Uma sociedade de voyeurs

terça-feira, outubro 16, 2007 ·

Adalton Oliveira

A internet, a despeito de todas as vantagens que trouxe, parece tornar realidade a fantasia orwelliana do Grande Irmão, imaginado por George Orwell em seu livro 1984. Aquele que a todos vigia, o panapticon, o monstro de mil olhos, habita o mundo virtual, espionando a todos, sem exceção. Na rede virtual, não existe privacidade e a informação pessoal torna-se mercadoria valiosa. Fornecemos nossos dados sem saber que destino será dado a eles. Fazemos compras em determinado site para em seguida termos nossa caixa postal atolada de e-mails inúteis, vendendo todo o tipo de serviço e bugiganga. Como sugeriu recentemente a economista norte-americana, Esther Dyson, "[na internet] a informação, os serviços, os conteúdos não são diretamente pagos em dinheiro, mas em tempo, em atenção, em dados pessoais e no consumo de outros produtos". Nada a espantar, pois em um mundo em que tudo foi transformado em mercadoria, não poderia ser diferente com a privacidade de cada um.
No Google, programas vasculham os e-mails trocados em busca de informações que denunciem as preferências dos seus autores. Na rede de relacionamentos Orkut, pessoas se 'desnudam', dizem abertamente o que gostam e o que desprezam. "Eu sou desse ou daquele jeito" e assim está decretada a morte do mistério, a do prazer da descoberta. Aliás, a descoberta mais provável nesse mundo é a do embuste, quando digo que sou o que não sou.
Segundo Martin Heidegger, por trás de toda técnica, há causas, usos e conseqüências encobertos, que, embora interpelem a ação humana, independem da vontade do homem. Para ele, é preciso ir à essência da técnica e ver aquilo que está encoberto (o que Heidegger chama de desvelamento). Pensada no âmbito da técnica, a rede pode ser mesmo tudo o que o homem quiser dela, pode ser a "conjugação eficaz das inteligências e das imaginações humanas", um instrumento a favor da coletividade e, por que não, o remédio que faltava para os males da humanidade. Ocorre, porém, que as coisas não são tão simples. A técnica, e especialmente a técnica moderna, "não se reduz a um mero fazer do homem". Logo, não surpreende que, mais do que para o ideal que possa ter sido pensada, a internet funcione mais intensamente como instrumento a serviço dos negócios e da especulação do capital e que espionar seja parte fundamental desse novo negócio (mais detalhes em COMASSETTO, L.R. "Internet, a ilusão democrática").
Mas, a espionagem não é um fenômeno restrito à rede mundial de computadores. Ela tornou-se um fenômeno onipresente. Andamos pela ruas espionados por câmeras, postas ali para nos garantir algum grau de segurança (em uma sociedade cada vez mais violenta, não é de admirar que as pessoas prefiram abrir mão de sua privacidade em prol de segurança - ou apenas da sensação dela). Entramos em um estabelecimento comercial e lá estão as câmeras a nos vigiar. São poucos os lugares em que não se lê o tal: "sorria, você está sendo filmado". Assisti recentemente a uma reportagem que mostrava que vem tornando-se prática comum entre as empresas lotar os locais de trabalho de câmeras, espionando seus trabalhadores, mirando o que fazem e o que dizem (e no futuro, quem sabe, o que pensam). Dessa maneira, com a louvável desculpa de busca de aumento de produtividade, cerceia-se a liberdade individual.
Vivemos num mundo habitado por voyeurs, ávidos por nossos segredos, por descobrir nossas taras e manias. Tanto é assim que um dos programas de maior sucesso hoje na televisão é sugestivamente chamado de Big Brother, a banalidade do cotidiano transformada em espetáculo. Olhar pelo buraco da fechadura tornou-se mania nacional.
Dizia Jacques Derrida, o filósofo da desconstrução, o direito ao segredo é também uma condição da democracia. Então, o que dizer de um país onde repórteres fotografam os e-mails trocados por juízes da mais alta corte e comentaristas dizem que não deve haver sigilo quando se trata de agentes públicos? Não estaríamos perigosamente flertando com o fascismo, onde todos controlam todos, onde o interesse da sociedade está infinitamente acima dos indivíduos?
Empresas bisbilhotam seus funcionários, pais vigiam seus filhos, a polícia observa por meio de câmeras os transeuntes. Estamos todos submetidos à constante vigilância. Então, sorria, pois você está sendo espionado.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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