos em tantas direções. É aí que deixamos a platéia e subimos ao palco. E o personagem que observávamos agora é platéia. Alguns até batem palma para a cena da tragédia alheia. É modo de aliviar sua própria dor. Melhor não condenar ninguém e calcular que a dor que sente faz bem para outro. Ao menos isto. E não é indicado precisar que logo haverá a inversão de papéis, e que assim você estará vingado. Melhor nos solidarizarmos na dor também. Deste modo, vendo as coisas assim, poderemos, talvez, compreender melhor o outro. Isto poderá se dar quando cada um compreender a si. Mas nada é garantido.
No pote de mágoas de cada um, toca a canção do compositor. Ele expressou genialmente em forma de canção a maneira como somos. Quando você ouve a canção, pensa naquele indivíduo que se mostrou irado frente, por exemplo, a um esbarrão inesperado que você deu nele. Na hora, com a reação do outro, uma cólera o teve. O tempo passou e nova inversão de papéis. E o mesmo fato se deu por diversos cantos do mundo. Depois de alguns anos a compreensão poderá abraçá-lo. Assim, numa desatenção sua para aquele que é “pote até aqui de mágoas”, você entenderá a reação agressiva da pessoa. De certo, à sua frente, um espelho do passado. Mas o tempo passou para que você aprendesse. Acreditar que tal pensamento é fórmula que sempre ocorre, não é senão inocência. Melhor lembrar que nada é garantido.

opiniões opiniones

Por isso que não devemos nunca fazer o mal a ninguém, né? Porque um dia a situação se inverte e receberemos tudo o que plantamos...Adorei o texto, a reflexão!E é sempre bom saber que as pessoas passam, também, pelo que passamos.. não pq queremos que tb sofram, mto pelo contrário, mas pelo conforto que dá saber que alguém te entende enfim...
Juliana Motzko, artista plástica



A questão da verdade e a crise financeira atual

quinta-feira, novembro 27, 2008 · 1 comentários

blog convidado




por Adalton Oliveira










A Erística era uma arte empregada pelos antigos sofistas para vencer uma discussão e não necessariamente alcançar a verdade. Para Sócrates, chegar-se-ia ao conhecimento por meio da dialética, ou seja, por meio do encontro de opiniões contrárias conduzindo à verdade. Uma discussão supõe antes de tudo, a amizade, o respeito mútuo. Discutir, antes de tudo, não é brigar, não significa embate, mas sim diálogo, um meio para se chegar à verdade.



O que se verifica na maior parte das vezes é um desapego à verdade e um desejo de se vencer a discussão a qualquer custo, nem que para isto a verdade tenha que ser sacrificada. O que se busca é a vitória sobre o oponente, a autopromoção, a fama. Nesses embates orais quer-se desqualificar o interlocutor; lança-se mão de falsos argumentos a fim de provocar confusão, usa-se da mentira deslavadamente e, quando não há mais saída, apela-se para a violência – verbal ou física - pura e simplesmente. A discussão civilizada, aquela que objetiva alcançar um novo entendimento daquilo que se discute, a Sprachethik (uma discussão civilizada) de que nos fala Jürgen Habermas, é posta de lado. Cada oponente sai da discussão com a certeza de que manteve incólume sua opinião, de que a verdade ainda lhe pertence. No fim, nada aprendeu e coisa alguma ensinou.



O sofista faz da discussão um fim em si mesmo, o dialético a considera um meio para se chegar à verdade. Mas, existe uma verdade ou ela depende do contexto social e do momento histórico? A física newtoniana reinou incólume enquanto suas prescrições respondiam às questões até então formuladas. Mas, com as idéias de Einstein e com as perguntas que daí surgiram, as teorias de Newton já não eram mais capazes de explicar um universo que se “tornara” complexo demais.



Em Economia, nos últimos anos, reinou a verdade de que o Estado deveria ser reduzido ao mínimo, atendo-se apenas àquelas atividades que o setor privado não fosse capaz ou não quisesse executar. Pregou-se a desregulação a todo o custo e ai daqueles que se opusessem a ela, eram tratados como párias, como dinossauros, como “neobobos”. Vemos agora as conseqüências desse modo de pensar, materializado na crise financeira e econômica que ora recai sobre o mundo todo. Economistas que antes pregavam idéias ditas liberais, hoje, ou se calam ou se desdizem. Eu já tive a oportunidade (ou o desprazer) de estar em seminários com economistas da auto-proclamada corrente dominante no pensamento econômico, os neoliberais, adeptos das teses do Estado mínimo e total liberdade dos agentes (no sentido econômico, obviamente). Geralmente, muito bem vestidos e perfumados, entram na sala de debate com um ar arrogante, olhando seus “adversários” com superioridade; afinal, são eles os detentores de uma verdade sagrada. Com seus modelos econométricos complicados (e pouco úteis), verdadeiras cortinas de fumaça a esconder uma lamentável pobreza intelectual, buscam desqualificar as opiniões contrárias.



O capital quer apenas se valorizar. Deixado à sua própria sorte, ele se comporta como o moinho satânico de que nos fala Karl Polanyi, em seu magnífico livro A grande transformação. Ele destrói e transforma tudo que estiver à sua volta. Deixado à solta, o capital logo irá meter-se em confusão e, rapidamente, apelará ao Estado para que o socorra. O mesmo Estado que antes o capital queria ver distante. É o que nos mostra a dura verdade da crise atual.



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Adalton Oliveira é economista

opiniões opiniones

Parabéns pelo excelente texto...Criticar com propriedade é para poucos.
Sandra Regin, economista



Mesa dezoito

quarta-feira, novembro 26, 2008 · 0 comentários

blog personas

Nas esquinas do mundo muitos bares, goles, conversas e desabafos. Na Augusta com a Oscar Freire encontra-se o tradicional Bar BH. Há sete anos a mesma mesa de número dezoito testemunha encontros e desencontros. Ali, um personagem conhecido da redondeza vende seus caleidoscópios para ajudar em sua dura sobrevivência. Estamos falando de Ludv Hoovi, o escritor chileno da mesa que intitula esta matéria. Brevemente, lançará seu livro em circuito internacional, "Agustâncias", uma simbiose entre a Augusta e as circunstâncias vividas por seus personagens da vida real.
É ali, aos finais de semana, sobre o pequeno objeto quadrado feito de madeira escura, que deitam copos, xícaras, cinzeiros e angústias. Pessoas bem resolvidas economicamente têm aquele espaço como uma fuga. "Aqui é o início de tudo", explica o jovem escritor. "Esse lugar é uma fuga para eles. Os relacionamentos com outras pessoas se dão aqui, tendo a mim como elo". "São pessoas lúcidas, mas que sentem a dor na alma em função do mundo em que vivemos".
Durante a nossa entrevista, nosso entrevistado aponta um ou outro personagem. "Todos são sociopatas. O meu livro aborda a questão psicossocial". O que se percebe claramente, é que a obra do escritor chileno funciona como uma espécie de terapia, no caso, literária. É, sem dúvida, uma forma que as pessoas das quais "Agustânças" trata têm de se expressar. "No livro, eu construo diálogos que o representam".
O que podemos observar é que há um grande carinho em meio àquela roda de pessoas em volta à mesa já mencionada. São homens e mulheres com boa formação cultural, cujas almas estão adoecidas. "Elas já conquistaram tudo. Querem algo mais. Nossos momentos aqui funcionam como uma fuga para eles".
É curioso, e muito prazeroso, ter contato com humanos que você poderá ler em um romance. O que resulta em um desejo ter observá-las, bem como investigá-las pscológicamente, para depois confrontar com as palavras escritas pelo nosso personagem. Estranho, é que por alguns momentos eu me pergunto se Ludv realmente é o personagem central desta história. Num ato de surrealismo, elejo a mesa dezoito como ator principal das cenas que meus olhos captam. Afinal de contas, ela é o início de tudo. É a mesa que está sempre ali, senhora de todos os momentos, testemunha das confissões, dores expressas em ato destrutivo de sorver álcool. Para ela, ninguém precisa fingir sentimentos. Não é necessário dizer palavra alguma. A mesa, é a mesma, indepente do que ocorre ali. Abandono meu devaneio. Olho para o advogado que compõe o elenco da "Augustâncias". Juntamente com o maestro, que jamais o vi sentar, em todas as visitas que fiz, parecem-me os mais aborrecidos. Vejo tristeza permanente no olhar de cada um. Mas claro, pode ser que simplesmente cometa uma ato de projeção.
O que sinto é que, no local onde estamos, naquela pequeníssima fração do mundo, ausentam-se os sentimentos de competição que permeiam o dia-a-dia do paulistano. Parece-me haver um desprendimento de tudo que nós é vendido pelo marketing constante que nossos sentidos podem captar. É interessante a sensação que tenho em meio àqueles humanos. É como adentrar um espaço deles, mas que não se encontra fechado para aqueles que querem apenas dividir momentos agradáveis juntos.
Se no início, a gerência do BH não gostava da presença de Ludv, hoje há uma parceria não declarada entre eles. Afinal de contas, muitos voltam ali simplesmente para ter com o vendedor de caleidoscópio. A bebida, ou o que se pode comer ali, são é apenas complementos. Eles voltam ao espaço pela busca da companhia gostosa de Ludv, que se mostra alguém que gostar e se permite ouvir o outro. Em meio a tantas vozes caladas nesta metrópole da solidão, um ser humano, que mesmo vivendo precariamente, tem o gosto por saber das angústias alheias. Uma espécie de consultório a céu aberto. Cuja divã, podemos dizer, é a uma mesa. O número já foi dito.


texto estraído da revista feita como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso)



