Congestionamento de sentimentos

sexta-feira, novembro 30, 2007 · 0 comentários

Início de Novembro Essa mão insistente. A caneta paciente. Alma turva. Olhar sem vontade. Uma carência corrosiva. As pautas a serem preenchidas. Essa é a parte da pintura do quadro. Olha para o lado, cadê tinta com cor?
O túnel segue iluminado. Por ele vai o trem. A pouca alegria restante percorre vias escuras. Há um congestionamento. Outras substâncias dificultam a vida da serotonina.
Quem sabe cada palavra aqui é um membro da tropa que trabalha por alívio. Uma ferramenta para descongestionar sentimentos. Estes são criados pelas substâncias. Nisso se dão os casos de ausência.
Nesse texto obscuro se encontra a escuridão de quem não se enxerga no breu. Mas é possível identificá-lo. Alguns poucos conseguirão.
O desejo por olhos cerrados. O congestionamento cinza. Abatimento percebível. Poucas vontades. Vai o trem no túnel. Escuro. Faróis acessos que iluminam o caminho. Vai o trem diferente. Sem congestionamentos. No escuro, sim. Mas com luz para iluminar. O trem vai bem diferente...



A volta do rapaz da palavra

quarta-feira, novembro 28, 2007 · 1 comentários

26Non2007 Parou em frente ao balcão. Cumprimentou-me. Fitei-o com olhos serenos. Lembra de mim? Meu silêncio o fez explicar-se. Sou o cara da palavra. Sorri este momento cinematográfico. Achei tudo muito fantástico.
Naquele exato momento tive a certeza de ele trazia a lembrança da palavra. Bate o indicador na madeira e informa, sem se lamentar, que ainda não lembrou-se dela. Sorri mais uma vez. Era a segunda oportunidade para eu saber afinal de contas que palavra é a que ele procura.
A minha ansiedade. A terceira parte desta história, e também o esclarecimento ao leitor estão nas mãos do cara da palavra. Seremos saciados apenas se ele resolver voltar. Quem sabe com a palavra, ou apenas para me fazer escrever outra crônica...



Reflexões a respeito do perdão

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Adalton Oliveira

Constantemente, vemos nos meios de comunicação relatos acerca de crimes hediondos que nos chocam e nos fazem pensar sobre a natureza humana, capaz tanto de atos magnânimos como de ações da mais profunda vileza.
O perdão está entre as atitudes do primeiro tipo, o que nos leva a algumas indagações: merece ser perdoado quem pratica crimes bárbaros? E a quem cabe perdoar, o ofendido ou a sociedade? Perdoar significa esquecer? Seria o perdão incondicional?
Perdoar é uma prerrogativa daquele que sofreu a injúria, somente ele tem esse direito. Eu não posso perdoar o que o fulano fez ao beltrano, pois foi este o ofendido, não eu. Assim, muitos dos crimes que temos notícias não podem jamais ser perdoados, pois o ofendido já não tem mais condições de fazê-lo. Mas, a sociedade – em especial, a nossa – não age de acordo com esse preceito, já que aqui a impunidade é a regra vigente.
O filósofo francês, Jacques Derrida, tem interessantes insights sobre o assunto. Para ele, o perdão é condição imprescindível para a reconciliação, para a continuidade da vida. O perdão deve parecer impossível e, neste sentido, ele só pode ser concedido ao que é imperdoável (o restante, nós desculpamos). Afirma Derrida que perdoar não significa esquecer: o perdão não é o apagamento da culpa; é preciso manter sempre a ferida aberta, é preciso que o ato perdoado continue sendo sempre imperdoável e, portanto, o perdão é ato incondicional, pois não existem condições para a sua presença. Ainda que isso pareça mais um jogo de palavras, conduzindo-nos a aporias, a becos sem saída, Derrida parece querer mostrar a extrema dificuldade presente no ato de perdoar e o perigo que há entre associar perdão à impunidade, ao esquecimento. Como dizia ele, "os homens não têm o direito de subtrair o - ou de se subtrair ao - julgamento, qualquer que seja o tempo decorrido após cometer a falta".
No Cristianismo, Deus é a última instância do perdão. Perdoar é antes de tudo um ato divino, algo infinitamente distante dos homens. No entanto, o perdão divino não significa esquecimento, pois, no momento do Juízo Final, todos serão julgados e punidos por seus pecados. Voltamos assim ao ponto tratado por Derrida: perdoar não é sinônimo de impunidade. E de fato, aos homens cabe a liberdade de agir, ou seja, somos livres para escolher praticar essa ou aquela ação e, portanto, somos responsáveis pelas conseqüências dela. E é bom lembrar que só cabe perdoar a quem agiu livremente, a quem fez o mal de propósito.
Mas, o que significa afinal perdoar? Perdoar é deixar de odiar e entender o ato do outro enquanto ação humana - com todas as imperfeições que esse qualitativo traz consigo e com todas as condicionalidades (as razões) presentes na injúria; perdoar é o triunfo da misericórdia sobre o ressentimento. Mas, não é esquecer, pois o passado é irrevogável. E não significa impunidade. Punir não é um ato de ódio, é sim, antes de tudo, um ato de justiça.
Por fim, se não quer precisar ser perdoado, siga o imperativo kantiano: não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você.

