Lula entre boçais e descamisados

domingo, agosto 12, 2007 ·

Adalton Oliveira


Há muito que o Brasil é um país brutalmente desigual. Quando tomou consciência da imensidão de terras que havia descoberto e diante de seus poucos recursos, a Coroa Portuguesa decidiu dividir o país entre alguns poucos “afortunados”, criando para tanto as conhecidas capitanias hereditárias e estabelecendo a primeira parceira entre governo e iniciativa privada da nossa história. Eram muitas terras para poucos donos. E esta toada de profunda desigualdade se assentou durante o passar dos anos: o latifúndio movido pelo braço escravo foi característica marcante durante cerca de três séculos de nossa história.
Formou-se assim uma casta privilegiada de senhores de terra que, detentora do aparelho estatal, passou a governar (e a desgovernar) o país a seu bel-prazer. Aos pobres, a polícia. Direitos, só aos privilegiados; deveres, todos para a ralé.
Dos latifundiários, industriais incipientes e poucos financistas, o Brasil passou para o controle dos militares. O exercício do poder mudou de mãos, mas os detentores efetivos dele eram os mesmos de sempre. Em nome dos sempiternos privilegiados, os milicos governaram com mãos de ferro, usando como desculpa o argumento de que era preciso “garantir a soberania nacional”, afugentando a ameaça comunista. Interessante soberania esta que se curvava diante do poder norte-americano, como Golbery do Couto e Silva deixou transparecer em alguns de seus escritos.
Mas, quando os ventos da globalização que varriam o mundo aqui sopraram, trazendo as idéias de abertura radical ao mercado exterior, os financistas assumiram o controle do poder e trouxeram com eles as teses de governo enxuto, equilíbrio fiscal, câmbio flutuante e etc. como meios que garantissem baixa inflação a fim de assegurar o alto retorno do capital. Collor foi o primeiro arauto do novo poder; a ele, seguiu-se o fiel escudeiro FHC. Com este último, a inflação foi domada, o aparelho estatal desmontado e sindicatos de trabalhadores destruídos. Conseqüências: altos níveis de desemprego, brutal queda da participação dos salários na renda nacional, crise energética (a maior mostra de incompetência da história nacional, segundo Delfim Netto), violência urbana crescente e ausência de qualquer projeto nacional de desenvolvimento. O país estava à deriva e o Estado, endividado como nunca, posto de joelhos diante do capital financeiro.
Mas, ironicamente, o furacão FHC permitiu a ascensão de Lula ao poder. Com este, ao contrário do que se temia, os ricos continuaram (e continuam) ricos e os pobres permaneceram (e ainda são) pobres, mas não mais tão pobres como outrora. Contra números e fatos não há argumentos: os pobres melhoraram um pouco de condição, ainda que graças às benesses do Estado. E viraram o porto seguro de Lula contra o ódio e preconceito que destilam contra ele ricos e remediados. Aliás, ódio e preconceito se manifestaram claramente em pequena passeata realizada em um final de semana de agosto, na qual pessoas se dizendo cansadas gritavam ofensas ao Presidente: “Lula ladrão, Lula bêbado” e etc. Cansados de pensar e descontentes com a democracia, pois esta só serve quando lhes convêm, bradavam pela volta dos militares ao poder. “Acordem milicos”, berravam eles. Pensam pertencer à elite, mas, se definirmos elite como o grupo hegemônico detentor de um projeto tornado legítimo aos olhos dos demais, não são eles elite, pois este pobres cansados não têm projeto, não têm idéia nenhuma, nada além de preconceito e ódio. Na verdade, formam uma ralé endinheirada. Ou seja, não são muito diferentes da “ralé” que desprezam.
No ápice da boçalidade, uma senhora se dizia parte do chamado povão, pois tem o hábito de brincar o carnaval em meio aos negros cariocas. Isto me fez lembrar as histórias dos senhores de escravos que se divertiam com suas negras, o que em nada modificava a condição de senhor e escravo. Que Deus tenha piedade dessa gente cansada.

clique no título para ler: "Para o brasileiro, brasileiro é o outro"