Roleta-russa

segunda-feira, novembro 24, 2008 · 0 comentários

No ato de agora, enquanto surgem as palavras, uma mulher aqui em sala que me tem, mas que de fato não é minha, e que minha presença é temporária, assim com é a vida. É uma das moças da limpeza. Trabalha calada, obrigada, mas com a mesma eficiência de sempre. Já me confessou um pouco de tristeza frente à minha indagação. “Um pouquinho...”. Concordamos que é normal. Ontem, era eu. Hoje, ela. Amanhã você. Jamais todos. O estado de felicidade também é temporário.
Ela já não está aqui. Foi para outra sala. Saiu sem dizer palavra alguma. Não me incomodou. O momento, o silêncio nosso, apenas me inspirou. Pode até alguém argumentar que se escrevo é, pois, que me incomodo de alguma forma. Que seja.
Voltou. Agora é o chão que limpa. Faz cadeiras escorregarem sobre rodinhas. O telefone toca. Cessa o texto.
Passaram-se os dias. A falta de tempo não me deixou completar este texto. Dias depois, não sei quantos, volto a ele após reencontrá-lo devidamente guardado. Na semana que passou, entrou em minha sala uma outra moça da limpeza. Indaguei sobre aquela do parágrafo inicial desta crônica. Avisou-me que fora demitida. Surpreendi-me com o fato. A melhor de todas foi descartada. Não procurei saber o motivo, embora ainda tencione fazê-lo.
Não termina a crônica. Agora ela já não estará mais em minha sala para tanto. Não éramos amigos, senão bons colegas de trabalho. Confiança e respeito de ambas as partes. De minha parte, uma admiração pelo modo aplicado como trabalhava. De maneira tal que me surpreendia.
Pouco sei da vida dela. Conversamos algumas vezes. Gostava das músicas que tocavam em minha sala. Ofertei-lhe algumas, o que a deixou bem contente. Isso me faz lembrar sobre o que me disse um homem que trabalha com pessoas que vivem nas ruas de São Paulo. Perguntei-lhe o que deveríamos fazer para ajudar alguém necessitado. Ensinou-me em algumas palavras que carinho e atenção sincera bastavam. Possivelmente, a indiferença com que tratamos estas pessoas seja a principal forma de aviltá-las.
A mulher em questão, aquela que limpava o meu local de trabalho, triste em seu silêncio, de certo está em casa sua esta hora. Um bairro simples, talvez. Sua família, marido e filhos, as músicas que gosta. Não sei se segue acordada. Já temos quarenta e seis minutos de uma segunda-feira. Se sim, não sabemos o que pensa. Também ignoramos se sua tristeza passou. E ela, neste mar de seres humanos, é apenas um exemplo. E, em alguns dias que já se foram, entre outros que virão, serei eu o exemplo, quando em outra vez, será você. Na roleta-russa da vida, a vez de cada um chega. “Um dia você cai”, foi o que me disse aquele senhor embriagado pelo álcool, cheio de traumas da ditadura. Não me aborreci com o que disse. Mas um dia, de fato, caímos. Depois levantamos. E sucessivamente, os movimentos se alternam. Drummond bem falou das pedras...



Reivenção de si

terça-feira, novembro 18, 2008 · 0 comentários

Como as coisas acontecem. Ele queria mesmo era dormir. Marcara horário com ela, mas cansaço e melancolia mudavam suas vontades. A moça titubeou em entrar no elevador e partir. Calculou que ele estivesse cansado. No fim, a obrigação tomou conta da situação. Às 22h daquele sábado sentaram-se frente ao computador e deram início aos trabalhos. Dali, só sairiam às 5h de domingo, com um intervalo para um café próximo ao local onde estavam.

"Você precisa se reinventar". Ouvira exatamente o que calculara pelas ruas do Baixo Mooca daquele sábado que lhe parecia triste, quando a auto-estima em baixos níveis o maltratava.

À mesa daquele café, o papo inicial. A vida alheia como pauta. Surpresas para ela, embora seja sabedora de que as coisas quase sempre não são como parecem. Sabe também que muito é discurso, nada mais que isto. Mera propaganda enganosa.

As conversas de início eram mero aquecimento para que eles virassem pauta, afinal de contas, falar do outro pode ser falar de si. E aí as confissões, as conclusões. Ele confessou sua prisão interna, seu estado de insatisfação. E ela, sábia agora, em função das experiências que passou, ensinou-lhe a necessidade de reinventar-se. Assim ela o fez. E só agora, reinventada, é que se sente feliz por ser outra pessoa, desta vez alguém melhor para si, e, como conseqüência, para os outros.

Não imagina quem lê, que frente a frente, xícaras de café estáticas sobre mármore claro, estavam duas pessoas que não se toleravam. Que em cochichos criticavam um ao outro. E que numa certa circunstância perderam as estribeiras e discutiram insanamente. Mas a vida é isso, circunstância. E, assim, pediu tempo para colocar o casal à mesa. Ali, debaterem um pouco sobre a existencialidade da vida. Nos elogios dela, pitadas para a obra da reinvenção. Conclusão a que ele chegara e que precisou de um café para firmar a certeza da empreitada. No dia seguinte, e talvez já naquele mesmo dia, ele estava melhor. De qualquer forma, não se iludia. Sabia que poderia ter sido mera injeção de ânimo dada pela colega. É preciso esperar, sabe. Observar-se. E, dadas as circunstâncias, reinventar-se vagarosamente. De certo, há muito que construir. Não que almeje a perfeição, faz tempo deixou isto de lado. Aprendeu que humano que é, cometer falhas é normal. E segue na aceitação de suas imperfeições. Apenas necessita reinventar-se para ser alguém melhor.



A morte da sedução

quarta-feira, novembro 12, 2008 · 0 comentários

Uma válvula de escape. Cadê? E essa prisão, por quê? Pode até fingir que não há nada, mas mente pra si. Sabe que algo não vai bem. Mas finge. Aposta no tempo a solução. É fase. É de agora, vai passar. Nos dias que se libertou, não sabia, era ilusão. Mas aposta que de novo vai. Que essa inexistência acabará. E que alguma ela vai surgir. Que voltará a segurança. O gosto por si. O olhar firme. Alguma sensualidade. Por enquanto, é morte do poder sedutor. Assassinato. E o desprezo somado a cada cruzamento de olhar é não mais que morte novamente. A solução. Pensa nela e aposta em um subterfúgio. Talvez erre. E é exatamente por isto que trama outra porta porque passou. Sim, resiste. Prefere outros caminhos. Mas leva consigo estrita desconfiança que é isso mesmo. Que fazer? Não tem jeito. Essa cilada que lhe parece sem saída foi tramada por sua mente. Por enquanto, no sentido não explicitado, a mente está no controle. Resigna-se costumeiramente. Mas já está um tanto cansado. Essa ausência feminina ao lado já lhe cansa e aborrece. Se abraçou a indiferença, foi mera defesa. Trancafiado em si, grita em silêncio. Há um a dor e uma certeza. Há esperança e medo. No fim, tudo é incerteza e ausência de alguma ela.



Emoções no balde

quinta-feira, novembro 06, 2008 · 0 comentários

Fez do papel balde de água. A pureza do líquido é absolutamente incerta. Mas não importa, queria apenas diluir seus sentimentos. Daí, então, observou as cores que se formaram na água. É ato químico na busca de exatidão de sentimentos e emoções.


Olhou a água no balde. Chocou-se com resultado da mistura. Tentou recordar algum processo de separação aprendido em aulas de Química naquela triste escola pública. Contudo, aluno medíocre que foi, de método algum se lembrou. Nem mesmo lhe foi possível algum resquício de aprendizado. A professora bem que tentou. Lamentou tanta algazarra. E se portou de tal modo coitada que provocou a ira de seus algozes sentados às carteiras.


Com uma ferramenta improvisada fez movimentos circulares com a água. Iludia-se quanto à eficácia do ato. Via cores, mas não sabia a representação exata das emoções. Desconfiava que somar determinada cor com outra poderia resultar naquilo desejado. Mas e se fizesse escolhas erradas de cores? Temeu. Estremeceu por dentro. Permaneceu no ato dos círculos na água com a ferramenta que tinha. Receava que na mistura equivocada outras emoções sobreviessem. Apagou a luz. Cerrou a porta. Deixou de lado a ferramenta. Saiu pior do que entrara. No balde, a água ainda fazia movimento. As emoções de então logo cessariam. A noite chegou e se fez escuridão e silêncio. Longe dali, o artista fracassado. Consigo, as cores das emoções dentro do balde. Mas nele, a mistura colorida era inevitável. Em algum canto escuro, ele tentava em vão o mesmo silêncio do balde quando outrora vazio estava.



Culpado no espelho

quarta-feira, outubro 29, 2008 · 0 comentários

Passou por aqui. Olhos arregalados e olhar horizontal deram-me a impressão de sua ilusão. Havia entusiasmo demais em cada passo dado. Algo ali era mero discurso, invenção. Aquela expressão de felicidade não me convenceu. Toda ela parecia-me pura ilusão de si.
Antes disto, pessoas pra lá pra cá. Parecia-me uma imensa escuridão onde ninguém nada enxergava, como na obra de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. No livro do escritor português, apenas uma pessoa enxergava. Fica dito, eu não me confundo com ela.
Aborrecido, afirma que se fosse um desavisado se entristeceria menos. Queria a si a cegueira intelectual. Um discurso seu que me foi relatado por um terceiro. Se você acredita nas palavras ditas pelo ser melancólico, tem meu respeito. Se desacredita e entende que não passa de discurso em vão, tem a minha concordância. É e assim pra mim, discursos não me convencem, sobretudo quando o comportamento desdiz a pessoa no púlpito.
Essa minha acidez é de agora. Na mistura humana, diversos ingredientes. O que vale é a dosagem de cada um. E isto é absolutamente circunstancial.

Voltemos à cegueira geral. Olhemos ao redor e não enxerguemos ninguém. Ignoremos o outro como quem vinga de si. É o desamor alastrado. Fiquemos com os produtos. Amemos-os! E depois abracemos a solidão como quem não existe nem mesmo para si. No final, façamos a escolha do culpado. Nos isentemos de qualquer responsabilidade. Mas antes do último horizontal, olhemos no espelho. Mesmo que não enxerguemos, o culpado estará lá.



Papel de outra cor

terça-feira, outubro 28, 2008 · 0 comentários

No papel, o desenho azul de letras de um cinza interno que faz visita. Já não está mais na sala de espera. Já visitou todos os cômodos, espalhando emoções indesejadas. No ato sem vontade. Na palavra não dita. Na negação do olhar, resquícios de uma "desvontade". Assim que entrou o cinza por uma porta, entes disto, pela porta mesma, foram-se as vontades. E o que é um ser humano sem vontades para realização de simples ato, como, por exemplo, o de se comunicar?
Quisera que fosse cinza a superfície que recebe o deslizar esferográfico de agora. E assim, a cada linha, usasse cores diversas de tinta e pintasse dentro de si um novo quadro. Contudo, a rigidez da moldura não permite troca da tela indesejada. O que se tem, então, é obra de si que prefirira não ter.
A máquina humana só aceita um OFF. É pena, pois desligar vez em quando seria até bom. Mas esta opção talvez não fosse a melhor. Das cinzas da alma ressurgimos cada vez mais fortes. No momento das emoções em labaredas, a sensação de fraqueza é doída. E o problema pode ser a busca pelo prazer que nos foi imposto pelos diversos mecanismos de comunicação. É proibido ficar triste, diz as entrelinhas do filme, cuja idiotice maior está no indivíduo que segura saco de pipoca e se sente igualmente idiota ao outro. Ele é o outro. E no semblante enganoso carimba satisfação e felicidade inventadas. É a sociedade dos discursos. Em algum momento, quando a morte bater à porta, o indivíduo irá furtar-se dos seus discursos. Aquele "eu é um outro" dará as caras. E aí, apenas neste momento, é que ele se fará amar. De qualquer forma, se a morte resolver ficar, o tempo sepultará os bons sentimentos que no momento fúnebre você admitiu ter por ele. O que restará serão apenas não-lembranças...