opiniões opiniones

Muito interessante a reflexão. Ontem, atendendo aos pais de uma de minhas clientes, perguntei-lhes se concordavam em terminar o tratamento psicoterápico de sua filha, uma vez que eu já não via mais razão que fundamentasse a queixa inicial.O pai, homem simples e de poucas palavras, expressou com seu corpo uma discordância. Percebendo sua resposta não verbal, eu disse que havia percebido que ele parecia preocupado com a alta da filha. Cabisbaixo, ele perguntou-me se o fato de não ter dinheiro poderia ter levado sua filha a ter "problemas". Eu lhe respondi que, até certo ponto, sim. Mas, o que supria esta falta era a riqueza do carinho que ele expressava por ela. O pai começou a chorar silenciosamente e disse que se sentia culpado por não poder dar a filha o que ela queria quando criança. Esta história trouxe à tona a questão do perdão em nossa conversa informal. Acolhendo sua dor de pai eu lhe disse que a culpa só poderia ser sanada com o perdão. Ele precisava se redimir do que sentia por si mesmo. Isto só seria possível considerando tudo o que havia dado à filha enquanto pai e amigo. Incentivei-o a pensar sobre as expressões físicas de carinho que ele dava a ela. Percebi o peso da culpa e a necessidade que ele tinha de sentir-se perdoado por uma falta que, no fundo, não era sua. Mas, como convencê-lo disto? Talvez o primeiro passo fosse acolher a sua dor como parte de sua história. Abracei-o ao despedir-me. Bela reflexão.

Sandro Oliveira - Psicólogo



Divagações de um sujeito

terça-feira, novembro 20, 2007 · 0 comentários

14NOV2007 O sujeito entra no lotação e não é desejo seu olhar e ser olhado. Senta-se aliviado das dificuldades impostas pelo corredor estreito. Mira seus olhos lá fora, mas seu olhar está dentro de si. E o que vê é um aborrecimento que lhe tornam tensos os músculos. Conclui que é melhor deixar fluir as emoções. Parece que assim ele fecha acordo com a alma.
Lembra-se de pessoas. Um desagrado lhe invade. Deseja destilar veneno em um texto. Está praticamente certo da intenção. Mas quando toma caneta, papel e atenção, vê-se enveredar por outros caminhos que no momento lhe parecem mais satisfatórios.
À sua letargia somam-se desânimo e sono. Não demora muito, seus olhos se fecham. E o momento em que dorme é, por assim dizer, quase que vital. É, na verdade, um modo de ausentar-se.
Se a vida também é feita de pausas, escrever não lhe parece diferente. Só depois é que tomará novamente equipamentos e ingredientes para escrever.
Lembrou-se do irmão que se casou recentemente. Das emoções que sua alma lhe ofertou. De toda a tensão causadora de um sono profundo quando se refugiou em quarto seu.
Também visitou o campo da memória o suposto flerte que teve com ela. A graciosidade dela e sua risada gostosa. Um certo desprendimento e serenidade que o encantaram. Recordou-se de mais pessoas. Muitas das quais se esqueceu, totalmente, no ato da escrita.
E o seu dia ainda não se foi. Ele se dá neste momento. Felizmente, diversos desconhecidos passam por ele. Há alguns dias descobrira a importância deles. Ignorou discursos de ódio aos “estranhos”. Não é o caso de gostar de todos. Nem se trata de uma busca por admiração e aplausos. Ocorre que a má vontade com os desconhecidos praticamente se foi. Com ela, parte do medo do outro se extinguiu...



