Os videogames

quinta-feira, dezembro 13, 2007 ·

Adalton Oliveira


Os videogames, com pouca margem de dúvida, estão na fronteira do conhecimento no campo da Ciência da Computação. E mais que isto, representam a indústria de entretenimento que mais cresce na atualidade, com seu grau de penetração, que parecia limitado às gerações atuais, acentuando-se dia a dia entre pessoas com mais de quarenta anos de idade. Em termos técnicos, espanta o nível de realismo que alcançaram. Um exemplo é o jogo de tênis do Wii, pertencente à Nintendo, no qual o jogador deve executar a movimentação real de uma partida de tênis, havendo casos de indivíduos que desenvolveram problemas ortopédicos em razão dos movimentos realizados.
A interação é qualidade imanente de qualquer jogo, pois apenas por meio dela ele faz sentido. Mas, nos atuais videogames, a interação se apresenta potencializada quando indivíduos de todas as partes 'encontram-se' para jogarem determinado game. Ou seja, o videogame parece favorecer a sociabilidade dos indivíduos, ainda que ironicamente seja ela mediada por uma máquina e ocorra num mundo que só existe por meio de uma tela de computador. E a partir daqui, coloco uma série de questões que me parecem cruciais: o quanto o virtual do videogame se torna real e o substitui, dito de outra forma, o quanto as relações virtuais no processo de socialização presentes nos modernos videogame se tornam fontes de comprometimentos emocionais tão ou mais importantes do que as reais? Em termos psicossociais, o quanto isto muda os padrões de sociabilidade? E qual o papel e a finalidade dos jogos, seriam eles apenas uma atividade lúdica ou são eles um instante revelador de uma fase vivida pela sociedade (e aqui não importa se são ou não eletrônicos)? A partir daí, o que há de moderno neles, no sentido de algo que rompe com o passado e que se opõe aos gostos tradicionais, causando estranheza e polêmica? E o que há realmente de novo nos jogos virtuais em relação aos jogos dito tradicionais? Sobre esta questão, penso que nos jogos tradicionais, nós podíamos inventar as brincadeiras ou modificar as existentes, ou seja, a criatividade era elemento potencialmente sempre presente. Nos jogos eletrônicos, parece que estamos limitados a decifrar os segredos postos pelo programador. A criatividade parece colocada de lado, pois não há saídas alternativas, e tudo parece ser uma questão de habilidade, de aprender a jogar (e, uma vez aprendido a jogar, perde-se o interesse no jogo; o que configura o alto grau de obsolescência na indústria do videogame). Quando muito, os jogos eletrônicos nos submetem a 'testes de inteligência', medindo nosso raciocínio, nossa capacidade de dar respostas rápidas, num exercício em que "a elaboração do pensamento, a meditação, a ponderação, dão lugar, mais comumente, à indução", ou seja, à inferência conjectural que se alimenta da regularidade e que permite tirar conclusões a partir das experiências anteriores.
Para uma criança, o videogame tem certamente um caráter lúdico. Mas, para um adulto este caráter parece ser transcendido, ganhando contornos de alheamento. Para o indivíduo adulto, o videogame é, muitas vezes, uma fuga da realidade frustrante; ainda que, como na vida real, possamos ganhar ou perder no game, neste, diferentemente daquela, o recomeço é sempre possível. Sempre há uma segunda chance. E é interessante perceber que na sociedade moderna (ou pós-moderna, como alguns preferem), marcada pela frustração, pela despersonalização, o videogame ganhe mais e mais espaço, já que por meio dele podemos assumir uma outra personagem, um avatar (palavra de origem hindu, que significa reencarnação), uma personificação nossa; porém, muito mais exitosa, mas infelizmente virtual.
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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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