Seca literária

segunda-feira, outubro 27, 2008 · 2 comentários

blog seca

Crise mundial. Escassez de dinheiro a ser emprestado. Queda nas bolsas. Bancos socorridos. Governos atônitos. Empresas e a obtenção de enormes prejuízos. Mas isto não é o assunto de agora. A escassez aqui é outra. Seca literária. E aí a pergunta: onde estão os textos? Cadê inspiração? O que dizer? E esse silêncio, por quê?
São indagações. Respostas se ausentam. Talvez algumas emoções de outrora, numa declinação do entusiasmo de viver, na distorção dos fatos, bem como na projeção nas diversas leituras humanas dadas em momentos e lugares variados, tragam alguma idéia. Mas passou a torrente emocional. O tempo seco permanece.
Escrever tem disto mesmo. Você passa dias e não vê luz alguma. Até abre esta ou aquela porta, mas pouco enxerga, senão palavras, cujo agrupamento não forma orações conexas. E nesse não emaranhado, você se cala. De qualquer forma, uma inquietação há. E aí o dado positivo, pois o incômodo é ferramenta exata e necessária para a revolução. Nessa revolta, você quer aguçar sentimentos, prolongar olhares. Mas há as emoções. Este descompasso. Um encontro nocivo. Não adianta perguntar o que será agora. Só o tempo passando. Somente ele prosseguindo sua viagem sem rumo e sem volta. Só assim você poderá se desamarrar dos laços da opressão que suas emoções de então lhe impõe.
Calma, leitor. Respire um pouco. Talvez os parágrafos iniciais tenham sido sufocantes. Abra a janela, deixe o vento entrar. Aqui, nestas quatro paredes que cercam e presenciam o ato da digitação não há vento que passe pela janela. Calor. Esse tempo quente. Sufoca alguns. Provoca ebulição de hormônios em outros. As reações variam, não há como enumerá-las. Aqui, neste quarto, a luz acessa, o cão à porta, barulho do ato de cada dedo sobre o teclado. O ambiente muito mal descrito, pode o leitor visualizar. Há mesa. Armário. Cama. Tapete. Cadeira. Cor. Odor. Sensações. Há ausências. Há pouco. Há muito. Depende. E não há, como já foi dito.
Pequeno texto. Pode chamá-lo de crônica. É um destravamento. Gota d'agua em meio a essa seca. Mas não ficará o cronista como sertanejo esperançoso de chuva hoje e amanhã. Essa gota é de agora. E ela sai como quer. Sim, há um certo esforço. Houve até declinações de rumo. Mas aí está. É este texto um oásis de letras. Ele é esta construção. Pode lhe agradar. Pode não fazer o efeito que desejara. Não importa. É a vida. Ela é assim. É como quer.


opiniões opiniones opinition

Vai chover, de novo, deu na TV!
Carol Beralde, São Paulo, estudante de jornalismo UNIP



Justiça de ricos contra pobres

sexta-feira, outubro 24, 2008 · 1 comentários

blog reflexão


Venha comigo. Façamos essa reflexão em conjunto. De que adianta divagar sozinho? Pra que tanta ilha de si? A questão a refletir. O rapaz que sequestrou a namorada e a matou. Deixemos de lado as falhas da polícia. Peguemos o algoz da vítima. Imaginemos que ele é alguém da elite, um promotor da Justiça de São Paulo, por exemplo. Então, fez tudo igualzinho. Sequestrou. Apontou uma arma. Deu material de trabalho para a imprensa. No final, a polícia invadiu e ele cumpriu sua palavra, apertou o gatilho contra a cabeça da menina. No dia seguinte, o jovem promotor aparece na tela de um site. Seu rosto não está inchado por pancada alguma. Neste mesmo dia, seus advogados entram com um pedido de habeas-corpus no STF (Superior Tribunal Federal), que aprecia favoravelmente a solicitação. O jovem rico, promotor de justiça, está solto. A menina morta. A família pobre chora. E o criminoso, que é alguém da classe dominante, não é hostilizado pela imprensa, tampouco pelas pessoas.Esse fato que criei tem verdades as quais todos conhecemos. Pois um promotor de Justiça em São Paulo, num passeio pela praia, matou um outro jovem após este ter desrespeitado sua namorada. Foi uma reação de momento, descabida, tudo bem. Mas a lei está aí para impedir e punir atitudes humanas que resultam na morte do outro. Pois bem, o jovem promotor foi reconduzido ao cargo. O bom salário que recebe é pago por mim, por você, por outros. Ou seja, pagamos um enorme soldo para um funcionário público que matou um outro ser humano por puro ciúmes, muito provavelmente levado pela sua enorme vaidade, bem como uma sensação de impunidade que permeia o crime no Brasil. Mas e se o promotor não fosse promotor? Se fosse um ajudante de um serviço mais simples? Ele estaria nas ruas? O STF teria concedido que ele retornasse às suas tarefas do dia-a-dia? Aliás, ele teria acesso ao STF? Não creio. A Justiça no Brasil foi desenhada para proteger os ricos contra os pobres. De qualquer forma, não devemos fechar os olhos e apenas lamentar. O Brasil ainda não é um país democrático de fato. Caminhamos para tanto. E chegaremos lá? Não sei. Mas caminhamos. De qualquer forma, falta a nós não-membros da sociedade dominante nos apresentarmos e lutarmos por nossos direitos. Neste sentido, o eleitor tem um papel fundamental. Se votar em pessoas mais parecidas com ele, que conhecem a sua realidade, que vivem de modo parecido, as chances poderão ser maiores no sentido de conquistar uma sociedade mais plural e democrática. Eu falo, evidentemente, do eleitor pobre, ou até da classe-média. Talvez aqui possamos filosofar e crer que a divisão do poder deveria se dar em função das camadas sociais. Neste sentido, a elite seria menos representada, na medida em que é bem menor sua participação em termos numéricos na sociedade. No Brasil atual, há uma inversão. São justamente aqueles que têm mais poder econômico os representados de modo mais eficiente nos diversos poderes. O que se tem é uma elite que não permite muita abertura, uma democratização das nossas riquezas. E este comportamento é corroborado pelo individualismo que impregna nossa sociedade. A própria classe-média luta para crescer economicamente. No Brasil há a tripudiação sobre aquele que tem menos. E há o endeusamento dos que são mais ricos, não importanto seu caráter, bem como seu comportamente ético. Para encerrar, retomemos o promotor e o ajudante. O primeiro está livre, embora tenha tirado a vida de alguém. O motivo foi uma mulher. O segundo está preso e já foi bastante espancado. Tornou-se uma assassino por causa de mulher também. A diferença é que fez vítima exatamente o elemento feminino. Enfim, ambos cometeram um crime. Assassinaram uma pessoa. Mas por que a justiça brasileira os trata de modo diferente? Por que termos certeza de que um ficará preso, e ainda desconfiamos que será executado atrás da grade? Enquanto, sobre o outro, temos a grande incerteza de que será punido? Por quê?



