Ilustração de insatifações

quarta-feira, outubro 31, 2007 ·

o que resta são mercadorias

Hoje quero um texto diferente. Já deixo isso bem claro logo no início. Nada de artimanhas para fugir de obstáculos. Vou de frente. E se eu der com a cara na porta, tudo bem. Nem sempre somos bem vindos. E quase nunca a oportunidade surge à nossa frente.
Eu queria encontrar palavras a fim de gerar identificações. Há um modo de fazer isto. Basta retratar a realidade de alguém. Ok! Peguemos quatro delas. Dessas, ficar apenas com uma. Ou optar, no deslizar da caneta, por nenhuma. Dar o texto por encerrado. Admitindo a desistência.
Vamos pensar nas mulheres. Consideremos as diferenças sociais. Peguemos a realidade de uma delas emprestada. Aos seus 19 anos só deitara-se com um homem e dele se aborrecera. Essa menina vestiu saia e salto alto. Precisava findar com as hostilidades dos irmãos, levando dinheiro para casa. Foi o único jeito que conseguiu...
Imaginemos “uma noite sobre a Terra”. Para quem já assistiu ao filme de mesmo nome, fica mais fácil. Então, outra mulher. O casamento como uma prisão que a anestesia. O marido que a vê somente como mãe dos filhos. Ousadias entre quatro paredes, nem pensar! Aliás, sexo com a esposa já não existe. Preferível pagar por fora. Só assim sente prazer. Ignora o vulcão dentro de sua esposa.
A mesma noite. O país é grande. A terceira mulher sem saber de fato o que quer. Paixão pelo marido não mais. Sexo com ele, de modo algum. E não é que lhe falte libido. Ela quer sexo é com outro(s). E até o fez recentemente. Não foi como esperava. Mas uma sensação de poder lhe dominou. Se durou muito ou pouco, não é sabido. O fato é que essa mulher de classe média, assim como a anterior, vive dias enfadonhos. Um vazio é quase o seu todo...
Agora, a busca pelo quarto elemento. Já o tenho. E ele é opção para que não tenhamos a sensação de que as personagens aqui são vistas como vítimas. Exceto a primeira que segue em vulnerabilidade social. Que procurou emprego, mas no litoral a coisa é mais difícil. E se hoje ela toma um simples banho é porque a amiga lhe oferece chuveiro e sabão. Aliás, ambas tentam ser colegas de “trabalho”.
A quarta mulher. É infeliz. Absolutamente vazia. O marido é ainda mais vazio. Seus dias são assim: um nada. O ciso é falso. O brilho no olhar não perdura. A insatisfação com seu corpo. A não aceitação de sua pouca erudição. Alguns pulos fora do matrimônio. A confissão. O grito masculino. A dor pintada de outra cor. E os dias de um cinza desagradável... Insuportável... Tal qual a presença do casal. Ambos patológicos.
O que temos aqui são realidades postas. Não se tratam de casos isolados. É o formato que definiram para as pessoas. Parece que fizeram lá umas conferências. Tramaram como deixar as pessoas o mais insatisfeitas possível. Daí, lhe oferecem uma pseudo-saída. Na verdade, um paliativo que é alimentado pela insatisfação que se vai e volta. E ela deve voltar sempre. Esse é o preceito principal. E assim, só assim, o indivíduo consome. Daí, seu deus maior: a mercadoria.



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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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