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Histórico do blog

Opiniões&Crônicas surgiu em outubro de 2005. Uma sugestão de um grande amigo do autor, o fotógrafo Alan Davis. O nome não foi difícil escolher. A intenção era tecer textos que fossem mais opinativos. Mas ele acabou se caracterizando pelas crônicas.Uma vez ao ano o blog entre em férias. Exatos 30 dias em que alguns leitores navegam pelos arquivos.Antes de completar seu primeiro ano de vida, Opiniões&Crônicas passou por grave crise. Aventou-se a possibilidade de extingui-lo. Textos se escassearam. Como em quase todas as crises, serviu de fortalecimento, que voltou com força total. Agora, segue em sua melhor fase.Os textos em espanhol surgiram como uma forma de praticar o idioma. Algumas vezes o autor lança mão da língua hermana, sobretudo quando os textos são de caráter mais íntimo.Foi após o primeiro ano que o blog passou a ter o que sempre desejou: uma revisora. Profissional compente, formada em Letras, Lilian Guimarães abraçou a causa com a alma. Sua identificação foi imediata. E a sintonia entre revisora e autor é perfeita. Lilian agora é parte integrante do blog.Há leitores que possuem uma designação diferenciada. São os leitores-colaboradores. Atentos, dão dicas e apontam as falhas. Também tecem elogios e fazem torcida por novos textos. Eles são imprescindíveis para o seguir deste sincero blog.
O blog tem anseios. Objetivos. Segue ganhando leitores. Perdendo alguns. Possui uma comunidade no blog feita pelo noivo de uma amiga. E deseja caminhar sem procurar caminhos. Gosta de fazê-lo caminhando.

O mundo dos livros-Por Adalton César

Adalton César, economista, é um amante dos livros. Possuidor de uma biblioteca que não deixa de crescer, é orientador literário do autor deste blog. Opiniões&Crônicas o convidou para e a seção O mundo dos Livros. Aqui, comentários sobre Literatura, bem como indicações de livros. Este blog entende que ler é algo imprescindível. E que não dá para viver sem as palavras dos grandes autores.

Adalton indica

A Divina Comédia de Dante Alighieri (a primeira parte - O Inferno - é indispensável. O termo "divina" foi dado por Petrarca ao ler o livro).A odisséia de Homero (para alguns, o início da literatura)As aventuras do Sr. Pickwick de Charles Dickens (interessante e engraçadíssimo livro do maior retratista da Inglaterra dos anos da Revolução Industrial)consciência de Zeno de Italo Svevo (belíssima análise psicológica)Dom Quixote de Miguel de Cervantes (poético, engraçado, crítico; livro inigualável)Em busca do tempo perdido de Marcel Proust (considerado um livro difícil por alguns, mas uma das mais belas obras da literatura que conheço)Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa (não é sobre Minas ou sobre o sertão, é um livro sobre o mundo)O processo de Franz Kafka (sufocante, instigante, revoltante)Os irmãos Karamazov de Dostoiévski (soberbo)

"Em busca do tempo perdido"-Comentário de Adalton Cesar

Não é incomum que um sabor ou um aroma agradável nos levem de volta ao passado, aos dias de nossa infância ou adolescência, ou, no meu caso, a épocas não tão longínquas. Foi num desses momentos, diante de uma xícara fumegante de chá, saboreado com um biscoito qualquer, que Proust começou a relembrar os anos por ele vividos. Daí surgiu uma das mais belas obras de toda a literatura mundial, um livro simultaneamente poético e crítico. Uma obra-prima apaixonante. Para um contumaz saudosista como eu, a história contada por Proust tocou-me profundamente. Em essência, a vida do autor francês não difere muito de nossas pacatas vidas burguesas, com suas reuniões de família em datas específicas; as saídas de férias anuais em direção a locais aprazíveis e os encontros amorosos vividos nesses lugares; a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade; a perda de entes queridos e a eterna busca de sentido para uma existência percebida como vazia. São todos temas recorrentes no livro “Em busca do tempo perdido”. Mas, o que torna tão magnífico uma obra que trata de temas corriqueiros? Desconsiderando a simplificação exagerada da obra que fiz, é a forma como a narrativa proustiana se desenvolve, é a maneira poética que o autor lança mão para conduzir a história que dá a ela beleza inigualável. Mas, aos saudosistas (digo aqueles que capazes de ‘viver’ em todas as dimensões do tempo: cientes do presente, preocupados com o futuro, mas sempre com parte da atenção voltada para o passado, como um repositório de lições) a obra toca mais de perto, pois estes conseguem se pôr ao lado do autor e de, como ele, também recordar a velha tia ou a avó querida; de rememorar aquele amor de infância ou da adolescência de quem já nem lembramos mais as feições. Mas, não só de recordações é feita a obra. Nela, Proust aborda intrincadas questões filosóficas e existenciais (se é que toda questão filosófica não é si mesma uma questão existencial e vice-versa); discorre sobre o amor, sobre os costumes de sua época e acerca do progresso que vê chegar a passos largos, dissolvendo toda uma sociedade e criando outra; aborda o tempo e seu desenrolar e etc. Há quem aponte a lentidão do texto proustiano e a forma intrincada de sua escrita. Isso realmente é verdade, mas para ler Proust é preciso paciência, pois só ela nos permite perceber e apreciar toda a beleza contida nas suas muitas páginas.

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