Triste fim de Policarpo Quaresma: o herói inexistente

quinta-feira, outubro 23, 2008 · 1 comentários

blog convidados



por Adalmir Oliveira, piscólogo

É árduo para qualquer escritor ou cronista, ou seja lá quem for, escrever sobre o Brasil com um olhar crítico. Como brasileiros, tendemos a ser parciais. O Brasil é um país de contrastes, imenso, pluricultural, com uma identidade própria e ao mesmo tempo difusa em suas diversas, quase infinitas nuances. Entretanto, o que trago hoje como reflexão não me permite ser parcial, pois tem a ver com ética, vocábulo conhecido, mas nunca vivido pela sociedade brasileira. Há pouco mais de um século, o médico espírita Bezerra de Menezes afirmou que a sociedade brasileira estava gravemente enferma. Depois de tanto tempo, o que se pode, ainda, dizer? Eu respondo: o mesmo. Desde o Brasil colônia de Portugal (hoje colônia dos EUA, Europa, Japão, China e de quem mais chegar), nosso país sempre inexistiu. Primeiramente, para os portugueses. Não passávamos de um pedaço imenso de terra para extração de riquezas. Inexistimos para os portugueses um dia e hoje inexistimos para nós mesmos. A sociedade brasileira está gravemente enferma. Falta-nos saúde mental, boa auto-estima. Fomos a latrina de Portugal, dos colonizadores europeus, dos norte-americanos. Hoje, pelo que vejo, escolhemos ser latrina, ou viver nela. Aceitamos o matagal à beira dos rios, as fezes que flutuam nas águas não tratadas, as ruas sujas por nós mesmos, os cães soltos, abandonados nas cidades, o mau cheiro, o ar poluído, as crianças chorosas de tristeza por causa da pobreza e dos maus tratos que recebem de seus pais, também maltratados ao longo de suas vidas, crianças que foram um dia. Aceitamos pequenas ilhas de opulência ao lado de tudo isso. Aceitamos um Estado inexistente, que escolhe não existir para o povo que teoricamente representa. Aceitamos uma elite que nos dá algo de comer e vestir todos os anos por meio dos programas da televisão, Unicef, Teleton, etc., mas que nunca se comprometeu com um processo legítimo de transformação social. Lembrando Dom Helder Câmara, dão o pão, mas não questionam por que falta o pão. São cinco séculos de indiferença e descompromisso emocional com o outro. Não existe alteridade no Brasil. Aludindo a Goffman, a dor e a tragédia se tornaram o espetáculo a ser consumido nos milhões de lares, graças a uma imprensa que sobrevive da dor e da lamentação. Bebe até a última gota do sangue dos sofridos. Ganha milhões de reais com isso. Nós escolhemos vê-los todos os dias. Não aprendemos a desligar nossos aparelhos de televisão para que percebam em seu bolso (só assim para sentirem alguma coisa!) que merecemos o melhor. Obviamente é legítimo que saibamos o que acontece. Mas, eu sinto pessoalmente que a dor é explorada para além da necessidade de informar as pessoas. É, por outro lado, um instrumento explorado até as suas últimas conseqüências sem nenhum interesse de convidar a população a refletir sobre as causas que nos levam a sermos uma sociedade tão indigna de ser chamada de humana. Escolhemos ser subumanos. Não fomos postos nesta condição pelos norte-americanos ou europeus. Eles não têm esse poder. Aceitamos estar aqui, ter chegado aqui. E é onde estamos hoje... Carl Rogers dizia que para nos curarmos, precisamos, primeiramente, aceitar onde estamos. Voltando à triste imprensa brasileira, não posso culpá-la como a responsável por nossa desgraça histórica. São jornalistas, editores, etc., filhos de famílias brasileiras. Como disse João Ubaldo Ribeiro, vieram de casas brasileiras, são a nossa cara. Quando os vemos sugar a tragédia e torná-la espetáculo de consumo, é a nós mesmos que estamos vendo. Jean Baudrillard responsabiliza as massas, a quem ele chama de "maiorias silenciosas", por serem o que são, ou o que escolheram não ser. Araceli, Eloá, Lindenberg, o maníaco do parque, o bandido da luz vermelha, Lindomar Castilho, Daniela Perez, e tantos outros são vítimas de nossas escolhas, do abandono em que escolhemos viver e ao qual nos condenamos um ao outro. A violência contra a juventude e a infância está fora do controle. O narcotráfico é um Estado paralelo. Já não sabemos quem nos governa. A polícia briga entre si enquanto ficamos alheios às verdadeiras causas de tanto ódio mútuo. Os brasileiros aceitaram ser reféns de sua própria história medíocre. Não somos nada para quem nos colonizou e escolhemos não ser nada uns para os outros. Coitado de Policarpo Quaresma; triste fim realmente. Uma personagem idealizada, o sonho de um brasileiro que teria construído outro Brasil se não fosse tão só e irreal. Muitos o leram e o lêem. Mas, não somos Policarpo. Parece que não queremos existir. Um exemplo disto é a última tragédia televisionada em tempo recorde pelas emissoras de televisão brasileiras. Não houve ninguém competente para realmente desarmar o assassino de Eloá. Nenhuma classe profissional conseguiu desfazer o desarranjo interior do jovem Lindenberg. Não puderam, pois não tinham sensibilidade e educação suficientes para compreender o abandono existencial em que vivia e que o levou a uma atitude tão extrema e condenável. Pensei comigo: provavelmente, isto se deu porque, em nosso contexto brasileiro pós moderno, o outro não existe. Perdemos a habilidade de persuadir o outro a resgatar a sua humanidade. Afinal de contas, o outro deixou de existir para nós. Não houve um ser completamente humano que tivesse essa competência. Somos todos vítimas. Está certo. Mas, somos as nossas próprias vítimas e reiteramos a decisão de sermos vítimas de nossa própria insensatez. O futuro a que nos referíamos com tanto ardor no século passado já chegou. Somos, cada um de nós, sem exceção, os frutos de quinhentos anos de inexistência. A sociedade brasileira está gravemente enferma!



Fato e reflexão

segunda-feira, outubro 20, 2008 · 2 comentários

blog discussão

Parece que o blog adentra a uma fase mais jornalística, prendendo-se aos fatos, muito embora eu acredite que a vida não seja feita só de novidades, muitas das quais absolutamente desnecessárias. Aliás, podemos até fazer uma pequena e singela reflexão sobre muitas notícias veiculadas pelos mais diversos veículos de comunicação. Daí então, o telespectador é informado que um automóvel entrou dentro de um bar, que um botijão explodiu em uma casa, que um cachorro matou seu próprio dono. São fatos que ao saber deles nada somam ao crescimento de qualquer indivíduo. Mas é jornalismo, barato, mas é. É, penso, modo de manter o sujeito anestesiado dos fatos que realmente interessam. Um trabalho para a manutenção das coisas como elas patéticamente são.

Imaginemos um veículo de comunicação desprendido de interesses políticos e comerciais. Digamos que ele fiscalize, como é um dos papéis da imprensa, a gestão da prefeitura. De certo, teria muito a contribuir para a população, na medida em que seria ferramenta de cobrança para uma administração eficaz e condizente com o interesse da cidade. De certa forma, os jornais até fazem isto. Mas pensemos bem. Se há tanta corrupção, e todos nós sabemos que há, por que jornais e revistas dedicam tão pouco espaço às investigações neste sentido? Parece-me que há uma espécie de corroboração com atos lesivos aos cofres públicos.

Voltemos ao blog. O fato é que há uma ausência de luz literária que fez este blog silenciar textos. Esperar, deixar a solução no tempo, é opção válida. O que não se pode é abraçar a indiferença e deixar o leitor sem qualquer satisfação. Assim, fica depreendido que se dá sobre o autor do blog morte de palavras, que lhe calaram textos ao longo da semana que se passou. Opção é atentar-se aos fatos. Parece que este é caminho mais fácil, embora não seja desejado, uma vez que este blog se caracteriza muito mais por um aspecto literário que jornalístico.

A escolha do fato. O lamento pela morte da menina sequestrada pelo ex-namorado com sérios problemas emocionais. A falha da polícia. O apetite da imprensa. A esperança da família e de muitos brasileiros solidários. E a certeza de que não é a última tragédia, pois que sempre teremos fatos trágicos em sua duração, bem como em seu desfecho, o que faz tinir diversos repórteres, editores e pauteiros. Daí, você vê na TV debate sobre a tragédia. É a imprensa brincando de ser séria, quando na verdade faz é exata exploração da morte alheia, fingindo interesse real pela questão, quando em verdade estão em jogo os índices de audiência, o quanto se ganha, bem como a exposição do jornalista, o que resulta em valorização do seu "passe".

Evidentemente que não se propõe aqui que a imprensa se cale. Tragédias sempre vão ocorrer e faz parte do papel dos veículos de comunicação fazer a cobertura, bem como trabalhar nos desdobramentos. Só não nos iludamos com a existência de preocupação real com o sofrimento alheio. Talvez não devamos entender isto como uma crítica, senão como uma reflexão sincera, pois é possível que a postura do jornalista seja diferente mesmo, desprendendo-se do fato, realizando seu trabalho jornalístico o menos subjetivamente possível. No fim, acho que dá pra entender. Apenas a audiência pode ficar alerta e não se iludir com emoções que se tentam passar.

O blog lamenta a morte da menina assassinada pela ciúmes doentio, advindo de uma baixa auto-estima por parte do seu algoz, lembrando que diversos pares de muitas mulheres as matam dia a dia. O que podemos dizer é que a família perde boa parte da alegria necessária para enfrentar a vida. O rapaz, preso por ora, realizou seu trabalho de vingança. A justiça irá condená-lo, posto que é cidadão pobre. Se fosse um homem rico, poderíamos duvidar da eficácia das leis, como no caso do promotor de justiça que matou e volta ao trabalho por determinação do STF. Mas o sequestrador é pobre. De certo, não terá muito tempo de vida, pois alguém poderá vingar a morte da menina. Mas isto é outra questão.

Gostaria de poder entrevistar o sequestrador. Investigar causas. Saber de fatos que a imprensa tradicional não pesquisa. Saber mais do que está por trás. O ser humano é isto, uma caixa- preta. Eu gostaria de abrir a caixa-preta do fato. Investigar passado. Sem querer inocentar quem quer que seja. E com a certeza de que a família daquela que se foi sofrerá por um tempo imposto pela morte. "É o preço que pagamos". Não foi, nem será a última vez.



Um dia como outro

domingo, outubro 12, 2008 · 0 comentários

Faz um tempo que mudei de jornal. Sigo lendo um outro que também é de grande circulação no país. A leitura é feita com estrita vigilância, feito os trens do filme a que um dia eu assisti, mas que a memória não registrou quase nada, cujo nome é "Trens estritamente vigiados". De certo, terei outra chance. Mas o assunto aqui não é a obra que vi em tela de minha sala, nem mesmo o periódico, mas sim aquele que domina as páginas de toda imprensa mundial. Falo de um fato que tem dado preocupação grande a muitas pessoas, excluídas aquelas que seguem à deriva dos fatos. Trata-se da crise financeira mundial. Evidentemente que não posso abordar aspectos econômicos, pois não sou especialista no assunto. Deixo apenas aqui as sensações minhas que tenho ao ler sobre o assunto em questão, posto que nós leitores espalhados por todo este mundo não somos lá tão diferentes.

Um indivíduo no metrô de São Paulo. Outra na Rússia. Um alemão em Berlim. Japonês. Inglês. Irlandês. Americano. Este último, de certo o mais preocupado. Quem sabe um dos que hipotecou sua casa para ter crédito para especulação, mas que agora não tem liquidez para honrar o compromisso assumido. Outros compatriotas que se embrenharam no mesmo negócio, parte deles, mora hoje em seus automóveis, pois tiveram que entregar as casas, que eram as garantias oferecidas aos bancos para tomarem empréstimos e assim consumir como queriam.

Aquele indivíduo que lê o caderno de economia no metrô desta capital que é caótica em muitos aspectos, mas que segue trabalhando para ser uma metrópole referêncial no mundo. Preocupa-se. É avisado que o Brasil crescerá cerca de 5,4% neste ano. Que os fundamentos da nossa economia são sólidos e nosso sistema bancário é muito bem vigiado pelo Banco Central. Fica mais tranquilo. Mas e ano que vem, indaga-se? E meu emprego? E os mais pobres? E as ações irrisórias que possui? E lamenta-se que há algumas semanas atrás só lia boas notícias sobre economia a respeito do seu país. Agora, a inflação corre riscos por problemas de vizinhos ditos irrresponsáveis.

A cada dia que lê um artigo busca neles uma frase que alivie a preocupação, o medo. Economia e política tangem nossas vidas, aprendeu faz tempo. E sabe que o assunto não é lá tão palatável à maioria das pessoas. Quer uma análise, uma afirmativa cheio de certezas que diga que o pior já passou, está tudo sobre controle. Algumas vezes consegue linhas que apaziguam a preocupação. Mas lê vez em vez que o incerto está no ar, que os mercados estão nervosos. Constata nas leituras as derrocadas das bolsas em todo o mundo.

