Uma mini-rosa

quinta-feira, dezembro 20, 2007 ·

ela necessitava daquela flôr

Prometo. É esse o parágrafo só que será sem assunto. Só preciso esticá-lo um pouco. É o tempo que ganho para encontrar a pauta. Se ao final dele não lograr sucesso, não sei o que será.
Uma história. Não me sinto preparado. De qualquer modo, arrisco-me. Escrever é experimentar. E se a alma gosta, logo vem um banquete de palavras. E este parágrafo já está com recheio adequado. Necessito outro.
Dois rapazes. A carência os leva àquele American Bar. Encontrá-lo não foi tarefa tão fácil. Não fossem explicações masculinas teriam regressado com algum pico de frustração.
À primeira entrada o lugar desagradou ao mais observador da dupla. Temeu adentrar pela porta dianteira. Subitamente, desejou ir embora. Estavam ali não mais que cinco minutos.
Música, bebida, maldade. Ali não era um bom ambiente. Nenhum requinte. Ausência completa de glamour. O sexo como mercadoria. Meninas pobres oprimidas pelo desemprego. Fato este que aborreceu aquele já um tanto embebecido pelo álcool.
A bela morena, destaque entre as moças. Rejeitou a bulição leviana. Andou pela casa. Não demorou, ela e sua colega de escola e profissão conversavam com os rapazes em questão.
Perguntas não recordadas. Elogios para a morena. De súbito, uma mini-rosa. Surpreendimento. A aceitação de ambas o chocolate oferecido. Duas meninas-mulheres sendo devidamente tratadas. A dupla carente fora tomada por compaixão. Mas negar que um deles arriscou tentativa de prazer é faltar com a verdade. Seu intento não obteve sucesso. Os medos da novata a impediram.
Belas pernas de fora, aproxima-se a terceira delas. Entrevistadas, relatam a necessidade do negócio. Cidade litorânea oferece poucas oportunidades. As três revelaram freqüentar escola. Nível médio. Último ano.
Carinho. Ela recebia afagos. E eram eles verdadeiros. Assustada com o ambiente, apenas experienciava. Seu olhar era absolutamente assustado...
Homens ali fingindo algum poder. Somente naquele lugar conseguem despistar a dor da rejeição. Sorriem com pseudo segurança. Aproximam-se das figuras femininas sem correr riscos. O dinheiro suado vai comprar o sexo delas. De certo, deixará ainda mais fracos os tipos masculinos. O fato é que não terão a intimidade daquelas. Jamais irão tocar suas almas, obra magnífica a se fazer em uma mulher. Talvez finjam não saber o repúdio delas por eles.
Observador, ele lhe pergunta qual homem ali a agrada. Nenhum deles, senão você. Foi o que a bela disse com outras palavras. O ego do rapaz inflou-se, pois ela falara isto como mulher. Ainda não era uma prostituta. Não passara do reconhecimento de campo. E não iria além disso naquela noite.
A dupla melancólica saiu de lá com certa indignação. No carona, o embriagado lamuriou-se. Conflitos seus gritavam. O observador mantinha-se tranqüilo. Quisera apenas tirar a moça dali. Mas compreendia que tudo aquilo não era nada mais que uma dura realidade social. Dali, saiu com a idéia de que o governo federal necessita um plano de amparo às mulheres em situação de risco social. Todas elas, as quatro meninas, sentiam medo. Mas precisavam levar dinheiro para a casa, hostilizadas que eram pela família. A luta pela sobrevivência as corrompia.
Passaram-se alguns meses. Surge o texto que fora esquecido em canto nenhum. Estará aquela bela e frágil morena deitando-se com homens pouco escrupulosos? Um desejo de voltar lá o invade. Se vai fazê-lo ou não, dependerá muito do espírito jornalístico que o domina. De certo, seria muito interessante tal empreitada. E claro, não se pode negar, sua alma sente algum arrepio ao pensar naquele rosto assustado. Ela mereceu a mini-rosa, precisou dela...



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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