Recordações mineiras

domingo, agosto 05, 2007 ·

férias que terminam

Essa técnica de escrever com as lembranças, os sentimentos, complica o primeiro parágrafo. Você trama algo. Escolhe uma recordação. Quando vê, uma salada de opções lhe são ofertadas. Daí, o melhor a fazer é não optar. Uma boa saída é relatar esta dinâmica.
Lá em Minas Gerais. Interior. As ameaças estão no que está oculto ou nas estradas que ligam pequenas cidades e povoados. Fora disso, tranqüilidade absoluta.
Amanhã ele iria embora. Um interesse o levava àquela casa. As pernas eram movidas à carência que dominava. Próxima ao portão, a mocinha de pele alva, cabelos pretos e sorriso verdadeiro. Não se assustou com a aproximação do forasteiro. Trocam gentis cumprimentos. Lá na sala, a senhora mal o ouvia. E quem ele quis encontrar, outra vez se fez ausente.
Na cozinha, um bate-papo com a moça de sorriso verdadeiro. Educação como pauta principal. O prazer em ver um ser humano tranqüilo e aparentemente feliz. Pão e café como primeiros alimentos do dia. A despedida cortês. O caminhar com o frio como companhia. A demora do ônibus. Bermuda e camiseta como roupas inadequadas.
Depois do que já foi relatado, praticamente nada é lembrado de como foi o dia. Mas isto pouco importa, não é este blog um diário. Assim, será feito aqui um apanhado de impressões em meio rural e urbano. Quem sabe, a colheita de palavras seja boa.
Cumprimentos. No interior as pessoas se cumprimentam gentilmente, civilizadamente. Muitos foram gentis com o rapaz jamais visto antes. Gostoso era ver sua parenta tão popular e querida pela população local.
Piranguinhos. Terra do pé-de-moleque. Ali, o melhor doce do gênero. Receita que é segredo dominado por algumas famílias. O nome das barracas é dado pela cor de cada uma. Muda também a cor do atendimento. Numa barraca de cor clara, o cinza no modo de tratar o cliente. Na outra de tom mais escuro, colorido na conversa.
Tranqüilidade? O rapaz é informado que está numa das rotas do tráfico. Se todos sabem disto, por que a rota ainda existe? Só assim foi possível entender a preocupação daquele pai com os filhos crescendo. Seu maior medo são as drogas.
Claro que o turista seguia observador. Seus olhos não buscavam apenas belezas femininas. Na verdade, ele queria aquilo que não gritava frente ao seu campo ocular. Nas entrelinhas das palavras é possível captar mais do que é dito.
Estar junto aos parentes é de fato muito agradável. Principalmente quando se é recebido com carinho e cordialidade verdadeiros. Daí a pessoa fica tão à vontade que se sente moradora da cidade. Tudo isto facilita o convívio fora da casa. Ilustração da importância da família no desenvolvimento social do indivíduo.
Política. Piranguinhos ensina um pouco de como ela é feita no Brasil. Evidentemente que a pequena cidade é uma ilustração desse país continental. Dá o tom de que a política é tratada como mercadoria que não se destina a todos. Que grupos são formados e guerras são estabelecidas mesmo após as eleições, tudo sob as asas da Lei. Em segundo plano os interesses da cidade. Objetivos políticos estão em primeiríssimo, senão único lugar. Resultado: todos perdem quando poucos ganham.
Esse modo de pensar a política precisa ser severamente mudado. É preciso que cada cidade, de modo coletivo e democrático, construa seus planos de metas de desenvolvimento. É um absurdo toda uma população ficar à mercê de grupos reduzidos, como se fossem eles detentores da verdade que seria boa para todos. Neste sentido, a democracia deve ser colocada em prática tal qual seu significado semântico: o povo no poder (não um grupo do povo).
O rapaz observa com algum otimismo. Sabe que há pessoas que querem trabalhar de um modo diferente. Lembra-se de figuras nacionais. É sabedor da existência de indivíduos com pensamento mais universal, portanto mais coletivo.
Ele sabe que as mudanças demoram. Que cabe a imprensa um papel neste processo. Para tanto, necessária honestidade intelectual. Não faz uma crítica à atuação gestão do município de Piranguinhos, posto que só obteve contato com a oposição. Tão pouco faz elogios ao grupo por ele ouvido. Deixa apenas uma crítica ao modo de se fazer política neste país. E diz mais, o que viu no interior não é diferente do que ocorre nas grandes cidades. Lembra-se, por exemplo, de grupos contrários em um diretório acadêmico de uma grande universidade em São Paulo. Tapetes que eram puxados com o argumento que se tratava de política. Balela total. Política é coisa séria e pressupõe cordialidade, diplomacia e, sobretudo, honestidade. Se distorceram, é possível corrigir.
Este texto necessita de mais um parágrafo para terminar. Há uma dificuldade em como fazê-lo. Se é feito o relato é porque se tenta encontrar a solução nas pontas dos dedos. Quem sabe relatar sobre as saudades que o rapaz trouxe de Minas seja uma saída. Das pessoas que conheceu lá. Amizades que fez, e até lágrimas de emoção que brotaram em pessoas de almas belas. Esse mundo é assim, tão cheio de sentimentos. O rapaz precisava se ausentar de metrópole que lhe parece fria. Lá, não se recorda de ter visto alguém dentro do carro torto pelo ego. Lembra-se mesmo é de pessoas caminhando tranquilamente. Do cumprimento gentil por parte daquele que nunca o havia visto. De alguma timidez de moças ditas de família. E, algo que é belíssimo, da liberdade de crianças felizes em meio rural. De fato, este é um tema para terminar. Pode-se afirmar com seguridade que as crianças do interior são mais felizes que as da capital. A sensação de liberdade lá é muito maior. Uma prova que o dito progresso nem sempre traz felicidade. Terminaram as férias do rapaz. A deste blog termina agora.