Enquanto escreve este texto, ao prosseguir dois dias após tê-lo iniciado, pensa que poderá afugentar o leitor com tal assunto. Assim, cresce nele a intenção pela completa declinação. Então, volta para o local do início, aquele vagão de trem do Metrô de São Paulo. Tudo limpinho. Avisos sonoros ofertados aos passageiros de modo educado. Vai demorar para as pessoas se acostumarem a não aglomerar nas portas dos trens, pois é este o maior motivo da atraso dos trens. Obediente, assim que adentra ao retângulo da composição, busca o corredor. Mas sabe que muitos precisam desobedecer para se auto-afirmar. Coisas do ser humano, já não se revolta.

O assunto em questão pede passagem novamente. Até o final da viagem, é possível que o índice da bolsa de valores de São Paulo caia mais um pouco. Muitos irão perder mais dinheiro. Recorda-se do telefonema do corretor, afirmando que o momento é bom para investir. Mas mesmo que estivesse desavisado não teria fechado negócio, pois não tinha dinheiro para tal.

Dorme. O sono é grande e o assento de plástico é convidativo, embora isto pareça estranho. Cerra os olhos sem constrangimento algum. Acorda vez em quando. As manchetes estão em suas mãos, impressas na folha daquele jornal. Sente um cheiro desagradável e não compreende a razão do odor. Pensa que é da estação por qualquer motivo que seja. Após dormir mais um pouco, é obrigado a levantar-se para dar lugar à uma senhora que aceita de muito bom grado a gentileza vestida de obrigação. Mira olhos para atrás e vê o porquê do cheiro. Uma criança vomitara. Expressa indignação, que na verdade é o receio de que o vômito pudesse ter golpeado sua roupa. Um dia destes acordará com a roupa suja por necessidades alheias, pensa.

O fim da viagem já se deu, é rápido mesmo, quando você se dá conta, já foi. Abre a chave da porta da sua sala onde cumpri carga-horária que é de meio período. Liga o computador e novas notícias sobre a crise externa estão estampadas no site em que se conecta para verificar sua caixa-postal. Clica em alguns links, quer mais notícias, precisa se atualizar. É a velocidade com que chega a informação desde o advento da rede mundial de computadores. Para alguns, o jornal de papel está fadado. Mas na internet, ele não encontra o aprofundamento que gosta nos periódicos de papel.

Dali em diante, o trabalho irá tomar seu tempo. Neste ínterim, há um desligamento do mundo das informações. Agora opera algumas tecnologias. Mas à noite, terá em mãos o exemplar do dia do jornal que não é exatamente o preferido. Cansado de ler sobre economia, fará opção inicial por política. Vai ler sobre as eleições municipais, assunto que o interessa. Mas talvez, de cansado que estará, abdicará de leituras. Ficará a ora olhar o nada, ora observar o todo, que se fragmenta em sua inevitável subjetividade. E este é apenas um dia de tantos outros. Até que não mais.



Trinta minutos de uma ida

quinta-feira, outubro 09, 2008 · 0 comentários

Utiliza as palavras iniciais para provocar os sentimentos quietos dentro de si. As emoções, para que aflorem, necessitam motivação. Elas não se dão como desejamos, em momento escolhido. É por isso que quase todas as vezes que se propõe um texto, faz consigo provocação interna de sentimentos.


Sentou-se ao lado dela. Poderia ter sentado junto àquele senhor, mas fez rápida opção. Havia um motivo, pois o banco por ora preterido era de fato o preferido. Mas o homem com mais idade sentava-se de forma tal que ocupava quase todo o assento que não era o seu. Como negou a si o uso da palavra educada para sentar –se onde realmente queria, ficou junto à moça, e já estava de bom tamanho.


Mecanicamente abriu o jornal que não era de hoje. Leu algumas linhas com desfoque na atenção. Sem demora, compreendeu que não desejava tal leitura. Preferia observar, e, sobretudo, expressar seus sentimentos. Nada escreveu no momento relatado, embora tivesse tencionado fazê-lo. Observou os demais seres humanos. Havia nele, lamento por si e pelos demais ali presentes. Gostava-se naquele momento. Alguma esperança o tinha, e os seres humanos pareciam-lhe mais belos em suas essências.


As estações foram passando e sono algum o visitava. No olhar, ausência daquela dureza que finge proteção. Depreender que se tratava de uma serenidade alcançada é equívoco compreensível. Naquele quadrado preenchido de corpos e sentimentos, era ele um pote até aqui de emoções, como poderia dizer alguma canção do Chico. Em alguns momentos o olhar para o piso emborrachado era evidência de um aborrecimento. E, embora um pico de infelicidade o incomodasse, não sentia a angústia que este sentimento costuma trazer. Ao final dos cerca de trinta minutos da viagem, sentia-se melhor. Talvez fosse a clara evidência da boa administração que fizera de suas emoções.


Antes da chegada à estação de partida, cumprira obrigações financeiras. Até então, havia nele um pico de agressividade. Ao caixa daquele magazine não foi e nem quis ser simpático. Ainda representava o personagem metropolitano que, mergulhado em lodoso individualismo, caminhava mal humorado e com passos apressados ao seu destino indesejado, mas que obrigação e necessidade faziam-no abdicar dá liberdade desejada no ínterim em questão.


Lembrou-se que lera belíssimo samba escrito por Chico. A mesma canção que ofertara pela manhã com a utilização de outro sentido. Reafirmara a si a necessidade que todos têm pela arte, e que talvez seja a melhor invenção do homem, embora muitas vezes em mãos equivocadas.


Pausa. Silêncio. Por alguma razão a porta literária se fecha. Um lapso que não consegue explicar levou-lhe os sentimentos que lhe ofertam palavras para que sejam expressas no branco do papel. De repente, viu o cessar de luz. A porta fechava-se lentamente. O silêncio pedia lugar. Obedeceu sem querer compreender. E assim, submissamente, guardou a caneta. Dobrou papel. Cruzou braços e pernas. Olhou ao redor. Calou-se.



Além de pegue-e-pague

domingo, outubro 05, 2008 · 0 comentários

O ambiente de agora não o utilizo. Opto por criar outro que talvez seja o que desejo, e que em breve, neste mesmo dia, estarei nele, o que é apenas uma probabilidade não calculada. É uma troca de tempos. Presente pelo futuro. Ilustração sincera do engodo que é a dita existência de liberdade numa democracia capitalista. Mas é assim a vida para quem tem obrigações. Muito provavelmente não nos relacionaríamos bem com a liberdade plena. Só não nos venda ilusões, por favor.

Precisei de quatros pardes, som do Chico, luz acesa. Uma solidão bem vinda, necessária. É o cansaço de tudo, de tanto consumo desavisado. Ele com um pacote em mãos com o chipe que a nova companhia telefônica vende. Puxa, por que você se resume a só isto? Não há mais do que ser mero e manipulável consumidor?

Ando pelos locais onde outras pessoas circulam. O fragmento do mundo atual expresso nas diferentes partes de modo igual. Donos do poder ditam o que devemos comprar, ler, ouvir, assistir e até não sentir. Não há a liberdade que os capitalistas apregoam. Lamento, isso é falácia. Estamos presos num mundo raso em que consumir é o que nos resta. Sinto, mas, humanos, somos além de pegue-e-pague. Há muito mais para se viver. Há os sentimentos. A essência de cada um. Por que alguém famoso deve ter tanta importância? E o que se vai dentro desta pessoa? Será realmente que ela é digna de nossos aplausos, ou dos gritos violentos da extrema carência? Será que as ditas celebridades merecem a atenção que um ser humano digno e de boa alma tem direito? Claro, ninguém é tão bobo. Se você não se preocupa com o caráter, o interior das pessoas, tanto faz que humano de fato é aquele por quem você se menospreza.

Estou em um hotel de luxo. Uma pessoa conhecida nacionalmente. Já está acostumada em ser abordada. Corpos femininos estão à sua disposição. Ela se serve de alguns deles em ocasiões que a chance dá. O falso carinho que você demonstra por ela ganha reciprocidade exatamente na falsidade. Eu apenas a cumprimento educamente. Não vou além disso. Não quero fotos ao lado da pessoa em questão. Lamento, mas não me resumo a comportamentos de tietagem. Faço meu trabalho e o que mais desejo é sair daquele lugar. Não nego incômodo em ver o comportamenteo dos fãs, que se desgostam entre si. Abraçam a superficialidade e endeusam o famosos. Sua essência. Seu caráter. Isso tudo os fãs não indagam. Bom, vai ver que nem a si, sobre quem são de fato, eles se questionam.
Vou-me embora. O grito se cala em mim. Sobre o assunto, nada comento com conhecidos. As informações, guardo parte delas. Na espera de momento qualquer, a expressão dos sentimentos. Críticas e lamentos. São questionamentos que faço e necessito. Vai ver que duvidar e indagar é uma necessidade. E não apenas na hora do pegue-e-pague. Nossa existência está muito além disto. Desculpem-me donos do capital. Perdoem-me por não acreditar em vocês. Acho que assim, desacreditanto, toco levemente a liberdade.



Digitais do futuro

sexta-feira, outubro 03, 2008 · 0 comentários

Domingo. As eleições se darão pelo país. Em cada cidade o ato do voto feito com o desleixo dado pela desinformação. Para muitos, votar é mais inútil do que existir. Assim ensinaram a estas pessoas. E desta maneira elas devem seguir pensando. Só assim para indivíduos absolutamente equivocados se elegerem. Depois de eleitos, o povo tem que correr dia a dia, não há tempo, a sombra das necessidades se faz presente.
Claro, não podemos esperar muito de eleitores que passaram quatro anos obcecados pelas idiotices na tela da TV. Todas elas exibidas pelos canais campeões de audiência. Daí, eu me recordo daquele refeitório. Do aparelho 4x3 ligado. Das pessoas caladas. Fixas. Inertes. Imbecis. Na tela algo absolutamente idiota comandado pela apresentadora, cujo vazio é evidente, cuja essência é desnecessária para o mundo. Mas ela faz seu papel. O grupo de trabalhadores anestesiados também faz o seu. Eu faço o meu. E a prisão é coletiva.
Quando digitais diferentes teclarem no verde ou vermelho, será como o planejamento de mais quatro anos para os municípios. O prazo já dá um pouco do grau de importância no ato de votar que é desprezado pela maioria. Estaremos, todos nós, apertando a tecla do futuro. Dá pra ser negligente com tal ato?
O blog exibe ao lado deste texto uma lista com os candidatos que obtiveram média superior a sete. A ONG Voto Consciente (http://www.votoconsciente.org.br/) analisou o mandato de homens e mulheres eleitas pelo povo. Opiniões & Crônicas estabeleceu como nota mínima a sete. Assim, só foram aprovados por este blog um pequeno número de vereadores. Na escola o aluno tem que atingir uma nota mínima. Na faculdade a mesma coisa. Numa fábrica há metas. Em bancos também há. Para os vereadores também deve haver um valor mínimo a se atingir. E aquele que não o fizer, deve ser reprovado e ficar de fora das elelições seguintes. Para aqueles que votarão com consciência, bom voto. Para os que votarão por votar, meus lamentos por todos.