Onze vezes ao dia

domingo, novembro 18, 2007 · 1 comentários

como sofrem os homens comuns

Ao final do dia a avó dela já tomou a décima primeira dose de sua medicação diária. A neta brinca ao balcão da lanchonete, fazendo uso de uma analogia. “Ele é igual ao remédio da minha avó, de tanto que me telefona”. O rápido papo se deu em meio a mais um café forte, desta vez sem pão de queijo. O diálogo foi o tempo de uma xícara. Desejei subtrair-lhe mais informações. Contudo, café demais não é lá muito agradável.
A morena, com seu bom humor e certa dose de sensualidade, respondeu à minha pergunta a respeito de seu final de semana. “Sim, beijei”. Mas não lhe foi bom, pois o rapaz era “pegajoso” demais. Reclamou do exagero de beijos. Da necessidade dele de falar tão juntinho.
Algo que as mulheres costumeiramente reclamam é a falta de atenção do parceiro. A moça em questão reclamou exatamente do exagero disto. Certa vez, uma mulher revelou-me que elas precisam sentir uma certa insegurança. Certeza demais deixa a mulher sem vontade. Ela necessita de algo que a faça esforçar-se para manter seu homem. Daí que muitas se entregam de um modo ímpar.
Por outro lado, a mulher quando confia no homem com quem está, ao que parece, entrega-se fartamente. Foi assim com ela. Apenas abriu todas as porteiras quando percebeu a certeza dos meus sentimentos.
Isto posto, mostra o mistério feminino. Num filme, lembro-me que o galã disse que temos que ser um homem para cada mulher. Não deixo aqui concordância ou não. Que não é possível agradar sempre, é fato. E que sempre erramos, é mais fato ainda. Enfim, para nós homens comuns a vida sexual não é lá tão fácil. Não nos bastassem ausências de diversos atributos que atraem as mulheres, ainda somos incorrigivelmente equivocados em alguns flertes, senão em quase todos.



A palavra esquecida

quinta-feira, novembro 15, 2007 · 0 comentários

O rapaz parou aqui. Pediu por dicionário. Presunçosamente, perguntei-lhe qual a palavra. Tentou recordar-se. Fez esforço inútil. Indagou por livrarias abertas. Shopping é opção que o desgosta. Permaneceu ali. Sua verificação na memória não lhe trouxe resultados. A mulher, com ausência de delicadeza, tentou obrigá-lo a dirigir-se a uma das bibliotecas nas estações do Metrô. Ele questionou o funcionamento delas no dia de hoje. Avisou-a de que estamos no feriado de 15 de novembro. Grosseiramente, ela deixou claro saber disto por ser professora.
A professora indelicada. O rapaz esquecido. Eu e a palavra não lembrada. Esses quatro elementos compunham a história. E a única que não atuava era a palavra. Apenas por ter sido esquecida. Mas ela, recordada ou não, permanece intacta. Enquanto os outros três que eram apenas figurantes, de modo algum permaneceriam os mesmos. Lembrados ou não...