Clique no título para ler UMA NOITE NO CENTRO VELHO DE SÃO PAULO


opiniões opiniones

Interessante como viajei nesta crônica! Já vivi algo parecido em minhas curtas férias. Cheiro de terra molhada, degustar um pé-de-moleque quentinho, enfim, a grande diferença entre a simplicidade do meio rural e o corre-corre da grande metrópole. Beijos com carinho!

Hilda de Melo Andrade,48, designer de velas
Sete Lagoas - MG


Adelcir,ADOREI!!!!!A terceira pessoa trás um ar de mistério....na primeira fica tudo muito explícito,escancarado,sem sal.Dá mais prazer em ler...Adoro qdo vc inicia de modo tão inusitado e q consegue colocar tão bem no papel,o modo.O final tb é......inesperado,inteligente!!Sabes nos fazer ir a Piranguinhos
,passear pelas ruas,sentir as pessoas,entrar na casa e até....tomar um café c/ vc!!!Bjs
Alexandra Galvão, pediatra
Campo Grande - MS



2 comentários:

hilda de melo andrade disse...
agosto 06, 2007  

Interessante como viajei nesta crônica! Já vivi algo parecido em minhas curtas férias. Cheiro de terra molhada, degustar um pé-de-moleque quentinho, enfim, a grande diferença entre a simplicidade do meio rural e o corre-corre da grande metrópole. Beijos com carinho!

ale disse...
agosto 06, 2007  

Adelcir,ADOREI!!!!!
A terceira pessoa trás um ar de mistério....na primeira fica tudo muito explicíto,escancarado,sem sal.Dá mais prazer em ler...
Adoro qdo vc inicia de modo tão inusitado e q consegue colocar tão bem no papel,o modo.O final tb é......inesperado,inteligente!!
Sabes nos fazer ir a Piranguinhos,passear pelas ruas,sentir as pessoas,entrar na casa e até....tomar um café c/ vc!!!
Bjs

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Jornalista de formação. Cronista o tempo todo.

Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

Expediente - Conselho Editorial

Conselho
Adelcir Oliveira
Alan Davis



Revisão de textos
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