Esperança para os que nascem nesta semana

terça-feira, setembro 30, 2008 · 0 comentários

As calçadas de uma das avenidas do bairro que divido com outros seres humanos - cada qual com sua história - foram reformadas. Uma grande rede de magazines inaugurou ali um dos vários pontos de vendas que espalhou pela cidade. Estou no Tucuruvi, bairro com classe média cercada de muita pobreza. Retrato fiel das desigualdades sociais na capital mais rica da América Latina.

Vejo as pessoas e me incomoda a certeza de que quase todos ali, não me excluo nisto, possuem um nível educacional medíocre. Se a minha formação é frágil, a daqueles homens e mulheres de trajes simples, sofrimento nas faces, é ainda pior. E é essa possibilidade de comparação que me inquieta e me traz certo desgosto pela realidade social deste país que ainda não é de todos.

Confesso, deixo aqui o relato de meu grande sonho. Que o brasileiro possa usufruir de verdadeiro e denso sistema educacional. Mas isso é utopia, eu sei. Só mais uma das que carrego comigo. Quem sabe eu apenas não projete nos outros um desejo para mim. Quem sabe esse meu ato não é a expressão de meu egoísmo que se disfarça em coletivismo. Mas mesmo que o seja, não importa tanto.

Sejamos, então, menos utópicos e mais aventureiros. Encaremos o mundo como uma grande floresta hostil. Nela, cada indivíduo deve lutar não apenas para sobreviver, mas também escapar das armadilhas que o sistema vigente impõe. Nesse contexto árduo, só os mais aptos vencerão. E citemos como exemplo um menino de rua que virou economista, entre tantos outros que saíram do nada e mudaram suas realidades. Este é o uso das exceções. Um modo de justificar tudo como está. Nada mais cruel e hipócrita.

Sim, eu e você sabemos quantos são extremamente acomodados. Muita gente é assim. Mas pode ser que aprenderam justamente tal comportamento na escola pública, que produz sujeitos que não gostam de pensar. Daí, a Matemática é inimiga aceita passivamente. O caminho mais fácil e cômodo sempre será o preferido.

Por mais que eu tente justificar os péssimos índices socais, sempre irei encontrar o contraditório. Faça simples comparação. Pegue os filhos da classe média alta e os de famílias pobres. Os primeiros, quase todos, estudaram, têm curso superior e vivem bem do ponto de vista econômico. Os outros, do grupo que vive precariamente, em sua maioria, de certo não estão melhores que os seus pais. São as heranças sociais das quais é difícil se livrar. Estudaram pouco. Conseguiram os piores empregos. E as perspectivas sempre foram reduzidas.

Declino da contestação. Agora uso de positividade. Nosso país caminha vagarosamente para ser uma nação desenvolvida, ao que parece. Com a descoberta do Pré-sal, em Santos, surge a chance de avançar mais. Esperançoso, acredito que o país vai melhorar. O atual presidente que, com seu alto índice de aprovação, já pauta o próximo governo. O desenvolvimento petrolífero em nosso quintal deverá beneficiar a nação, afirmou Lula. De certo, o próximo presidente não irá retirar a pauta lulista de seu governo. O país só possui um caminho: avançar. E, ao que tudo indica, apenas uma crise externa pode nos atrapalhar. Sigo esperançoso que este Brasil será outro Brasil para gerações vindouras. Assim espero. Ao menos, teremos deixado uma boa herança para os que nascem agora e durante a semana.



Nós somos os outros

terça-feira, setembro 23, 2008 · 0 comentários

"A vida é um fardo. Temos que aceitar a dor". "A obrigação de cada um é ser feliz". As pessoas estão cansadas do que está aí". São frases ditas por diferentes pessoas. Há desigualdades intelectuais entre elas, como também não deixa de existir um abismo no que tange à inteligência emocional. Para mais, para menos, todos cumprem o papel permitido por suas mentes.
O fato é que as três filosofias trouxeram-me a tão necessária dúvida. Uma frase que seja minha, no debate em questão, não a tenho. O que trago comigo é inexistência de certeza. O que é bom, pois quem a tem vive cego e, como disse o intelectual, idiota. De qualquer forma, parece pertinente o que diz um dos três filósofos em questão, ao mencionar que não aceitamos as dores da alma. E aí indago por que o medo da tristeza. Parece-me que há a obrigação de sempre estar bem. Vai ver que é por isso que o outro não admite mau-humor ou destempero alheio. Podemos fechar o livro de cobranças e considerar que naquela hora, o nosso interlocutor não estava bem. Vai se saber o que se passa pela pessoa. E também, será possível entender por que aquela pessoa sempre finge semblante sorridente, quando na verdade por dentro é cinza, e só cinza.
Evidentemente que para compreender o outro, você terá que se machucar um pouco. E isto significará o reconhecimento de suas imperfeições, que, perdoe-me, são muitas. A partir disto, ao igual será possível dar uma chance que, de certo, você já desejou para si.
Com tudo dito, fica a certeza de que nem sempre as coisas se dão de forma tão simples. Desavenças, você as terá vez ou outra. Mas será possível que as caras duras e amarradas de hoje, num amanhã que não se sabe quando, sorrirem-lhe de modo sincero, e já sem tantas amarras de antes, mas claro, com algum resquício, não queiramos tanto. Lembrando que nós também somos os outros.



A essência da metrópole

sábado, setembro 20, 2008 · 0 comentários

Diversas vezes usei a terceira pessoa para escrever. É uma forma que me agrada e faz com que eu me sinta observador de mim. Mas hoje uso a primeira pessoa. Acho que adentro uma fase de maior exposição dessa pessoa que eu sou. E não é que eu deixe de ser eu em terceira pessoa. Mas quando optei pela opção que me dei, apenas me desdobrava entre o observado e observante. Se isto para você é devaneio, para mim é também. E davaneios são assim, deliciosos enquanto inofensivos.

Era a terceira vez que ele parava defronte ao stand. Pediu-me alguns informativos. Eu, do mesmo modo desde a sua primeira visita, obedeci ao seu pedido, bem como duvidei de que seu ato fosse algo verdadeiro. E foi agora que trocamos algumas palavras, das quais eu não entendi quase todas. E aí descobri que tratá-se de um homem já aposentado, que a pinga lhe agrada, embora as medicações que toma o impeçam de sorver o álcool que gosta de arder na garganta. Consegui finalizar a conversa. Rimos algumas vezes. E, quase o tempo todo, me fiz compreender, embora eu inventasse, posto que o homem possuia severa dificuldade para articular palavras.

São Paulo é assim cheio de personagens. Outro dia abordei um homem que a cara inchada o qual ele a expõe com excesso de maquiagem, cujo exagero parece metafórico, na medida em que ela representa o pesar que sua alma transparece no rosto que não é nada convidativo. Ele não aceitou conceder-me uma entrevista sem um cachê. O modo como confirmou a necessidade de algum valor que lhe valesse à pena dizer-me quem é, demonstrou classe e firmeza. Claro, não senti raiva alguma dele, pois entendi que era a necessidade que o fazia cobrar para falar. O que posso dizer dele é que o vi algumas vezes. Ele anda pela Avenida Paulista, nas proximidades da Consolação. Abordá-lo não se deu no primeiro momento que o vi naquele domingo. Eu calculei que o máximo que ele me ofertaria seria um "não". Do cálculo feito, a precisão foi perfeita. Mas eu me senti vitorioso, pois não apenas havia abordado a pessoa, bem como descobrira pistas de quem seria aquele ser humano.

A primeria vez que vi e ouvi aquele oriental cantando e pregando a palavra de Jesus foi há alguns anos. Naquela época, eu nem pensava em escrever, embora fosse coisa que eu gostasse. Dia algum, naqueles dias daquele tempo melancólico, tencionei entrevistá-lo. Hoje, contudo, as mudanças da vida, este blog, o curso de jornalismo, fez com que este homem se tornasse mais interessante do que simplesmente observá-lo. De certo, ele dá uma história. E, sem dúvida, tratá-se de alguém que pessoa que utiliza o metrô poderá tê-lo visto e, quem sabe, se aborrecido com sua pregação contínua, que se dá não apenas pela voz que destoa, bem como nas escritas em sua camiseta sempre preta. E por que será que ele veste sempre a camiseta preta? E será que eu não me confundo e esqueço que já o vi com outras cores?

São Paulo, sobretudo, é isto. Pessoas. Histórias. Seres humanos. Algumas pessoas desafiam a invisibilidade do dia-a-dia. São transgressoras da paisagem urbana, em que pessoas comuns como nós não são vistas. Passam desapercebidas. E se acaso invadimos o campo ocular alheio, sentimo-nos hostilizados de algum modo, seja pela indiferença, ou até pela dureza da expressão do outro. São Paulo, metrópole, não é para todos. E se você quer exemplo, eu o tenho aqui nas mangas da memória. Ela, bela de rosto e corpo, assustou-se com esta cidade. Chorou debaixo do chuveiro. Sentiu saudade de sua "vidinha" naquela cidade do interior. E, de fato, voltou para lá. Aqui, o medo era grande. De um modo tal, que esperar o próximo trem do Metrô era inevitável a sensação de alguém pudesse empurrá-la na frente do trem.

Assim, ao final deste texto, pode quem lê perguntar-se por que escrevi isto. É que, perdoa-me, nesta cidade, muito mais interessante do que os carros, as propagandas, as sirenes desvairadas, discussões de trânsito, discursos de corpos, magnatas descolados da realidade, obras, produtos, sobretudo produtos e suas vitrines - perdoa, não esqueça disto -, muito mais interessantes são as pessoas que habitam aqui. E isto independe da classe social de cada um. Os seres humanos aqui é que carregam a essência desta metrópole. E, mesmo aqueles que desgostamos, cada um de nós carrega verdades as quais nem nós, donos delas, temos exata consciência.