O branco como espelho

segunda-feira, novembro 12, 2007 · 0 comentários

Olhar para o espaço branco. Tentar ver nele o reflexo dos meus sentimentos. A construção da imagem do que estou é dada por palavras. O ato é carregado de frustração, incertezas, e um desejo forte pelo abandono da empreitada. Mas isto é natural. É a certeza de que não conseguirei fazer a pintura exata de como estou neste momento.
Ah, como eu queria ser apenas observador de mim! Sair desse meu eu. Observar meus equívocos, tensões, desesperos e gritos da alma apenas para escrever a respeito. Mas esse “pote de sentimentos está até aqui de mágoas”. E essas mágoas pulam em momentos diversos...
Sei que eu estava ali. Peço licença ao leitor para ser obscuro. Não é desejo meu escancarar fatos. Quero mesmo é destilar sentimentos. E eles, que fazer, são de uma melancolia que não chega a doer, mas incomoda pela existência. Em estados assim, parece-me que uma pane nos sentidos seria a única solução. Mas estas quase sempre são definitivas. Fiquemos com o sofrimento...
Lá. As lágrimas pediram passagem. Os músculos da face não sei se trabalhavam pela permissão ou não. Mas o líquido salgado ficou guardado. Quem sabe, uma explosão de lágrimas me faria melhor.
Tudo muito belo. Romantismo. Flertes com outras épocas. A carruagem trazendo a bela dama. Momento este que deixou convidados boquiabertos. Uma surpresa para todos.
Eu ali. A tensão comigo já fazia tempo. Ela minava minhas palavras e boa vontade de forma avassaladora. Mas isso é um conhecer-se. Esses momentos em que certas realidades se mostram sem dó fazem deste que escreve alguém mais fraco...
Mas sorri, sim. Conversei. Fui pró-ativo. Mas aquela sensação de observação. De crítica. Um incômodo pelos possíveis comentários delas. Duas. E também vê-las como quem se considera um Tribunal da Inquisição. Quantos elas mandariam para a fogueira! De certo, eu seria um deles.
Mas sabe, eu até abracei a compreensão. Pensei que realmente é difícil ser gente. Assim como somos. Nessa realidade que construímos. Parece que há um aborrecimento coletivo. Um desamor por si. E então tantas caras viradas, tanto medo por um simples cumprimento.
Isso são amarras. O indivíduo vive num cerco feito pela sua mente adoecida. E esta delimita seus atos. A gente até tem prazer em condenar. Mas é um jeito de acreditar certo alívio. Ilusão que a mente cria. Uma forma de nos manter presos. Daí, o indivíduo embarca num mar de crítica aos alheios. Abraça este comportamento. Não sabe que é ele o grande condenado.
Lá. O passado apresentado. A sensação da fugacidade da vida. O tempo que sempre já se foi. E o medo pela possibilidade inequívoca do não aproveitamento da vida. No fim, pensando bem, é bom. Isto, quando visto por outra perspectiva. A mesma que me fazia infeliz ali em meio à Serra. A brevidade da vida, em momentos assim, é como um bálsamo. Triste, o indivíduo abraça a certeza de logo passará. Logo descansará...



Onda fatal

domingo, novembro 04, 2007 · 0 comentários

a fatalidade não escolhe personagens

Ele bebeu cerveja, riu, afiou os laços. Pouco falou. Estávamos à mesa de bar. Homens e mulheres. Todos jovens. Sul de Minas Gerais. Beira da estrada, que agora está concedida à iniciativa privada, o que é bom.
Não me recordo ao certo, um ou dois dias eu regressaria a São Paulo. O rapaz taciturno planejara sua volta para aquele mesmo dia, não sem antes rever sua namoradinha, o que faria seu amigo esperar em casa de mineiros. Pela mesma casa passei também. Lá, o amigo constrangeu-se com a insistência tipicamente mineira para que jantasse. Até hoje não entendi por que os mineiros insistem tanto para que comamos. E se já nos servimos, fazem questão que repitamos o prato.
Retornei para o sítio em que me instalara. Não vi mais aquele que mencionei no início. Foi bom estar à mesa com aquela turma. Se no início eu pouco falara, vi a completa mudança após livrar-me de amarras interiores. A dupla de amigos também mudou. Tratou-se de uma metamorfose coletiva das percepções.
Passaram-se os dias. Mantive contato com a parenta que me recebera em seu confortável sítio. Os rapazes, não os vi mais. Quase que diariamente falei com a minha anfitriã. A tecnologia tornou possível a troca diária de palavras. Numa dessas conversas, a trágica notícia. O rapaz de poucas palavras e sorriso sincero. Estava na praia. Parado, não sei se olhando o mar, as meninas, o nada. Uma onda gigante veio e o pegou. Fez de seu corpo mero boneco. Jogou-o sobre uma pedra. Bateu-lhe a cabeça fortemente. Morte instantânea. Na trama, o que ele via, a onda e a pedra. Esta última fez o trabalho final com sua dureza. Surpreendi-me com a notícia de sua morte. Nessas horas a gente pensa que podia ser qualquer um de nós. A vida tem disso. As fatalidades sempre vão ocorrer. Com qualquer um. Não há escolhas.

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Adelcir, essa história é real???? Me comoveu!
bjinhos
Má (Maria Olímpia, leitora convidada
)


Resposta do autor
Sim, Má! Essa história é real. Também me comoveu. O cara era muito boa praça...Bjs



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
Adelcir Oliveira


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