O dia que virou ontem

terça-feira, setembro 16, 2008 · 0 comentários

Adentro ao vagão e procuro um banco à janela. É que carrego tanto sono que tramo dormir. O cansaço se evidencia em meu semblante. Observo ao redor meu de modo até belo. É gostoso mirar rostos sem condená-los. Nem mesmo observar o vomitar da criança me traz repugnação. Olho para aquelas pessoas, partículas de uma massa inerte, e não as vejo mais como vítimas de um sistema cruel. Somo-me a elas e concluo que a culpa é nossa. Delegamos responsabilidades e seguimos assim alheios às principais questões das vidas nossas. Podemos culpá-los?

Acho que estou assim, bobo. De um modo tal que não sentiria raiva alguma de você. Nem mesmo condeno o jovem negro que entrou atabalhoadamente e tomou a frente de velhinhas brancas para sentar-se. Pensei até que ele se vingasse do preconceito que mancha seu cotidiano de cinza. Ofereci meu lugar a uma delas, mas não como quem quisesse ser escola. Acho que temia a opinião alheia. A senhora, um tanto assutada, avisou-me que desceria na estação seguinte, não carecia.

Seguimos viagem. Meus olhos observam. A próxima estação era a que eu desceria. A escada me leva, eu não tenho pressa, embora esteja atrasado. Meu horário de entrada é anotado pelo funcionário que já tenho como amigo. Alguém que dá uma história que talvez um dia eu conte. Dirijo-me ao meu espaço. Ajeito tudo ao modo que gosto. Visto mais uma blusa, aqui é frio e vento. E receio escrever. Algumas idéias povoam a minha mente. Mas eu temia escrever mais do mesmo.

Dirijo-me à cozinha e lá encontro um guarda de azul que parece tentar disfarçar alguma tristeza. Hoje não senti o repúdio de antes. Esqueci-me de seus pedidos impertinentes. Ofereço-lhe café. Mas ambos declinamos do ato. O líquido que preenche a garrafa está frio. Despedi-me e voltei para o meu canto.

Pela manhã estive com irmão, cuja vida lhe parece aborrecedora, mas que de algum modo ele tenta portas que o tragam alguma emoção. Antes de tudo aqui dito, sair da cama foi luta que venci, embora com algum atraso. Desta vez, felizmente a obrigação venceu a preguiça.

Recordo-me agora das eleições. Época que evidencia o quanto nos eximimos das responsabilidades. Deixamos o orçamento da cidade nas mãos de um grupo. Não nos apresentamos. Não cobramos. Aliás, as cobranças deixamo-nas para a impresa. Apenas reclamamos. E muitas vezes de modo improcedente. Deixamos tudo nas mãos do outros. Se tudo não está tão bem, a culpa é só deles?

Hoje é domingo e já foi o tempo de "tudo está fechado". Pessoas passam por aqui sem me causar espécie alguma de incômodo. E não é que eu carregue comigo algum êxtase de felicidade. Há, de certo, algum aborrecimento, o que considero algo muito positivo.

Agora, no ato da digitação deste texto, é outro dia. O domingo se foi, e até que me agradadaram as horas deste "dia de descanço". A partir daqui, muda o tempo do verbo. O domingo é passado, como tantos outros domingos. E se você perceber, é tão rápido que a gente nem percebe. Não sei ao certo como terminou o dia de ontem. Mas houve amigo, família, eu. Mas também não houve. Mas isto é outro assunto, o qual, agora, a porta se fecha. Este parágrafo já entra para o passado.



Rápida edição de cenas

domingo, setembro 14, 2008 · 0 comentários

Parou. Olhou. Imediatamente desviou olhar. Não demorou segundos que dessem um minuto e se foi com sua turma. Seu rosto já são fragmentos de um registro que logo se vai. Jogou a caneta sobre o papel e esperou. Olhou em redor. Precisava de um outro personagem não identificado. O ato do início deste parágrafo se repete agora.
Ficou entre escrever sobre os dois que, proibidamente, corriam, e a mulher que ainda há pouco, quase nada, pedira informação. E até quis dizer algo sobre a morena bela e ombro que doia ao apoiar braço no que talvez seja um para-peito.
Do bolso tirou a mão. Descruzou pernas. Avistou rosto conhecido. Gostou do decote. Enquanto quase tudo isto, senhor procurava papel com endereço. Pediu a informação de maneira cortês e seguiu seu caminho. A caneta registrou imediatamente fatos ocorridos. Comparou seus olhos com a lente da câmera que registra imagens. Não entendeu a cena. O senhor de muletas chamava por alguém. Dois rapazes de óculos ficaram bravos ao ver que não era com eles. Surge no quadro que não se pode dimensionar uma senhora que pode ser sua esposa. Buscam a saída daqui. No corte de cena, a visão de outro homem com muleta. Não é encontro algum, senão algo casual. E na expressão do que foi registrado, a desistência como opção. Já parou aqui senhor que arranjou por comunicar-se mal. E já se foi jovem insistente com pedido de favor que ter sido atendido poderia trazer transtornos. Fundo preto.



Ato aleatório de palavras

segunda-feira, setembro 08, 2008 · 1 comentários

No âmbito da questão. A escolha imprecisa da idéia. O uso de conteúdos calados. A busca pelo destravamento sentimental. A recordação de outros fatos, outros usos. Uma leviandade na paquera. Ela como mero teste. Ainda está em forma? Depois disto, o que se tem é rápida desistência. Daí, o caminho que surge é inexistente. Como caminhar? Prosseguir? Ir? Sem opção a olhos vistos, vai o passo seguinte. Não sabe onde pisa. Parece cutucar algo em seu obscuro interior. E o que encontra, ele gosta? Se não gosta, se esquiva? Nem um, nem outro. Gostar não é a questão. O que lhe vale é a imediata expressão. Uma utilização aleatória de palavras. Para que, nessa perfuração literária, encontre em seu âmago alguns “eus” desconhecidos, e até os que já não são novidade.
É o texto terapia. O mergulho por meio de vocábulos. No divã, ele. À escuta, ele também. Ato insano? Devaneio? Será que tudo o que você faz tem explicação, razão? É você uma máquina perfeita que não comete atos ilógicos? Mas por que lhe indago tão agressivo? Não sei. E, confesso, você atrapalhou, desviou o galope das palavras.
O final do parágrafo antecessor. O engano cometido. Desvio da falta de rumo. Segundos de silêncio. Escuridão de idéias que retorna. Cilada despercebida. Novamente, tática aleatória na construção de frases. É, de fato, o caminhar para o canto. Sentar-se. Resignar-se. Silenciar. Mas, de forma alguma, lastimar. É assim mesmo, já é sabido. Quantas vezes não abrimos mão de uma empreitada? Não é a última vez. Importa é a serenidade do ato silencioso. Não é desistência com algum ranço de derrota ...
A obrigação das circunstâncias interrompeu o processo construtório de palavras. E assim, por ora, agora, silêncio é o que se dá.



Os meninos da "Embalagem"

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blog série - "Naquela empresa"


Revolvi o arquivo do blog. Encontrei a uma série de textos: "Naquela empresa". Um passado presente. Uma falha minha comigo e com os leitores. Eu deixei de escrever a respeito do assunto a que se refere esta série. Há muito o que dizer a respeito. Os cincos anos naquela empresa foram-me aulas práticas de sociologia. Dali, muitos reflexões podem ser tiradas. Seja dos relacionamentos entre as pessoas. A relação patrão-empregados. O estudo como libertação. A escravidão assalariada em função das péssimas condições sócio-economicas dos trabalhadores. Enfim, há o que dizer.

Dia-a-dia o elevador parava no 10º andar. Tocava a campainha e entrava. Eu já não era o mesmo dos anos iniciais de quando entrei na empresa. O movimento de libertação se dava em mim. Talvez o primeiro passo tenha sido a revolta. Sim, eu não podia estar ali naquele ambiente aviltante. Éramos como se fóssemos trabalhadores excluídos da legislação trabalhista. No pagamento, quando assinávamos dois holerits, éramos lembrados dos desrespeito aos nossos diretos. O dono daquela empresa expressava seu desprezo para com seus funcionários. Por ele, todos ali morreriam ganhando o mesmo salário de cinco anos atrás. Ele não tinha a obrigação de gostar de ninguém. Tudo bem que sua religião eram os lucros. Mas o respeito aos trabalhadores não prescinde amor ao próximo. Sentíamos fortemente a ausência do Estado. Nem mesmo uma carta-denúncia mudaria tudo. Só havia uma saída: o pedido de demissão.

Ao conversar com um dos funcionários em que a revolta contra o patrão era das maiores, percebi a diferença de mundos que vivíamos. No contexto da conversa, perguntei-lhe a cor das paredes de sua casa. Informou-me que não possuiam cor alguma. Depreendi, imediatamente, que ele morava em casa de tijolos vermelhos rebocados. Mas talvez pudesse ser algo mais precário ainda. Se o leitor não consegue visualizar, basta que procure fotos das casas nas periferias de São Paulo. O meu interlecutor morava num dos bairros mais pobres desta metrópole desigual: Guaianazes, zona leste da capital. Não me constrangi com a minha pergunta. Eu aprendera e usar do bom humor reconquistado para sair dos labirintos impostos pelas diferenças sócio-culturais dentro daquele empresa. Afirmar que eu sempre era hábil seria uma precisa inverdade.

A reflexão que quero fazer a partir deste passado naquele empresa é a prisão a que se submetem trabalhadores pelas simples impossibilidade de mudar de emprego, em função não apenas do seu baixo nível de escolaridade, bem como uma alta taxa de desemprego. Assim, aqueles jovens rapazes que praticamente brincavam o dia inteiro naquele setor que chamávamos de "Embalagem" carregavam dentro de si enorme revolta com o pequeno salário pago, desproporcional ao excesso de trabalho. Todos, não havia excessão, queriam sair dali. Contudo, nenhum deles possuía uma profissão, uma especialidade. No currículo, apenas as experiências passadas e atuais. A única forma de libertar-se seria estudar. Mas pagar um curso era algo impensável. Alguns deles possuíam filhos, embora não fossem casados. Outros, planejavam o casamento. Havia até quem fosse separado e casara-se novamente. O que se tinha ali era um caldo social acizentado. O nível de leitura era extremamente baixo. O jornal que corria a sala era o "Lance", que trata só de futebol. Aliás, as peladas dos finais de semana eram assunto recorrente. Para quem olhasse de fora, veria felicidade. Tudo bem, havia uma alegria momentanea. Mas a conta chegaria lá na frente. E talvez nem demorasse muito.


Os anos iniciais naquela empresa foram extremamente difíceis, como eu já relatei nos outros textos sobre este mesmo assunto. Mas eu não sou o personagem central nesta história. Aliás, seria covardia eu me colocar igualmente aos garotos da "Embalagem". Se estudei, foi por que pertenço a um outro segmento social. Estar ali era circunstancial. E foi com dinheiro de familiares que paguei mais de três mil reais em um curso. Nove meses depois, consegui um outro emprego, agora em uma empresa que é séria nas questões trabalhistas. Claro, não sejamos inocentes. Há forte fiscalização sobre as grandes empresas. Mas isto é outra questão.

O patrão passa pela "Embalagem" e não dá bom dia a ninguém. Todos ali o temem. O medo é fruto do poder que ele tem como dono da empresa. Há uma relação explícita de desprezo entre ele os meninos da "Embalagem". Caras amarradas. Vozes silenciadas. Passos que fazem barulho. É o gigante verificando seu gado. Dali, o patrão entra em outro setor. O mesmo medo. Silêncio igual. Na sala de edição, pode ser que ele dê um "bom dia". O tratamento melhora um pouco. Eu, boa parte da minha presença ali, fui cortês com ele. Dava-lhe bom dia e recebia tratamento igual. O patrão, em verdade, era homem educado. Seu problema era apenas seu caráter despótico em relação às pessoas mais humildes. De qualquer forma, diversas vezes recebi o mesmo desprezo. Mas não o tenho em má conta. Aquele homem carregava consigo um desamor pelo ser humano. Ele parecia vingar-se da humanidade.

continua outro dia....



Cálculos imprecisos

domingo, setembro 07, 2008 · 3 comentários

blog data real 25AGO2008


Fez cálculos imprecisos. Baseou-se em histórias do cotidiano. Concluiu que era por isso mesmo. De repente, todo aquele desconforto, a dor da alma. O medo de sentir tamanha angústia. O domínio da mente. Uma cilada psíquica. A fuga de si como saída única.
Mas no dia seguinte, dos cálculos feitos, fez a busca por solução. Colocou em prática a estratégia arquitetada. Com o passar das horas, a queda da certeza. A matemática sua se mostrou traiçoeira. Outra vez mais foi pego pela tristeza, angústia e desconforto. A porta da ausência foi a única que desejou. Após passar por ela, cerrar olhos foi ato gostoso e necessário. E surpreendeu-se com sua melhora já no final do dia.
Temeu a manhã seguinte. De um modo tal, que não cumpriu as obrigações das primeiras horas de uma segunda-feira indesejada. Manteve-se mais um pouco ausente do mundo. Quando voltar para o mundo das obrigações mostrou-se imperativo, temeu fortemente as dores da alma que se anunciavam. Mas seguiu em frente. Não por coragem, senão por necessidade.
Lembrou-se da filosofia do bom amigo que mencionou o medo que temos pelos momentos infelizes. Sim, ele queria não temer angústias e esse desgostar-se repentino.
Tudo se mostrava ruim como ele projetara. Ao seu lado, o medo. Sua luta pela indiferença desafiava os sentimentos de desgosto. Alguma alegria, e dava como ilusão. Até que na segunda xícara de espresso, as mudanças se mostravam maiores e melhores. Estar ali em público já parecia possível. Agora não era doído estar em meio àquele vai-e-vem de pessoas desconexas entre si. Estava melhor... Um outro eu se calava...

opiniões opiniones opinition

Pois é, Dell. Nosso indissociável personagem de cada dia. Os meus cálculos também são imprecisos. Cest' la vie...Está tudo muito bom por aqui! =)Beijos
Carolina Oliveira, estudante de jornalismo UNIP



Tantas indagações

quinta-feira, setembro 04, 2008 · 0 comentários

Dessa negação quero fazer assunto. Da vontade para a prática a coisa muda. Complica. Emperra. Daí, indaga-se se a saída é imediata necessidade. Parecido com opção. Caminho. Jeito. E prosseguir, de repente, já se torna inevitável. Agora que começou, termina. Se o desânimo bate, desacelera. Parar, não. Fazer o quê? Não é assim que tudo funciona? O humano, agora máquina, tem de se portar como tal. Bom, já que é assim, façamos revisão. Vez em quando emperramos. O sujeito, tem dia, nem sair da cama quer. Pane emocional. E quantas máquinas humanas estão emperradas? Neste momento. Enquanto há o abuso de indagações aqui. São muitos, sabemos. E a causa disto, qual será? Você sabe? Eu sei? Os dominadores dos sistemas sabem? Hoje são essas pessoas. Amanhã poderá ser nós. Mas é cada um por si. Dispersão. Desconexão. Isolacionismo. Individualismo necessário? Inevitável? E afinal, por que essa culpa quando a alma não sorri? Será comportamento natural ou aprendimento com o tempo na na cruel escola da vida?



Somas imprecisas

quarta-feira, setembro 03, 2008 · 0 comentários

A soma que faço, do tempo que observo, na imprecisão da lembrança, dá o resultado de três. São casais extremamente apaixonados. Sobreviventes do pouco romantismo que ainda percebo por aí. Mas, tão falha é a memória, que visualizo na mente apenas dois pares que se beijam e se despedem de modo intenso. São as falhas da memória, indicativo da qualidade duvidosa da máquina humana.
Há outras somas. As pessoas que se destacam em meio à multidão. Desta vez, no cálculo do agora, não há resultados. Dois desses personagens, eu me recordo. Mas, em verdade, o que se tenta recordar aqui é absolutamente secundário. O que caracteriza este texto é o ato provisório, absolutamente incerto, das somas precariamente feitas. Muito provavelmente, tentar reconstruir fatos passados é falso desejo. Sobre a calculadora os dedos deixam digitais com pouca, quase nenhuma, vontade. Expressa, isso sim, o desejo real de agora. Que é escreve, sentir, somar palavras.



Não-crônica

segunda-feira, setembro 01, 2008 · 0 comentários

A não-crônica é feita de negações. Seu êxito se dá fundalmente em não observar. Pra que isso ocorra é necessário que o envolto seja absolutamente indesejável. De um modo tal, que simples registro do movimento alheio de pernas sem vontade é razão para que algum conteúdo seu grite lá de dentro até você desviar os olhos. De qualquer forma, desviar olhar é fuga de um elemento de incômodo. Pode lamentar-se, o desconforto que você sente pelo o que vê não é causado pela imagem momentânea. Há dentro de ti um "pote até aqui de mágoas". Há uma soma de fatos não resolvidos. Há, sim, o salto das inquietudes suas que utilizam do outro para se expressar. É uma dor, e a dor é amiga. Aviso de que algo precisa ser feito.
Então, é um pouco disto o não ato da construção de uma crônica por pior que seja. Você abandona qualquer tentativa de observação. Fecha-se em seu pequeno mundo "tão complicado". Resume a sua existência a você mesmo. E nem se trata de um mergulho interno, senão uma ausência de tudo. Sim, é uma renúncia. Você está aborrecido, amendrontado. Mas é assim, caso você queira deixar de escrever o gênero literário em questão. E assim, por aí, por todos os lados, o que se tem é esse silêncio de palavras. Olhe nos rostos e verá inúmeras não-crônicas.



O caloteiro. A prostituta. E o travesti

domingo, agosto 31, 2008 · 0 comentários

Para aquele que escreve, as histórias que chegam são motivo de vibração. E elas se sucedem e inesperadamente invandem os ouvidos do manipulador de canetas. Muitas vezes de modo indireto. Ele estava ali apenas cumprindo necessidades calóricas naquele refeitório da estação Vila Mariana do Metrô. A história erai contada com muita competência e bom humor por um dos funcionários local.

Foi que o cara contratou uma garota de programa e um travesti. Preço acertado, aquele "prazer" lhe custaria mais de R$250,00. Malandro, ato consumado, corpos como mercadoria, o indivíduo resolveu que não pagaria o valor pré-combinado. Saiu do hotel e deixou os dois corpos na mão.
Para quem acha que o mundo é pequeno, o rapaz caloteiro prova o dito. Cruza com o travesti e a prostituta em uma estação do Metrô. A dupla deu um jeito de aliviar o prejuízo de outrora. Foi então que o rapaz gritou pelos seguranças locais. Esbravejou ali mesmo que tinha irmão como delegado da Polícia Federal, exigindo soluções. Dali, foram todos para o DP mais próximo.
Na delegacia, botou banca utilizando do parentesco mencionado. Tamrimbado, o delegado mandou averiguar a veracidade da informação do depoente. Constatou-se que o irmão não era delegado "coisa nenhuma", mas que apenas trabalhava na Receita Federal. Foi então que deu-se a inversão da malandragem. "O senhor é casado?". "Sim, sou". "Pois então vou chamar a sua esposa para acompanhar o caso". Da arrogância para o desespero, o rapaz implorou que não chamassem a traída. Para a mulher seriam duas decepções. Afinal de contas, ele saira com uma prostituta e um travesti.
Depois disto, não é sabido se a dupla vendedora de "prazer" recebeu pelo serviço prestado. Tampouco se o delegado autuou alguém naquela noite. O que se sabe é que o par de serviçais do sexo deixou cartão com o segurança do metrô que acompanhou o caso, avisando-lhe do desconto garantido.



Declinação da positividade?

quinta-feira, agosto 28, 2008 · 0 comentários

Desgosto por si. Não se aborreça, esse desprezo não é por você. O desagrado. A negação do olhar. O silêncio de palavras. Não leve à mal. Nem se sinta culpado. Tranquilize-se, com o tempo você aprende a não se importar. Aliás, parece que o passar dos anos trás desimportâncias. Não sei exatamente o que é. Mas no campo ocular, com a idade que avança, o foco é menor. Pode até ser uma necessidade humana. Espécie de adaptação ao meio. Mas enfim, com o tempo você chega lá. Maduro, irá se relacionar melhor com os espinhos da vida. Alguns deles até vão deixar de ser nocivos. Você poderá até brincar com eles. Ou mesmo tocá-los sem medo. Isso é modo positivo de ver a vida. De forma alguma é encarado como algo que seja único, universal, geral. Pra tristeza sua, tudo o que foi dito pode não ocorrer. O que vale é quem de algum modo algo vai mudar. O problema é que nem sempre é para melhor. O que seria isto? Declinação da positividade?



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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